Creed

“Creed: Nascido para Lutar” é um “Rocky” para o século 21

Diretor Ryan Coogler não supervaloriza o passado, mas recorre a ele para edificar a formação de uma nova lenda

16.jan.2016

⚠ AVISO: Contém spoilers

Ryan Coogler nasceu uma década inteira após a estreia de “Rocky: Um Lutador” nos cinemas, quando três continuações já haviam sido lançadas. A proximidade com o pai, fanático pelas histórias do boxeador, e as repetidas visitas à série fizeram com que o rapaz também se tornasse um admirador da franquia. Seu personagem favorito não era o ítalo-americano vivido por Sylvester Stallone, mas o rival-depois-amigo do protagonista, Apollo Creed, interpretado por Carl Weathers naquele primeiro quarteto de longas.

Entre os principais motivos para essa predileção pelo coadjuvante está a questão da representação, afirmada e reafirmada pelo cineasta em diversas entrevistas nos últimos meses. Coogler é negro como Apollo. Quando criança, se “relacionava instantaneamente” com o personagem, “um dos primeiros negros que vi em um filme”, mais do que com qualquer outro.

O diretor Ryan Coogler com Michael B. Jordan no set

O diretor Ryan Coogler com Michael B. Jordan no set

Creed

A preocupação com aspectos dessa natureza parece acompanhar o diretor ainda hoje, agora de maneira mais consciente e sistematizada. Se “Fruitvale Station: A Última Parada”, seu trabalho de estreia, trazia o componente racial no seio da trama, em “Creed: Nascido para Lutar” a abordagem é mais simbólica e ainda mais poderosa: trata-se de inserir um protagonista negro em uma franquia de quase quarenta anos de existência, dando aos jovens desse século a possibilidade de identificação com um personagem principal, não secundário. Para tanto, o escolhido foi Adonis (Michael B. Jordan), boxeador em início de carreira e filho de Apollo.

A relação entre o cineasta e a série, porém, não se limita ao encantamento infantil e à consciência social. Entre a jornada de seu herói e a construção do próprio filme também existem paralelos importantes, em especial no que diz respeito ao valor de um legado, ao impacto do passado no presente.

Na trama, Adonis surge como espectador de sua história. Magoado pela dureza de uma juventude entre orfanatos e centros de correção juvenis, ele inicialmente rejeita o sobrenome paterno para se construir como Johnson (o sobrenome da mãe), como ele próprio. Nascido após a morte do pai, o rapaz assiste no YouTube, como as novas gerações, a vídeos de lutas antigas entre Rocky e Apollo. Nessa cena, talvez a mais bonita delas, ele simula os golpes do primeiro no segundo, acompanhado pela projeção dos corpos dos lutadores sobre o seu. O registro visual, sua única fonte de memória, anuncia o caminho: encontrar o velho campeão e treinar ao lado dele.

Creed
“Creed” é simbólico e poderoso ao inserir um protagonista negro em uma franquia de quase 40 anos de existência

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A concepção de “Creed” como obra passa por um procedimento semelhante, a começar pelo título, que após II, III, IV, V e “Balboa”, finalmente deixa de trazer o nome “Rocky” consigo. Assim como seu protagonista, o filme não supervaloriza o passado, mas recorre a ele para se edificar no presente. Não se realiza uma homenagem gratuita, mas também não se subvertem os elementos fundamentais (a música-tema, a estátua, o uniforme), geridos com segurança por Coogler.

Seu trabalho, que consiste em moldar essa iconografia à sua proposta original, é mais complicado do que parece. É preciso contar uma nova história, mas também administrar expectativas com relação à trama, explorar o enorme acervo de referências possíveis e evitar armadilhas características daquele material, sendo o sentimentalismo exagerado a maior delas. A lista de tarefas é extensa, e exemplos de fracasso em empreitadas parecidas existem aos montes em Hollywood todos os anos — o próprio Stallone falhou, como roteirista e diretor, em episódios anteriores da franquia.

Coogler conquista tanto pelo que é familiar quanto pelo que traz de novo à série. No segundo grupo, além da performance de Jordan, destaca-se o uso da câmera nas sequências de combate, capaz de capturar a ação com certo frescor mesmo recorrendo a técnicas já exploradas previamente. Exemplo é o plano-sequência que acompanha Adonis do vestiário ao ringue, depois durante uma luta completa. Sem chamar a atenção para seu óbvio mérito de realização, o recurso serve para apresentar o lutador ao lado de sua equipe e de seu treinador/figura paterna, para em seguida isolá-lo no ringue, onde nenhum elemento externo importa.

Creed
A trama de superação tripla confere ao filme grande força dramática, e a figura de Stallone é fundamental nesse processo

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Estruturalmente, por buscar manter uma formatação mais conservadora e menos fluida, o longa sofre um pouco para dar conta de tanto. Ao mesmo tempo em que acompanha a trama do protagonista, espelho da ascensão de Rocky na juventude, “Creed” traz o treinador já envelhecido, precisando lidar com os obstáculos da idade — sob esse aspecto, vale notar o belo contraste criado por sua subida vagarosa dos históricos degraus do Museu de Arte da Filadélfia. Além disso, há espaço para o relacionamento entre o boxeador e Bianca (Tessa Thompson), que alivia o impacto das lutas, mas carrega dinâmicas particulares e impõe novas demandas.

Problemas de ritmo e inchaço à parte, é digno de nota o modo como Coogler organiza essas peças na mesma direção a partir da segunda metade do roteiro. As chances de sucesso são baixas na luta de Adonis, em seu relacionamento com a garota e na recuperação de Rocky, e os três campos envolvem dor física e/ou sofrimento. A trama de superação tripla, nesse sentido, confere ao filme grande força dramática, como se a vitória em uma batalha influenciasse diretamente os rumos das outras e aproximasse os personagens de seus objetivos.

A figura de Stallone é fundamental nesse processo. Marcado pelo tempo, seu rosto sustenta o peso de décadas de vida carrega as marcas da carreira e a nostalgia pelo filho, que vive distante, e pela esposa, o treinador e o próprio Apollo. Ainda mais importante, ele é o que existe entre a mitologia de que Coogler se apropria e a formação de uma nova lenda. Uma de suas últimas falas, do topo da escadaria, sintetiza sua perspectiva diante dessa passagem de faixa: “Se olhar bem, você consegue ver a sua vida inteira daqui” — e a vista é ótima.

Comente

  • Leandro

    O dia que deixarem de julgar as coisas pela cor e o gênero das pessoas o mundo estará curado.

  • Luciano

    putz até quando vai essa conversinha idiota de “negro protagonista” “mulher forte protagonista”… não esta na hora de um veiculo de comunicacao parar com essa baboseira?! quem sabe o resto não segue na mesma vertente?

    • Quando isso for tão natural que não possa ser digno de nota, nós paramos. Até lá, você vai ouvir muito dessa “conversinha idiota”.

      • Luciano

        Vc tem razão Merigo… talvez no fervor da chamada do post, fui infeliz na colocação (após reler o que escrevi), Mas vejo o B9 como algo a frente do seu tempo, por isso me incomoda, e muito, continuar ouvindo essa ‘conversinha idiota’

        • Também queremos isso, mas Infelizmente ainda não é tão óbvio assim.

          Veja os indicados ao Oscar, por exemplo. 100% branco, em um ano que tivemos Idris Elba, o próprio Michael B. Jordan do “Creed”, todo o elenco do “Straight Outta Compton”, etc.

    • Red Leader

      O dia que pessoas como você pararem de usar termos como “conversinha idiota” talvez o mundo esteja pronto pra achar natural um protagonista forte negro ou mulher.
      E cuidado quando estiver expondo sua opinião na mesa de bar. O cara do lado pode encarnar o Adonis e te levar à lona.

  • Felipe Forrechi

    Que época boa pra se ter trinta e pouco anos, todos os amigos de infância estão de volta…