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Transcrição – Mamilos 41: Violência contra a mulher na internet

Jornalismo de peito aberto

27.jun.2017

Mamilos #41
Programa transcrito por: Carla Rossi de Vargas

Início da transcrição:

[Vinheta de abertura]

Este podcast é apresentado por B9.com.br

(Bloco 1) 0’ – 10’59”

[Sobe trilha]

[Desce trilha]

Ju: Bem-vindos, tribo da polêmica! Povo curioso, inconformado, inquisidor. Esse é o Mamilos, o espaço onde mentes inteligentes e corações solidários se encontram pra debater e tentar fazer sentido desse mundo cada dia mais maluco. Eu sou a Ju Wallauer e comigo está o sotaque mais delicioso da podosfera, a…

Cris: [rindo] Cris Bartis.

Ju: Aumenta o som, que a polêmica vai começar!

: E você pode falar conosco pelo Facebook do Mamilos, no Twitter e Periscope no perfil @mamilospod, pelo e-mail [email protected] e pode contribuir com esse lindo projeto no Patreon: patreon.com/mamilos. E ó, é o seguinte: Som do Mamilos essa semana: gente, que som é esse? Que demais, quem são esses cantores, né, Ju? Toda hora vem um falar: nossa, eu quero tudo isso pra mim! Então ouvindo centenas de vezes isso, e como se a gente já não tivesse trabalho suficiente, a gente decidiu criar o Pinterest do Mamilos! Aí você fala: “mas como assim um Pinterest pra reunir músicos?” Vocês podem estar aí se perguntando. É porque tem gente que está no YouTube, ou só no SoundCloud, ou tem gente só no Spotify… e o que a gente quer mesmo é gerar tráfego pro canal do músico, então a gente reuniu lá todas as bandas que nós recebemos até agora, pra vocês irem lá e se jogarem. E não dê o seu follow agora, poque você vai levar mais três painéis de Pinterest com tudo o que já foi indicado no Farol Aceso. Tem um pra filmes, outro pra livros e um de miscelânea, com a coisarada toda que a gente vive indicando aqui. Então corre lá ver, é o Pinterest.com/mamilospod. E agora, sim, ó, vou falar de novo, vou falar que nem o Caio, que fala duas vezes, né? Pinterest.com/mamilospod. Só que, por favor, não escreve pra gente por lá não [Risos da Ju], que a gente não consegue ter mais um canal pra responder, não, é só pra consumir, né, Ju? Esse é só pra consumir! Agora sim, Caio: o que que vai brindar os nossos ouvidos essa semana?

Caio: [voz computadorizada] Olá, personas! O imbecil do Corraini se mudou essa semana e não achou o fio do microfone no meio de toda a tralha dele. Então me colocou pra trabalhar no lugar. Vou apresentar para vocês o som que irá trilhar o nosso querido Mamilos de hoje. Lembrando sempre que você pode enviar a sua sugestão para o e-mail [email protected] [email protected] E nesta edição nós iremos ouvir a Blubell, a cantora e compositora que incorpora pop e jazz em músicas amorosas e bem humoradas. Então fiquem aí com Blubell no Som do Mamilos.

[Sobe trilha]

Please let me say
What I feel
Even if it sounds dull
I have to say it again
What’s the problem if I
Say that I love you
Cause I do
Because I love you
I do

[Desce trilha]

Ju: E o Beijo Para:

Cris: Teresópolis, no Rio

Ju: Maceió, em Alagoas

Cris: Ai, gente, Moeda. Moeda em Minas. Eu amo Moeda. E é um beijo muito especial pra fofa da Aline e pra vovó dela.

Ju: Pra Tucuruí e Goianésia, no Pará.

Cris: Taboão da , em São Paulo.

Ju: Palmares do Sul, no Rio Grande do Sul

Cris: Rio Casca, em Minas.

Ju: E pra todos os meninos que estão apresentando o Mamilos para as melhores amigas, namoradas, mães, todos os dias a gente recebe relatos de meninas que nunca gostaram ou escutaram podcast e que agora não conseguem mais viver sem. Mamilos realmente é a porta de entrada pra drogas mais pesadas. Bem-vindas, meninas, à podosfera, existem 1001 podcasts sobre os mais variados temas, desbravem, descubram e compartilhem com a gente o que vocês mais gostarem.

Cris: É isso aí. Vamos então para o merchan.

Ju: Gente, a gente precisa indicar o programa seis da primeira temporada do Projeto Humanos, é um episódio bônus, é dedicado pra discutir a questão do vazamento de fotos íntimas a partir da entrevista com a Mariana Miranda, uma estudante, que teve a vida virada de cabeça pra baixo a partir do compartilhamento de umas fotos. É sensacional, é super necessário e é um material complementar a esse programa, tem que ouvir. O link vai tá na pauta.

[Sobe trilha]

I do-o-o
Eu e você
Mais ninguém
Ninguém

[Desce trilha]

Cris: E no Fala Que eu Discuto, conta aí, Juliana?

Ju: Você que aaaaama Mamilos, nos escreve pedindo pra não parar de fazer o programa, que é uma utilidade pública, por favor, vai agora no iTunes e dá cinco estrelas pra gente. Isso, vai lá agora! Isso ajuda muito a trazer novos ouvintes, então, por favor, escrevam a recomedação, que a gente vai selecionar comentários mais legais e ler no programa também. Então por favor recomenda a gente lá, fala, a gente é muito legal, vai?

Cris: No programa passado a discussão foi super polêmica. Várias pessoas reclamaram de não ter um participante que fosse do Rio de Janeiro. A gente tentou alavancar o programa o máximo possível pra que ele fosse inclusivo e falasse de uma questão pontual do Rio, mas que acontece em vários lugares do Brasil. Eu entendo as pessoas falarem: “ah, você nem tá aqui e fala disso”. Igual a gente não tá em Brasília e fala de lá, a gente não tá em Londres e fala de lá também, e não tá na Síria e fala de refugiados… e é claro que, no meio disso, deixa de falar alguma coisa que seja pontual da cultura, mas a gente fez todo esse esforço pra discutir um tema que atinge o país inteiro e tem um comentário que foi feito no site, que, senta que lá vem textão, mas ele reúne uma conversa muito rica e é ele que a gente vai colocar aqui como único comentário deste programa, porque na verdade ele faz um apanhado, e um apanhado de dentro. Então, primeiro, Patricia, muito obrigada por contribuir com a discussão e trazer o conhecimento muito válido. Vamo lá: “Só deu São Paulo nesse debate. E com isso, acho que muita coisa vocês não conseguiram captar porque faltou um pouco de conhecimento sobre o Rio. Vou tentar dar essa visão, como carioca.
O “fenômeno” arrastão é muito antigo no RJ. Tão antigo quanto o “menor de rua”. Muitos têm na cabeça que esse menor é o faminto, abandonado. Ledo engano. Os famintos são fracos. Até cometem alguns roubos, mas apanham fácil da polícia. Passam mais tempo “esmolando”.
O garoto que “faz um ganho” é diferente. Ele muitas vezes tem sim família, mas ele não concorda que tem que trabalhar e ganhar pouco. Aquela vida irrita ele. E a reação é ir “causar”. Fazem arruaças, perturbam pessoas nos ônibus, danificam o transporte público, puxam um cordão aqui, um relógio ali, e os cobiçados celulares. Falam aos berros entre si, batucam, entram sem pagar, dão tapas nas pessoas na rua através da janela do veículo em movimento. Usam bermuda, óculos de sol, tênis ou chinelos, bonés, cordões. Eles não estão com fome nem maltrapilhos, são fisicamente grandes e fortes. O arrastão começou quando esse grupo – vamos chamar aqui de “espertalhões” – percebeu que: “unidos venceremos”.
O que aconteceu em Copacabana não é novo. Não tem COMO ser novo. A novidade é a garotada sarada reagir. Veja bem, discordo da reação deles completamente, mas vamos continuar olhando os atores dessa peça e tentar entender que reação foi essa.
O típico “espertalhão” não sai apenas com os colegas pra fazer arruaça em fim de semana de sol no RJ. Ele deixa de ser o que é nos outros dias? Óbvio que não.
O “espertalhão” é o garoto que, na escola pública, tá indo só porque “o juiz mandou” (foi pego e foi solto porque é menor, e porque as estruturas de encaminhamento não funcionam), ou porque de alguma forma foi obrigado, senão não estaria ali. Enquanto ele está lá, está fazendo baderna e agredindo professores. Eles inviabilizam as aulas.
O “espertalhão”, quando não dá praia, tá agindo no centro do RJ.
O “espertalhão” vira e mexe tá postando foto com arma em rede social e se gabando de uma vida de “esperteza e drogas”. Alguns até são presos assim – quando calha de ofenderem algum policial da área deles.
O “espertalhão” engrossa as fileiras da chamada “geração nem-nem”. Todo mundo por aqui sabe disso porque a gente já cansou de escutar os papos deles quando estão no buzão.
O “espertalhão” típico é resultado de: 1 – falta de um sistema de ensino público decente; 2 – falta de orientação por parte da família, em alguns casos; 3 – uma cultura de merda que ensina que “trabalhar é coisa de otário”; 4 – falta de perspectiva: ver os pais trabalhando muito e ganhando pouco, e não querer ser isso, mas não ver saída pra crescer na vida (o que tem relação com o item 1).

(Bloco 2) 11’00” – 20’59”

Ju: [continuando a leitura] Agora vamos falar dos playboys?
Antes de serem playboys sarados, eles eram meninos e meninas “bem-criados” da zona sul que SEMPRE (coloca a média de idade deles aí em torno dos 22 – 24 anos) viram seu bairro ser atacado pelos arrastões. São pessoas que cansaram de saber que não podem ir na padaria, na academia, na esquina sem olhar 30 vezes pra todos os lados porque “naquele sinal ali fica malandro”. São pessoas que cansaram de ver seus pais e avós serem agredidos, empurrados e pisoteados na rua. No caso de Copacabana, não sei se vocês sabem, mas é um bairro conhecido por ser “bairro de velhinho”. O que mais tem lá é senhorinha. E com frequência são os velhinhos que são empurrados no chão, esmurrados e pisoteados, pra serem assaltados.
Os pais, tios, primos, vizinhos dos playboys são os donos da lanchonete ou da padaria que volta e meia é saqueada quando dá sol na praia.
O playboy, ou a mãe do playboy, pega metrô e ônibus pra ir trabalhar no Centro e lida com cenas como a da reportagem que colei mais acima.
O playboy já cansou de ver arrastão na praia, arrastão na rua, arrastão no sinal de trânsito, arrastão na padaria, arrastão aonde ele vai trabalhar, arrastão na noite, arrastão quando tá no engarrafamento.
Mas adivinha? Isso não é exclusividade do Playboy. O mesmo ônibus que o playboy pega tem o cara lá de Nova Iguaçú fazendo baldeação. Que acorda 5h da manhã pra trabalhar. Ou mesmo de gente do subúrbio, que também acorda 5h pq mora longe e o trânsito é uma merda. E também da favela. Que pega cedo no serviço.
Todas essas pessoas, das mais variadas faixas de renda, tentam ir à praia no domingo e sofrem com os arrastões, ou passam por isso durante a semana de trabalho. Mas só falam dos playboys. Dos “riquinhos alienados da Zona Sul”.
Por isso gostei muito quando a Ju falou em “cegueira ideológica” e é isso que rola mesmo no RJ. A realidade é que argumentos clichê de esquerda e argumentos reaças criaram uma discussão que nunca termina, que bate sempre na mesma tecla sobre os privilégios de uns / prejuízos de outros e não visualiza o prejuízo geral.
A realidade é que nosso governo e nossa polícia usam a população – toda ela – como refém. A realidade é que esse problema é antigo, e que os policiais podem sim dar conta QUANDO QUEREM, mas quando não querem, deixam correr solto, porque o resultado disso muitas vezes é poder achacar comerciante pra que ali, naquela rua, não tenha baderna.
Isso é assim porque é dessa maneira que o governo Cabral, que está aqui desde 2007 e continua através do Pezão, mantendo desde o início o Beltrame como nosso secretário de segurança, mantêm as coisas. Isso é assim porque dar esse tipo de poder pra nossa polícia – de achacar os outros e “fazer seu salário” – é a forma que encontraram de manter uma tropa leal de delinquentes mal pagos achando que têm “o melhor emprego do mundo” e que farão qualquer absurdo que seus chefes mandarem pra manter esse privilégio.
Isso é assim porque toda essa “guerra de classes” entre as idiossincrasias de ricos e pobres nesta cidade mantém todos distraídos enquanto nossos governantes nos fazem de reféns. É útil manter as pessoas irritadas e brigando entre si, porque assim elas aprovam redução de maioridade, elas aprovam que se faça “revista preventiva”, aprovam qualquer absurdo que essas autoridades acharem útil.
Isso que aconteceu em Copa nesse fim de semana, aconteceu porque o Beltrame quis. Aconteceu porque ele se sentiu desafiado. Aconteceu porque ele não gostou da pressão popular contra o autoritarismo de barrar gente pela cor da pele. Aconteceu porque “quem esse juizinho pensa que é?”. Aconteceu porque o Beltrame mandou segurar a polícia, pode ter certeza. Quem aí tem alguma dúvida de que eles podem tranquilamente mapear quem são esses jovens, ficha-los e montar um esquema pra pegar em flagrante com toda a facilidade do mundo, inviabilizando os arrastões até que os “espertalhões” se cansem?
E tem sido assim há anos. Quer protestar contra o autoritarismo da polícia? Ok, te deixamos sem polícia quando você mais precisar. Vai lá, protesta agora.
O “playboy justiceiro” sabe dessas coisas tanto quanto eu. Mas ele tá puto. Ele já tá possuído de raiva, ainda mais depois de tanto escutar que ele é “culpado dessa situação” por ser “da elite”. Ele tá de saco cheio de escutar os “espertalhões” falarem sobre “como é bom ser vida loka” e tirar sarro da cara dele enquanto é assaltado e até esfaqueado e depois ouvir, de forma descontextualizada e banalizada, que esses caras são “vítimas da sociedade”. Ele tá cansado de ouvir falar de opressor / oprimido, de tomar porrada e não poder fazer nada porque precisa esperar pela polícia, que o achaca, e porque seria “injusto” da parte dele.
O “playboy justiceiro” tem altas chances de ser um cidadão completamente simplório, racista e cego pelo ódio, mas uma coisa não dá mais pra negar: são pessoas que já foram suficientemente agredidas.
E não são os únicos. Do outro lado tem populações pobres que, desde a chegada das UPPs, também vem sendo cada vez mais agredidas. E mortas. E a culpa das mortes é jogada, muitas vezes, nas costas dos “cidadãos ricos opressores”. Que putos, justificam isso dizendo “tem que matar mesmo!”.
Nisso, todo mundo tá com raiva, todo mundo tá certo e todo mundo perde a razão. E ninguém enxerga quem realmente manipula as cordinhas. O resultado é o RJ explodir, mesmo.”

Cris: Que orgulho desse comentário, né? Porque traz uma realidade muito bem pontuada. O lado de quem tá lá, que é “espertalhão”, mas que viu uma realidade muito crua e não aceita essa realidade, uma realidade ruim; e o lado de cá, de quem tá sendo exposto à violência e não aguenta mais isso e acaba perdendo a cabeça por um ato de ódio. Então é muito rico, obrigada por compartilhar isso com a gente.

Ju: É, eu complementaria dizendo que, assim, não só esse comentário, mas assim, a discussão lá no post realmente ferveu. Vocês, mais uma vez, responderam ao nosso chamado de que a proposta não é encerrar o tema. Então a gente colocou o tema pra debate e assim… a gente levantou a bola e vocês cortaram lindamente. Tá muito boa a discussão. Eu queria só encerrar falando que, assim, eu coloquei no grupo fechado do Mamilos que a gente ficou super pesado com o programa da semana passada, porque é uma sequência de temas que a gente tem tratada que parecem não ter solução, é muito desesperançado. E a gente fala assim: se é difícil pra gente, que tem que fazer todas as pesquisas e passa a semana inteira lendo link só de tragédia, só notícia horrível, dá vontade de se esconder e não… sabe, não falar mais sobre isso. Não quero, quero fazer um programa sobre esmalte! Eu falei: não é difícil também, pra quem tá ouvindo? Daqui a pouco o Mamilos vira também aquela coisa de programa necessário, mas que você não quer ouvir? Cê fala: “ah, não, deixa que depois eu escuto” e acaba não escutando nunca. Porque cê sabe que vai ser difícil o tema e vai ser complicado. Principalmente por conta não de falar de problemas, mas de não ter esperança, né? De não ver uma solução.

Cris: [Interrompe] É, eu acho… a gente até fez uma comparação engraçada: TV Cultura, todo mundo sabe que é importante e defende, mas tipo: “ah, não, não vou ver!”

Ju: Preguiça, né?

Cris: Preguiça! [risos]

Ju: E aí a gente recebeu vários comentários muito legais, mas eu vou ler só um trechinho pra vocês, que eu acho que foi muito inspirador pra mim, que o Eric colocou a frase de um escrito chinês, o Lin Yutang, que é: “a esperança é como um caminho no campo. Nunca houve uma estrada. Mas quando muitas pessoas caminham sobre ela, a estrada passa a existir.” E aí ele diz pra gente: se você olhar pra trás, vai ver que tem uma estrada se formando debaixo dos pés mamileiros dos que seguem vocês. Por isso não parem. A gente tá junto!

Cris: Depois disso, né? Vamo abraçar e vamo lá!

Ju: [Rindo] Com as baterias devidamente recarregadas então, vamos destrinchar mais um tema dificílimo e polêmico, que é a Teta do Mês.

[Sobe trilha]
[Desce trilha]

Ju: Vamos então pra Teta do Mês, que é violência contra a mulher na internet. Antes de começar a falar sobre esse assunto, a gente tem duas entrevistas que a gente fez pra introduzir o tema. Uma dessas entrevistas é com a Leslee Udwin, que é diretora do documentário India’s daughter, que é um documentário que foi feito sobre um caso de renome internacional de estupro [aviso de gatilho: a partir daqui, constam descrições de estupro e assassinato], que uma menina tava voltando do cinema com um amigo; pegou um ônibus, que ela acreditou ser um ônibus comum, sofreu um estupro coletivo. Bateram no amigo dela primeiro e aí seis meninos estupraram ela e o requinte de crueldade é que arrancaram os intestinos de dentro dela e, quando acharam que ela tava morta, jogaram ela e o menino na rua e ela foi encontrada depois e tal. Esse crime gerou uma revolta, uma comoção na India, de proporções nunca antes vistas; não só na India, mas em nenhum lugar do mundo houve uma revolta desse tamanho em função de uma violência contra mulher. Então assim, foram meses de manifestações, todos os dias os manifestantes iam pra rua dizendo que bastava, que isso era inadmissível. A polícia foi com força pra cima desses manifestantes e, mesmo assim, eles não pararam. E por curiosidade de entender o porquê desses movimentos, a Leslee fez o documentário e é sobre isso que a gente vai conversar com ela. Bom, a primeira pergunta que eu fiz é por que que as pessoas se mobilizaram daquela forma. E ela respondeu assim:

Leslee: [Em inglês] They couldn’t stop. Because somehow the damn wall had burst in India.

Ju: [Traduzindo] Eles não podiam parar. Porque, de alguma forma, o maldito muro havia explodido na India. Existem muitas pessoas que continuam perguntando e não podemos responder de forma definitiva, “por que esse caso? Por que esse caso fez mais pessoas irem pras ruas do que jamais antes por esse assunto?” E existem muitas respostas possíveis. Você poderia dizer que foi porque ela era uma estudante, e as primeiras pessoas a irem pras ruas foram estudantes da universidade dela. Eles empatizaram com ela. Alguns vão dizer que foi porque ela tava fazendo algo tão comum como ver um filme, não era tarde, seis e meia da tarde, às nove horas ela entrou no ônibus. Uma atividade normal, que todos fazemos, então esse crime terrível se abate sobre ela. Alguns vão dizer que foi o detalhe dos intestinos. Eu diria que a única resposta precisa que podemos dar é que quando sua cidade, como Delhi, é esmagada diariamente por essas histórias de direitos de mulheres e meninas violados, toda mulher que anda nas ruas dessas cidades tem homens tocando elas, olhando pra elas como se elas fossem objetos; nesse contexto, você chega num ponto quando atinge um limite. A muralha se rompe. É a gota extra que cai no rio e faz ele transbordar. Eu acho que essa é a única explicação plausível que existe.

Leslee: [Em inglês] And I think that is the only plausible explanation there really is.

Ju: Aí eu pergunto de novo: crimes como esse gritam psicopatia, que é um distúrbio muito raro e externo, não nos pertence. Não há nada que precise corrigir em nós. Mas manifestações tão intensas e persistentes mostram que as pessoas não percebem dessa maneira. A revolta não era contra esses indivíduos apenas; ia além. O grito era por um pedido de reforma na sociedade. E aí ela responde:

Leslee: [Em inglês] And that, actually, is a very important point. Because, you see…

Ju: [Traduzindo] Esse é um ponto muito importante, na realidade. Muitas pessoas na India reclamaram que eu dei uma plataforma pros estupradores, porque os entrevistei. Eles falam desses estupradores como se eles fossem maçãs podres em um barril. E aqueles que acreditam no enforcamento, coisa que eu não acredito, estão muito felizes que eles receberam sentenças de morte. Porque eles pensam: “vamos liberar nossa sociedade desses monstros”. E a verdade não poderia estar mais distante disso. O mero fato de que várias pessoas foram às ruas, e por tanto tempo, é evidência e prova que a violência contra a mulher é onipresente, está em todos os lugares e é lugar-comum. Isso é um fato muito importante de se reconhecer: isso mostra que todas as pessoas que tentam se distanciar desses estupradores estão absolutamente enganados. Eles têm a cabeça enterrada na areia e se recusam a fazer um exame íntimo. Em resumo, quando eu fui pra lá, eu tava convencida de que eu encontraria com monstros, psicopatas. A mídia me falava que eles eram monstros. E eu juro pra você que nenhum desses homens é nada além de seres humanos normais, comuns, sem distinção. Dois deles eram homens extremamente sensíveis. Então, a verdade é muito mais assustadora: a verdade é que nós não estamos lidando com maçãs podres em um barril. Nós estamos lidando com um barril que está podre. E é o barril que apodrece as maçãs. Esses homens não são a doença. Eles são os sintomas da doença. E a doença é o mindset. A doença é a desigualdade de gêneros, ponto final. A mesma doença que faz de mim, como mulher, me sentir completamente mal representada nas decisões que governos e corporações fazem ao redor do mundo. A mesma doença que seleciona meninos acima das meninas. Que joga ácido nos rostos das meninas. Que trafica meninas. Que pratica mutilação genital em mulheres ao redor do mundo. Que estupra e espanca a namorada ou a esposa em casa. É a mesma doença. Esses são todos sintomas de desigualdade de gênero. E a única forma que vamos progredir é mudando esse mindset. E só existe uma forma de mudar um mindset e é educação. Quando você pensa sobre isso, como a gente espera que esses estupradores se comportem? Quando as sociedades ensinam a olhar pra uma mulher de uma determinada maneira? É a sociedade que é responsável pelas suas ações.

(Bloco 3) 21’00” – 30’59”

Leslee: [Em inglês] It’s society that’s responsible for their actions!

Ju: E aí eu perguntei: como assim? Como a sociedade programa eles?

Leslee: [Em inglês] Well, I can tell you about India.

Ju: [Traduzindo] Olha, posso te contar sobre a India, porque eu fiquei dois anos e meio pesquisando, porque o caso aconteceu lá. Na India, quando uma criança nasce, se é um menino, costuma-se distribuir doce nas ruas e celebrar o nascimento. Se a criança é uma menina, não tem distribuição de doces. Familiares e amigos vêm prestar condolência e dizer: “ah, não se preocupa, da próxima vez vai ser um menino”. Se isso é uma coisa que você testemunha como menino, você tem uma irmã que nasce e você vê como a sociedade reage, claro que você vai pensar: “meninas têm menos valor”. E é tudo sobre o valor de um ser humano. Qualquer que seja a discriminação ou violação, tutsis e hutus lutando em Ruanda, ou a violência contra mulheres, que é endêmica no mundo, tudo se resume a: valores. Na realidade, em Ruanda, durante o genocídio, nós vimos que um lado era encorajado no rádio e pelo presidente a chamar o outro lado de “baratas”. Tinha uma campanha montada pra chamá-los de baratas e cachorros, pra que eles pudessem ser privados de valor aos olhos daqueles que o governo queria que os assassinasse. Então, quando um menino sabe que ele deve sentar à mesa e ser servido pela mãe e pelas irmãs; quando ele vê que mesmo a irmã mais velha tem que esperar até todos os homens comerem para poder comer, esses todos são costumes sociais que programam esse menino. Adicione a isso pornografia, que todos os estupradores que eu entrevistei consumiam, e o que você poderia esperar? É claro que eles vão estuprar. Você tá criando esses estupradores, você tá encorajando eles.

Leslee: [Em inglês] You’re encouraging them.

Ju: Aí eu perguntei: A cultura diz que as mulheres tem menos valor, mas ela não diz que você pode ser violento.

Leslee: [Em inglês] Well, is doesn’t matter if you…

Ju: [Traduzindo] Não importa se vocês escuta que pode ser violento. Se você tá lidando com alguém que não tem valor, é claro que você vai ser violento! É claro que não vai sentir a dor que tá prestes a inflingir na pessoa ou se importar com isso. É isso que encoraja a violência.

Leslee: [Em inglês] That’s what encourages violence!

Ju: Aí eu provoco mais um pouco: Acho que existe um salto grande entre dizer que alguém não tem valor e dizer que tá OK fazer o que você quiser e nunca vai ser punido. Porque acredito que o sentimento que compele essas pessoas é que eles não vão ser punidos, de que é OK fazer isso.

Leslee: [Em inglês] Both statements are true and let me give you the actual evidence of this.

Ju: [Traduzindo] As duas coisas são verdade. E deixe-me te dar a verdadeira evidência disso. Eu sentei em frente do estuprador chamado Gorof, que tem 34 anos, e não tava envolvido nesse caso. Esse foi um dos dois casos que eu pratiquei antes de entrevistar os estupradores que eu precisava pro filme. Eu sentei em frente a ele e o entrevistei por três horas. Ele me contou em grandes detalhes sobre o estupro que foi a causa dele estar na prisão. Ele foi sentenciado a dez anos. Ele estuprou uma menina de cinco anos. Ele me contou com riqueza de detalhes cada coisa do incidente. Como ele fez, como ele pegou ela pelos dois lados, como ele rasgou a calcinha, mas deixou o vestido, e eu vou te contar porque ele fez isso, porque ele me contou; e esse foi o maior insight que eu tive em toda a jornada de produzir o filme. Ele contou que os olhos dela tavam abertos, arregalados de terror; contou como ele colocou a mão sobre a boca, mas deixou o nariz livre pra ela respirar, todo detalhe possível ele contou. Em certo momento, ele tava sentado na cela e eu tava entrevistando e eu perguntei: “Gorof, qual é a altura dela?” Ele levantou da cadeira, com um meio sorriso, porque tava envergonhado em função da camêra – não porque era maluco, é um homem muito normal – e colocou a mão na altura dos joelhos. A essa altura eu disse: “agora você precisa me ajudar a entender, qualquer que seja a verdade, diga. Você acabou de descrever quão pequena ela era; você acabou de descrever o quanto os olhos estavam arregalados de terror. Você sabia que nessa cultura, você estuprar essa menina significaria o fim da vida dela. Acabou. Ela tá em desonra e vergonha. Ela nunca vai encontrar um marido. Ela provavelmente não vai sobreviver ao trauma com qualquer grau de normalidade. Eu até consigo entender que alguém tenha tanto calor no corpo, que sinta necessidade de se livrar disso e procure pela coisa mais próxima. Minha imaginação consegue alcançar isso. O que eu não consigo entender é como é que você cruza essa linha? Então me ajuda a entender isso.” Primeiro ele me olhou como se eu fosse de outro planeta, por te sequer perguntado uma coisa dessas, então ele me respondeu, palavra por palavra, tá gravado: “ela era uma mendiga. A vida dela não tinha qualquer valor.” Então aí tá seu link entre falta de valor e um ato violento. Não importava! Esses estupradores, os sete, em trinta horas que eu passei entrevistando eles, nenhum deles expressa um segundo de remorso. Pelo contrário, o que eles tavam dizendo era: “que injusto! Por que eles foram escolhidos, por que que eles tavam sendo punidos?” Os três que estupraram a menina no ônibus até pegaram pena de morte. “Todo mundo faz isso”, eles dizem. “Por que nós? Por que estão nos usando como exemplo?”. Deputados do parlamento têm acusação de estupro contra eles e nada tá acontecendo. Então, eles devem ter pensado: é só não falar nada, ficamos frios, e não vamos ser pegos. Ou, se formos pegos, a polícia não vai ligar. Não importa, acontece o tempo todo. Então são essas duas armas letais combinadas que geram essa pandemia de violência contra as mulheres e meninas do nosso mundo.

Leslee: [Em inglês] … this pandemic of violence against women and girls across our world.

Ju: E aí eu perguntei: como é que cê conseguiu evitar de esganar esses homens? E ela respondeu que a grande surpresa foi não ter sentido raiva.

Leslee: [Em inglês] I was raped when I was eighteen.

Ju: [Traduzindo] Eu fui estuprada quando eu tinha dezoito anos. Por isso eu pratiquei nos outros estupradores, eu tinha certeza de que bateria neles. Mas com nenhum deles eu senti essa raiva. E eu acho que a razão pra isso é que estava tão óbvio que eles foram programados pra fazer o que fizeram. Eles também são uma espécie de vítima, isso tem que ser dito.

Leslee: [Em inglês] They, too, are a sort of victim, it has to be said.

Ju: Aí eu perguntei se ela falava isso porque eles se comportaram de acordo com o que era esperado deles.

Leslee: [Em inglês] How can you now blame them? If you, as a society, has taught them!

: [Traduzindo] Como você poderia culpá-los? Se você, como sociedade, ensionou a eles que isso tá OK; de que tá OK usar pornografia, nas quais a mulher é meramente um objeto sexual, então você fica viciado em imagens mais selvagens e mais violentas e precisa cada vez mais disso. É muito irônico que o governo indiano tenha banido meu filme, que clama pelos direitos das mulheres. Há algumas semanas eles baniram uma série de sites pornôs e isso gerou um clamor tão grande da população e da mídia, que em uma semana eles suspenderam essa restrição. Mas mantiveram a restrição que existe contra o meu filme. Isso é nojento e mostra quais são os valores.

Leslee: [Em inglês] And this shows what the values are.

Cris: Agora vocês vão ouvir a entrevista que nós fizemos com o Sérgio Barbosa, que é um brasiliense radicado em São Paulo e que trabalha há muito tempo na questão da violência contra o homem. Ele é um professor universitário, formado em filosofia e sociologia e atualmente ele trabalha com homens autores de violência em Taboão da e com a doutora Gabriela Mansur, onde ela coordena a parte jurídica e ele, a parte de desenvolvimento do grupo dos homens. Vamos ouvir então o Sérgio.

–//–

Sérgio: O grupo é um trabalho de responsabilização, onde esse homem, que entrou numa situação de violência com uma outra pessoa, nesse caso, com uma mulher, ele cometeu um ato de violência, um ato de crime, e ele tem que se responsabilizar por isso, né? Nessa situação, o grupo, então, a gente chama “Grupo de Responsabilização para Homens Autores de Violência Contra a Mulher”. No caso de Taboão da , o nome do projeto é “Tempo de Despertar”, onde tem a mesma ótica: não ficar somente na punição, mas, principalmente, aumentar a consciência sobre a questão da equidade de gênero.

Cris: E como que é o perfil dos homens que você recebe, com quem você trabalha? Muita gente tem uma visão de que esse homem, na verdade, é um psicopata.
É isso mesmo? Como que é isso?

Sérgio: Não, essa visão, ela é distorcida. Esse homem, geralmente, é um pai de família, um trabalhador; é um homem construído dentro de uma cultura machista, onde os principais traços são a força, né, a questão da força da argumentação da masculinidade; onde ele tem a última palavra, onde a sociedade impõe a ele essa prerrogativa. Uma outra característica desses homens é a baixa tolerância ao fracasso, né? Muitos homens não admitem o fracasso, seja ele econômico, sexual, até mesmo afetivo. Então eles se revoltam contra eles mesmos, e aí, quem tá mais próximo a eles, geralmente, é esta mulher, que o conhece. E um terceiro traço são os sinais do patriarcado, né? É muito forte o machismo, onde eles se consideram sempre certos, em todas as situações, e que, mesmo depois do casamento findado, ele se autoriza a controlar a vida dela, não permitindo a ela ter outro relacionamento, muito menos viver de forma independente.

Cris: O que que você acha que existe hoje na cultura que reforça esse comportamento?

(Bloco 4) 31’00” – 40’59”

Sérgio: O que mais impulsiona a continuidade desse comportamento na sociedade é o sentimento de impunidade. A impunidade é um fator bastante importante porque o homem acha que a violência é só a agressão física, mas antes mesmo desta agressão física, tem a agressão psicológica, tem a ameaça econômica, “vou te abandonar e você vai passar fome na vida”, então todas essas pequenas ameaças, elas fazem parte do cotidiano da vida dos homens e dessas mulheres. Cabe à mulher dar um basta. Muitos homens também, eles não encontram nesta mulher alguma força de resistência, por quê? Ela está fragilizada, ela está debilitada. Então, neste momento, não adianta nada o diálogo, porque esse diálogo não vai ser feito de partes iguais, por quê? Todas as forças sociais, culturais, principalmente agora e, infelizmente, religiosos, reforçam o lugar desta mulher na sociedade como passiva, aquela que tem que aguentar, aquela que tem que pensar na família, aquela que tem que pensar nos filhos, o que irão falar desta mulher, como se todo o problema caísse na mulher. Por que que a violência, ela é tão perversa? Porque ela justamente inverte os papeis: o homem, que é o agressor, passa a ser enxergado, pela sociedade, como vítima dessa mulher que se emancipou. E a mulher que se emancipou, passa a ser enxergada como a culpada pela desestrutura familiar. Só isto já é um terreno fértil para a violência. Ou seja, a mulher sempre vai ter que trabalhar fora e em casa. Ao homem não, cabe unicamente o papel de trabalhar fora de casa.

Cris: Dessa experiência que você tem, dentro desse contexto, eles se arrependem do crime que eles cometeram?

Sérgio: Nós não trabalhamos com o conceito ou a definição de arrependimento. Porque arrependimento significa culpa. E, por nossa experiência, muitos homens já se arrependeram antes nas suas relações e praticaram a violência de novo, dentro daquele ciclo de violência. Melhor para a questão de arrependimento, a gente usa a palavra, o conceito de responsabilização, por quê? Ele tá consciente daquele fato que aconteceu e ele vai buscar, então, as razões, as motivações, que efetivaram essa violência contra essa mulher. Então a palavra mais apropriada, no nosso trabalho, é responsabilização, porque aí, ele vai compreender esse processo de não mais agredir a esta mulher ou outra qualquer mulher na sociedade.

Cris: Sérgio, quem ama, bate?

Sérgio: Não, quem ama não bate. Amor não significa violência; amor não significa humilhar a pessoa. A violência destrói as relações afetivas e falar que uma mulher está com um homem, que sofre violência porque o ama muito, ela tem que correr para um centro de atendimento, um centro de apoio, porque ela pode estar correndo, inclusive, um risco de vida. E por isso que o feminicídio vem aumentando em nosso país.

Ju: Você falou sobre responsabilização. Quando ele chega pra você, qual é a compreensão dele sobre responsabilização e o que que você consegue fazer evoluir ao longo do trabalho?

Sérgio: Quando o homem chega ao nosso trabalho, ele chega espumando de raiva, com muito ódio de todas as mulheres, por quê? As mulheres significaram a ruína do castelo de areia dele. Isso é uma frase tirada de um dos participantes. Porque ele entende que está sofrendo uma violência. Ele não vê que ele que começou a violência, ou ele se envolveu na situação de violência, dentro de uma sociedade também patriarcal, onde ele também tem a responsabilidade por isso. Então, durante os encontros, é feita uma dinâmica de espelhamento, onde ele vai escutar a conversa de outro homem, ele vai colocar as suas ideias, vai trocar ideias com outro homem que agrediu outra mulher, e vai se colocar no lugar desta mulher e no lugar deste homem. E, aos poucos, durante os encontros, ele vai alterando aquele repertório, onde ele se julgava vítima da mulher, ele começa a entender a situação de outras mulheres, porque dentro do processo de ressocialização, ninguém nasce violento. Infelizmente, os homens aprendem violência dentro dos grupos sociais. Então, para “desaprender” é necessário um grupo, um coletivo de homens, pra que ele possa, também, ver que há uma saída deste conflito sem a utilização da violência.

Cris: E, nesse processo, qual que é o ponto de virada? O que que acaba despertando a sensibilidade dessas pessoas, provocando a sua mudança? Cê já esbarrou um pouquinho na empatia, qual que é esse caminho?

Sérgio: Quando ele deixa de falar que ela é a culpada, que ela não cuidava dos filhos, que ela não fazia a comida, que ela não arrumava a casa; quando ele começa a falar: “é, eu deveria chegar em casa e também ajudar. Eu deveria chegar em casa e levar os filhos pra escola. Quando eu deveria chegar, me preocupar com coisas da casa e parar de persegui-la, e parar de jogar a culpa nela.” Então quando ele começa a assumir esse legado, essa mudança das masculinidades hegemônicas na sua vida; quando ele começa a entender que ele também foi prejudicado por essa situação, aí é a virada. Aí ele começa a perceber que ele também tem a ganhar com a mudança de comportamento, com a mudança de visão de sociedade, com a mudança, né, e transformação de uma sociedade mais equitativa. Aí a gente começa a ganhar este homem para a sociedade.

Ju: O que ele tem a ganhar?

Sérgio: O que ele tem a ganhar são relações mais prazerosas. São relações mais afetivas, verdadeiras, não uma relação baseada no medo. Muitos homens falavam que suas companheiras, ou ex-companheiras, tinham muito medo deles e não expressava[m] suas opiniões, porque, no momento de expressar uma discórdia, uma opinião discordante, ele se enfurecia. Com o nosso trabalho, ele aprendeu a escutar opiniões diferentes e a ver outros horizontes. Então ele só começa a ganhar. Ou seja, o movimento feminista não é só bom para as mulheres; é bom também para os homens, porque os homens começam a entender que o patriarcado e o machismo também é [são] uma coisa ruim para o próprio homem.

Cris: Todo homem tem salvação?

Sérgio: A princípio, sim. Todo homem tem salvação, desde que seja feito um trabalho acompanhado, um trabalho bem elaborado. Claro, cada homem entra dentro de uma categoria. Não é aquele que cometeu um homicídio que eu vou poder colocar junto com um homem que xingou a mulher. Não é trabalhando com homem que teve uma violência sexual que eu posso colocar junto com um homem que bateu na mulher. Cada tipo de crime, cada tipo de delito tem que ter uma abordagem diferente. E com isso, né, a gente pode promover uma sociedade mais justa, porque tanto esse homem, que ficou pela Lei Maria da Penha, que ele vai ficar três anos na cadeia, ele vai sair da cadeia. E como que ele vai sair? Como esse que cometeu um homicídio, ele vai sair da cadeia. Então, nesse processo, ele tem que ser julgado, direitinho, condenado, mas ele merece, sim, com uma perspectiva de mudança, ser trabalhado. Então eu acredito que qualquer pessoa pode ser trabalhada.

Ju: É isso que eu ia te perguntar, Sérgio, quando você apresentou o projeto, não ficou muito claro: primeiro, se é uma pena alternativa e, se for uma pena alternativa, ou seja, não implica em prisão, ele faz essa pena ao invés de ir pra prisão? Pra que tipos de crime que ele pode ser aplicado?

Sérgio: Então, o trabalho de responsabilização com infratores de violência contra a mulher não é uma aplicação de pena alternativa. Se ele tiver que ser condenado, ele vai ser condenado, se ele tiver que ser preso, ele vai ser preso. O nosso trabalho, ele é um complemento a esse processo de condenação. Nós já tivemos casos de homens que foram condenados a oito meses, dois anos, e eles, logo na soltura, eles foram obrigados, também, a passar pelo trabalho. No nosso tipo de trabalho, atualmente, nós não aceitamos tentativa de homicídio; violência sexual – estupro ou qualquer outro tipo; e nem reincidência. Porque dentro desses tipos de violência, já existe o Código Civil. Então, nós abordamos mais os casos de ameaças, xingamentos, pra quê? Pra prevenir. Então é boom que toda mulher que já receba esse tipo de violência – xingamento, ameaça, né? O cara jogou a comida na cara dela, cortou o vestido, perseguiu, né? – já comece a ficar esperta e comece a denunciar. Porque esse tipo de crime, ele infelizmente pode evoluir.

(Bloco 5) 41’00” – 50’59”

Cris: Violência virtual também, Sérgio, xingamento na internet, perseguição?

Sérgio: Isso, exatamente! Xingamento na internet, é… colocar fotos… apesar que vai ter uma lei específica pra isso, mas a gente também já tá acolhendo esses novos casos, onde esse espaço virtual, de mandar mensagem… nós tivemos um empresário que mandou mensagem via WhatsApp: “vou quebrar a sua perna”. E nem precisou se concretizar. O Ministério Público já encaminhou, ele já fez parte do grupo, porque já ameaçou, então pronto, já é um crime.

Cris: Tá certo, não tem que esperar acontecer, né?

Sérgio: Não tem que esperar acontecer. Quanto mais cedo essa mulher notar que sofreu um tipo de violência, seja ela patrimonial, física, sexual, nesse sentido, pode denunciar, porque ele vai ser investigado e, durante esse processo de investigação, em determinados juizados, vai haver uma medida protetiva, onde ele vai ter que cumprir a participação nesses centros de reeducação.

–//–

Ju: Bom, e com a gente na mesa pra discutir esse tema, nós temos hoje: Juliana de Faria, jornalista e fundadora das ONGs Think Olga e da campanha Chega de Fiu Fiu e co-fundadora da Think Eva, boa noite!

Juliana: Oi, gente.

Ju: Também a doutora Maria Gabriela Manssur, promotora de justiça, coordenadora do núcleo de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher na Grande São Paulo II, também idealizadora do Projeto Tempo de Despertar, que trabalha com homens que cometeram violência conta a mulher e do movimento pela mulher, que trabalha o empoderamento da mulher por meio do esporte.

Gabriela: Oi, boa noite!

Cris: Tá bonito o negócio. Vamo rir, porque o tema é tenso, então relaxem os ombros, que a gente vai começar a conversar e, pra isso, eu vou colocar um textinho aqui pra gente iniciar: “Acordei hoje cedo e postei uma foto minha no Instagram ao volante, parada no trânsito. Nos comentários, li: ‘que mocréia, devia bater logo esse carro e morrer’. Cheguei no trabalho e recebi um e-mail de um cara que tá consertando o meu computador: ‘achei uma foto sua pelada, sua puta. Se não der pra mim, eu vou postar pra todo mundo ver.’ Pouco antes do almoço, pingou um whatsapp, abro empolgada, mas era um pênis de um cara que eu nunca vi na vida, dizendo que ia enfiar ele todo na minha boca. Vou no Facebook ver como andam as coisas. Faço um post sobre a situação econômica do país. Um cara responde dizendo que eu devia não trepar há muito tempo, pra tá tão amarga. Sigo pro almoço e vou ler os comentários no meu blog sobre corrida e logo o primeiro diz: ‘eu sei onde você corre. Aguarde a surpresa que te farei. Só digo que você vai passar alguns dias sem correr.’ À tarde, atualizei meu perfil no LinkedIn, porque eu tô bem afim de mudar de emprego. Na sequência chega uma mensagem: ‘tá linda nessa foto. Imagina o resto. Topa um teste do sofá?’ Resolvi então postar no Twitter, dizendo que não aguentava mais tanto xingamento. Várias pessoas responderam dizendo: ‘Para de mimimi. Vaca, gorda e chata. Ninguém te lê mesmo. Aposto que não aguenta cinco minutos comigo em cima de você, sua fraca’. Resolvo rebater um deles dizendo que iria denunciá-lo. Ele responde dizendo que iria quebrar as minhas pernas. Preciso fazer alguma coisa pra me distrair. Entro em um fórum de games pedindo dica de um jogo. Um cara prontamente me responde, dizendo: ‘quer morrer? Sai logo daqui’. O dia acaba, eu volto pra casa cansada, triste e com vontade de desistir. É só mais um dia na internet.”
Todos os comentários escritos aqui a gente tirou de depoimentos reais de mulheres, montando esse texto [emocionada] difícil de ler, custei a ler, mostrando um pouquinho do que acontece no dia-a-dia dessas pessoas.

Ju: Ju, queria te perguntar a primeira coisa, quais são os tipos mais comuns de violência contra a mulher na internet? Ou, por que a internet odeia as mulheres? [risos]

Juliana: Boa pergunta. Acho que mais comuns, claro, acho que a gente pode, com certeza, ressaltar a violência sexual, né? Acho que as ameaças de estupro, comentários acerca da aparência, da vida sexual da mulher, acho que essa é a parte que mais se toca quando a gente tá falado de violência online com esse enfoque em mulher, né.

Ju: Por exemplo?

Juliana: Ameaças de estupro. Eu mesma fui vítima disso, eu recebi no começo da campanha “Chega de Fiu Fiu”, que luta conta o assédio sexual em locais públicos, a gente tá falando de uma violência contra a mulher, né? No começo da campanha, quando o assunto ainda não era muito bem entendido, quando as pessoas não sabiam ainda a diferença entre cantada e elogio, né? Então, essa tentativa de balançar o status quo fazia com que as pessoas não gostassem da campanha e vinham, muitas vezes, atrás de mim, me ameaçando de morte e de estupro, muitas vezes. Então pela minha experiência, o que eu vi ao meu redor, foi isso: falar sobre a minha aparência, apesar de eu não aparecer em nenhum momento durante a campanha, provavelmente as pessoas mal sabiam quem eu era e mesmo assim falavam sobre o meu corpo, sobre a minha orientação sexual, sobre a minha vida sexual e acho que o mais grave, ao lado das ameaças de morte, são as ameaças de estupro, né? E eu vejo isso se replicando muito, tanto é que nos próprios exemplos aí que a Cris leu tem esse fundo sexual, muitas vezes, né? Eu acho que a gente até vai entrar depois nesse debate, sobre como a internet ela é violenta para todos, né, eu entendo como um ambiente que traz muito ódio e as pessoas se sentem muito à vontade pra falar “em voz alta” sobre seus ódios e raivas loucamente, mas existe uma diferença com relação a essa violência que a mulher e o homem sofrem. Na palestra que você ouviu, né, Ju, que é isso… quando o homem sofre violência, muitas vezes é contestar o que ele sabe ou não sabe sobre determinado assunto, ele é bobo, feio, chato e não, da mulher tem essa raiz dessa violência sexual e eu sempre falo que isso é muito problemático, porque uma violência sexual, ela é muito real. Eu sempre trago um dado da ONU, que é chocante, que é: uma em cada cinco mulheres vai ser vítima de estupro ou tentativa de estupro ao longo da vida dela. Então, quando alguém faz uma ameaça de estupro, isso pode acontecer, né? É uma bomba pra explodir. A gente sabe que a qualquer momento isso pode acontecer com a gente mesmo.

Cris: Eu acho que aí tem um pouquinho dessa diferença mesmo, porque os homens, quando eles vão se xingar, né, e o cara fala: seu arrombado, sua bicha! O cara leva aquilo pra ele e fala: “isso não é comigo! Isso nunca vai acontecer comigo!”. Só que quando um homem xinga uma mulher e fala: “eu vou te estuprar”, aquilo é uma verdade. Pode ser uma verdade. Porque aquilo é muito próximo da realidade da maioria das mulheres. Então fica muito longe o que que é uma simples ameaça de uma possibilidade, de realidade. Alguém falou e cê fala… cê pára, na hora. Cê fala: “uau, isso realmente pode acontecer!” Então é muito assustador mesmo.

Ju: É, eu queria que a Gabriela falasse um pouco sobre isso da tua experiência, porque você pega os casos que chegam às vias de fato legais. Então, qual é a maioria dos casos que chega pra você?

Gabriela: Bom, todos os depoimentos que vocês leram aqui, fui vislumbrando vários crimes, várias práticas de crimes graves contra a mulher. Injúria, que xingar de feia, xingar de mocréia, xingar de… enfim, falar que você é gorda, que você não tem vida sexual, isso é uma difamação e uma injúria, que aquela pessoa tem a respeito dela mesma. O sentimento que ela tem a respeito dela mesma. Então, às vezes, pra mim, ah, vão me xingar de burra, isso pra mim pode não afetar. Mas se afetar pra Ju, por exemplo, ela tá sendo ofendida na honra dela. Então, é o crime de injúria e, se for publicamente, pode ser o crime de difamação. Essa violência que nos espaços públicos… a internet hoje em dia, é um espaço público que todo mundo tem acesso. E o que mais me deixa muito preocupada é a rapidez com que essas informações são divulgadas. Antigamente, as ameaças poderiam ir por carta, pessoalmente… hoje em dia ela vai por meios eletrônicos: por e-mail, whatsapp, facebook, instagram e outros meios de comunicação virtuais. E isso se difunde de uma forma tão rápida, que a justiça e todos os centros de investigação para combater esse tipo de crime não está[estão] aparelhada[s] da forma como deveria estar. Ou seja, o acompanhamento das investigações da justiça, do Ministério Público, não acompanhou esse avanço tecnológico da prática de crimes. E tá cada vez pior, cada vez com mais requintes de crueldade, com mais requintes de ofensas, e as mulheres, sim, estão se sentido muito ofendidas; e isso cria não só um crime como difamação, injúria, como um crime contra a saúde psicológica dessa mulher, isso é o mais importante. Essas mulheres estão ficando doentes psicologicamente, isso tá tendo um abalo muito grande na saúde dessas mulheres.

Ju: Isso é crime, você consegue configurar um crime?

Gabriela: Sim, nós conseguimos… aí, eu já vi várias condutas de crime: ameaça, várias vezes; injúria e difamação, que é o xingamento ou a exposição de fotos íntimas dessas mulheres na internet; e se isso causa um dano grave à saúde mental dessa mulher, isso é considerado um crime de lesão à saúde da mulher. É o crime de lesão corporal, artigo 129, § 9º do código penal, que foi, a pena foi agravada com a Lei Maria da Penha, que prevê que essas condutas são mais graves. Mas, por enquanto, a dificuldade de comprovar isso juridicamente é você mostrar prum promotor, prum juiz, que aquela mulher está abalada emocionalmente, psicologicamente, por conta de uma ameaça via internet, facebook, e-mails e outros meios de comunicação.

Ju: É isso que eu ia perguntar, porque a defesa não vai ser: “gente, eu não fiz nada, eu só ameacei de fazer, eu nem tava pensando realmente em fazer, foi só uma coisa que eu falei! Mesmo assim, eu posso ser responsabilizado?”

Gabriela: Claro, o ato tá consumado. A partir que um ato sai do pensamento, da consciência da pessoa, e passa pra parte prática e você chega às vias de fato, vias de fato não quer dizer “bater”. Vias de fato quer dizer a consumação daquele crime. É o pronúncio de um mal, que pode ser efetivado, isso é crime. Como disse a Ju: “Ah, eu vou te estuprar”. Isso é um crime, que ele pode ser realizado. É um mal injusto e real, que ele vai, pode ser efetivado. Então isso deixa a mulher com medo.

(Bloco 6) 51’00” – 60’59”

Ju: Já existem providências legais cabíveis pra alguém que simplesmente fizer uma ameaça, essas ameaças que a Ju recebeu, ela poderia ter denunciado e essas pessoas iam ser investigadas, enfim, processadas?

Gabriela: Sim, obviamente. A dificuldade é: pelo meio virtual, há uma grande extensão dessas mensagens, dessa ameaça. Então há uma dificuldade de saber da onde veio, quem veio, de qual provedor, qual foi a pessoa… às vezes criam-se perfis falsos pra ameaçar, intimidar mulheres, denegrir a honra e a imagem dessas mulheres. Então há uma dificuldade grande de identificar o autor dos fatos. Mas nós estamos caminhando na efetividade desse tipo de investigação e punição, que tanto agrava aí, a liberdade sexual, e liberdade de expressão de nós, mulheres. Isso nós não podemos admitir.

Cris: Tem uma questão, eu queria colocar aqui pra vocês, sobre percepção do que que é violência. Porque eu acho que, muitas vezes, a gente entende como violência a física. Então, bateu, tá com olho roxo, cê fala: ela foi agredida. A gente não consegue determinar claramente, de repente, desenvolveu-se uma depressão, a pessoa realmente tá doente por causa de uma série de problemas ao[s] qual[is] ela foi exposta, xingamento, humilhação, exposição, então eu queria que a gente falasse um pouquinho sobre isso. Escutei a Ju falando outro dia um termo do micromachismo, não micro no sentido de menos grave, mas aquele menos perceptível. Então eu queria que a gente falasse um pouquinho sobre isso, porque eu acho importante pra quem tá ouvindo saber se tá cometendo, por ignorância, pra quem tá ouvindo saber que foi exposto e nem percebeu. Eu acho que é importante esse alerta, o que que é violência?

Juliana: Bom, eu acho que até vou voltar um pouquinho na discussão, porque, por exemplo, quando a Ju fala: “Pô, mas… alguém fala, ‘ah, mas eu só falei algo pela internet…’”, já existe uma diferença aí. Eu sempre faço essa comparação: se existisse uma loja física do Twitter e eu estivesse lá e um homem insatisfeito com a campanha “Chega de Fiu Fiu” virasse pra mim, começasse a gritar na minha cara, me ameaçar, apontando o dedo na minha cara… isso já se con[figura], facilmente, até mesmo os próprios funcionários dessa loja física do Twitter identificariam isso facilmente como uma violência, as pessoas ao redor também; porque isso tá acontecendo no mundo offline. Só que no mundo online é praticamente a mesma coisa. A gente tá dentro duma “loja” do Twitter, né? E quando acontece lá, muitas vezes a gente acha que não tem essa mesma gravidade, porque tá acontecendo no mundo online. Muitas vezes as pessoas falam: “ah, mas é porque não é no mundo real.” E aí eu tento trazer a discussão pra falar que é o mundo real. A gente não tem mais que fazer essa discussão entre “ah, o online não é real”. Tudo é real! O offline, o online, é vida real. Porque você não consegue mais sair do online, né? Eu preciso do meu e-mail pra trabalhar, eu preciso estar no facebook pra trabalhar, nas outras redes sociais também. É como eu me conecto com as pessoas que eu gosto…

Cris: [interrompe] É, eu gosto disso, porque… todo mundo já deve ter visto algum pedido de casamento online. Aquele casamento aconteceu, o pedido aconteceu. E depois as pessoas se casaram. Por que que quando você tá ofendendo online ele é menos verdadeiro? Então acho que não, é isso aí mesmo que cê tá falando, a gente vive essa dicotomia, é tudo uma coisa só.

Juliana: Perfeito. E também acaba jogando pra mulher, pra que ela tome uma solução, ela encontre uma solução pra isso, né. Então: “Ah, se você sofre ameaças pelo facebook, fechar seu facebook, qual que é o problema?” “Ah, sai do Twitter, sai do Instagram!” É injusto você pedir pra alguém que saia desse ambiente, que é um ambiente que faz parte da nossa vida já, não tem mais como você…

Ju: [interrompe] Ah, é a mesma coisa que dizer assim: “gente, cê tá sendo… foi estuprada porque saiu de casa! Era só ter ficado em casa que isso não aconteceria!” [Juliana: Perfeito!] Então assim, cê não pode segregar a mulher nos espaços públicos – e a internet é um dos espaços públicos de encontro das pessoas. Então assim, se antes você não podia ir pra praça, agora você não pode ir pra internet. Então assim, segregar a mulher, tornar o ambiente tóxico e não seguro para a mulher é a mesma coisa que a gente já fazia nas ruas. Então, dali a pouco, é a mesma coisa o Chega de Fiu Fiu e o combate à violência na internet, não tem uma diferença muito grande entre uma coisa e a outra, né? Tem a ver com permitir a presença de mulher em espaços públicos.

Juliana: Exatamente. Eu entendo, como a Gabi muito bem falou e vocês falaram também, eu enxergo a internet como um espaço público. E é isso: a mulher é entendida como esse ser doméstico, que tem que ficar em casa. Quando ela sai pra rua, quando ela vai pra internet, então você está abrindo a porteira pra receber esse tipo de violência, esse tipo de abordagem, é essa a sensação que eu tenho.

Gabriela: Só queria complementar com dois exemplos pra vocês verem como nós estamos falando que a vida, realmente, que a vida online é uma extensão da nossa vida real: num caso em que nós tivemos um estupro, eu tava à frente, com o promotor e o advogado de defesa, a moça tinha saído da balada, tava no ponto de ônibus, e parou um carro, enfiou ela dentro do carro, ela foi estuprada e largada depois de duas horas em algum lugar. E a defesa falava o seguinte: mas isso é hora de uma mulher estar [Ju: Ai, jesus, não!!] depois da balada no ponto de ônibus? Eu olhei pra cara dele e falei: Doutor, eu não vou ouvir o comentário do senhor. Colocando a culpa na vítima de uma situação de um estupro, de um caso grave! E outro dia eu também coloquei no facebook: “Ah, acabei de fazer um caso de violência contra a mulher em que a menina colocou uma foto na internet e isso disparou aí pra mais de cem milhões de visualizações, essa menina está abalada, está falando que vai se suicidar e eu vi vários comentários ‘quem mandou ela postar essa foto?’”. Então tanto no ambiente público – rua – quanto no ambiente público – online – nós temos a culpabilização da vítima. E isso não tá certo. Quem tem que verificar as condutas que foram feitas são as pessoas que cometeram o crime contra essas mulheres. Tanto na internet, quanto na via pública.

Ju: É, então, o que eu acho interessante sobre essas entrevistas que a gente colocou pra introduzir trazem, é que elas mostram o seguinte: que a raiz de todos esses problemas, que são problemas, por exemplo, como você falou, do estupro, que são, “na vida real”, ela tá na desvalorização, na desumanização da mulher. Então se ela vale menos, o que você fizer com ela não tem problema, não tem valor, ok. E aí o Sérgio consegue colocar brilhantemente como o link disso é: nas suas pequenas atitudes, se você desrespeita, se você desqualifica uma mulher, você já… ali nasceu a ação da violência. Então por isso que ele fala que é tão importante você prestar atenção pra esses crimes digitais, porque você para a escalada de violência antes que uma coisa pior física aconteça. Né, então, eu acho que esse link entre o que acontece no offline e no online também é importante, porque as coisas não acontecem no vácuo, né? Então assim, é uma série, uma cadeia de fatos que levam até a consumação do ato. Então assim, não colocando ordem de grandeza de menos importante, ou crime menor e tal, mas é simplesmente entender que, se você agir nesse crime, talvez você evite crimes maiores também.

Cris: Eu acho isso super importante, porque muitas vezes a gente fala assim:
“Cê tá louco, eu chamei a menina de mocréia, cê tá querendo dizer que eu tô compactuando com ela ter sido estuprada?” E é esse link, que eu acho, tanto o Sérgio, quanto a diretora do filme, quanto a gente tá falando assim: você não fez, mas você cria um ambiente propício para validar aquela ação. Parece que não é tão grave assim. E eu já vi muitas pessoas falando: “não viaja. Sabe? Eu falar uma coisa na internet é uma coisa, eu não sou a favor, eu acho que o cara tem que ir preso, o que ele fez foi errado, foi um crime…”
“Mas o que você fez também foi.”
“Não, eu não. Eu xinguei.”

Juliana: Isso é a cultura do estupro, né? Que são ações pequenas que vão alimentando outras, até chegar numa maior, numa violência como a mostrada no “Filha da Índia”. É um caso super midiático, que todo mundo fica absolutamente chocado com o que aconteceu, mas a raiz é algo que parece “simples”. Ah, uma mulher que não pode caminhar pela rua à noite.

Ju: Então, mas a gente sai desse filme com um ódio da Índia, né? Pensando “que nojo”. E a pessoa mais odiosa não são os estupradores, é o advogado, é a pessoa mais odiosa do filme, e aí a Gabi tá trazendo um caso no Brasil, gente, por favor, isso tá acabando comigo!

Gabriela: Eu vou mais além: [Ju: Não! Para, que eu tô tapando o ouvido! Eu não quero mais saber!] Eu assisti o filme, na hora eu fiquei muito arrepiada. Porque não está distante da nossa realidade brasileira. Eu acompanhei por oito anos o caso de um estuprador que depois matou uma moça que é um caso famoso, midiático, enfim, e pra nós, do meio jurídico, é um caso que chama muita atenção, pelas ações que ocorreram durante o tempo do crime e também pela idade do autor do fato. Ele era menor à época dos fatos, ele continuou segregado da sociedade após os fatos, que é o caso do Champinha. Aconteceu a mesma coisa, a menina foi sequestrada, o casal de namorados foram [foi] sequestrados, ele foi morto, a menina foi violentada por dois ou três dias e depois foi morta. E assim: é brutal. É brutal. Não é distante da realidade da Índia.

(Bloco 7) 61’00” – 70’59”

Cris: É, e assim, eu queria fazer esse ponto aqui muito claro pra quem tá ouvindo a gente. Porque se não ficou claro até agora, a amarração é a seguinte: se você xinga uma mulher, se você expõe e humilha uma mulher na internet, você tá colaborando pra uma cultura que chega às vias de fato na rua, numa violência física. Cê tá praticando uma violência emocional, que tá perpetuando uma cultura que leva à violência física. É crime e você é responsável por isso. Acho muito importante a gente deixar isso aqui muito claro.

Ju: Aproveitando esse gancho que a Gabi falou, eu acho importante a gente parar pra pensar sobre o que que motiva esses crimes, que acho que a Ju na palestra fala bastante sobre isso. Por que que eles acontecem? Da onde vêm, sabe?

Juliana: Exatamente o que eu ia, até, complementar, que a Cris tava falando: a base é o machismo, mas acho que também vale a gente falar sobre a desumanização das mulheres como a Ju tinha comentado comigo aqui no começo da nossa conversa. [Eu] Tava dando uma palestra sobre a Chega de Fiu Fiu, falando sobre assédio sexual pra um grupo de estudantes, acho que do segundo ano, e no fim da palestra um menino, um estudante, levantou a mão e falou: “Ah, tá, cê tá falando de assédio, mas será que a gente não tem coisas mais importantes pra debater, como, por exemplo, pessoas morrendo de fome pelo mundo?”. E aí a gente começou uma discussão sobre… poxa, o que você não entende é que tudo isso está interligado justamente por essa desumanização da pessoa, né? Cê tira a humanidade do ser humano e isso permite que você assedie na rua, pegue uma mulher no ônibus e bala nela até morrer e estupre coletivamente, ou até mesmo deixe alguém morrer de fome, né? É por aí. E eu acho assim: o crime na internet é isso, né? Tem duas coisas que a gente pode salientar. 1) essa desumanização em geral, porque você não sabe com quem você tá falando, né, é só um avatar, é um nome qualquer ali, então você não tem essa relação humana mesmo, né? Essa relação calorosa, de empatia, é um nada, cê tá falando com um nada ali. Tanto é que, às vezes, quando eu recebo comentários ou tweets que são mais agressivos e eu respondo de volta tentando estabelecer uma conversa, a pessoa às vezes me responde falando: “Não sabia que cê ia ler, desculpa! Não, tá ótimo, não era bem isso que eu queria dizer.” Então, você estabelece ali um toque humano e a pessoa já volta atrás, né? Mas aí não podemos esquecer de fazer este recorte, de minorias, então a gente tá falando de gênero aqui, mas vale a gente também lembrar, né, racial, de classe, que é mais ainda desumanizado, porque as mulheres, elas já tão ali na internet com todo o histórico de serem objetificadas, de serem hiperssexualizadas, de você olhar uma campanha qualquer publicitária, muitas vezes elas valem menos que um criado-mudo, porque elas tão ali só pra segurar coisas. Então, se é um objeto que vale menos que um criado-mudo, é muito fácil você xingar, bater, ameaçar. Não tem esse valor, né?

Gabriela: É, só pra complementar, Ju, pro nosso mundo jurídico, isso que vocês tão falando é a banalização dos crimes contra as mulheres. Então quando ela fala que a pessoa fala: “Ah, vai falar de assédio, mas tem coisa mais grave, tem pessoas morrendo”. Quando uma mulher chega numa delegacia pra dar um depoimento de que ela foi ameaçada, agredida, xingada: “ah, espera um pouquinho, que agora nós temos coisas mais graves pra ver, tem um roubo, tem um furto, tem um tráfico, tem uma morte…” E aquele crime contra a mulher, ele vai sendo banalizado. E isso desmotiva a mulher em denunciar e ela acaba acreditando: “Ah, é assim mesmo, então eu não vou denunciar.” Então ela acaba aceitando essa conduta como… [Ju: Como fatos da vida] É, exatamente. E isso é muito grave. E outra coisa que eu também queria falar é o seguinte: essa prática, que a Ju falou, do crime… parece que o crime cometido pela internet tem um filtro entre a pessoa ser presa em flagrante, ela não vai ser presa em flagrante, porque até identificarem quem é e fazerem a prisão em flagrante dessa pessoa, parece que ele tem um tempo pra fugir, ou pra se esconder, ou pra desmascarar a conduta dele, enfim. Então isso fortalece a parte do agressor, do abusador, do criminoso e meio que dá uma autenticidade pra prática do crime, sendo que ele não vai ser pego naquele momento, vai demorar. Então isso também acaba dando um pouco mais de força pro cometimento desses crimes via internet.

Cris: Tem algum caso que você possa compartilhar com a gente sobre a reação de uma pessoa que cometeu um crime pela internet e ela chegou e você teve contato com ela, qual que foi a reação dessa pessoa ao saber que ela tava sendo punida ou processada, qualquer coisa nesse sentido, por uma coisa que ela falou online?

Gabriela: Eu peguei muitos casos daqueles top ten, daquelas meninas na escola, que eles pegam fotos dos perfis de facebook, de whatsapp, e colocam assim: “ah, essa boquete nota dez”; “essa, vira de costas, é um furacão”. Enfim. Vários casos que colocam essas meninas numa situação de constrangimento. Num primeiro momento, elas não se assustam tanto, mas a partir do momento em que aquela imagem denegrindo a figura delas como mulher, como adolescentes, [Ju: Como pessoa, né? Como ser humano] como pessoa, a dignidade da pessoa humana é divulgada pra escola inteira, elas não seguram a onda. E aí começa a preocupação, elas se escondem, elas não vão pra escola, elas ficam deprimidas, algumas se auto lesionam, outras tentam o suicídio. Enfim, é um dano moral muito grande. A Cris falou da diferença entre o dano físico e o dano moral psicológico; às vezes, Cris, a violência física deixa marcas, mas a psicológica não deixa marcas aparentes, mas ela é muito mais difícil de ser digerida pela vítima, do que a violência física. Ela deixa marcas na alma, o que é irreparável, via de regra. Então são fatos muito graves. E quando nós chamamos os meninos na promotoria de justiça pra falar: “olha, tá acontecendo isso”, eles não assumem a responsabilidade, porque eles sabem dessa dificuldade de saber de onde veio. E aí eu sempre falo: o crime é cometido por quem faz a transmissão e por quem compartilha, como cúmplices. Então isso é importante eles saberem, que respondem criminalmente por todas as condutas de quem expôs – fez a exposição da foto, ou a montagem e fez o primeiro post – e daqueles que retransmitem pra outras pessoas. Eu sempre falo: “Se você recebe uma foto de uma pessoa nua, denegrindo a imagem de uma mulher, não compartilha essa imagem, porque você vai colaborar pra cultura do estupro, que a Ju falou, e você vai colaborar pra prática de crimes gravíssimos e de difícil reparação.”

Cris: Eu acho que hoje teve um caso, né? Vazou uma foto do ator Stênio Garcia com a esposa dele, uma foto totalmente íntima, e eu acho que é muito clássico a gente falar sobre a reação dos dois; porque ele falou: “tô pelado mesmo, já fiquei pelado no teatro, no cinema, que que cês tão achando ruim? Super normal…”. Ela virou e falou: “É um absurdo invadirem a minha intimidade, eu tô me sentindo humilhada, ultrajada” e um negócio que até virou meme, ela falou: “quero acabar com a internet!”. Era uma pessoa muito frustrada falando ali. Então a própria reação – a diferença da reação que os dois tiveram – tem tudo a ver sobre como ele foi quase um troféu, né? Porque eu até ouvi: “cara, ele tem 80 anos, olha como ele tá bem”, né? E pra ela foi um vexame, pra ele foi um troféu. Então é muito diferente tratar vazamento de… eu achei ruim porque ele minimizou o que aconteceu. Cê concorda, Ju?

Juliana: Concordo. Bom, acho que dá pra ver como a sociedade tem esses, essas duas medidas aí, né? Então tem “a glamourização do pênis, quero mostrar”, né? Tá ali, né, pra todo mundo ver, não tem problema, eu sou isso mesmo, esse é meu pau, meu corpo”. É o que a gente ja faz, né? Nasceu menino, já tá lá mostrando, né? “Ah, que tem pinto grande, não sei o quê.” Mulher, não. A gente tá aqui num podcast chamado “Mamilos”, por quê? Porque é polêmico. A gente não pode colocar uma foto nas nossas redes sociais do nosso próprio corpo, o corpo feminino, né? Ele tá ali relacionado à vergonha, à putaria, à polêmica, né? Então, isso…

Ju: [Interrompe] Ou ao pudor, à castidade, ao que deve ser, como aquele nojento do advogado lá do filme falou: “tem que ser guardado”, “tem que ser protegido”, né?

Juliana: Tem que ser protegido e, a partir do momento em que você mostrar um centímetro dele, ele já não tá mais protegido, você faz o que cê quiser com ele. O feminino, né, a gente tá falando. Então, claro, é por isso que são dois comportamentos diferentes, né? E provavelmente, por isso que ele não… não consegue nem compreender por que que a mulher dele se sente assim, não sei? Tô fazendo um questionamento, né?

Cris: É a diferença da declaração de cada um, né?

Juliana: Exatamente, é, então, claro, você acaba minimizando, né? Porque, pra ela, as consequências são muito maiores, né? Infelizmente, é o que acontece, por tudo isso que eu já falei, né? Posso aproveitar e dar um exemplo também sobre criminosos quando são pegos, né? Quem me contou essa história foi a Nana Queiroz, jornalista e criadora do movimento “Não Mereço Ser Estuprada” – Beijo, Nana!

Cris: Que delícia fazer isso, né? “Beijo, Nana!”

Juliana: É! [risos] Beijo, Nana! Quando ela começou a campanha, ela também… foi uma coisa muito rápida, então ela fez um evento no facebook, em 24 horas já tinha um milhão de pessoas atendendo o evento, muitos haters e trolls também. Então ela também começou a receber um monte de ameaças e a coisa foi uma loucura, porque de repente as pessoas tavam fazendo eventos no facebook pra não só estuprar ela, mas a mãe dela, o marido dela, umas coisas realmente absurdas. Ela pegou, imprimiu todas as ameaças que ela conseguiu e levou pra Polícia Federal. E de todas as milhares de ameaças que ela tinha recebido, conseguiram achar três. Três autores, né. Acho que dois eram menores de idade e um era maior de idade. Esse maior de idade tinha escrito pra ela algo como: “prepara o Hipoglos essa noite porque eu vou foder sua bunda com tanta força que minhas bolas vão sair pela sua boca.” Quando pegaram, [Cris: [irônica] Que gentil!] que gentil, um amor, que pessoa, né! Que ser humano! Quando pegaram ele e levaram pra questionamento, a primeira coisa que ele falou foi: “Mas como assim, ela não tem bom humor? Ela não conseguiu entender que eu tava só brincando?”

Ju: “Ela não tem bom humor.” Je-sus. O conceito de humor, né?

Juliana: Tem que rever!

(Bloco 8) 71‘00” – 80‘59”

Gabriela: Só falta falar que ela tava precisando: “vai ver que ela se identificou e se sentiu ofendida”, enfim.

Cris: Se alguém me pegasse fazendo coisa errada, eu ia ficar com muito medo. E, pelo que vocês tão falando, não tem tipo: “Meu! A casa caiu, descobriram que fui eu!” Pelo que vocês tão falando, geralmente o cara… ou ele minimiza, ou ele fala: “Nah! Vai, não tô acreditando que eu tô aqui pra responder sobre isso!” É por aí mesmo?

Gabriela: Não, eles não assumem a responsabilidade e eles tentam sempre falar que foi outra pessoa, que isso foi de outro computador, não foi o dele. Porque é muito difícil você comprovar que aquela pessoa, com as mãos dela, foi ela que fez, foi ela que digitou. Então existe toda essa parte de investigação mesmo, pra conseguir apurar quem que é. E eles sempre jogam a bomba pra outro lado e falam que não. Nossa, a Ju adoraria ter sido promotora desse caso!

[Risos de todas]

Ju: É… Uma coisa que precisa ser falada, já que a gente tá falando sobre isso, é sobre o perfil desses agressores. Porque, quando você vê uma pessoa falar uma coisa dessas – e eu lembro que isso foi uma coisa que eu achei muito interessante da tua palestra – o raciocínio óbvio que nos tira da linha de frente é: “ah, mas isso é um doente mental, né? Um cara que escreve isso pruma mulher [Cris: Não é normal, né?] é um doente mental, assim, não sou eu, né? Não é meu irmão, meu pai, meu primo, meu melhor amigo, é um cara que, tipo… aquele louco que fica babando na rua, sabe, não é uma pessoa normal.” Quem são esses caras, Ju?

Juliana: Esses caras são os nossos homens. São os homens da nossa sociedade.

Ju: [Interrompe] Da nossa vida, né?

Juliana: Da noss vida, inclusive no debate com a Lesley, durante o “Filha da Índia”, o “India’s Daughter”, acho que foi exatamente ela que falou, né? “Eles são os nossos homens! Eles não são pessoas fora da sociedade. Participam da nossa sociedade, eles têm trabalhos fixos e famílias e filhos e filhas e amigos”. Eu faço muito essa comparação, também, com assédio, vou de novo voltar pro Chega de Fiu Fiu, mas muitas vezes os homens que cometem os machismos, o assédio, essa violência online, tem PhD, são super engraçados, são gentis, são queridos, [Ju: São nerds…] são nerds, são pessoas do nosso dia a dia. E a gente precisa quebrar com esse estigma de que são pessoas loucas, porque senão a gente também tá: “Ah, é um louco. Então vou colocar ele fora da sociedade.” Não, não dá, né? A gente tem que resolver o que tá acontecendo, a gente como sociedade, que é o machismo que tá naturalizado, né?

Cris: Como brincadeira.

Ju: Não, é que eu acho que seria mais fácil se fosse o louco, entendeu? Porque o louco cê põe no sanatório, pronto, cabou. O problema não tá em você, né?

Juliana: Exato, se você for por no sanatório todas as pessoas que são machistas e que fazem algum tipo de violência online, então… meu deus do céu, né? Acho que a gente vai tá todo mundo vivendo dentro desse sanatório, né?

Cris: Eu vi recentemente uma experiência na internet muito interessante, uma moça russa que foi muito atacada, não sei qual foi o trabalho que ela fez, o que que ela falou, ela foi extremamente atacada; e ela é hacker. Ela foi achando as pessoas! Então, que que ela fez: ela postava a foto da pessoa que atacou e do lado o que a pessoa escreveu. Então tá lá o cara fazendo um churrasco com os amigos e do lado uma coisa horripilante que o cara escreveu. Do nível que você falou pra Nana. Na outra tava ele com a namorada, o perfil dele é a foto do casamento dele; e do lado outra coisa que te embrulha o estômago. Então assim, eu acho que o trabalho que ela fez foi muito legal, de mostrar que são pessoas normais que se sentem protegidas porque estão na internet, porque estão com um avatar. A gente tá indo pra esses casos muito concretos de violência, que tá claro que aquilo é uma violência, que foi o que cê falou, que a Nana ouviu, que tipo: “meu deus, né? Violência elaborada!” E a gente vê hoje um ciclo de pessoas falando pra muitas pessoas na internet. Eu acho legal a gente falar sobre essa responsabilidade do que cê tá falando; também de não minimizar; e de não compactuar com as “brincadeiras” sobre a responsabilidade disso, sabe? De não só não falar, como também não validar.

Gabriela: É, eu tô aqui pensando… a gente faz esse trabalho com o autor de violência contra a mulher, com o Sérgio Barbosa – Oi, Sérgio! Um beijo! – Viu, Ju, te copiei?

Ju: E ele vai ouvir, óbvio.

Gabriela: Lógico, né, porque acho que… senão depois a gente vai colocar ele no curso do autor de violêcia, porque eu vou me sentir psicologicamente violentada. [risos] Mas o que nós percebemos, e isso… a gente debateu muito esse assunto hoje, porque nós recebemos um palestrante norte-americano, que ele veio falar sobre o trabalho que ele desenvolve com os homens autores de violência em Nova Iorque, que é o Quentin Alcott, que ele é bárbaro. Achei muito bacana. E ele foi conhecer o trabalho in loco que a gente faz com os autores de violência. Uma coisa que nós percebemos é que os perfis dos homens que estão tanto aqui, quanto nos Estados Unidos, quanto na Bolívia, que ele também faz um curso lá, ou na África, enfim, os perfis são iguais. E quais são? Pessoas normais. Pais de família, pessoas que têm trabalho, que têm estrutura familiar, que praticam esporte, que têm uma vida social; não são pessoas marginalizadas da sociedade. Isso não quer dizer que eles não possam também cometer outros tipos de crime, mas os crimes de violência contra a mulher são perfis de homens normais, [Ju: Funcionais.] que não são psicopatas, não são loucos, e que têm o quê? Uma explosão de reação violenta. Essa violência pode ser tanto física, no corpo-a-corpo, na cara-a-cara, quanto uma violência virtual. Isso vem da[e] onde? Do tratamento, como a Lesley do filme falou muito bem falado, que os homens, desde que eles nascem, são colocados numa posição de superioridade do que as mulheres. A comida deles às vezes é diferente (ah, é tudo pro homem e nada pra mulher), a menina que arruma tudo e o menino fica assistindo televisão, então ele vai crescer com aquele comportamento de que ele é mais importante do que a mulher, do que a menina. E ele não vai respeitar mulher quando ele for mais velho. Então isso são comportamentos que vão se reproduzindo e se ele tem uma reação mais violenta, que pode ser do íntimo dele, isso vai refletir, a consequência vai ser um ato de violência contra essas mulheres: tanto virtual, quanto físico, quanto psicológico, quanto sexual, patrimonial, enfim. Essa é uma realidade que nós estamos vivendo.

Juliana: Eu até queria complementar, é que… é exatamente o que a Gabi falou, mas… Cris, cê tinha falado: “ah, porque muitas vezes quem comete essa violência se sente protegido pelo anonimato” e às vezes, eu venho refletindo esses dias, por causa de um caso que eu escutei, de uma policial militar que veio me escrever falando que mesmo ela fardada, durante o carnaval, em Salvador, ela é assediada por homens, inclusive assédio físico. [Cris: Nossa!] Muitas vezes, essas pessoas que cometem a violência, esses homens não só se sentem protegidos pelo anonimato, mas tamém protegidos pela diferença de gênero, né, por esse gap.

Ju: [Interrompe] Pela validação da sociedade, né? Porque ele não vai ser o escroto se ele falar, se ele assobiar pra policial que tá lá trabalhando; ele não vai ser o escroto se ele passar a mão nela enquanto ela tá trabalhando. As pessoas vão olhar com benevolência, né, minimizando o problema.

Juliana: Perfeito, inclusive a violência também, que a gente acabou não citando aqui, mas a violência desse assédio online, também, né? Então, por exemplo, a Paula, ela era repórter acho que da Info, e ela fazia vídeos de tecnologia e além de contestarem também o conhecimento dela com relação à tecnologia, muita gente escrevia pra falar: “peitos lindos nesse vídeo”; “que decote maravilhoso”. Também é um tipo de violência, que as pessoas muitas vezes nem compreendem que é, né? Então…

Ju: [Interrompe] Por que isso é uma violência e não um elogio?

Juliana: [Risos] Porque… Ai, meu deus… eu acho que é a mesma coisa do assédio em locais públicos, né? Acho que esse tipo de aproximação, ela precisa ter um tipo de consentimento, né? Eu acho que é exatamente o paralelo que a gente pode fazer com a “Chega de Fiu Fiu” e o assédio em local público: você não tá esperando ali um comentário sobre seu corpo, né? A gente costuma achar que isso é um elogio, porque já tá naturalizado pra gente que nós, mulheres, só vamos ter nossa auto-estima quando ela é validada por um terceiro. Então quando o terceiro entra no seu e-mail, que é um local privado, em que você deveria se sentir segura ali, pra receber mensagens sexualizadas num momento em que você não quer, que você não deu permissão pra isso, [Ju: que não requisitou] que não requisitou, isso não faz sentido, né? É a mesma coisa que você receber fotos sem pedir de pênis. Às vezes eu quero receber, mas no momento apropriado, de uma pessoa específica; não quero ter meu celular aberto pra que qualquer pessoa me mande fotos não requisitadas de pênis ou comentários sexualizados sobre meu corpo. E acho que é mais ou menos isso: essa ideia de que, como somos objetificadas como mulheres e há uma imagem hiperssexualizada que é sempre reproduzida, ok, ok falar do seu peito, da sua bunda… mas não é ok, né?

Cris: Eu acho que, de novo, levando pra vida na rua: se você tá tabalhando e chega alguém e fala: “lindos peitos, hein?”. Cê vai pro outro lado, cê fala: “o que tá acontecendo?”. Cê se sente extremamente ameaçada e sai dali o mais rápido possível. É o que nós fazemos!

Ju: Gente, mas tá muito depressivo isso, porque o inimigo é grande demais. Quando você coloca o alvo em um grupo de pessoas, tá fácil: vamos eliminar essas pessoas. Mas quando o agressor é a sociedade, é a cultura que a gente vive, fica muito difícil, porque, primeiro, é uma coisa muito grande contra mim e segundo, parece que eu não vou conseguir fazer nada. Então, eu queria, pra encerrar, que a gente conversasse sobre o que que a gente pode fazer pra nos defender.

Cris: Tragam caminhos!

Ju: Então, Gabi, primeiro os caminhos legais.

(Bloco 9) 81’00” – 90’59”

Gabriela: Bom, na parte dessa sociedade, dessa cultura machista que a gente tá falando com homem, com agressor de mulheres, de violência contra a mulher, eu comecei a desenvolver um trabalho, inclusive o Sergio Barbosa é meu parceiro nisso, de falar com esses homens. Porque atrás de uma mulher agredida, de qualquer forma: virtualmente, fisicamente, psicologicamente, há um homem que agride e é com eles que a gente quer falar. Então, trazer esses homens pra debate, pra rodas de conversa e também como uma obrigatoriedade daqueles homens que estão respondendo a processos de violência contra a mulher, pra que nós possamos falar com eles sobre machismo, desconstrução desse machismo, falar o que é a lei, o que que é crime, o que ele pode e não pode fazer, mostrar pra ele como a mulher se sente em casos de violência e trazer uma responsabilização pra ele assumir aquilo que ele fez, entender que aquilo não é legal e trazer um arrependimento e uma transformação desse comportamento dele. Todo mundo pode falar que isso é utopia, “ah, é aquela questão de paixão à causa”, como eu sou apaixonada pela causa, mas não é, gente. Isso tá dando resultado. Nós trabalhamos com trinta homens ano passado e nenhum voltou a reincidir. Isso impede que eles continuem com essas agressões cada vez ficando mais graves. Nós conseguimos romper o ciclo da violência do lado do homem. O outro caminho que eu acho imprescindível é a denúncia. A mulher, ela tem que denunciar, ainda que ela não queira a prisão do homem, “porque é meu marido”, “porque é meu ex-namorado”, ou “porque eu não quero prejudicar ninguém”, essa mulher, ela tem que levar a conhecimento público o que tá acontecendo com ela; não só pra nós criarmos as estatísticas – e pedirmos mais recursos públicos com o alto número de violência contra a mulher – como também pra proteger essa mulher. Tanto pela parte jurídica, de medidas protetivas, de prisão, quanto também da parte da rede protetiva de direitos da mulher: verificar se ela precisa de um apoio psicológico; de um tratamento de saúde física, inclusive; se ela precisa de um local pra ela morar temporariamente; se ela precisa colocar filhos em creche; ser colocada no mercado de trabalho, isso é muito importante, essa autonomia da mulher.

Ju: Mas existe essa rede? É importante cê falar.

Gabriela: Existe, existe muito essa rede!

Ju: Porque assim, muitas mulheres apanham porque existe uma violência econômica por trás: “eu vou te deixar e você não vai ter como sustentar teus filhos e eu vou tirar os filhos de você.”

Gabriela: Trinta por cento são esses casos das mulheres que não denunciam ou que pedem pra retirar a queixa: ou elas têm pena, ou elas têm medo, ou elas dependem psicologicamente, amam loucamente aquela pessoa, ou elas dependem economicamente. Nesses casos, ela precisa denunciar, pra que nós tenhamos ciência do que tá acontecendo com ela e darmos esse apoio. Hoje tem muitas ONGs, associações, entidades públicas que dão apoio à essa mulher. Muitas organizações, movimentos de mulheres que estão apoiando as vítimas de violência. Isso é muito importante, porque só sabendo o que tá acontecendo é que nós vamos conseguir dar esse apoio pra essa mulher. Denunciem! É sempre a melhor saída. Acreditem na justiça também. E a outra parte que eu falo é sobre a violência na internet. Existem dois crimes que nós temos que fazer a diferenciação aqui. Como a Cris falou do caso hoje do Stênio Garcia, vou trazer esse como exemplo. Aquele crime cibernético, virtual, que é cometido quando o criminoso não tinha acesso legal às fotos íntimas dessa vítima, que essas fotos estão arquivadas em computador, ou é enviada por e-mail ou por algum meio eletrônico e que um hacker, por exemplo, tem acesso a essas fotos, ele publica ilegalmente, isso é o crime que se aplica a lei Carolina Dieckmann, que foi feita essa lei por conta do caso dela. Já é tipificado, ou seja, já é considerado um crime grave e tem uma lei própria pra isso. Mas quando há a postagem de fotografias, de imagens íntimas, ou de qualquer tipo de ofensa contra a mulher, por exemplo, aquele cyberbullying, em que a pessoa que postou tinha acesso legal às fotos, por exemplo: ex-namorado, ex-marido, ou alguma pessoa que ela tá tendo algum relacionamento íntimo, ainda não há um crime próprio pra esse tipo de conduta. Ou seja, o direito penal ainda não se evoluiu junto com a tecnologia e há essa lacuna na lei, infelizmente. Esses crimes hoje em dia são tidos como injúria, difamação, são crimes promovidos por ação penal privada, ou seja, não é o promotor de justiça que ajuíza ação penal, é a própria vítima que tem que contratar um advogado e entrar com uma queixa-crime no prazo de seis meses, ou seja, tecnicamente é até difícil de entender, e muitas mulheres que não têm dinheiro pra contratar um advogado ficam aí no vácuo, ficam lidando, infelizmente, com a impunidade, o que desmotiva essas mulheres. E aí hoje nós temos, que é uma boa saída, nós temos alguns projetos de lei tramitando no Congresso Nacional que vai [vão] criminalizar esse tipo de conduta. Então é uma lei a favor das mulheres, deve ser aprovada rapidamente, porque esses crimes estão crescendo e nós precisamos combatê-los.

Ju: Ju, e na parte cultural, o que que a gente pode fazer?

Juliana: Então, eu tenho uma boa e uma má notícia. [risos] A má é que eu não tenho nenhuma solução que vá arrumar a casa de hoje pra amanhã, óbvio!

Cris: Não acreditamos em mágica nesse programa!

Juliana: Nem em magia, nem feitiçaria…

Cris: Não! A gente acredita em trabalho árduo!

Juliana: Exato! Então, a boa, na verdade, Ju, é porque… cê falou: “ah, é um tema muito pesado e deprimente” e, na verdade, eu acho que eu sou muito mais otimista, eu já vejo a gente sentando aqui pra falar sobre esse assunto já como uma grande vitória. Eu até tava pesquisando aqui, não sei se vocês se lembram, em 2002 vazaram imagens de uma festa na Fundação Getúlio Vargas, que era uma festa chamada Giovana e que alguns alunos se encontravam num cafofo pra fazer sexo, pra transar, e depois as imagens acabaram vazando, né. E como, naquela época, 2002, não faz tanto tempo, e mesmo assim o debate em relação ao que tinha acontecido não era tão rico, tão profundo como é hoje, né. Então foi muito rápido como essa conversa veio, se aprofundou. Esse amadurecimento da gente. [Ju: Evoluiu] É, evoluiu, esse amadurecimento como sociedade. Até tem uma matéria aqui que eu tava lendo, vou ler uns trechos pra vocês verem:
“De acordo com o relato de um estudante, uma das meninas flagradas numa ação mais que caliente teria apenas 16 anos. O namorado – que não era seu acompanhante nas fotos – recebeu as imagens e, enfurecido, enviou-as ao pai da garota como vingança.”
Sem nenhum questionamento, não fala o que é um revenge porn, não coloca nem o…

Cris: [Interrompe] “Caliente!” Rolou um crime e o cara usou a palavra caliente na matéria!

Juliana: Exatamente! Nenhum recorte aí de questão de gênero, de violência sexual, nada, né. Então, pô, eu acho que a transformação vem de falar a respeito, da gente se conscientizar como? Denunciando e não tô falando de grandes denúncias, às vezes pode não chegar no âmbito jurídico – espero que chegue – mas às vezes um post no seu facebook, um textão, como a gente fala, que é compartilhado de forma tão rápida, já ajuda. Eu vi isso muito com a Chega de Fiu Fiu, é bater ali no prego muitas vezes até ele afundar e acho que essa é a parte importante. A gente tá falando sobre isso e falando de forma direta e tentando falar com o máximo de pessoas possíveis, de maneira também que não seja só para um pequeno grupo. Então também, poxa, a gente tá num podcast, que é super popular, falando sobre isso, sabe, nas escolas… não sei, acho que esse é o caminho que eu enxergo. Mas acho que a maior parte, mesmo falar, sabe, sem vergonha e sem medo, para que as pessoas entendam o que está acontecendo, né? Porque enquanto a gente não mostrar, como você fez, Cris, no começo, e falou: “recebi uma mensagem no Whatsapp, recebi no Twitter, assim, assado”, enquanto a gente não replicar essas histórias e as nossas próprias histórias, a gente não vai ter consciência do que tá acontecendo, né? O status quo é só chacoalhando, mesmo. Só jogando na cara as histórias, que a gente consegue chegar na transformação, então talvez essa seja a boa notícia, não sei.

Ju: A boa notícia é que nós somos os agentes da revolução.

Cris: E se você acha que a gente é chato, espera até ver as nossas filhas. [Risos da Ju] Espera pra você ver, as bichinhas já tão crescendo envenenadas!

Gabriela: Bom, a minha já quer tirar o uniforme da escola. Porque ela falou uma coisa que é verdade: os meninos fazem ginástica, no calor, de shorts, sem camisa. E elas têm que fazer de camiseta e calça. Por que não inventaram um top pra elas? Eu achei legal.
Falei: “é verdade, por que que elas não podem fazer educação física de top?”

Juliana: Mas nem shorts elas podem usar?

Gabriela: Enfim, e no calor…

Ju: [Interrompe] Por quê? Porque elas vão tentar os meninos, né. [Concordância de todas] O problema do corpo feminino é que ele foi feito pra tentar os homens, [Cris: ele distrai!] ele distrai, como disse o cientista.

Gabriela: Como se elas vão de saia curta, “você não pode vir com essa saia curta.” Por quê? “Porque os meninos estão perdendo a atenção na aula.” Ou seja, a própria escola não está ensinando os meninos a respeitarem o corpo da mulher; mas sim a menina a não ter um determinado comportamento, por conta dos homens. Ou seja…

Ju: [Interrompe] Se esconda, porque você é distrativa pra mim!

Gabriela: Não são eles que têm que mudar o comportamento.

Cris: Eu achei muito legal que cê tá citando isso, e essa semana aconteceu: a menina foi repreendida e no dia seguinte todas foram com a saia. E eu acho que é isso que é legal, é por isso que eu falo que: “espera até ver as nossas filhas.” As coisas mudaram, eu acho que é isso que as pessoas precisam entender. E a internet mostra isso. As pessoas que antes ficavam caladas, a internet tem isso, ela é muito democrática. O espaço que antes a mulher, o negro, o indígena, essas pessoas não tinham pra falar, agora elas têm de igual pra igual. O opressor e o oprimido têm o mesmo espaço. Então, gente, várias coisas que vocês falaram não funcionam mais. Não é mais brincadeira.

Juliana: E por isso que a gente não vai sair da internet.

Ju e Cris: É isso aí!

Cris: A internet é nossa!

: Essa é a notícia boa! A gente está aqui, as mulheres estão aqui, elas vieram pra ficar e vamos conquistar bit a bit, palmo a palmo nosso espaço. Guenta, que a gente chegou!

Cris: Unidas sorriremos! Ninguém tem que vencer nada, porque não deveria ser uma batalha. Unidas sorriremos, nos sentiremos mais seguras e seremos mais felizes.

Gabriela: É. Eu tô emocionada porque, quando eu comecei a trabalhar com violência doméstica, eu comecei a colocar coisas na internet, queria fazer um blog de violência contra a mulher, eu fui muito criticada: “Ai, ninguém vai ler isso, que coisa triste, que coisa ruim”. E hoje eu tô aqui, discutindo esse tema, pra mim é muito gratificante, eu acreditei, vou até o fim e acho que eu já consegui salvar a vida de muitas mulheres. Eu agradeço essa oportunidade.

(Bloco 10) 91’00” – 98’19”

Cris: Todas chora.

[Risos e aplausos]

Ju: Ô, que lindeza, gente.

[Sobe trilha]
[Desce trilha]

Ju: Vamos então para o Farol Aceso. Ju, comece com a sua indicação.

Juliana: Pessoal, eu vou indicar então o seriado How to get away with murder, da Shonda Rhimes, que é protagionzado pela Viola Davis. Acabou de chegar no Netflix a primeira temporada do seriado e eu terminei rapidinho, em dois dias. [Risos] É incrível, porque, como vocês até já falaram sobre a Viola, ela ganhou o Emmy, primeiro Emmy recebido por uma mulher negra, incrível, o seriado é bem legal e a personagem da Viola é – Annelise – é incrível, é uma mulher muito forte e totalmente complexa, muito diferente do que a gente costuma ver por aí. Então tá recomendado.

Cris: E eu corroboro.

Ju: Gabi, que que cê recomenda?

Gabriela: Bom, eu vou indicar “Um Senhor Estagiário”, que eu acabei de assistir. Achei um filme que faz você refletir sobre vários aspectos. Um é uma preocupação que eu tenho que é com as pessoas idosas, quando elas se aposentam e ainda têm uma vida ativa, porque hoje o estilo de vida saudável dá um espaço maior pra que a pessoa ainda seja ativa mentalmente, fisicamente e essa pessoa sai do mercado de trabalho, ela fica por um ano achando que pode fazer tudo, que não tem mais horário, mas depois ela quer voltar pra rotina dela. E dar oportunidade pra essas pessoas, homens e mulheres, é muito importante. Então eu gostei dessa parte, com o Robert de Niro, que é excepcional, ele representa muito bem isso. Eu curti bastante e também trata muito desse lado das mulheres conciliar[em] trabalho, vida afetiva, ser mãe, trabalhar com mercado de tecnologia – que é ainda uma questão vista e feita para os homens, como se as mulheres não pudessem trabalhar em tecnologia – e que no fundo, a mulher que tem essa vida muito dinâmica, ela acaba se ferrando. Porque… enfim, não vou contar o filme para vocês, quero que vocês assistam, mas lembrem dessa frase. Eu sempre me pergunto: por que que a mulher que é bem-sucedida, que tá fazendo aquilo que ela gosta, que quer ser mãe, quer trabalhar, quer trabalhar com uma profissão que é vista como uma profissão masculina, ela acaba se ferrando? Eu acho que isso tem que mudar. Então esse filme traz uma reflexão, achei muito legal, e dá assim uma descontraída, porque a gente dá umas risadas.

Ju: Cris, que que tem de bom essa semana?

Cris: Então, eu vou indicar uma pegadinha, na verdade, porque não dá pra muita gente fazer literalmente; mas eu tanto li, quanto um ouvinte mandou pra gente: em Londres tá acontecendo uma exposição que chama “Museu da Empatia” e é super legal. É uma grande caixa de sapato e quando você entra lá, você fala o seu número e eles vão te dar um sapato pra você colocar e um fone de ouvido pra você escutar a história da pessoa daquele sapato. E você dá uma volta ouvindo a história da pessoa. Então eu já tinha lido sobre isso, tava viajando nisso e um ouvinte escreveu e falou que ele foi, acho que com a namorada, o Amorim (beijo, Amorim!) e eu vi a história, o cara que escreveu a matéria falou sobre… ele pegou um sapato de salto, ele custou a conseguir andar, e a hora que ele colocou o fone e tava ouvindo, o sapato pertencia a um homem. E aí ele foi ouvir a história daquele homem, porque que aquele homem usava aquele sapato. Então, na verdade, o que eu quero indicar pra vocês é um exercício de empatia, que tem tanto a ver com o que a gente tá falando aqui. Então antes de banalizar, antes de falar que é uma bobagem, antes de falar que é um mimimi, se coloque no lugar daquela pessoa. Eu tive tanta dificuldade de ler o texto no início dessa conversa, nossa… justamente porque eu me senti como uma pessoa que realmente tivesse recebido tudo aquilo que eu tava narrando. E eu acho que, quando você faz esse exercício de empatia, você se coloca no lugar do outro: “e se fosse no meu e-mail? E se fosse a minha foto? E se alguém falasse assim comigo?” E, principalmente, focando muito no que a Ju falou, que se eu estivesse numa loja e alguém falasse isso, um segurança ia agir, um vendedor ia agir; então faça esse exercício de empatia, coloque o sapato do outro, perceba o que o outro tá sentindo. Compartilhar sofrimento faz as pessoas mudarem. Porque quando você percebe que cê tá agredindo alguém, que cê tá fazendo alguém muito infeliz, provavelmente você vai mudar. Então, pegando o gancho desse museu que eu espero que um dia venha pra cá – seria incrível essa experiência – mas coloque o sapato do outro. É isso.

Ju: Bom, a minha dica é o filme Human, ele tá disponibilizado no Youtube, em três partes, o filme parte de uma premissa, de uma pergunta, que é superinteressante, que é: o que nos torna humanos? Por que a gente ama? Por que a gente briga? Por que a gente ri? Por que a gente chora? As nossas curiosidades, a busca pela descoberta? Então esse cineasta passou três anos coletando histórias reais de mais de duas mil pessoas em 60 países, assim… a filmagem é absurdamente linda, tem uns takes aéreos assim… é um desbunde, é muito bonito, é muito sensível, esse exercício de empatia, é exatamente isso que ele provoca e promove; ele faz você se identificar com as pessoas, você entrar na pele delas por alguns minutos. Uma parte desse filme viralizou essa semana – acho que muita gente viu – que foi a parte que o Mujica fala sobre como a gente paga pelas coisas com tempo e não com dinheiro e como a vida é a única coisa que a gente não tem como comprar. Essa parte que muita gente viu é do filme. Eu não sabia disso, tava vendo o filme e vi essa parte. Então assim, o filme é excelente, não requer…

Cris: [Interrompe] Não tem desculpa, tá no YouTube!

Ju: Tá no YouTube, gente, e assim, o filme continua muito com vários recursos mostrando sobre as pessoas que participaram, sobre como foram as gravações, o behind the scenes, assim… é muito legal, vale muito a pena, porque toda essa discussão – e no final, tudo o que a gente fala, né: a questão de refugiados, a questão dos justiceiros no Rio de Janeiro, a questão das violências contra a mulher, tudo passa por desumanizar um sujeito, né? Então, a partir do momento em que você consegue tirar o valor que ele tem, qualquer violência é possível. Por isso esse filme é supernecessário, chegou em boa hora e eu acho que dá bastante alimento pra gente pensar e processar.

Cris: É isso?

Ju: É isso?

Cris: Pessoal, então, muito obrigada! Meninas… putz, assim… é um prazer receber vocês aqui, muito obrigada por compartilhar tanto conhecimento. Eu fico feliz em falar de boca cheia que a gente tá fazendo a diferença. Obrigada!

[Todas agradecem]

[Sobe trilha]