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“O Fim da Eternidade”: Tempo é o grande protagonista do clássico de Asimov

Ficção científica debruça sobre viagem no tempo e os paradoxos temporais

15.dez.2015

Se você pudesse voltar no passado, o que você mudaria?

E o que isso mudaria?

Embora os leitores de ficção científica já tenham sido agraciados com obras maravilhosas de viagem no tempo propondo as consequências mais malucas para qualquer alteração realizada, acredito que “O Fim da Eternidade” (Isaac Asimov, Editora Aleph) seja uma das mais interessantes para entender como o Tempo funciona.

Resenha O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov [Foto: Raquel Moritz]
“O Fim da Eternidade” foi publicado primeiramente em 1955 por Asimov e continua bastante atual em seu debate

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Mesmo que não seja tão pessoal quanto “Interstellar” e “De Volta para o Futuro” (para citar apenas dois filmes), ou tão romântico quanto “A Mulher do Viajante no Tempo”, este livro fica lado a lado com a obra máxima de H. G. Wells, “A Máquina do Tempo”. Bom, até tem romance, mas este é, principalmente, um livro direto e interessante para mostrar como usamos mal os recursos à nossa mão.

Já chego lá.

“O Fim da Eternidade” foi publicado primeiramente em 1955 por Asimov e continua bastante atual em seu debate. Diz a lenda que, dois anos antes, o autor folheava uma edição de 1932 da revista Time quando viu o desenho de uma nuvem de cogumelo bastante associada a uma explosão nuclear (no fim das contas era apenas o desenho de um géiser). Tal associação da ilustração com o ano da publicação o inspirou a escrever um conto sobre viagem no tempo.

Em “O Fim da Eternidade” temos o Técnico Andrew Harlan, um Eterno. Esse é o nome das pessoas que dominam a tecnologia das viagens no tempo e, portanto, o rumo da História, ao efetuarem pequenas alterações que buscam o aperfeiçoamento da raça humana. Condicionado por um treinamento bastante focado, Harlan aprendeu a deixar as emoções de lado na hora de fazer o seu trabalho.

Até que ele se apaixona por uma mulher. E ela nem ao menos é uma Eterna.

Resenha O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov [Foto: Raquel Moritz]

Apesar do que o nome sugere, os Eternos (trabalhadores) não são eternos (biologicamente falando). Eles são técnicos que fazem pesquisas, relatórios e investigações detalhadas sobre cada grande acontecimento indesejável da humanidade e voltam ao passado para fazer uma pequena alteração que influencie os anos seguintes de forma positiva. Por isso não podem ter família, amigos, nada que os amarre a um século em particular.

Acima de tudo, um Técnico deve ser um desapaixonado. A Mudança de Realidade iniciada por ele pode afetar a vida de cinquenta bilhões de pessoas. Cerca de um milhão dessas pessoas talvez sejam tão drasticamente afetadas que poderão ser consideradas novos indivíduos. Sob essas condições, atitudes emocionais constituem uma séria desvantagem.”

Grandioso, não? Com essa grande “missão mundial” em mente, você poderia achar que voltar ao passado para satisfazer desejos unicamente pessoais não acarretaria grandes problemas, mas qualquer mudança que não seja precisamente calculada, analisada, repensada e aprovada pode mesmo acabar com tudo. E o amor nos motiva a fazer coisas idiotas, não é mesmo?

Como praticamente todos os livros de ficção científica, “O Fim da Eternidade” tem um início parecido com uma chama lenta, que demora a esquenta o ambiente ao seu redor enquanto apresenta ao leitor alguns conceitos estabelecidos por Asimov para que sua história funcione. O que é História Primitiva, Mudança Mínima Necessária, Resposta Máxima Desejada, Mudança de Realidade, Paradoxos Temporais (sim, eles estão presentes), Linguagem Intertemporal Padrão… cada minúcia é apresentada aos poucos para o leitor.

Tudo a seu tempo – com o perdão do trocadilho.

Dizer-lhe o que é a Eternidade e, portanto, o que representaria seu Fim, seria tomar de você o maior prazer da leitura desta obra, então me contentarei em falar a respeito de outras faces da história que podem motivá-lo a tirar o livro da prateleira e começar a leitura imediatamente.

Resenha O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov [Foto: Raquel Moritz]

Apesar do livro trazer algum romance entre dois personagens, “O Fim da Eternidade” é bem mais que isso. O ponto alto da obra, aquele que eu citaria como o principal motivo para incentivar a leitura, é a discussão descarada sobre a evolução do Homem, o comodismo e o controle sobre a vida dos outros.

O agora não dura muito, nem na Eternidade.”

Quem decide o que é bom para a humanidade, no fim das contas? E se alguma tragédia pessoal que você tenha enfrentado seja a principal responsável por você ser mais forte, mais determinado, mais focado? Agora multiplique isso em uma escala global e você terá um planeta inteiramente controlado e livre de desastres. Até que ponto isso é realmente positivo?

O Tempo é o principal protagonista, determinando as ações de cada ser humano, controlando o passado, o presente e o futuro de cada um dos personagens

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Essa e outras tantas reflexões são provocadas a cada capítulo. Felizmente, o cerne da história é bom o suficiente para carregar os leitores até o seu excelente final, já que os personagens não nos cativam tão facilmente. Nenhum deles é tratado com a profundidade necessária para que o leitor se importe com o destino de cada um, mas na verdade há, sim, um grande personagem em destaque. O maior de todos os protagonistas, o Tempo.

Mesmo que não se manifeste fisicamente, o Tempo está sempre lá, determinando as ações de cada ser humano, controlando o passado, o presente e o futuro de cada um dos personagens menores. É por conta dele que o livro foi escrito, e também é por causa dos efeitos do Tempo que nossos personagens fazem o que fazem. Em nome do Amor, da Humanidade ou da História. Foi isso que mais me fascinou em “O Fim da Eternidade”. Há toda a discussão sobre a evolução, mas também uma luta para não perdermos o que há de mais importante em nossa natureza: a compaixão e, de certa forma, nossa individualidade.

Goste de quem você quiser durante a leitura, mas “O Fim da Eternidade” é um livro super indicado para todos os leitores que (a) curtem ficção científica e (b) viagem no tempo. E desenhos de cogumelos. :)

Resenha O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov [Foto: Raquel Moritz]

FICHA TÉCNICA
Título:
O FIM DA ETERNIDADE
Autor: Isaac Asimov
Tradução: Susana Alexandria
Editora: Aleph
Páginas: 256


Raquel Moritz é publicitária, publica vídeos e textos sobre literatura no Pipoca Musical e voltaria no tempo para tomar um café com Asimov.

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