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Batman vs Superman

Desorganizado e barulhento, “Batman vs Superman” é um monstro sem forma definida

O que significa o projeto mais ambicioso da DC nas mãos de Zack Snyder?

24.mar.2016

⚠ AVISO: Pode conter spoilers

A produção de “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” foi anunciada em junho de 2013. Envolvidos com o projeto desde o princípio, o diretor Zack Snyder e o roteirista David S. Goyer, assim como os responsáveis pelo marketing da Warner Bros. Pictures, passaram os últimos anos construindo o filme diante de nossos olhos — há uma porção de compilações reunindo esse material internet afora, inclusive em ordem cronológica.



Teasers e prévias, explorados à exaustão durante meses a fio, hoje significam muito e nada ao mesmo tempo. Primeiro e último trailers diferem tanto que não parecem saídos do mesmo planeta. A relação entre espectador e obra, três edições da Comic Con e diversas divulgações e vazamentos depois, parece mais confusa do que nunca. O produto final, movido pela imponência do blockbuster de heróis e o gigantismo de seu universo, precisa dar conta de um número interminável de demandas e expectativas. É natural, portanto, que a saída da sessão seja marcada por mais dúvidas e especulações do que certezas.

Ben Affleck e Zack Snider no set

Ben Affleck e Zack Snider no set

Batman vs Superman

A expectativa exagerada afeta a experiência? O que é “Batman vs Superman”? Snyder merece mais crédito do que recebe? Mesmo deixando de lado questões como fidelidade da adaptação e previsões de bilheteria, somente uma perspectiva não seria capaz de dar conta de tanto. Acompanharemos tais questões aos poucos, crentes de que a junção dos três argumentos poderá construir uma linha de raciocínio mais ou menos delimitada.

Em primeiro lugar, deve-se reconhecer que um filme desse tamanho nunca existe sozinho. Mais importante, deve-se compreender que mesmo a mais emblemática das criaturas (e das marcas: Batman, Superman, DC etc) não se vende sozinha. É preciso convocar o público, sob o risco cada vez mais comum, ao menos nesse gênero, de a campanha publicitária ser mais marcante do que a recompensa. Não falamos apenas das peças de divulgação do longa-metragem em si, diretas (fotos, vídeos oficiais, capas de revistas) ou indiretas (rumores, imagens de sets), mas da maneira como as demais mercadorias da recém-estabelecida franquia se comunicam com o que é visto na sala de cinema.

Existe tanta informação disponível antecipadamente, que as novidades surgem justamente quando contrariam ilusões construídas pelos trailers

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Nos Estados Unidos, por exemplo, as latas de refrigerante Dr. Pepper, ilustradas com os personagens, acompanhavam cinco edições em quadrinhos que formavam uma espécie de prelúdio ao filme. A alternativa para conhecer esse arco sem investigar profundamente as histórias de origem seria a revista incluída no pacote família de Doritos, também uma edição especial, mas em volume único. Existe tanta informação disponível antecipadamente a respeito da trama (e das sub-tramas e dos visuais e de tudo) que algumas novidades percebidas durante a projeção não são novidades graças ao seu ineditismo, por trazerem algo externo à divulgação anterior, mas, ironicamente, por contrariarem ilusões construídas justamente pelos trailers — é o caso da carta que o Batman recebe, cuja autoria não é quem certas teorias cogitavam ser.

Batman vs. Superman
No limbo entre trailers que entregam tudo e fãs que rejeitam mesmo os menores spoilers, é difícil encontrar um equilíbrio

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Por vezes, no entanto, é negativo o descompasso entre o que fazem as equipes de divulgação e de criação, no sentindo de que elas causam danos umas às outras. O primeiro time tem seu trabalho diminuído quando o filme não cumpre as expectativas alimentadas, ou seja, quando o segundo grupo não realiza com qualidade sua parte do acordo; e o mesmo ocorre no sentido contrário, quando longas sofrem tanto pelo excesso de ansiedade quanto pela frustração de promessas anteriores e externas à própria exibição.

No limbo entre trailers que entregam/precisam entregar tudo e fãs que rejeitam mesmo os menores spoilers, é difícil encontrar um equilíbrio — “Star Wars: O Despertar da Força” parece ser o melhor caso de sucesso recente, embora o apelo mais direto à nostalgia tenha alterado um pouco essa dinâmica. Para entender se “Batman vs Superman” trai ou confirma sua construção de quase três anos, é preciso olhar atentamente para a construção do projeto no cinema.

Capítulo mais importante da nova cronologia da DC no cinema, fundada com “O Homem de Aço”, também de Zack Snyder, o filme surge de uma relação dupla com passado e futuro.

A um só tempo, o roteiro de Goyer e Chris Terrio (de “Argo”) deve se articular como continuação do primeiro filme do Superman (Henry Cavill) e como prólogo do vindouro filme da Liga da Justiça, além de buscar se construir como algo minimamente independente. Também é preciso contar, uma vez mais, as origens do Batman (Ben Affleck), para em seguida fundar/resolver seu conflito com o salvador kryptoniano e trabalhar as demais peças, novas ou não, envolvidas nessa disputa: vários vilões, alguns heróis coadjuvantes, familiares vivos e mortos, interesses amorosos e uma boa porção de personagens menores.

Batman vs. Superman
“Batman vs Superman” é mais interessante, em si e com relação ao seus colegas de categoria, na forma como investe na vulnerabilidade dos protagonistas

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Dessas relações derivam algumas das questões que mais interessam ao filme, e que costumeiramente interessam ao seu diretor. Temas como a responsabilidade dos heróis pela proteção a civis, a necessidade (ou não) de um poder superior capaz de controlar essas novas forças e a santidade dessas criaturas integram o repertório do cineasta, inspirado pela mitologia própria da companhia e, mais especificamente, da Liga da Justiça.

O componente Batman propicia embates interessantes entre divino e terreno, bem e mal, dia e noite — algo que o último Superman até esboçava antes de se render à meia hora final de explosões gratuitas e mortes sem consequência. Há dois heróis em xeque: o homem que agora abandona seu código (quase) religioso de não-matar e por vezes age (quase) como vilão, e o ser vindo dos céus que tem sua divindade questionada após uma catástrofe sem precedentes.

“Batman vs Superman” é mais interessante, em si e com relação ao seus colegas de categoria, na forma como investe na vulnerabilidade dos protagonistas, não por uma questão de humanidade, mas porque eles não se conformam nem se encaixam na realidade em que existem. Filmados de maneira crua, os pesadelos estão ali para gerar terror, demonstrar a crise interna absoluta. Mas as coisas vão além e invadem um plano prático, que envolve tanto a kryptonita quanto as aparições pontuais de Diana Prince/Mulher Maravilha (Gal Gadot). Nesse espaço, os demais personagens conspiram contra o homem de aço, cuja divindade é colocada em questão o tempo todo.

Batman vs Superman

A quantidade de elementos em pauta, porém, faz com que o longa abandone constantemente seus aspectos mais interessantes por ter uma série de outras obrigações a cumprir, várias delas auto-propostas. A relação com Lois Lane (Amy Adams), por exemplo, sufoca e é sufocada dentro dessa crise interna do herói. A grandiloquência, aqui, faz tudo parecer novelesco demais, com núcleos inteiros servindo de justificativa para os propósitos mais básicos e desinteressantes da trama. Os segmentos envolvendo a senadora Finch (Holly Hunter) e o ex-funcionário das empresas Wayne (Scoot McNairy) são casos claros dessa falta de foco.

Desorganizado e carente de coesão interna, o filme é sustentado apenas por repetições escancaradas do roteiro e lutas grandiosas

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Ao alongar-se de um lado, o filme se encurta de outro: exceção feita aos trechos com Lex Luthor (Jesse Eisenberg, sempre muito falante), há uma economia de diálogos que não se justifica. A narrativa parece indecisa, oscila de um personagem para o outro movida apenas por confrontos físicos e frases de efeito que reduzem mesmo as temáticas mais valiosas — a dualidade homem x deus, por exemplo, parece mera desculpa para que Batman diga o já famoso “Você sangra?” ao rival.

Em termos estruturais, um combate é sempre acompanhado por três ou quatro palavras de ordem que levam a ação até um novo cenário e, usualmente, um novo combate. O ritmo é menos fluido e mais atabalhoado do que a descrição pode sugerir, parcialmente em decorrência das voltas que o filme dá para espalhar os elementos básicos de uma franquia em surgimento. Como se olhasse o tempo todo para o futuro, para as dicas que farão sentido nos próximos capítulos, o longa deixa de lado sua lógica no presente.

Torna-se, sobretudo, desorganizado, carente de coesão interna, sustentado apenas em repetições escancaradas do roteiro (do nome Martha, por exemplo) e lutas grandiosas que ainda carecem de maior senso de consequência. Nesse sentido, é importante observar com mais atenção o trabalho do diretor.

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Os filmes de Snyder são como um gato, quase sempre caindo de pé, mas ele própiro é como uma torrada, quase sempre caindo com a manteiga virada para baixo

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Nas últimas semanas, surgiram diversos artigos que propunham um tipo de reavaliação da carreira do cineasta — sem muita pompa ou metodologia, apenas como uma nova maneira de encarar seus filmes, inclusive este, que ainda estava por vir. “Ele reinventou o cinema baseado em HQs” e “ele filmou o infilmável” são apenas dois trechos que exemplificam essa recente tomada de posição.

O argumento é de que, historicamente, os longas de Snyder são como um gato, quase sempre caindo de pé (em termos de atenção e recepção do público), mas que ele é como uma torrada, quase sempre caindo com a manteiga virada para baixo (em termos de recepção crítica). Seu estilo — e “Batman vs Superman” — confirmam essas ideias, mas não necessariamente a reviravolta proposta na análise do conjunto.

Existe uma constância de estilo inegável na trajetória do diretor. Basta colocar “300”, “Watchmen” (o melhor deles) e “Sucker Punch” em um mesmo conjunto para identificar similaridades óbvias. Mesmo em seu “Madrugada dos Mortos” e em “A Lenda dos Guardiões”, um pouco mais distantes desse eixo central, as associações aparecem com facilidade. Por outro lado, há uma inconstância muito clara dentro dos próprios filmes: momentos preciosos seguidos por sequências decepcionantes, ou inseridos em contextos bem menos impressionantes.

Batman vs Superman
Podendo observar “O Homem de Aço” no retrovisor, Zack Snyder parece querer compensar os problemas anteriores no grito, sendo ainda mais alto e impositivo

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Não é diferente em relação à abordagem diante de Clark Kent (e, agora, de Bruce Wayne). Podendo observar “O Homem de Aço” no retrovisor, o diretor parece querer compensar os problemas anteriores pelo grito, sendo ainda mais alto e impositivo. A trilha sonora de Hans Zimmer também aposta na grandiloquência, servindo ao menos para balancear a falta de tempo em cena da Mulher Maravilha com um tema imponente, digno da personagem.

O jogo com o slow motion segue uma lógica parecida, entre acelerações intensas e reduções drásticas de velocidade em momentos-chave da ação. No limite, trata-se de um visual de planos pensados para promover dinamismo muito mais por suas próprias composições e pela recorrência de close-ups fortes do que pelo recurso a cortes incessantes. Nesse sentido, o personagem que mais se beneficia é Batman, capaz de se destacar dos antecessores pela longa duração dos planos de combate físico, no sentido de ser, em geral, mais ruidoso e bruto que suas demais representações.

Snyder abrevia tudo às formas mais fundamentais. Os símbolos básicos dos personagens segundo sua visão — o morcego e a relação do alienígena com a divindade — surgem seguidamente. O retorno, aqui, é múltiplo: nas referências, ele se volta para a mitologia antiga, pegando emprestados enquadramentos da arte sacra para montar planos ou explicar as dinâmicas em jogo.

Batman vs Superman
O resultado final é um monstro sem forma totalmente definida que, no pior sentido possível, se completa como todos os outros filmes do diretor

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De modo semelhante, o texto é simplificado, resumido em poucas palavras, enquanto o subtexto é transformado em imagem (Superman = encarnação de Deus é uma metáfora bastante escandalosa, desconstruída visualmente com imagens de cruz em repetição). A própria ação, por um instante, parece querer voltar ao básico das coisas, quando uma pia vira arma em substituição a equipamentos ou aos próprios punhos. Contudo, no momento derradeiro, Snyder se rende novamente a explosões ainda maiores, proporcionadas pela alta tecnologia e o poder dos carros e naves futuristas.

Novamente, o diretor quebra a lógica interna de seu filme em prol de simplesmente mais. Mais ruído e mais barulho, que se somam a mais personagens e mais conflitos e mais responsabilidades (dos protagonistas e das tramas e da franquia). O resultado é um monstro sem forma totalmente definida que, no pior sentido possível, se completa como todos os outros filmes do diretor: carrega momentos de muita potência visual, mas possui um conjunto bastante irregular.

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