header6 (1)

Cerveja Feminista: pelo fim dos estereótipos na publicidade

Conheça a primeira ação do grupo 65 | 10, que propõe repensar o papel das mulheres em agências e campanhas

24.fev.2015

Nem toda mulher está preocupada em mandar os filhos para a escola com a roupa mais branquinha, ser cantada por seus belos cabelos ou vive em função de preparar as refeições da família. Já tem algum tempo que muitas das atividades antes consideradas como exclusivas da mulher têm sido divididas com seus companheiros homens. E a recíproca também é verdadeira. Por mais chocante que possa parecer, a realidade é que tem muita mulher que bebe cerveja, joga vídeo-game e adora futebol.

O problema é que o mercado publicitário parece não estar acompanhando a (lenta) evolução da espécie humana no que se refere à igualdade de gêneros. Apesar de ser cada vez mais comum homens que desempenham com perfeição tarefas domésticas, raramente eles são retratados nos comerciais de produtos de limpeza ou alimentos que exigem no preparo uma habilidade maior do que apertar um botão.

O problema é que o mercado publicitário parece não estar acompanhando a (lenta) evolução da espécie humana no que se refere à igualdade de gêneros.

compartilhe

Fato é que, enquanto muitas mulheres sofrem os efeitos nocivos causados pela imagem arcaica que o mercado publicitário insiste em representar, os homens também acabam, por tabela, sendo retratados de forma negativa, como verdadeiros inúteis – tipo naquele comercial em que a mulher está dando o maior duro na faxina, enquanto o maridão está tranquilão no futebol com os amigos. Não sei como é na sua casa, mas na minha e na da maior parte das pessoas que conheço, não é assim.

Já produtos que têm como alvo principal o público masculino repetem o erro, tratando mulheres como objetos com a única função de agradar o homem. Ou, no caso recente da Skol, sugerindo que as pessoas esquecessem o “não” em casa durante o Carnaval, indo diretamente de encontro a campanhas que tentam reduzir o assédio às mulheres em locais públicos como essa, essa e essa.

A infeliz campanha da Skol foi o empurrão que faltava para que as publicitárias Thais Fabris, Larissa Vaz e Maria Guimarães idealizassem a Cerveja Feminista. O produto é a primeira ação de conscientização do 65 | 10 (traduzindo: 65% das mulheres que dizem não se identificar com a forma como são retratadas na publicidade e os menos de 10% de mulheres no departamento de criação das agências brasileiras), um núcleo dedicado a repensar o papel das mulheres na publicidade dentro das agências e nas campanhas.

lable (1)

Inicialmente produzida com o apoio dos arquitetos e cervejeiros Marilia Hamada e Otávio Dornelas, a Feminista é uma Red Ale com um “sabor refrescante, maltado, levemente lupulado e final limpo”. A ideia era manter a produção de forma caseira, mas em 2 dias o número de pedidos excedeu a capacidade do grupo, que agora está negociando com uma cervejaria artesanal para dar conta dos pedidos.

“Quando rolou a polêmica da Skol antes do Carnaval, vimos uma oportunidade para continuar a conversa, não deixar o assunto morrer só porque a marca voltou atrás“, explica Thais. Aliás, colocar o tema feminismo em pauta é o grande objetivo da cerveja, que atua como um iniciador de conversas em qualquer ambiente.

“Este é um dos pontos que queremos trabalhar: informar sobre o que é feminismo. Não é o contrário de machismo, não é sobre supremacia feminina. É sobre igualdade. Por isso a cerveja é para mulheres e homens”, declara. “Acho que quando a gente põe a cerveja na mesa e o assunto vira pauta, ajuda a desmistificar. Faz as pessoas falarem sobre e é uma oportunidade pra tirar dúvidas. Tira o feminismo do nicho, dos grupos de Facebook e blogs especializados. E, principalmente, traz a pauta pra dentro das agências”.

É aí que surge a pergunta: de quem é a responsabilidade de se reforçar os velhos estereótipos de gênero na publicidade, das agências, que produzem as campanhas, ou dos clientes, que as aprovam?

compartilhe

É aí que surge a pergunta: de quem é a responsabilidade de se reforçar os velhos estereótipos de gênero na publicidade, das agências, que produzem as campanhas, ou dos clientes, que as aprovam? “Todos temos nossa cota de responsabilidade. O mercado se acomoda em fórmulas e só reage quando há pressão da sociedade (como no caso da Skol). O que estamos propondo é uma tomada de consciência, uma revisão dessas fórmulas, uma atualização.”, defende Thais.

É impossível prever como a Feminista irá se sair no mercado cervejeiro, mas a marca já está dando um passo muito importante ao colocar o tema em discussão. Mas é apenas o começo das atividades do 65 | 10, que a gente torce para que consiga realmente quebrar os estereótipos nocivos à sociedade, uma cerveja por vez.

Comente

  • Ze Midja

    porra! do caralho!

    kd tem site? manifesto? fan page?

    me interessei muito!

  • Mariana Neri

    Uhm…

  • not thet kind

    adorei a iniciativa!

  • Marcos

    Proposta muito boa que barra no maior problema do movimento feminista: a estrondosa desunião das aderentes. Tô expondo um fato inquestionável e que independe de fatores machistas ou dos ditos esteriótipos sociais. Que no passado muitas morreram de forma bárbara para conquistar igualdade, isso é indiscutível. A maior dificuldade agora é conseguir reunir a maioria mais um de mulheres que de fato se incomodam e não aguentam mais certos estigmas oriundos de tempos extremamente conservadores. No entanto, das discussões que vejo, dos argumentos que leio, das manifestações exibidas nos diversos meios de comunicação, fica clara, quase palpável a falta de união, de um norte em comum. As envolvidas nessa questão da cerveja certamente são exceções. Só que se eu for jogar pra esse lado, acabo criando a exceção da exceção, que não levará a lugar algum. Muito pelo contrário: exporá à sociedade ainda mais a falta de foco do movimento latu sensu.

    • Gustavo Bitencourt

      Como assim fato inquestionável? É bem questionável sim e machista sim, por demais. Cadê dados?

    • Ze Midja

      é…dizer que algo é inquestionável nao torna algo inquestionável…

      o maior desafio (melhor do que dizer “problema”) é que as pessoas entendam que feminismo nao é supremacia feminina.

      uma vez que as pessoas (de ambos os generos) entendem isso, as coisas fluem com facilidade.

      mas também se ficar muito no debate linguistico desvia o foco principal do movimento

      e nao sei seu circulo de convivência, mas falando apenas por mim eu consigo enumerar centenas de mulheres amigas que “de fato” (como vc usou) se incomodam com “certos” (como vc usou) estigmas.

    • Ze Midja

      outra:
      “No entanto, das discussões que vejo, dos argumentos que leio, das manifestações exibidas nos diversos meios de comunicação, fica clara, quase palpável a falta de união, de um norte em comum.”

      Cara, se vc acredita que o feminismo nao tem “norte comum” eu acredito que vc podia investigar melhor o significado do movimento feminista…

  • Ítallo Campos

    Deve ser uma delícia =)

  • sandra

    Parabens pela criatividade, iniciativa e tema!! Adorei…

  • Pedro Menescal

    Que tal um filme pornô contra a desigualdade dos homens no mercado de filmes adultos, onde eles chegam a ganhar 14 vezes o salário deles, por um trabalho semelhante?

    Agora, brincadeiras a parte (apesar do fato ser verdadeiro), oportunismo em literalmente VENDER feminismo: ninguém notou?

    Eu tenho uma fórmula pra identificar se uma situação é preconceituosa ou não: basta imaginar “E SE FOSSE O CONTRÁRIO?”.
    Se a situação oposta for ofensiva, então a iniciativa também é.

    E vale pra racismo, homofobia, machismo ou qualquer outro tipo de preconceito.

  • Greice

    Eu sempre paro para ver as propagandas de carros e sinto falta de comerciais protagonizados por mulheres. Poxa! A gente também curte direção elétrica, comandos no volante e cair na estrada ~~~sozinha~~~~ ouvindo uma música legal! <3
    Alô montadoras, estamos aqui!

  • Muito interessante a ação da Cerveja Feminista. Desconstruir esses esteriótipos é fundamental! Acontece algo muito curioso no meu ambiente de trabalho, pegando emprestado a expressão “homem inútil” citada acima, vejo que, sem a devida reflexão, a resposta ao machismo está sendo conduzida de forma estranha e descompassada. Parece, que no ambiente corporativo que estou, só pelo fato de ser homem já sou um “ser menor”, automaticamente próximo de um “babaca” e (quase) tudo que a “gestão do batom” propõe (mesmo que não oficialmente) é lei. Inclusive meu salário é menor do que muitas mulheres. Não tenho nenhum problema em ganhar menos, estar num contexto de muitas mulheres, mas, não gostaria de ser rotulado como um “machista” só porque torço para o Grêmio ou algo similar de “homem”. (Saca?). Tentando adaptar a essa curva de aprendizado moral de todos nós! Viva a igualdade! Para todos e em qualquer tempo!

    • Pâmela

      É, Quenani… Parece que você entendeu um pouquinho do que estamos falando.
      Nós, mulheres, também estamos cansadas de sermos tratadas como “vagabundas” apenas porque transamos, ou como meros pedaços de carne em nosso ambiente de trabalho, como se não fôssemos capazes, apenas porque somos mulheres. E de sermos estupradas, assediadas, forçadas a deixar nossa carreira para cuidar de nossos filhos….

      É chato quando essas coisas acontecem com você, não? Agora imagina viver num MUNDO assim e não conseguir fugir dessa situação desagradável que você descreveu em seu trabalho. Você sai do trabalho e vai para um bar, e as coisas por lá são assim também. Você sai do bar e vai para a casa de amigos, e ainda se sente oprimido. Você liga a televisão… e está lá também.

      O que acontece com você é chato e é errado. Mas acho que pode te ajudar a pensar como é ser tratada assim a vida inteira, em todos os ambientes, com situações ainda mais preocupantes do que as que você descreveu, apenas por ser “mulher” (saca?).