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Africa transforma seleção de estágio em circo

Uma opinião sincera, nada mais, a respeito deste peculiar processo seletivo

7.nov.2012

A Africa aprontou em seu novo processo seletivo de estágio (de um mês) para estudantes. Tudo o que ela pede é que os candidatos mostrem seu “talento” (não, nada de peças fantasmas: vale dançar, cantar, sapatear, pagar um mico e garantir a risada de alguns publicitários) em 30 segundos para um júri que contará também com Anderson Silva, comediantes do Pânico na TV e até o saudoso Décio Piccinini.

Está lá no Facebook deles, bem como todos os comentários criticando a iniciativa. Este post é mais um.

Por que eu sinceramente aconselharia a você, jovem estudante que gostaria de estagiar na Africa, que ignore este processo bastante esdrúxulo?

Não acho que você precisa ser contratado só porque foi o moleque “gente-boa” que fez a Sabrina Sato rir.

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Não tenho tantos anos de vida, é verdade, mas já faz algum tempo desde o meu primeiro estágio. Como a maioria dos estudantes que resolvem cursar Publicidade e Propaganda, eu também queria uma vaguinha no departamento de Criação das mais inspiradoras agências do mercado.

Para isso, passei por diversos processos seletivos. Claro, ouvi mais “não” do que “sim”, realizei trabalhos pouco glamurosos (sites de empresas pequenas, principalmente), até que um dia uma agência me deu uma oportunidade. Em toda a trajetória, não houve um minuto de desrespeito a mim ou ao meu trabalho, por mais amador que a maioria dos trabalhos parecesse.

A partir de então, tudo foi rápido, por maior que seja o clichê. Um dia, eu já estava selecionando estagiários e, por mais engraçado que alguns currículos e portifólios fossem, não poderia desrespeitar um jovem que também doou parte de seu tempo se inscrevendo em uma vaga. Feedbacks foram dados quando possível e alguns foram contratados.

Eu também sei que um dia já tive uma pasta horrorosa e umas ideias ruins que eu pensava serem geniais. E não acho que virei o melhor publicitário do mundo. Mas respeito o meu valor, fui muito respeitado enquanto estive no mercado e respeitei também o valor de diversos profissionais.

Faço aqui um sincero apelo: respeitem-se e ignorem processos seletivos como este.

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O que quero dizer ao estudante hoje é: se você se esforçar, tiver boas histórias, bom repertório, boas idéias, ou mesmo bons projetos pessoais, sua hora de estagiar vai chegar. Pode não ser na agência dos seus sonhos, mas você vai aprender um pouco por onde passar, se tiver humildade e respeito suficientes, e vai deixar a sua marca, se souber valorizar o seu trabalho.

Se este Brainstorm9 é realmente bastante lido por estudantes de publicidade do Brasil, eu faço um sincero apelo: respeitem-se e ignorem processos seletivos como este. Não acho que você precisa ser contratado só porque foi o moleque “gente-boa” que fez a Sabrina Sato rir. Todos os dias, há vagas de estágio brotando neste mercado. Você pode começar a sua trajetória de uma maneira melhor.

UPDATE: Após a publicação, recebi diversos comentários de gente indignada ou de gente que concorda com a ação. A opinião das pessoas é algo delas, e não é isso o que podemos julgar. O que achei interessantíssimo foi este parecer jurídico de José Carlos de Carvalho Baboin, que é mestre em direito social pela Universidade Paris I – Panthéon-Sorbonne e mestrando em Direito do Trabalho pela USP. Nele, são apontados sérios riscos a este processo seletivo, passível de processos trabalhistas mesmo que o candidato não seja contratado.

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