A linha tênue entre humanos e máquinas em “Eu, Robô”, de Isaac Asimov

Nova edição celebra um dos maiores clássicos da ficção científica

por Raquel Moritz

Graças ao cinema e à literatura, já pensamos várias vezes em como seria o mundo se os robôs fossem babás, projetistas ou políticos. A frieza calculista poderia vir a calhar em um cargo estratégico, e o senso de proteção poderia produzir uma babá melhor que a encomenda, mas nos sentiríamos confortáveis? Seguros? Orgulhosos? Teríamos a capacidade de considerá-los humanos? O que nos dá esse título, afinal?

Isaac Asimov, um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos (autor de Fundação, que será adaptado para a TV pela HBO) explorou algumas destas questões em diversas obras, mas uma delas é uma porta de entrada fascinante para este mundo.

Os 9 contos de Asimov presentes em “Eu, Robô” mostram a criação, o aperfeiçoamento e o ápice da robótica, e se interligam em uma narrativa secundária conduzida pela psicóloga roboticista Susan Calvin. Às vésperas de sua aposentadoria, aos 75 anos, a Dra. Calvin concede uma entrevista para falar sobre suas experiências, e conta algumas histórias de sua carreira.

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1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um humano venha a ser ferido.

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O conto que abre o livro é Robbie, sobre um robô projetado para ser babá que é discriminado pelos seres humanos e acaba gerando um desconforto tão grande que passa a ser proibido usá-los na Terra. A US Robots (empresa responsável pela criação dos robôs) quase entrou em crise financeira, até que desenvolveu um mercado extraterrestre, com o intuito de operacionalizar o trabalho dos robôs. É aqui que o ambiente dos contos se forma.

A ideia básica de Asimov é nos apresentar às Três Leis da Robótica e colocá-las para brigar ao longo das histórias. Gradualmente, os conflitos entre as leis se tornam mais perigosos, e o cenário fica mais complexo. Asimov nos entrega uma história completa com base, inteligência, ousadia e – o que é surpresa para muitos – um humor refinado.

2ª Lei: Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.

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Cada conto tem seus protagonistas, e alguns deles aparecem mais de uma vez, como Mike Donovan e seu colega, Gregory Powell. Eles são especialistas de campo da US Robots e se encontram 11 a cada 10 vezes resolvendo problemas dos robôs, algo que fazem com maestria e um sarcasmo bem peculiar. Os problemas são ocasionadas por conflitos entre duas ou mais leis e geram diversas situações interessantíssimas, desconstruídas sempre de maneira inteligente.

Algo que chama a atenção nos 9 contos é a relação entre o comportamento dos robôs e dos humanos. Um exemplo bem claro está presente no conto Mentiroso, em que um robô capaz de ler mentes cria a maior confusão entre uma equipe porque fala o que cada um gostaria de ouvir, ao considerar que a primeira Lei da Robótica diz que um robô não pode ferir um ser humano (“…ou, por inação, permitir que um humano venha a ser ferido”). Ou então no conto Razão, em que um robô fica perplexo com a possibilidade de ter sido criado por um ser tão estúpido quanto um humano, e começa a questionar a sua origem, além de louvar outra máquina que ele acredita ser o Mestre.

3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou com a Segunda Lei.

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Psicologia, religião, razão, orgulho, conhecimento e soberania são elementos de força presentes nas tramas montadas por Asimov que, muitas vezes, parecem um espelho da nossa sociedade. “Eu, Robô” é leitura obrigatória para quem gosta de ficção científica e, arrisco dizer, a melhor recomendação para quem nunca leu nada do gênero e quer dar os primeiros passos sem ser soterrado por mapas galácticos.

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A história por trás dos romances de robôs

A edição da Aleph para “Eu, Robô” conta com um posfácio especial: um texto de Asimov onde ele nos conta que seu caso de amor com robôs como escritor começou em 1939, ainda que tenha sido mais cedo como leitor.

Seres humanos mecânicos já haviam sido tratados antes em mitos e lendas da Antiguidade, mas a palavra “robô” apareceu originalmente na peça R.U.R, de Karl Capek, encenada pela primeira vez em 1921. Na peça, os seres artificiais foram produzidos para realizar o trabalho braçal e libertar a mente humana para a criação, mas a ideia não deu muito certo, pois os robôs se rebelaram e a humanidade foi destruída. Nada tão incomum para a época, que vivenciara não apenas o terror real – com a I Guerra Mundial -, mas também o imaginário – com as histórias de Mary Shelley – como resultado de suas próprias criações.

Se o conhecimento fosse perigoso, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução teria que ser a sabedoria.” – Asimov

O resumo dessas histórias parecia ser que os humanos não deveriam pisar em um terreno desconhecido. Para Asimov, no entanto, qualquer avanço pode ser perigoso, tal como o fogo nos primórdios da humanidade, mas o conhecimento jamais poderia ser considerado perigoso. A ignorância, sim. Então, ao invés de mostrar o lado mais condenável de um robô, Asimov quis retratá-lo de maneira carismática. Foi onde surgiu Robbie, o conto mencionado no início do texto onde um robô é verdadeiramente amado por uma criança, que sofre quando precisa se desligar.

Ao longo dos anos, Asimov escreveu os demais contos, que foram publicados em revistas e periódicos, até que em 1950 uma editora se interessou em publicar a coletânea. O nome inicial, “Mind and Iron”, foi negado, e o livro saiu com o título “Eu, Robô”.

O filme de 2004

“Eu, Robô” sofre (ou sofria, espero, depois de você ler este post) preconceito por conta de uma certa adaptação cinematográfica lançada em 2004 e protagonizada por Will Smith. No filme, Will é um detetive que investiga a morte de um colega, algo que ele acredita ser culpa de um robô enquanto todos apostam em suicídio. Se o homicídio realmente aconteceu, as leis foram violadas e um robô muito perigoso está nas ruas. Embora talvez funcione como filme, a história – como adaptação – não funcionou muito bem (e estou longe de ser daquelas fãs que querem tudo exatamente igual ao livro) e desagradou muita gente.

Akiva Goldsman, roteirista já premiado pela adaptação de “Uma Mente Brilhante”, se baseou apenas nas três leis da robótica para criar um conflito entre humanos e robôs, sem adaptar realmente alguma das histórias. Quem gostou do filme, pode curtir os contos completamente inéditos presentes no livro. E quem não gostou, agora pode dar uma chance para a história.

FICHA TÉCNICA
Título: EU, ROBÔ
Autor: Isaac Asimov
Tradução: Aline Storto Pereira.
Editora: Aleph
Páginas: 320

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Raquel Moritz é publicitária e completa apaixonada pelas obras do Asimov. Autora do blog Pipoca Musical, também administra o Projeto Vórtice Fantástico, que cria clubes de leitura de ficção científica e fantasia pelo país.

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