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9 filmes de 2016 que você talvez não tenha visto (mas deveria)

Relembre o que aconteceu de melhor no cinema no ano: as estreias mais aguardadas, as melhores surpresas e os filmes imperdíveis que passaram voando pelas salas brasileiras (ou que sequer chegaram a estrear)

29.dez.2016

Em 2016, o B9 cobriu quase quarenta estreias com críticas individuais. Filmes como “Creed: Nascido Para Lutar”, “Spotlight” e “A Grande Aposta” se destacaram entre aqueles que saíram cercados de expectativa da sequência de premiações do início do ano. Ainda na primeira metade da temporada, “Zootopia” e “Capitão América: Guerra Civil” se provaram blockbusters acima da média, sendo acompanhados na categoria por “Star Trek: Sem Fronteiras”, lançado alguns meses depois.

Já no segundo semestre, “Dois Caras Legais”, “Águas Rasas e “Kubo e as Cordas Mágicas” confirmaram a força das produções de médio porte, cada vez mais esquecidas pela indústria, e “Aquarius” se revelou a mais nova obra-prima do cinema nacional. Finalmente, “Sully” se juntou ao seleto grupo nas últimas semanas, apoiado sobretudo na força de seu diretor e de seu protagonista.



Abaixo, listamos outros destaques que chegaram ao país nos últimos doze meses e indicamos os caminhos para encontrá-los, quando disponíveis. Alguns foram estreias no calendário nacional, outros nunca estiveram disponíveis na tela grande pelos lados de cá.

“Carol”

Em uma das várias cenas memoráveis de “Carol”, a personagem do título (Cate Blanchett) observa a jovem Therese (Rooney Mara) e a convida para ir até sua casa no domingo seguinte. “Flung out of space” é como ela define a garota, tão distante que parece mesmo ter sido arremessada pelo espaço, vinda de outra dimensão em que as pessoas flutuam e seus pés nunca tocam o chão.

O filme de Todd Haynes, assim como o romance entre as personagens, se constrói com base nesses detalhes perdidos no ar que o cinema frequentemente ignora: um instante de silêncio gera dúvidas ou confirma certezas, uma troca de olhares ou um toque de mãos revela desejos e mágoas encobertas. Aqui, a beleza e a dor de se apaixonar são mesmo de outro mundo.

Lançado no Brasil no início de janeiro, apenas um dia antes de receber seis indicações ao Oscar, o filme está disponível no NET NOW e lançado em DVD pela Universal.

 

“Destino Especial” (“Midnight Special”)

A decisão de não lançar nos cinemas o quarto capítulo da já festejada trajetória de Jeff Nichols como diretor (depois de “Separados pelo Sangue”, “O Abrigo” e “Mud”) talvez tenha sido o maior equívoco das distribuidoras brasileiras em tempos recentes. A narrativa por vezes exagera na sugestão, nesse esquema de oferecer mais perguntas do que respostas, perdendo algumas oportunidades para fincar suas raízes no sci-fi de maneira mais definitiva, mas o controle do cineasta sobre o material permanece inabalável.

A relação entre pais e filhos surge  novamente como nervo central da história. Desta vez, porém, o senso de proteção paterno  existe justamente diante do desconhecido, o que abre espaço para que o filme aproveite sua principal qualidade: transmitir sensações muito intensas em esquemas simples, com um esforço que parece mínimo.

Disponível exclusivamente em digital para compra e aluguel (NOW, iTunes, entre outros).


 

“Jovens, Loucos e Mais Rebeldes”

Tratado como “continuação espiritual” para “Dazed and Confused” (ou “Jovens, Loucos e Rebeldes”, um dos melhores filmes dos anos 90 em qualquer gênero), o novo projeto de Richard Linklater é fascinante em muitos níveis diferentes. Na superfície, trata-se de um retorno no tempo motivado pelos elementos mais básicos: a trilha sonora e o visual dos personagens já seriam suficientes para sustentar suas duas horas de duração, ainda que as referências em questão sejam bastante específicas (o beisebol, essa masculinidade texana, a universidade).

Não se trata de nostalgia pela nostalgia. Aqui, o olhar para o passado é quase realista, como se tudo o que ocorreu em trinta anos desde então de fato ainda não tivesse ocorrido. Linklater segue genial nessa tarefa de nos transportar para tempos e espaços particulares, capturando momentos especiais em um processo que parece apenas rotineiro. Nas entrelinhas, em cada diálogo despropositado, existe um excelente filme sobre lidar com a diferença e, mais importante, sobre reconhecer a necessidade de ir além das aparências. Em sua simplicidade, o último plano carrega uma força rara, como se o curto ciclo pelo qual os personagens passam fosse apenas um prelúdio, uma abertura para outra etapa, maior e mais significativa.

Disponível no iTunes e no serviço on demand da Telecine.

 

“Indignação”

Em 2016, dois longas tentaram adaptar textos de Philip Roth. “Pastoral Americana”, primeiro trabalho de Ewan McGregor na direção, foi mal recebido no Festival de Cannes e (ainda?) não ganhou data de lançamento brasileira. Já “Indignação”, que também marca a estreia de James Schamus (roteirista de vários filmes de Ang Lee) na função, passou por Sundance e Berlim com sucesso moderado antes de desembarcar no Brasil em novembro de maneira mais discreta do que deveria.

Além do mérito em realizar a difícil transposição romance-cinema, conseguindo ser fiel ao original sem perder de vista sua autenticidade e o que é próprio do cinema, a obra soma os esforços de gente bastante competente em todas as frentes. Logan Lerman e Sarah Gadon lideram o elenco, que ainda conta com Tracy Letts no papel de um reitor implacável. A fotografia é de responsabilidade de Christopher Blauvelt, também de “Certas Mulheres” (outro grande filme), o que afirma esse como o ano mais notável de sua carreira. Por último, mas não menos importante, a trilha sonora de Jay Wadley se estabelece como uma das mais sensíveis dos últimos tempos, encontrando força mesmo em suas batidas mais convencionais.

Ainda não há previsão de lançamento do filme em streaming ou home video no país.


 

“A Luz Entre Oceanos”

A mão de Derek Cianfrance na direção é um fator determinante para os sucessos e fracassos de “Blue Valentine” e “O Lugar Onde Tudo Termina”, seus dois longas anteriores. No primeiro, o cerco se fecha sobre o casal principal, construindo um drama que se propõe ao mesmo tempo intenso e intimista. No seguinte, a insistência em fazer a trama atravessar gerações compromete o todo — os momentos mais fortes do filme se concentram no primeiro segmento, enquanto o terço final sofre porque esse elo entre pais e filhos parece forçado.

Em “A Luz Entre Oceanos”, a abordagem é mais contida e a narrativa, mais convencional, mas o diretor não se desvia de suas pretensões estéticas. A câmera tenta extrair o máximo de cada plano, buscando o contraste nas paisagens ensolaradas e a dor nos rostos de Michael Fassbender e Alicia Vikander, e o resultado é um drama controlado, mas repleto de instantes genuínos.

“A Luz Entre Oceanos” estreou no Brasil no início de novembro e ainda não chegou a outras plataformas.

 

“Certo Agora, Errado Antes”

Após circular festivais Brasil afora, o melhor longa de Hong Sang-soo nos últimos anos chegou ao circuito em maio. Aqui, o diretor segue trabalhando temas marcantes de seus projetos mais recentes, mas decide explorar novas possibilidades em termos de estrutura. Sua narrativa é simples, mas imprevisível, porque trabalha diferentes perspectivas sobre o mesmo conjunto de eventos, com foco no encontro entre um cineasta e uma aprendiz de pintora na cidade sul-coreana de Suwon.

Dividido em dois capítulos (em inglês, “Right Then, Wrong Now”“Right Now, Wrong Then”), o filme não coloca esses olhares em choque direto, mas repete cenas alterando apenas o ponto de vista de modo a produzir sentidos diferentes a cada nova encenação. Trata-se, ainda, de um belo elogio ao gesto: o contato físico entre os personagens é raro, mas fundamental nos momentos mais cruciais da trama.

O longa está disponível on demand no Telecine, com o título de “Lugar Certo, História Errada”.


 

“O Que Está Por Vir”

“Meus filmes são todos transposições [da minha vida] inspiradas pelas pessoas que eu conheço”, disse Mia Hansen-Løve em entrevista. Em uma curta, mas significativa trajetória, a diretora voltou seu olhar para  a relação entre um pai e uma filha (“Tudo Está Perdoado”), o suicídio (“O Pai dos Meus Filhos”), o desenrolar de um romance na juventude (“Adeus, Primeiro Amor”) e o amadurecimento de um jovem rapaz (“Eden”). Há elementos autobiográficos em todos eles, com acenos claros a figuras como um produtor e amigo, o irmão e, agora, a mãe, que ganha corpo e brilho em Isabelle Huppert.

O que mais impressiona nessa coletânea de histórias familiares é a serenidade com que mesmo os acontecimentos mais trágicos são encarados pelas lentes. Chegando aos 35 anos, a diretora observa a meia idade colocando sua protagonista no centro de uma crise sem precedentes, que a desloca em todos os âmbitos da vida — todos vistos de perto, pacientemente, em busca de compreensão.

Distribuído pela Zeta Filmes, o longa estreou na última quinta-feira, 22, e segue em cartaz em nove cidades brasileiras (veja quais).
 

“Popstar: Never Stop Never Stopping”

No ano em que a continuação de “Zoolander” fracassou ao unir sua sátira do universo das celebridades às centenas de aparições de rostos famosos, “Popstar” surgiu como uma clara manifestação do talento de Andy Samberg.

Líder da ótima “Brooklyn Nine-Nine”, agora em sua quarta temporada, o ator e roteirista retomou a parceria com Akiva Schaffer e Jorma Taccone, antigos companheiros de “The Lonely Island” e “Saturday Night Live”, para realizar a melhor comédia do ano. O talento do grupo para esquetes musicais se mantém firme, e certas surpresas (algumas delas extremamente apelativas, mas em perfeita sintonia com o humor pretendido) tornam mais viva a trama de ascensão e queda de um músico egocêntrico.

O filme não foi distribuído oficialmente no país, mas a trilha sonora original está disponível no Spotify. Vale a conferida.


 

“A Incrível Aventura de Rick Baker” (“Hunt for the Wilderpeople”)

Dois anos atrás, “O Que Fazemos Nas Sombras” estabeleceu o neozelandês Taika Waititi como um nome promissor. Hoje, confirmado para comandar “Thor: Ragnarok”, o diretor se encaminha para seguir uma trajetória recente que não é incomum, saltando do universo do cinema independente para um blockbuster de estúdio.

No meio do caminho, porém, ele encontrou espaço na agenda para entregar essa aventura que remete tanto ao charme de nomes como Wes Anderson quanto à esperteza de “Flight of the Conchords”, projeto de comédia a que esteve vinculado por anos. O veterano Sam Neill e a revelação Julian Dennison são as principais peças de uma fórmula que se assume como tal, apostando na mesma condução leve e nas referências pop que consagraram produções semelhantes no passado. É Waititi o responsável por conferir inventividade à narrativa, e sua atenção para as relações humanas cumpre o papel com enorme qualidade.

O filme segue indisponível oficialmente no Brasil.

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