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Transcrição – Mamilos 86: Divórcio

Jornalismo de peito aberto

27.jun.2017

Esse programa foi transcrito pela Mamilândia, grupo de transcrição do Mamilos

Início da transcrição:
(Bloco 1) 0’ – 10’59”
[Vinheta de abertura]
Esse podcast é apresentado por b9.com.br
[Sobe trilha]
Cris: Mamileiros e mamiletes, olha o bonde da conversa passando na sua timeline. Eu sou a Cris Bartis e comigo, do outro lado da ponte, está?
Ju: Ju Wallauer.
Cris: Vem com a gente diminuir as fronteiras que nos separam.
Ju: E no Som do Mamilos? Caio, nosso terceiro mamilo, diz o que que vai tocar no radinho hoje.
Caio: Olá personas! Corraini aqui novamente para trazer para vocês os responsáveis por dar mais cor ao Mamilos desta semana. Lembrando sempre que se você quiser colaborar com o conteúdo musical deste programa pode nos recomendar bandas ou artistas independentes no e-mail: [email protected] [email protected] Facilita, e muito, a minha vida se vocês enviarem os links do site oficial do artista ou então onde nós podemos buscar o download direto das músicas dele para utilizar no episódio. Nessa edição, nós iremos escutar a Banda Eddie, lá de Olinda, o que me deu muitas saudades do Recife e eu prometo que eu volto logo. Então fiquem com a Banda Eddie no Som do Mamilos.
[Sobe trilha]
Música:
Foi tão ligeiro
Um buraco no chão
Um buraco no peito
Um buraco foi feito
Não tem mais jeito
Caindo em parafusos
Em baixa rotação
Para encontrar um chão
Encontrar um chão
Encontrar um chão

O amor quebrou meu peito
Saiu e foi ser só
O amor quebrou meu peito
Saiu e foi ser só
O amor quebrou meu peito, aaaiii
Saiu e foi ser só

[desce trilha]

Cris: E tem beijo. Tem beijo pro Marcos, pra Linda e pra Betânia, uma família linda que ouve o Mamilos unida e com certeza vai permanecer unida.
Ju: Para Marcelândia, no Mato Grosso.
Cris: Para Ji-Paraná, em Rondônia.
Ju: Para Vila Velha, no Espírito Santo.
Cris: Melbourne, na Austrália.
Ju: Para Nova Odessa, no interior de São Paulo.
Cris: São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.
Ju: Pra Sorocaba, porque o interior de São Paulo está bombando.
Cris: Patos de Minas, em Minas Gerais.
Ju: Alta Floresta, no Mato Grosso.
Cris: Urupi, no Tocantins. Adoro quando tem a maior variedade assim de estado, acho que a gente é… Chega em todo lugar.
Ju: Assim que é bom, ganhando no War. E vamos fazer um Merchand? O tema do programa dessa semana foi inspirado na série que estreia essa semana na HBO, a série ‘Divorce’. Prepare seu coração para uma dramédia com nada menos do que Sarah Jessica Parker. A série conta a história de Francis, uma mulher adulta que decide reavaliar a própria vida e o casamento. No meio do caminho, ela descobre que o desafio é muito mais difícil do que ela imaginava. A série vai retratar esse momento do casamento de dezessete anos entre dois novaiorquinos explorando todos os seus altos e baixos e tentativas de reconciliação. Cada episódio tem meia hora de duração, do jeitinho que a gente gosta, pra relaxar no final de um dia estressante e a série pode ser assistida pelo HBOGo, onde você estiver.
Cris: Fale com Mamilos. A nossa equipe ‘cheirosinha’ tá pronta pra receber o seu e-mail. A edição e o som do Mamilos, com Caio Corraini; redes sociais com Luanda e Guilherme Yano; apoio à pauta da Tati Araújo; e transcrição dos programa com a ‘maravilinda’ Lu Machado e a sua equipe formidável. Lu tá saindo de férias e deixou um substituto à altura pra fazer aí todo o job dela. Lu, descansa, divirta-se e aguardamos você daqui a pouquinho.
Ju: Atenção mamileiros e mamiletes, saiu do forno mais uma fornada de transcrições. A equipe da Lu tá arrasando nesse trabalho lindo de transformar todos os nossos programas em texto. Vem ver quanto conteúdo novo já foi publicado. Tem programa antigo e até o super recente episódio 84. Aproveita pra espalhar essa boa notícia. Vai que tem alguém perto de você que ainda não sabe como, não consegue, não pode ouvir, mas adoraria ler as nossas conversas.
Cris: Vamos então para o Fala Que Eu Te Escuto.
[Sobe trilha]
Saiu e foi ser só
[Desce trilha]

Cris: Começando com o Alan Bastos. ‘Eu sempre valorizei e lutei pela igualdade e garanto que vocês deram um tilt na minha cabeça quando o assunto foi o SUS. Será que ele é tão justo? Será que a saúde universal deve, então, ser custeada pelo governo? Ou será que os gastos com saúde deveriam ser de responsabilidade do cidadão? Mais uma vez, vocês colocaram dúvidas voláteis onde havia certezas sólidas e, com isso, me fizeram estar aberto a quem tem pensamento diferente e abordando assuntos pesados com uma tamanha leveza. Muito obrigado! Adoro não ter certeza exceto a de que o Mamilos me transforma a cada episódio.’
Ju: Fofo. O Bruno Souza disse ‘Sobre a questão da cobertura de tratamentos caros pelo SUS vi uma grande distorção recentemente que foi a justiça obrigando o Estado a custear um tratamento caríssimo no exterior. Falta, por parte de grande parte dos juristas, conhecimento em direito financeiro, especialmente orçamento público, pra saber que existe um limite nas possibilidades financeiras estatais. Por outro lado, os entes públicos deveriam se antecipar ao saber que existe um tratamento novo para doenças graves, no sentido de negociar com os laboratórios ou mesmo utilizar instrumentos legais para a aquisição dos medicamentos, tais como a licença compulsória. Parabéns pelo excelente programa’.
Cris: A Miriam Soares falou ‘Gente, é só importante lembrar que as regiões mais vitimadas pelos conflitos são as que votaram ‘Sim’ pelo acordo de paz na Colômbia. Quem votou ‘Não’ é, principalmente, quem quer punições mais duras para os crimes mas quem também está fora da zona de conflito, ou seja, as vítimas preferem a paz à punição severa’.
Ju: O Lenin Christie disse ‘Não dá pra comparar a legalização da maconha com separar um estado. O território nacional é indivisível, inclusive por via política. Existem pouquíssimas razões expressas dentro da constituição federal que, não só, autorizam como compelem as forças armadas a legitimamente derrubar o poder político vigente e essa é uma delas e é expressa. Se o governo legislativo põe isso em pauta, não chega nem no STF para nossos bem pagos amigos de toga darem seus quinze minutos de fama no Jornal Nacional dizendo que não pode, ou vai que dizem que pode, né? Não relativizaram presunção de inocência. Tem tanque na rua antes do Happy Hour’.
[Sobe trilha]
Música:
Como um blois
[Desce Trilha]

Cris: Vamos então para a Teta que nós vamos fazer… É uma Teta especial, né, Juliana?
Ju: Sim e nós vamos ter convidadas mais que especiais.
Cris: Mentira!
Ju: Vamos começar pela Ana Canosa.
Ana Canosa: Oi!
Ju: Se apresente, fale quem é você.
Ana Canosa: Eu sou Ana, 48 anos, casada…
Cris: [interrompe] De puro Glamour.
Ana Canosa: De puro Glamour, casada e com um filho lindo que faz sete anos amanhã ou ontem, dependendo de quando o programa for ao ar, no dia 13.
[Risos]
Ana Canosa: Eu sou uma mulher que já fui divorciada e tô casada de novo há quinze anos, feliz, muito feliz. Sou psicóloga, sexóloga, diretora da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana, dou aula pra terceira idade de ‘Sexo’ na PUC de São Paulo…
Ju: [interrompe] Nossa, que interessante.
Ana Canosa: Que eu amo. Há mais de dezesseis anos… Fui uma menina quando cheguei lá. Trabalho com casais e sou apresentadora do programa ‘Escola para Maridos’, da FoxLife (Risada da Ju), que entrou no ar agora em setembro. São oito casais em crise, oito maridos que vão pra escola aprender como lidar com as mulheres…
Ju: [interrompe] Que sensacional!
Ana Canosa: Tem sido uma experiência incrível. Passa na FoxLife toda terça, 22h45 da noite.
Cris: Muito bom.
Ju: Muito bem. E temos outra Ana na mesa. Ana, se apresente.
Ana Paula: Bom, eu sou Ana Paula e eu sou advogada e sou professora de direito também. Eu vou seguir a apresentação…
[Risos]
Ana Paula: Eu tenho 47 anos, sou casada há vinte, tenho dois filhos lindos, um de catorze e um que acabou de fazer doze. Eu tenho 47, mas tenho quase fazendo 48…
[Risos]
Ana Paula: Não, eu tenho 46 anos e faço 47 no dia 18…
[Risos]
Ju: É um raro…
Cris: [interrompe] Isso é uma pessoa que não se preocupa com a idade.
Ju: Um raro caso de uma pessoa que adianta a idade.
Ana Paula: É que eu não… Eu sou de humanas…
Ju: [interrompe] Ah, sei…
Ana Paula: Eu não entendo nada de números, esse é o problema.
Ju: [interrompe] A gente te entende.
Ana Paula: Tenho o meu escritório. Eu sou advogada então eu trato de várias questões, mas eu to mais ainda para o lado de direito de família, faço também sucessões, que tem muito a ver com família, mas o nosso foco é bem direito de família mesmo e, na faculdade, eu dou aula na FAAP, aí eu dou aula de Direito Civil e Geral. Nesse semestre eu estou com uma classe de Direito de Família, que é o que eu mais gosto mesmo, mas eu dou aula de Direito Civil, todos os ramos do Direito.
Cris: Então vamos lá, do que que a gente vai falar hoje. Uma comoção tomou conta da internet quando William Bonner e Fátima Bernardes anunciaram que estavam se separando após vinte e seis anos de casamento. Na sequência, uma nova avalanche de pesar tomou conta das timelines quando Angelina Jolie e Brad Pitt separaram as escovas de dentes. Não é apenas o lado de lá da televisão. Segundo os dados nacionais de 2015 do IBGE, o número de divórcios no Brasil cresceu 160% em dez anos, de 130 mil em 2004 para 341 mil em 2014. A cada quatro casamentos, acontece um divórcio. A busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos. Nunca homens e mulheres se aventuraram com tanta coragem em busca de novas descobertas, só que dessa vez, para dentro de si. Cada um quer saber quais são suas possibilidades, desenvolver o seu potencial (Nós já falamos disso aqui no Mamilos) na quebra de fronteiras na carreira, no ideal de sucesso, na maternidade e paternidade e, claro, o casamento não poderia ficar fora desses questionamentos.
Ju: As transformações socioeconômicas, com a emancipação da mulher e o ideal de amor e as mudanças no código civil, alteraram as realidades dos casamentos de forma permanente. Atualmente, a insatisfação sexual, fim do prazer de estar juntos e incapacidade de comunicação são os fatores mais alegados para justificar o rompimento do casal. Antes o marido deveria ser provedor e respeitador, a esposa deveria ser boa mãe, boa dona de casa. Se isso acontecesse, ninguém se separava porque cada um estava cumprindo o seu dever. Mas será que eles eram felizes? Ou estavam apenas confinados à infelicidade eterna, com a benção da igreja, da família e da justiça. Não se sabe ao certo. O que a gente sabe é que era mais seguro porque cada um sabia o seu papel. Com a avassaladora entrada do amor romântico no casamento, pessoas passaram a se conhecer, a atribuírem umas às outras características de personalidade que elas não possuíam, casavam, se desencantavam, responsabilizavam ao outro, ficavam com raiva e achavam que tinham sido enganadas. As pessoas estão juntas porque está bom e se separam porque não admitem estarem infelizes. As expectativas são altas e se um dos dois falha, chegou o fim. Egoísmo? Falta de tolerância? Excesso de idealização? Bons relacionamentos precisam ser eternos? Afinal, por que um casamento não dá certo? Dá pra usar a mesma régua pra medir todo mundo? Vale a pena viver junto até quando? E filho com tudo isso? Somos uma geração de transição e sentimos todo o peso disso. Então, vamos conversar um pouco pra ver se a gente entende melhor esse lance de divórcio.

(Bloco 2) 11’ – 20’59”
Cris: Vamos falar um pouco sobre quando ainda estamos juntos. Ana, conversa um pouquinho com gente sobre o que era o casamento ontem e hoje, né, porque antigamente tinha ali todo um arranjo social pra segurar dinheiro, estabilidade, linhagem da família e aí, quando a gente vê, entra o amor romântico no casamento. Que que é o casamento, afinal?
Ana Canosa: Casamento é um contrato afetivo e objetivo. Do objetivo, pouco se fala: contrato financeiro, de vivência, dos amigos, da família, da mobília, do cachorro… do objetivo, pouco se fala. Do afetivo, muito se busca e muito se idealiza. Pessoas esperam do casamento, baseadas no amor romântico, que aquele que associa afeto a sexo numa mesma pessoa para todo o sempre, amém, esperam demais do outro, como se outro pudesse, de fato, nos dar tudo. Sexualmente falando, na questão do desejo e do prazer; intimamente falando, na possibilidade de eu poder compartilhar o meu eu com o outro e o outro me acolher cem por cento e no cotidiano, no companheirismo baseado na troca de ações, afetos e gestão da sociedade casamento. É quase impossível ser tudo isso pra alguém.
Cris: Parece que o que a gente deseja é uma fusão de duas pessoas numa só, então esse casamento…
Ju: Duas ou mais, né, Cris. Porque, assim, você quer o seu roommate perfeito, pensa o seguinte: você tem uns duzentos amigos, com quantos amigos, que são seus amigos, você gosta deles, você gostaria de morar? Porque morar é chato, né, gente? Morar tem um monte de regra, combina algumas coisas, não combina o horário que acorda, o horário que dorme, o jeito que faz barulho pra dormir, o jeito que deixa a calcinha largada, o jeito que é bagunceiro, o jeito que não é, o jeito que lembra de fazer a compra, o jeito que não lembra… então, assim, morar junto já não é um pênalti.
Ana Canosa: É, opa!
Cris: Você sabe que que eu acho mais difícil? É a parte familiar. Ir a todos os casamentos, todos os enterros, todos os batizados…
Ju: [interrompe] Eu ia chegar aí…
Ana Canosa: [interrompe] É o imposto da família.
Ju: Você quer que a pessoa seja o seu roommate perfeito, ele tem que ser o seu sócio perfeito, que é uma pessoa que entende de grana da mesma maneira que você. Então que é arrojado da mesma maneira que você é ou não é, conservador do jeito você é ou não é. Que tem o mesmo jeito de lidar com dinheiro, a mesma responsabilidade, a mesma capacidade de gerar renda que você, enfim, tem que ser sócios porque vocês têm um patrimônio e a pessoa tem que ter a mesma gestão e a mesma visão de patrimônio que você. Então, vamo lá, já temos um roommate, já temos um sócio, aí a pessoa tem que ser seu melhor amigo, tem que gostar de ver os mesmos filmes, as mesmas séries, falar dos mesmos assuntos, ter intimidade com os mesmos amigos, porque se cada um gosta de um tipo de amigo, como é que vocês vão ser casados, né, porque cada um vai querer ficar num papo, né… um puxa prum lado, outro puxa pro outro, mas “Ah, ele não me faz companhia, a gente não tem assunto, a gente gosta de coisas completamente diferentes”, então, ele tem que ser seu melhor amigo…
Ana Canosa: [interrompe] E ser seu melhor amante, sempre, pelo resto da vida! (Risos)
Ju: E ele tem que ser um ótimo pai, porque ele pode ser todas essas coisas e de repente ser um pai super relapso. Porque não era, não queria ser pai, mas você queria muito ser mãe, aí ele tem que ser pai porque, né? Tem que ter o pacote completo. O jeito de ser pai, não basta ser um bom pai, você tem que ser um bom pai do mesmo jeito que a pessoa entende…
Ana Canosa: [interrompe] Que a outra pessoa é uma boa mãe. É.
Ju: Então, assim, sobre escolha de religião, escola, família, comportamento, enfim, vocês vão ter que tomar milhares de decisões, todas elas são cruciais, você não tá disposta a abrir mão, e a outra pessoa tem que entender o mundo da mesma maneira que você. Então, assim, esse bolo tá grande, né, gente.
Ana Canosa: É, então a gente já imagina que esse casamento baseado no amor romântico, né, idealizado pra todo o sempre, o amor não acaba, ele já era. Ele já era no sentido que a gente já entendeu que isso não serve pra todo mundo, que não funciona assim pra todo mundo ou pra grande parte das pessoas. Que o amor acaba, sim, e as pessoas não gostam de falar nisso, né, quer dizer, eu tava até falando com vocês, dificilmente alguém fala assim: “mas por que você se divorciou? Ah, porque o amor acabou”. É difícil as pessoas falarem isso, quer dizer, porque ainda existe esse mito do amor que vai ser pro resto da vida. Não, o amor acaba.
Ju: “Amor que é amor existe pra sempre, sobrevive a qualquer coisa.”
Ana Canosa: [interrompe] O amor acaba. O amor romântico acaba. Ele pode se transformar pra um amor mais fraterno, ele pode acabar, inclusive, assim, não ser nem fraterno, nem erótico, nem nada disso, acabou. Acabou, eu olho pra pessoa e falo “meu, tipo, ok, foi legal, mas…
Cris: [interrompe] “Que que eu tô fazendo aqui?”
Ana Canosa: Não, foi legal, mas, assim…
Ana: É um estranho ali…
Ana Canosa: Acabou, não tem mais, então, assim, as pessoas tem que admitir isso. Então esse tipo de amor, o amor romântico, embora nas novas relações ele também vá ocorrer, porque quando a gente tá apaixonado, é ele que aparece, é essa referência, né. É tudo junto na mesma pessoa: é sexo, e afeto, e monogamia seriada por um período ali, naquele casal. Então ele ainda acontece, mas as pessoas já sabem hoje, quando você me pergunta “o que mudou?”, mudou que as pessoas são mais autônomas, a mulher é mais autônoma, as pessoas são mais autônomas e fica mais difícil compartilhar, né.
Porque, por outro lado, nós estamos falando que é muito difícil casar, mas nada faz você crescer mais do que um casamento. Nada. Nenhuma relação fraterna, de amizade, faz você crescer como pessoa do que o casamento. Nenhuma relação de trabalho faz você crescer mais do que o casamento. E casamento, eu tô dizendo, da convivência e do compromisso com o projeto comum, porque casamento é isso: afetivamente falando, psicologicamente falando, casamento é compromisso com o outro num projeto comum. E o projeto comum pode ser a gente ter casa, barco, ir morar em Paris, ou sei lá o quê, baseado no financeiro; pode ser baseado também na família, a gente vai ter cinco filhos e vai ser aquela coisa linda que a gente idealizou na história; como pode ser o nosso amor. Como pode ser a gente ser feliz, independente se a gente vai ter filho, família, casa, vai morar em Paris etc.
Ju: Mas a gente vai se bastar, né, um ao outro.
Ana Canosa: A gente vai curtir. Então eu acho que as pessoas têm um pouco mais de consciência do quê que eu espero do casamento, ou o quê que eu desejo, né, ou a gente vai transar loucamente por um período… então, assim, casamento é compromisso com o outro num projeto comum. Quando não tem mais projeto comum, o bicho pegou total.
Cris: E aí, eu acho muito interessante quando a gente fala sobre o quanto a gente tá disponível pra aguentar as oscilações de felicidade, não de amor, de felicidade. Porque no casamento, ele hoje e ontem, ele ontem mais do que hoje, ninguém é feliz o tempo todo.
Ana Canosa: Isso.
Cris: Né? Você passa por momentos, seja lá se o plano é comum, se, suponhamos que o plano seja ter filhos, não conseguir gerar filhos pode ser um grande momento de infelicidade do casal.
Ana Canosa: Claro.
Cris: Queremos morar fora e não ganha dinheiro suficiente pra fazer esse plano virar também é um grande momento de infelicidade. Fora o cotidiano, né, porque a dificuldade que eu percebo do amor hoje, o casamento hoje, é que, na verdade, ele se distancia demais do que a gente vê em filme porque você não tem grandes pontos de virada, não tem um plot twist no casamento a cada três meses. Num casamento cotidiano mesmo, é dia a dia, é rotina e não existe espetacularização da rotina. Rotina é rotina.
Ana Canosa: E é chato, é…
Cris: E é chato.
Ana Canosa: Só que, assim, se a gente pensa também assim, né, quer dizer, há muito divórcio no Brasil e em outros lugares, mas também há um número muito grande de casamentos. As pessoas gostam de se casar, as pessoas querem casar, querem um outro e, aí, tem várias teorias sobre o amor que, até que o amor é meio uma coisa meio inata, que você biologicamente busca essa ligação celular com o outro, então você tem várias teorias da psicologia que vão dizer assim: gente, nós somos escritos para buscar alguém, não pra casar, mas pra buscar alguém, né. A maneira de conviver com esse alguém é que é diferente, né.
Ana Paula: Hoje a gente vê muita gente dizendo: “eu não quero ter filhos, eu não desejo ter filhos” e muita gente hoje já está respeitando essa decisão, mas é raro a gente ver gente dizer: “eu quero ser solteiro pra sempre”, no sentido de não ter outra pessoa, “eu não quero viver em união estável, nem namorar e nem casar, eu quero ser sozinho”. Isso é difícil encontrar, alguém que tenha por objetivo ser sozinho. As pessoas têm por objetivo estar com alguém, a que título for, mas sempre têm por objetivo estar com uma outra pessoa.
Ana Canosa: É, acho que paixão é um negócio de louco, mas assim delicioso, né, e acho também que dependendo da fase, acho que tem muito de fase da sua vida também…o casamento faz um sentido ou não faz um sentido mais, ou aquele tipo de casamento não faz mais sentido, né, então eu vejo, por exemplo, quando você pensa num relacionamento amoroso, baseado num tripé: intimidade, eu me sinto íntima do outro, eu posso contar com a pessoa e tal; companheirismo, que seria mais baseado na convivência mesmo, do quanto que a gente consegue fazer as coisas juntos, né, eu me sinto acompanhada nesse caminho; e no erótico, na coisa do sexo, do afeto, do nhenhenhe, do tchuque-tchuque e tal.
Então, assim, pra algumas pessoas, no início da nossa vida, da paixão, a gente espera as três coisas sempre, você espera ter…aquilo que você tava falando, do amante, etc etc. Mas se você pega, por exemplo, algumas pessoas, eu trabalho com terceira idade e existem muitas pessoas que são viúvas, outras que já se divorciaram e elas falam assim: “pelo amor de deus, conviver não quero, cueca em casa…” por quê? Porque foram aquelas mulheres que foram super submissas, etc etc, mas elas falam assim: “não, eu quero pra mim…” “e sexo? Ahh, sexo também, tipo, não é mais importante, o importante é o companheirismo”. Então, dependendo da fase da sua vida, você suporta menos ou mais a falta de um desses pilares.

(Bloco 3) 21’ – 30’59”
Cris: Então nós entendemos que sim, a gente põe expectativa demais em cima disso e gerenciar e respeitar o seu momento de vida pode ser um bom indício de como administrar melhor esse contrato aí que a gente vai levar à frente. Mas…porque que a gente se separa? O que é que acontece pra dar errado? Quais são os fatores que a gente fala assim; “É, esse tipo de coisa aqui, ele atrapalha a continuidade do contrato.”?
Ana Canosa: Eu acho que nós deveríamos todos nos conhecer bem, né, nos conhecer bem. Por que existem pessoas que são talhadas pro casamento, outras não, na minha percepção. No casamento, eu digo, na convivência mútua…
Ju: [interrompe] Concordo.
Ana Canosa: Né? Com contrato de monogamia ou não…enfim…porque tem gente que precisa seduzir sempre ou estar apaixonado sempre e nunca vai conseguir manter um casamento monogâmico por muito tempo. Tem gente que…
Ju: [interrompe] Não, e tem a ver bastante com a questão de altruísmo e do quanto você sente prazer
Ana Canosa: [interrompe] Exato
Ju: prazer em construir…
Ana Canosa: [interrompe] …na convivência
Ju: quanto você sente prazer em fazer alguém feliz
Ana Canosa: [interrompe] Exatamente
Ju:Porque assim…eu me lembro que quando eu estava na igreja ainda, tinha um pastor que falava um negócio muito legal. Todo casamento, ele falava, “se você tá casando pra ser feliz, pode ir embora. Tem mil maneiras de ser feliz sem casar. Você não precisa disso. O único motivo que eu acho justo pra alguém querer casar é porque você não consegue ser…você quer fazer alguém feliz…”
Ana Canosa: [interrompe] Iiiisso
Ju: “…eu quero casar porque eu quero fazer a Juliana feliz…”
Ana Canosa: [interrompe] Iiiisso
Ju: “É isso que, assim, isso é a minha satisfação. Eu não vou ser realizado…”
Ana Canosa: [interrompe] “na vida”
Ju: “…na vida se eu não conseguir fazer essa mulher feliz…”
Ana Canosa: [interrompe] Exatamente.
Ju: “…eu preciso casar com ela”. Aí ele falava ”Ah, então vamos casar”, porque aí realmente…porque você vai ter satisfação na sua vida de prover as coisas que aquela pessoa precisa e quando é mútuo, todo mundo feliz, todo mundo ganha. Eu falo uma coisa que eu acho muito legal. O meu marido, ele tem uma referência muito boa do vô dele, que ele era muito próximo e tal, e que foi um homem que sempre viveu pela família. Então quando ele casou, eu achei muito precoce pra ele ter casado e eu tinha muita dó do que ele teve que assumir tão cedo, né, que a vida dele mudou, virou de ponta à cabeça pra assumir um monte de coisa, e eu vejo que, assim, isso faz muita diferença; pra ele não era dó. Ele não ficava se lamentando que ele não tava gastando o dinheiro dele em vídeo game, que ele tava gastando o dinheiro em fralda, ele não ficava se lamentando, pensando onde os amigos dele tavam que ele tava virando noite com bebê chorando, ele não pensava nas coisas que ele não tinha…
Ana Canosa: [interrompe] Ele pensava no que ele tava construindo…
Ju: [interrompe] …ele tava pensando no que ele tava construindo e ele tava muuuito feliz.
Ana Canosa: [interrompe] Isso, isso.
Ju:Ele tava realizado, que aquilo era o que ele sempre sonhou e que enfim ele tinha uma família…e tudo que ele fazia…se ele não tinha tempo pra si, mas tudo que ele fazia era em prol da família, ele tava feliz. Então eu não acho que isso necessariamente seja pra todo mundo
Ana Canosa: [interrompe]Iiiisso. Por aí, é isso aí.
Ju: [interrompe] …Não acho, não acho mesmo! E eu acho que o quanto você sabe do que é casamento antes de entrar num casamento…
Ana Canosa: [interrompe] Nada!
Ju: … te ajuda muito! Não, mas eu acho isso…ele via o vô dele.
Ana Canosa: Ah, ok.
Ju: O vô dele, 100% do salário era pra família,
Ana Canosa: [interrompe] Entendi
Ju: Ele passava o dia inteiro com alguém mandando nele; “vá fazer isso, vá fazer aquilo, vá fazer…” e assim, a expectativa dele sobre casamento…
Ana Canosa: [interrompe] A concepção de afeto.
Ju:…já era essa.
Ana Paula: E tá sempre tudo muito marcadinho. A história do contrato. Sendo um contrato que os dois saibam o que esperar desse contrato, qual é a posição e o que se espera de cada um desses dois porque…”O contrato vai ser esse. Se vai ser esse, ou a gente entra ou não entra. Ou a gente está de acordo ou não.”
Ana Canosa: [interrompe] E eu acho que quando você pergunta “mas quando não se tá indo bem” é justamente quando esse contrato não tá funcionando pra minha felicidade e pra felicidade do outro, né, quando a cada vírgula do contrato eu tenha que discutir, quebrar um pau, é desgastante, é sofrido, né, então acho que quando essa fluência do casamento, né, começa a não funcionar.
Cris: É, a gente vive hoje numa era e é importante falar na diferença entre individualidade e individualismo, que a individualidade, ela ajuda até, no gerenciamento desse contrato porque quando você se conhece bem, você sabe o que você precisa pra tá [estar] feliz e tá [estar] plena, então autoconhecimento e check in, é bem legal. Agora o individualismo, ele vai pra esse lado egoísta que a gente tá vivendo hoje, que é colocar o meu bem estar acima do bem estar do coletivo, do todo. Então “se eu sou obrigado abrir mão de uma viagem, se eu sou…”e aí vai numa sequência…
Ju: [interrompe] Do quanto você se ressente disso.
Cris: …E você vai aumentando seu ressentimento e a sua flexibilidade inexiste então você deixa de depositar na urna ali do contrato. E falando nisso, ainda, o desejo que a gente tem de exclusividade que mexe muito com a nossa vaidade, né? Então quando outras pessoas no relacionamento, na vida da pessoa, passa a ter status, isso costuma causar problema. “Ah, então aquilo você conversou com fulano, não conversou comigo”, “ Então você prefere tomar um chopp com ciclano ou ir ao cinema com beltrano” ou “conversou com ciclano sobre o livro que você leu”…esse desejo de exclusividade, você tem que ser exclusivo da pessoa…que também esmaga, né? Esmaga muito o seu bem-viver. Eu hoje acredito que o casamento, ele precisa de liberdade
Ana Paula: Total, total.
Cris:Quando você não tem liberdade, aí fica muito difícil.
Ana Paula:Esse individualismo que você falou, eu tava comentando, a ideia do casamento, a Ana falou “Nada faz a pessoa crescer mais do que um casamento” e eu comentei com a Ju o seguinte; realmente o casamento é botar na sua cara que as coisas não vão ser do jeito que você quer.
Ana Canosa: Isso.
Ana Paula:Tem que abandonar esse individualismo de achar “tudo vai acontecer do jeito que eu quero”. Se você se ligou a alguém, não vai ser 100% do jeito que você quer. E filhos, mais do que isso.
(Risada da Jú)
Ana Paula: Aí é pra…
Cris: [interrompe]Pra humilhar, né? (risos)
Ana Paula: [interrompe] …aí é a cereja do bolo (risos)
Ana Canosa: Eu acho que essa negociação… hoje eu acho que eu vejo…o conflito dos casais, e casais dessa nova geração, inclusive, tá muito nessa negociação entre compromisso e autonomia. Amor é da ordem do compromisso. Então eu me comprometo em querer fazer você feliz. Isso é amar. Sexo, por exemplo, é da ordem da autonomia. A energia sexual nasce no meu corpo e no meu próprio corpo pode ser satisfeito e eu divido com quem eu quero, se é que eu quero. Então eu posso amar alguém, transar bem com essa pessoa e ainda desejar outra. Porque é da ordem da autonomia. Isso hoje tá muito mais claro pras pessoas essa diferença e isso dá muito pau na relação porque vai de encontro, ao contrário, né, ao contrário do que é a proposta do amor romântico. Então o que é que acontece…tem rede social e tudo…e nós, como sociedade brasileira, temos pouco modelos de compromisso. Quem são as pessoas compromissadas com o bem público, com a política, com o serviços, né, que se comprometeram a nos ajudar, a estar do nosso lado e de fato fizeram isso? Nós não temos modelos de compromisso. Nós temos modelos de autonomia. O tempo inteiro, para todo o sempre, amém. Em todas as mídias, inclusive. Então as pessoas são muito autônomas e não sabem mais se comprometer…
Ju: [interrompe] Pouco compromissadas
Ana Canosa: …e pouco compromissadas. Então como é que vai gerenciar um casamento que precisa de tempo? Você precisa de tempo pra você poder se ajustar numa relação. Você precisa de tempo pra viver a angústia. As pessoas não sabem viver angústia mais. Às vezes as pessoas chegam no consultório e dizem “Não, mas eu quero resolver minha vida amanhã”…”Minha filha é o seguinte, ó…” Eu chego pro casal e falo assim; “Se vocês vão separar nós não sabemos, se vão ficar juntos nós também não sabemos. Ou vocês aprendem a conviver com um ponto de interrogação ao seu lado, que é assim…não sei se vou ficar junto, não sei se vou casar, não sei se ou separar. Não sabemos, conviva!” Não tem, não tem Google pra isso. Não dá pra você digitar “vou separar ou não”, não sabemos! “Vocês estão em crise, vocês estão indo pra uma terapia de casal pra tentar ver o que vai ser”. As pessoas não sabem lidar mais com isso.
Cris: Tem outros dois pontos aqui que é tipo, pra jogar a bomba de fumaça no “porque nos separamos”. O primeiro é a imaturidade financeira, né? Ditado popular; “Quando a crise entra pela porta, o amor sai pela janela”. 35% dos casais que se separam estão endividados. Então com essa emancipação da mulher no mercado de trabalho, começaram a entrar duas rendas dentro de casa, porque antigamente era uma renda só, a do marido. E aí, bem e mal, era ele que mandava naquela grana, ele que decidia o que ia fazer com aquilo. A partir do momento que entram dois recursos você vai ter que começar a ter transparência nos gastos, a entender a ambição financeira que o outro tem, e até olhando um pouco pra isso…
Ju: [interrompe] Pra negociar, né?
Cris: [interrompe] …negociar onde vai gastar…
Ju: [interrompe] E isso acho que é o mais difícil, porque quando você conversa sobre dinheiro nunca é sobre dinheiro. É sobre valores. Entendeu? Isso é uma coisa mega difícil no meu casamento de entender porque eu achava que ia ser conta conjunta e ele falou “Nunca vai ser conta conjunta porque pra cada gasto eu vou ter que te provar que aquele gasto é importante e nunca vai ser no seu sistema de valor. Eu nunca vou te provar que um boneco é uma coisa que vale o dinheiro porque na sua cabeça jamais vai ser. A sua cabeça é muito mais objetiva. Então assim, vamos determinar compromissos conjuntos. O que é que eu tenho que botar de dinheiro? Ah, eu tenho que pagar aluguel…o que sobrar eu não tenho que te dar satisfação de como eu vou gastar meu dinheiro”. E isso é uma coisa muito interessante porque eu acho que as pessoas se frustram muito em casamento discutindo porque a discussão de dinheiro…. “Nossa, a gente se ama tanto, mas fica discutindo por causa de dinheiro, sabe, uma mesquinharia”. Não! Discussão de dinheiro é discussão sobre valores. Onde você põe seu dinheiro é o que é importante pra você.
Cris: Tem uma questão importante sobre isso porque faz parte desse contrato inicial, a grana também entra. Por que a pessoa pode gastar, e aí a gente vai pro individualismo, que é “Beleza, a gente põe aqui nessa cestinha o que cada um tem que arcar nas contas e com o que sobrar você faz o que você quiser e eu faço o que eu quiser”. Quando os dois ficam velhos, aquele que se programou tem a aposentadoria e o outro não tem e aí você vai ter que bancar porque ele gastou do jeito que ele quis, porque é o dinheiro dele. Então eu acho que compromissos a longo prazo, eles são mais complexos ainda quando se fala de dinheiro porque quando você tiver lá com seus 70 anos, aposentando, se o seu companheiro de vinte anos não tem renda, problemas que poderiam ter sido resolvidos lá atrás, agora chega(m) aqui.
Ju: [interrompe] Posso falar uma outra coisa que eu tava aqui conversando com a Ana paula que também é complicada e você não espera seus 70 anos? Você é solidária nas dívidas do seu marido. Então eu acho, na minha concepção de vida, isso não é uma verdade, é minha concepção de vida, que pra mim é importante que eu não seja mãe da pessoa, que eu não gerencie a vida dela. Então ela tem que ter autonomia pra fazer os erros e acertos dela. Só que, se ela errar, e se ela errar muito, você é solidária na hora de pagar. É muito difícil você ser solidária na hora de pagar se você não foi solidária na hora de decidir.
Cris: [interrompe]…você não foi consultada na hora de decidir…
Ju: [interrompe] Então isso eu acho que é uma falha de direito e não de relacionamento. Pra mim, o cônjuge, a gente deveria ver que eles são autônomos, deveria enxergar a relação de casamento como, não duas pessoas anti sociáveis, mas duas pessoas autônomas e o que você assumiu sozinho você paga sozinho e o que eu assumi junto com você…tipo, por exemplo, a casa, foi uma coisa que a gente assumiu junto, nós dois assinamos? É como se fosse uma sociedade qualquer, de direito civil. Eu posso comprar uma casa junto com você, posso comprar junto com meu marido e aí a gente é responsável solidariamente, agora as dívidas da empresa dele, as dívidas, sei lá… “a minha mulher é uma consumidora compulsiva ”. Por que que o homem vai ser responsabilizado por isso? Porque eu não acho que ele tenha que tratar a mulher dele que nem uma criança, que ele tenha que ficar olhando os gastos dela. Mas ele não tem que fazer isso se ele não tiver que pagar por esses gastos e vice-versa.

(Bloco 4) 31’ – 40’59”
Ana Paula: Mas aí é um ponto importante. Esta… Isso existe sim. Isso, em direito, está mais ou menos separado. Esta ideia de pagar a dívida do outro, essa dívida foi para a família.
Cris: [interrompe] Exato.
Ana Paula: Então se o outro teve proveito econômico com a dívida, então é eu posso obrigá-lo a pagar também. E se a dívida foi contraída em proveito da família, a família que vai pagar, os dois.
Cris: [interrompe] É aí que eu acho que começa a entrar o problema de ‘essa individualidade não é tão individual assim’.
Ana Paula: [interrompe] Isso, isso.
Cris: E essa autonomia não é tão autônoma assim
Ana Canosa: [interrompe] E tem uma coisa subjetiva…
Cris: Ah, vai lá, do jeito que você quiser porque você tem toda liberdade. No final das contas, e inclusive se isso vier pra um divórcio, você tem que arcar com as dívidas que você não foi consultada.
Ana Canosa:[interrompe] Isso.
Cris: Então, não dá pra ser essa autonomia assim, “cada um vive a sua…”
Ana Canosa: [interrompe] Faz o que quiser…
Cris: É, o custo da família é cinco mil, cada um põe dois e quinhentos e aí você faz do jeito que você quiser.
Ana Canosa: [interrompe] Aí tem duas coisas que eu gostaria só de apontar…
Cris: [interrompe] É bem ilusório.
Ana Canosa: A primeira é que não dá pra controlar tudo, porque de repente a gente tem tudo bem divididinho, ok, e aí eu descubro que meu marido tem uma dívida de jogo que ele era viciado e eu não tô sabendo e o que que eu faço com ele? Gosto dele, é pai dos meus filhos, super curto, eu não quero me separar…Eu não vou pagar? Que aí tem uma questão que é subjetiva, é da sua escolha em ajudar ou outro não e a gente não controla tudo, né? Isso é uma questão.
Cris: [interrompe] O termo até que eu li que eu não conhecia é “traição financeira” porque a traição financeira tem levado diversos casais a se separarem.
Ana Canosa: [interrompe] Isso. E às vezes a gente banca a história do outro, é uma escolha emocional, né, que ninguém tem nada a ver com isso também. E a segunda questão, que eu acho que é a que a gente tá discutindo é que assim, os casais, e aí a Ana Paula acho que pode até falar melhor do que eu, não estão habituados a conversar sobre isso, inclusive, sobre aposentadoria, inclusive… Outro dia, eu tava na aula da terceira idade e como eu dou aula pra terceira idade há muitos anos esses assuntos tão sempre muito presentes, né, porque são pessoas que tão envelhecendo, tem pessoa que morre no meio do caminho da faculdade, tem gente que fica com Alzheimer, aí a outra fica viúva, viúvo, tal… Então eu tenho que ficar lidando, eu lido com envelhecimento na minha vida muito presente, né, e acho bom, porque eu me coloco ali o tempo todo e trago esses assuntos, inclusive, pro meu relacionamento amoroso. Mas ‘tavam’ me contando uma história assim, que a mulher chegou pro marido e falou “Olha, vamos fazer o seguinte? O que é que nós vamos fazer se a gente tiver Alzheimer? Por que minha tia teve Alzheimer, meu tio teve Alzheimer, fulano teve Alzheimer. Vamos discutir sobre isso?”, “Vamos discutir sobre isso”. E eles fizeram um acordo, um contrato inclusive, que se um deles tiver Alzheimer, o outro… Ele vai internar, porque eles não… Eles acham ainda que eles tem muitas coisas a viver, né, então assim, de sair, de não sei o quê e eles não querem ficar com esse ônus de ficar cuidando de uma pessoa que olha pra sua cara e não lembra nem quem você é. Então ok, eles fizeram uma caixa, um fundo e eles fizeram esse acordo: “Ó, se um de nós tiver Alzheimer e o outro não estiver a fim de cuidar não tem problema. Tá liberado. Você me coloca num lugar”, então eles já foram olhar várias casas…
Ju: [interrompe] Nossa, que saudável isso! É muito saudável!
Ana Canosa: Eu acho…
[Todos falam]
Ana Canosa: Então, é assim, é um acordo. E depois eles falaram com as famílias, né, as pessoas que estão vivas ainda, pra dizer “Olha, esse é o nosso acordo. Se o outro fizer não vá dizer que é filho da mãe, porque a gente está dizendo que”…
Ju: [interrompe] Respeite.
Ana Canosa: Então… Quem faz esse tipo de conversa?
Cris: É muito difícil. Hoje eu, particularmente, me preocupo muito com aposentadoria.
Ju: [interrompe] Eu também.
Cris: Porque a gente tem passado por toda essa questão de previdência, a gente sabe que a nossa geração não vai ter isso.
Ana Canosa: [interrompe] Mas ainda é raro.
Cris: E a gente fica aí, no dia a dia, “Ah, vamo lá, pague aqui”, mas no futuro… Então assim, relacionamento, casamento, longo prazo…
Ju: [interrompe] Mas pode tá na conta da… Na nossa casa tá na conta da família. O quanto você tem que colocar no bolo, inclui previdência privada, entendeu?
Cris: Sim, o que eu tô querendo dizer é que num geral, e eu acredito nesse contrato amigável de “você tem os seus gastos e eu tenho os meus gastos”, mas eu acho que minimamente, é importante conversar sobre como administrar esse dinheiro porque se a pessoa contraiu uma dívida, invariavelmente você paga por ela.
Ana Canosa: [interrompe] Exatamente.
Ana Paula: [interrompe] No fim vai afetar você também.
Cris: Você vai pagar.
Ana Canosa: [interrompe] Você vai pagar, é verdade.
Cris: Se for pra divorciar, amigo, divide os bens e divide as dívidas, então assim, minimamente, tem que ter um compromisso dos dois lados até que ponto chegar, até que ponto considerar a renda do outro…
Ana Paula: [interrompe] Ter um pouco de conhecimento sobre a renda do outro, onde põe o dinheiro…
Cris: [interrompe] Não precisa disso tudo não, mas minimamente, tem que ter porque senão você vai pagar por uma dívida que você falou: “tá aí”. E o outro ponto, assim, pra jogar aí de vez, tipo, ”não quero nem olhar pra sua cara mais”, é sobre a supervalorização do sexo. Conta pra gente, Ana, como que é isso pra esses casais falarem “a gente vai se separar”?
Ana Canosa: Então, na nossa cultura hoje, né, com essa… A nossa pseudo… Eu chamo de pseudo porque não sei também se foi tanta revolução sexual dessa maneira, mas ok. As pessoas valorizam demais os orgasmos, o desejo e existe um mito muito forte, que é o mito do desejo espontâneo. A gente tem essa ideia de que você sempre vai ter desejo espontâneo, aquele desejo espontâneo que aparece no corpo que você olha, você tá com vontade de transar, você sai pra trabalhar você fica pensando “Ai, que horas que eu vou trepar com esse sujeito? Ai”. Aquela coisa que vem no seu corpo o tempo todo, esse pensamento em sexo. Nós já sabemos que casamento e sexo não são duas associações muito interessantes para alimentar desejo. Casamento que eu digo, tradicional. Porque se amor é compromisso e sexo é autonomia, casamento morando em casa conjunta é só compromisso…
[Risada da Cris]
Ana Canosa: Então você acorda de manhã, você tem que tomar café, você tem que levar criança pra escola, você tem que pagar conta, você tem que falar com a empregada, você tem que levar pro hospital, nanananana…
Cris: [interrompe] Operacional, né? Um operacional gigante.
Ana Canosa: Blá, blá, blá… Aí você chega em casa… Blá, blá, blá… Cadê a criatividade? Qual é o quarto de casal que vocês conhecem que é erótico? Que respira sexo? Nenhum. Ou poucos! Você entra na casa da sua amiga e fala “Meu, isso aqui… Vocês trepam nessa casa, né?”
[Risos]
Ana Canosa: Não é! Porque não é… A nossa casa não é assim!
Ju: [interrompe] É familiar, é aconchegante, é ninho.
Ana Canosa: É muuuito aconchegante. E o desejo sexual, ele é criativo, ele é curioso, ele é agressivo, não violento, ele é agressivo… Então, fica… É mi-mi-mi… Você sabe como você vai trepar. Passa a mão aqui, passa a mão ali… Sabe?
[Risada da Ju]
Ana Canosa: Aí você tem que fazer uma puta dum negócio… Aí é a vizinha que escuta, o filho, a babá…
Ju: [interrompe] A mãe dorme no quarto do lado, os filhos no outro quarto…
Ana Canosa: Então o seguinte: este desejo, pra maioria dos casais com casamentos de coabitação, relacionamentos de coabitação a longo prazo, vai diminuir. E vai diminuir não é só pelo casamento, é porque você para de desejar muito também. Eu digo pros meus pacientes assim “a vida adulta, meu filho, ó, segura que é foda!”. Porque você já não tem fantasia de adolescente, você já sabe que você vai morrer, porque adolescente acha que não vai, você já sabe que se você fumar muita maconha você pode ter surto psicótico, você já sabe que se você cheirar muito pó você vai acabar com a sua grana, você sabe que você pode ser traída. Acabou aquela fantasia de que só você é a pessoa que o outro deseja. E você tem que pagar conta, cara! Vida adulta é foda! É muito foda!
[Risada da Ju]
Ana Paula: [interrompe] Cadê a parte boa?
Ana Canosa: Cadê a parte boa? Aí você tem que fazer a parte boa. E fazer a parte boa começa por desejar. Qualquer coisa: desejar viajar que é o que você tava falando, desejar um amigo, desejar sair, desejar uma roupa nova, desejar, desejar! Então você junta o adulto que já não tá desejando tanto, ele só tá correndo atrás do ‘prejú’, ainda mais num país como o nosso que a gente tá correndo atrás do prejuízo, literalmente todo mundo, né, e com um desejo sexual que já não tá tão ativo por conta desta situação, né, que a paixão já diminuiu e o casamento ali é um grande compromisso.
Ju: Mas ao mesmo tempo você tá vendo nas redes sociais e bombardeado pela mídia…
Ana Canosa: [interrompe]Todo mundo dando!
Ju: [interrompe] A vida é uma suruba e só você não foi convidado.
Ana Canosa: [interrompe] Todo mundo tá dando.
Ju: [interrompe] Todo mundo dando. Mas não é dando.
Ana Canosa: [interrompe] É dando muito.
Ana Paula: [interrompe] É dando muuuito.
Ju: É canguru perneta pendurado no teto, é no lustre.
Ana Canosa: “E você não ejacula? Ah, amiga! Você não ejacula, gente, que é isso?
[Risada da Cris]
Ana Canosa: “E orgasmo múltiplo, quantos você tem? E achar o ponto G? E comprar todos os vibradores do planeta? E transar com mulher? Você não transa com mulher?”
Ju: [interrompe] “Não, ainda?”
Ana Canosa: Ah, gente, você não tem relacionamento poliamoroso?”
Ju: [interrompe] “Ah, não!”
Ana Canosa: “Você não foi na casa de swing ainda? Não deu pra todo mundo?” Então assim, veja… Então você, justamente esse contra-ponto insuportável, que aí você fala “fudeu”…
Cris: Não, é pior: não fudeu!
[Risada da Ju]
Ana Canosa: [interrompe] Eu não estou desejando e ainda por cima está todo mundo desejando.
Ju: [interrompe] Eu sou um fracasso.
Ana Canosa: Eu sou um fracasso.
Ju: [interrompe] Eu sou um fracasso.
Ana Canosa: [interrompe] E aí você fala…
Cris: [interrompe] E o pior, ainda tem a lembrança do quanto você era boa nisso.
Ana Canosa: [interrompe] E o quanto vocês como casal trepavam muito. Então isso deprime as pessoas e as pessoas não tem um tempo pra dizer “gente, é isso, faz parte, ok”, então eu preciso me disponibilizar para desejar, inclusive o meu parceiro que eu amo e que a gente trepa bem, se é que se trepa bem.
Ju: Sabe que… Tenho uma amiga que ela fala muito bem sobre isso, que ela fala assim… Você pega o mesmo churrasco. Normalmente se divide a ala de mulheres e a ala de homens. Aí as mulheres, né, aquela sinceridade básica de mulher: ”Mano, o que é que eu tô fazendo, eu não tô dando”, aí a outra “Ah, eu também não”, “Eu também não”… ”Ah, então beleza, é isso mesmo, né?”
Ana Canosa: [interrompe] “Nós não estamos dando”.
[Risos]
Ju: “Então beleza, é a vida, tô cansada demais, num guento, tanta coisa que tem pra fazer e não consigo”, “ah um dia vai melhorar?”, “Um dia vai melhorar, então beleza?”, “Beleza”. Do outro lado, na outra roda, tá “Comendo cinco vezes por semana… No lustre, no teto…”
Ana Canosa: [interrompe] Os caras mentindo pra caramba.
Ju: Aí você vai ter que lidar com a expectativa do seu marido que tá frustradíssimo porque todos os amigos dele tão comendo pra caralho, só ele que não. Aí a minha amiga fala pro marido dela assim: “É mentiiiiira, é mentira, eu conheço a mulher dele, ela não está dando!”.
[Risada da Ana Canosa]
Ana Canosa: [interrompe] Ou ele tá comendo outra pessoa.

(Bloco 5) 41’ – 50’59”
Ju: Isso, aí ela fala “Se ele tá comendo é fora de casa. A mulher dele, ele não está comendo”. E eu acho isso muito interessante porque isso faz uma pressão no casamento desgraçada. Na aula de Comportamento de Consumidor, quando eu fiz a pós em Comportamento de Consumidor, tinha uma aula que, assim, eu nunca esqueci que ele falava que o ser humano, o jeito que a gente raciocina, a gente não consegue valorar coisas absolutas. A gente só consegue… Valor, ele é sempre relativo. Então, por exemplo, se você tiver um produto e ele não tem concorrente as pessoas não tem como saber se ele é mediano ou ótimo, se ele tá caro ou barato… A gente não sabe! Nosso cérebro não funciona assim! A gente sempre compara e é por isso que, assim… Não é valores absolutos se você é feliz ou não. Se você tem um cunhado que ganha mais dinheiro que você, aí você é infeliz. Agora, se você ganhar mais do que o seu cunhado, não interessa se o valor absoluto de quanto você ganha, você tá mais feliz.

Ana Paula: Você não tem como…

Ju: E isso tem muito impacto em casamento, eu vejo, a questão do sexo. Quanto seus amigos tão fazendo?
Ana Canosa: Isso, isso…

Ana Paula: Faz uma comparação…

Ju: Quando um amigo se separa e sai no Tinder passando o rodo geral, todos os casados pensam “Nossa, mas sou fracassado, porque eu transo uma duas vez por semana nã nã nã..”. Ninguém tá vendo esse amigo dois meses depois, que cansou do Tinder, que não transa nem uma vez na semana….

Ana Canosa: E que tá mal, e que tá… exatamente.

Ju: Não, ninguém.

Ana Canosa: É, é.

Cris: Tem um ponto importante nisso, porque o extremo é extremamente frustrante, e a ausência também é. [Ana Canosa: Uhum.] Porque como a gente fica muito ocupado no operacional, que é a vida, né. Tem um meme muito bom na internet, que fala “quem gosta de sexo é adolescente, adulto gosta é da Leroy Merlin”

[Risos]

Ana Canosa: É ótimo, ótimo, ótimo!

Cris: É sempre assim, né? A gente gosta é de conta paga no final do mês, entendeu, quem gosta de sexo é quem tá a toa. Eu gosto é da pia sem louça pra lavar. Então, a ausência completa dele também desconecta [Ana Canosa: Desconecta. Total.] o casal e a intimidade, né, porque a intimidade tá também no toque, na nudez, em saber o que o outro gosta, porque tem o afeto, o sexo também é afeto.

Ana Canosa: “Me deseja, me ama.” E mais, né. Quando você não tem sexo, você gera fantasias no outro, no parceiro, muito fortes, ou no casal. De, tá me traindo, é gay, é lésbica, quando o casal é hétero. [Ju: É frígida. Que Freud adora.] É frígida. Tá dando pra outra pessoa. Não me ama mais. Então, realmente, o sexo promove intimidade e faz, além de todo um bem estar físico, faz um bem psíquico. Agora, eu já vi de tudo. Como eu sou terapeuta sexual e terapeuta de casais, então assim, os casais que conseguem resgatar a sexualidade…

Cris: Fala um pouquinho disso, vamos pra esse lugar.

Ana Canosa: É, os casais que conseguem resgatar a sexualidade com qualidade, o ato sexual com qualidade, independe se é uma vez por mês, uma vez a cada dois meses, uma vez por semana, três vezes por semana, são os casais que começaram bem. Casal que tem liga. Porque eu já vi muitos casos de casais que nunca foram muito bem no sexo. Porque quando ‘cê tá apaixonado, ‘cê nunca pode, e é o grande, a gente sente muito traído com isso, porque quando você está apaixonado, você não está no seu normal. Então, e o pior é que a gente…

Ju:A pequena loucura.

Ana Canosa: A pequena loucura. E o pior que a gente toma por base o outro nessa fase de paixão, então ‘cê fala “nossa, como transa”, e aí, depois que pára de transar, o cara vai chegar no consultório e “meu, ela transava muito quando a gente era namorado, depois que”, mas não é depois que casou só, é que aquela mulher, por exemplo, já não tem uma atividade, sexo pra ela não é uma prioridade por “n” razões, só que ela estava num estado que a provocava desejo o tempo inteiro, que é o estado de paixão. Então, de verdade, quem aquela mulher é, é aquela que transava loucamente, ou aquela que não gosta tanto de sexo assim?

Ju: Ou que precisa ser provocada, né?

Ana Canosa: Então, isso gera uma certa sensação de traição.

Ju: Né, amigo? Porque o quanto o cara tá se esforçando também? [Ana Canosa: Isso.] Porque isso que eu acho, assim. Porque, o amor romântico, ele pressupõe que não precisa haver esforço. [Ana Canosa: Não precisa, isso.] A gente já conversou muito sobre isso aqui. Porque, cara, ou é espontâneo, ou não tem valor. Se eu preciso fazer alguma coisa então, se você não tá com vontade, então não precisa. Não, não, não, não. Calma, amigo. Né, então eu acho que aí que você tava tentando chegar. [Ana Canosa: Isso.] Quando você tava falando que assim, olha, o desejo, ele também não é só, o espontâneo ele também vai diminuir, independente se você tá com uma pessoa, com a pessoa certa. [Ana Canosa: É isso aí, é isso aí.] Ele vai diminuir. Então o que que você pode fazer?

Ana Canosa: Você tem que se disponibilizar.

Ana Paula: O desejo é outra coisa.

Ju: É. Você já pensou o que que essa pessoa gosta? Vocês já conversaram? Que vergonha, né? [Cris: É que na verdade dá trabalho, né?] Conversar mesmo, sobre o que que ‘cê gosta, o que que te excita, vou te descobrir um pouco mais, dá trabalho, né?

Ana Paula: Dá trabalho, leva tempo, tem que se disponibilizar.

Ana Canosa: É motivação. Motivação e erotismo. Isso você tem que criar. Você tem que colocar isso como uma prioridade na relação. Os casais que transam bem, né, e que tem liga, a tal da química que ninguém consegue me explicar muito bem o que é isso, mas existe, uma coisa tipo beijou, colou, né? É o cheiro, é o corpo… casal que tem isso, e que tem qualidade sexual resgata se quiser. Se quiser. E aí tem que se deparar em como é que entende o sexo, se tá tendo motivação, se tão a fim de ter intimidade, se tão a fim de resgatar, resgata fácil. Porque existe uma memória boa. Tipo, a gente trepava bem, ok, vamo voltar nisso? Vamo voltar nisso. O casal que não tem liga no começo e que se casou por outras motivações, financeira, de companheirismo, familiar, “ai, eu não queria mais ficar sozinha, então casei com o cara, porque ele vai ser pai do meu filho”, etc. Isso não, não adianta, ó, eu to falando, Ana Canosa, tenho 48 anos, [risos] não adianta, dificilmente vai rolar. Pode rolar um sexozinho ok, mas tem, essa coisa, da química do casal, é muito, pra mim, é 80% da vida sexual de qualquer um. E eu vou dizer mais para os ouvintes: se vocês conhecem uma pessoa que você tem química e que está disponível, cara, agarra [risos], porque isso na vida adulta, não vai acontecer muitas vezes. [Cris: É, difícil.] Isso vai acontecer na adolescência várias vezes porque tá todo mundo… mas na vida adulta, se você encontra uma pessoa, que tem química contigo, e que é uma pessoa legal [Ju: Valoriza, não joga fora, não desperdiça.] e que está disponível pra viver uma história de amor, meu! Agarra! Dá um, meu! Vai lá!

Cris: Dá um jeito, dá um jeito! Ana, conta pra gente, se a gente tá em crise, dá pra recuperar? [Ana Canosa: Dá, dá!]Qual que é um baby steps mínimo pra recuperar?

Ana Canosa: Olha, eu acho que quando o casal ainda tem projeto comum, como eu falei, quando você ainda tem vontade de fazer alguma coisa com essa pessoa, e por razões de… porque assim, você tem vários pontos que eu acho que são difíceis pra você avaliar numa crise de reconexão. Primeiro é personalidade. Tem pessoas que são muito difíceis. Muito. Tem pessoas que são muito difíceis. Elas exigem um amor, sabe, quase incondicional do outro, então são as pessoas explosivas, as pessoas que têm transtorno de agressividade, aquelas, ou pessoas muito sistemáticas, difíceis, fóbicas. É difícil conviver com pessoas assim. E tem gente que tem esse dom mesmo de generosidade, então a primeira coisa que eu acho é…

Cris: Eu achava engraçado que a minha vó falava que meu avô era muito sistemático. Eu adoro essa palavra. Sistemático.

Ana Canosa: Então eu acho que é uma coisa assim, a primeira questão: eu consigo conviver com esse sujeito? Com essa sujeita? A personalidade desta pessoa em convivência comigo, eu suporto? Ou isso está me matando, isso está me deixando diminuída, tá diminuindo minha auto estima, eu tô ficando depressiva? Essa é a primeira coisa que a pessoa tem que pensar. Porque personalidade não se muda. A gente adapta, a gente ajeita, a gente usa da medicação pra determinados tipos de transtorno, mas aquilo vai ficar. E quanto mais velho, vai piorar. Então acho que a primeira questão que você avalia num casamento, pra ver se você se divorcia ou não, se vale a pena enfrentar a crise ou não, se você vai até mais últimas consequências, é você avaliar os traços de personalidade do outro e o quanto que você consegue conviver ou não, e o quanto isso tá te matando, te minimizando, quando você não é mais sujeito, você é apenas um prolongamento daquele que exige um amor que você tá se arrastando porque ele te consome demais. Essa é a primeira questão, né. Depois, eu acho que todo o resto, você ajusta. Se os dois tem isso como um projeto. O projeto do resgate do casamento tem que ser dos dois, não adianta ser de um só. E muitas vezes, as pessoas se falseiam e boicotam, e chegam no consultório “ah, a gente quer resgatar”. ‘Cê vê um querendo, e o outro não. Né? E isso é muito doloroso também. Quando você descobre que a pessoa tá ali falando num processo terapêutico, que é foda, né, ‘cê tá na frente de uma pessoa que ‘cê não conhece, abrindo seu coração, discutindo tudo, e aí o outro tá dizendo “não, eu to aqui, eu to aqui” e depois de três semanas, descobre que a pessoa que tava ali, na verdade tinha uma amante, que isso também é muito duro, né, num processo de terapia de casal, quando você descobre o que de fato tava acontecendo, porque o outro tava apaixonado por uma terceira pessoa, que é uma coisa que acontece. Onde é que tá o projeto de levar e resgatar essa crise?

Ju: É importante colocar que a gente tem um tabu enorme sobre traição, né?

Ana Canosa: Tem. Muito.

Ju: A gente vai fazer um programa sobre poliamor porque a gente acha que é um programa a parte, mas tem traições e traições, né, Ana, eu acho que o que dói muito é a traição da confiança e do projeto. [Ana Canosa: Isso.] Porque você pode ter encontro sexual com uma pessoa sem mudar o projeto. [Ana Canosa: Exatamente!] Eu continuo na minha família, é isso que eu quero, eu tive um encontro sexual com outras pessoas.

Ana Canosa: E eu protegi a minha, o meu companheiro.

Ju: E eu protegi a minha família, exatamente.

Cris: E isso aí entra uma série de polêmicas, na minha opinião, por exemplo, você não precisa necessariamente estar com um problema no seu relacionamento [Ana Canosa: Não, de jeito nenhum!] pra querer transar com outra pessoa, porque eu acho que é da arte do ser humano explorar e querer variar.

Ju: Não, e eu acho que tem várias motivações diferentes, entendeu? Pra esse encontro sexual fora do casamento, tem motivações várias. Que não são só insatisfação, que não são só [Ana Canosa: Curiosidade!] curiosidade, mil coisas.

(Bloco 6) 51’ – 1:00’59”
Ju: Eu acho estranho, né, na época em que eu era de igreja, assim, super fechada, dogmática, eles falavam: “O único motivo, para se acabar um casamento, era traição”.
Ana Canosa: Eu não acho.
Ju: E isso, eu era adolescente, isso já me indignava. Porque eu vinha de um histórico de relacionamentos extremamente abusivos, e eu via que, assim, às vezes, a traição, e a maior parte das vezes, na, na minha concepção, não é o pior que você pode fazer para uma pessoa. Você estar indisponível, você ser uma pessoa agressiva, você ser uma pessoa manipuladora, são coisas que, são paulatinas, acontecem todos os dias, e são mais danosas do que uma traição.
Ana Canosa: [interrompe] … Isso.
Ju: Então eu conheço, por exemplo, homens que foram ótimos maridos, ótimos pais, que construíram ótimas famílias e que tiveram relacionamentos…
Ana Canosa: [interrompe] Hum-hum.
Ju: Assim, mais de um, pontuais, com cuidados de proteger a família e tal e, assim, de verdade é esse, é o grande tabu? Essa é pior coisa que você pode fazer com uma pessoa? Assim, eu não consigo pensar assim.
Ana Canosa: É, eu também não. E acho que, só aproveitando para não esquecer, você falou uma coisa que é, para mim, que é uma coisa mais importante para se resgatar uma crise por conta de uma infidelidade conjugal. Que é o casal entender a motivação da infidelidade. Porque a partir da motivação do outro, porque que o outro foi infiel, e isso jogar limpo, é que eu consigo passar por cima disso. Porque as fantasias sobre a traição são, são às vezes muito maiores e muito loucas, né, e que vão virar um fantasma na sua vida. Se você entender a motivação do outro e o outro for honesto, fica muito mais fácil de… de lidar.
Ju: [interrompe] É, então, é que dá para você ter relacionamento extraconjugal sem ser desleal, né?
Ana Canosa: [interrompe] Opa! (positivamente)
Ju: É essa a questão né?
Ana Canosa: Dá, dá pra ser.
Ju: Porque a questão é, tipo, quando as coisas são conversadas e você não perdeu a confiança. Você sabe que a palavra dele ainda é confiável, que você ainda pode, quando ele disser: “Estou até mais tarde no trabalho”, você continua confiando. Eu acho que não necessariamente um caso extraconjugal coloca tudo a perder, né?
Cris: Bom, então, a gente entendeu aqui que, se acabou a parceria, acabou intimidade, acabou o respeito, acabou as expectativas…
Ju: [interrompe] Admiração.
Cris: Acabou a admiração. Não conseguimos mais ter planos juntos, não consigo planejar e ver aquela pessoa daqui cinco anos comigo, “Amigos, acabou”. Ana, conta pra gente, Ana Paula, temos muitas Anas nessa mesa hoje. Como que é o divórcio hoje no Brasil? E como a lei tem acompanhado essa sociedade tão mutante?
Ana Paula: Bom, a lei acompanha muito bem, no meu ponto de vista. Porque se a gente analisar o que era e o que é hoje, (risos) outro país. Vamos lembrar que não tinha divórcio, né? Os casamentos eram pra sempre, juridicamente, mesmo que terminassem. E agora que nós, hoje, podemos nos divorciar, teve durante um bom tempo aí na legislação brasileira, uma situação na qual, primeiro o casamento… As pessoas se casavam, tinham que esperar um prazo pra poder se separar. Depois tinham que esperar mais um prazo pra poder divorciar, e aí sim, com o divórcio, aí eles podiam casar de novo.
Cris: Tinha o desquitar, né? Aff…
Ana Paula: Em 77, foi isso, tinha o desquite. Depois começou a ter a separação e o divórcio.
Ju: Separação de corpos, pra você ter um tempo, pra você saber se era isso mesmo que você queria, porque as pessoas…
Ana Paula: [interrompe] É isso aí.
Ju: …brigavam e voltavam 300 vezes, e quem nunca viu um casal de namorados que já brigou e voltou 300 vezes.
Ana Paula: [interrompe] E voltou.
Ju: Então, não é completamente alienígena de porquê que isso, essa lei surgiu…
Ana Paula: [interrompe] Isso era pra manter.
Ju: [interrompe] Tem um sentido…
Ana Paula: A legislação sempre quis manter. Mesmo depois de admitir o divórcio, a ideia era “vamos manter os casamentos”. Então, vai se divorciar, os dois decidiram que vão se divorciar, na verdade só um precisa, né? Essa história de um…
Cris: [interrompe] Aqui não cabe isso, se dois não quer…
Ana Paula: Não. Não. Essa ideia de “Eu não vou te dar o divórcio” nunca existiu.
Cris: A gente vê em todas as novelas isso.
Ana Paula: Não… [Risos]
Cris: “Não vou te dar o divórcio”…
Ana Paula: Não. Um que não quer mais ficar casado, juridicamente…
Ju: [interrompe] Basta.
Ana Paula: Bastou. Ele entra com a ação e ele hoje está divorciado. Até 2010, o que acontecia…. Não é muito tempo. Até 2010, entrava com pedido de separação judicial. Podia entrar com pedido de separação de corpos, a separação de corpos é uma coisa um pouco mais complicada. É aquela questão de um relacionamento abusivo, havia algum perigo, e aí sim a separação de corpos.
Ju: Entendi… tá.
Ana Paula: Mas não havia nada disso, separação judicial. Separava judicialmente, esperava um ano, essas pessoas separadas judicialmente não podiam se casar, esperavam um ano e aí depois, pedia-se o divórcio. Nesta situação, sempre os juízes tentavam conciliar. Isso era disciplina legal, precisava tentar conciliar. Então chegava o casal, basicamente, rapidamente, o que acontecia: o juiz ouvia uma parte isoladamente, depois ouvia a outra parte isoladamente, tinha certeza que era aquilo que eles queriam. “Realmente é isso que vocês querem? Porque você sabe que saindo daqui o seu marido pode arrumar uma outra mulher”…
[risos de Cris e Ju]
Ana Paula: “Você sabe que saindo daqui a sua mulher”…
Cris: Pressão…
Ana Paula: Ele precisava deixar claro, para aquele casal…
Cris: [interrompe] É aquela hora que deve falar assim ‘eu quero mais é que arrume…
[Risos]
Ana Paula: … que aquilo. [Risos] É. ‘Se já tivesse arrumado, já me … [incompreensível] um monte…
Cris: [Risos] ‘Me dá sossego’…
Ana Paula: É… pra não ter mais esse problema. Mas o juiz precisava deixar isso claro e muitas vezes isso empacava, né. As pessoas demoravam pra terminar o casamento. Hoje, verdade, hoje, em uma semana dá pra divorciar. Casou hoje, amanhã pode pedir o divórcio. Se os filhos são maiores e capazes, pode-se pedir o divórcio imediatamente no cartório. Não precisa ir ao poder judiciário, divorciar. Então vai no cartório de notas…
Ju: [interrompe] Não tem um processo, é isso que você está falando.
Ana Paula: Não tem um processo. Para pessoas que têm filhos maiores e capazes.
Cris: Ou sem filhos.
Ana Paula: Ou sem filhos. Exatamente. Ou sem filhos.
Cris: E que se acordaram na divisão dos bens…
Ana Paula: Esse é o grande problema.
[Risos]
Ana Paula: O divórcio é lindo, e… e rápido e.. e tranquilo quando marido e mulher estão de acordo com relação à partilha de bens, à guarda dos filhos, aos alimentos, ao uso do nome da mulher ou do homem de casado… Essas questões jurídicas que…
Cris: [interrompe] Que é o que a gente chama de consensual, então.
Ana Paula: Esse é o consensual. Consensual…
Cris: [interrompe] …Consensual, hoje, tá com cerca de 70% dos divórcios que acontecem. Mas me conta, e aqueles 30% [Risos]?
Ana Paula: Aqueles 30%… São vagabundos..
[Risos]
Ana Paula: Aqueles 30%…
Ju: Dão muito trabalho…
Ana Paula: Dão muito trabalho. E aí, acabam com o pouquinho que restou da família ali. Aquilo impacta não só aquele casal que tá divorciando. Impacta toda família. Existem casais que perdem o patrimônio só pra brigar. E casal que diz: “Eu vou até o fim, eu vou até as últimas consequências, eu quero prejudicar, eu… O que que eu posso entrar com ação pra prejudicar esta mulher, pra prejudicar este homem?”. Então isso, isso é uma coisa patológica. Eu até costumo dizer, às vezes, o divórcio litigioso que demora dez anos, precisava ser realizado praquela mulher, praquele homem. Por que aquela pessoa fica pensando, “Quando que é a audiência, doutor? É no dia 25 de abril?” Então no dia 25 de abril aquela mulher sabe que vai encontrar aquele ex-marido. Aquele ex-marido sabe que vai encontrar aquela ex-mulher. Eles se preparam pro dia 25 de abril. Eles ficam ruminando todo aquele…
Cris: [interrompe] É uma guerra.
Ju: A vida gira em torno desse encontro.
Ana Paula: A vida gira em torno desse encontro.
Cris: [interrompe] Vai pra batalha.
Ju: Desse processo.
Ana Paula: E o dia que o juiz diz: “Acabou aqui”. Aí verdadeiramente é mais um luto. Então, acabou no dia que ele saiu de casa, acabou no dia que ela me procura, no dia que… a gente entra com ação, no dia da primeira audiência… Mas no dia que o juiz diz “Acabou hoje”, aí o luto é verdadeiro, aí não tem mais volta mesmo.
Cris: [interrompe] A gente…
Ana Paula: Tem né, mas não assim, juridicamente ali…
Cris: Isso ainda é possível hoje, que a gente vê muito, de novo, né… na ficção… e assim… “Eu vou tirar tudo dela, eu vou tirar tudo dele.” Hoje, existe isso? Existe esse negócio: “Vou pegar tudo que era dele”, motivado pelo rancor…
Ana Paula: [interrompe] Sim…
Cris: …pela vingança, pela tristeza, da desilusão…
Ana Paula: O pior inimigo que você pode ter é um ex-marido ou uma ex-mulher rancorosa. Vocês vêm políticos aí, que a ex-mulher é que sabe onde tá o dinheiro, a ex-mulher é que sabe o que que ele fez de errado. Uma ex-mulher, um ex-marido rancoroso, pode, de fato, fazer muito estrago na vida de uma pessoa… Na verdade, né, de quem tem telhado de vidro mais, né, mas… Pode sim, fazer um grande estrago.
Ju: Não, mas não só. A gente tava discutindo uma coisa que eu acho muito anacrônica na lei, que eu acho que deveria mudar, assim. Se antes a mulher abria mão da vida pra cuidar da vida doméstica, independente de ter filhos ou não… Ela fazia toda a parte que… pô, a gente sabe muito bem quanto dá trabalho, que é cuidar da parte de casa, das relações e tal. Justo que você dividisse 50% do patrimônio.
Ana Paula: Hum-hum.
Ju: Né? Porque cada…
Ana Paula: Cresceram juntos, né?
Ju: Você se dividiu de um lado, eu fiz divido outra coisa. Hoje não é assim. E me causa muita estranheza que numa separação sem filhos, por exemplo, em que os dois trabalhavam, a mulher vá levar 50% do que o cara construiu ou vice-versa. Me causa assim, MUITA estranheza. Porque eu falo, gente, você não contribuiu em nada para isso, você viu que era ele que pagava as contas, era ele que comprou apartamento, ele que comprou isso, isso e aquilo. E você tinha sua carreira paralela, e na sua carreira paralela, você ganhava muito menos do que ele. Porque que agora você vai ter direito a metade de tudo?
Ana Paula: Mas… lembra…
Cris: [interrompe] Conte-nos mais sobre comunhão de bens.
Ana Paula: Lembra da ideia do contrato? É isso. No dia que eles casaram, foi esse o contrato. Foi essa a comunhão.
Ju: [interrompe] Mas se não casaram, também vale, não é? Porque, assim…
Ana Paula: [interrompe] Ah sim..
Ju: Eu saí…
Ana Paula: [interrompe] União estável…
Ju: Eu morei 4 anos com uma pessoa, quando eu saí eu deixei tudo o que eu tinha comprado na casa. Tudo. Saí com uma malinha de roupa. E eu poderia ter tirado metade da empresa que o cara construiu sozinho.
Ana Paula: É…
Ju: Tipo, assim, é insano que eu tivesse poder, gente…
Ana Paula: Com a sua ajuda indireta…
Cris: Hum-hum.
Ana Paula: Essa ideia…
Ju: Não, imagina… gente. Isso, assim.. é… eu acho isso muito errado.
Cris: É que na verdade, quando a gente vai pro direito, comunhão quer dizer isso. O fato de você estar ali, você está ali para o ônus e para o bônus. E se aquela pessoa ganhou na loteria, que é coisa que é menos esforço… A gente é casado, mas ganhou na loteria enquanto estamos casados, tem a divisão.
Ana Paula: Gente, pensa no contrato. Você tem a liberdade de escolher o que você quiser. Se você se casava até 77 e não escolheu nada, você se casava com comunhão universal de bens. De 77 pra cá, você não quer escolher, é a grande maioria dos casamentos, “Não vamos parar agora pra disciplinar direitinho o que que vai ser na hora do pior”. Então, as pessoas hoje se casam com comunhão parcial de bens. É o legal. Se não escolheu…

(Bloco 7) 1:01’00” – 1:10’59”
Cris: [interrompe] O que que é a parcial?
Ana Paula: Rapidamente, assim, na universal você adquiria os bens antes e durante o casamento, na comunhão parcial você adquire, você pega metade dos bens que foram adquiridos DURANTE o casamento, não o que vinha antes. Então herança, doação, aquilo que ele tinha antes ou que ela tinha antes, isso não comunica. Hoje assim, na comunhão parcial, que é o mais comum, comunica o que vocês fizeram, entre aspas, “juntos”, mesmo que só em nome de um.
Ana Canosa: Mas ela falou, por exemplo, a Ju tava falando né se um cara pega constrói uma empresa ele abre uma empresa, se dá muito bem e tal, e vai. E eles tão com comunhão parcial de bens, se ele se divorciarem ela também pode ter direito…
Ju: [interrompe] Não o que eu tô falando…
Ana Paula: [interrompe] Tem o direito.
Ju: O que eu tô falando é o seguinte, a gente tem a nossa vida ela é separada. O profissional e o amoroso, o afetivo, então eu acho complicado, porque assim, enquanto você tá com a pessoa você participa do benefício de tá com a pessoa bem sucedida…
Ana Paula: [interrompe] Aham… [Murmúrio de concordância ] Ok…
Ju: Ótimo. Mas a partir do momento que você não está mais com aquela pessoa, você vai seguir a sua vida no patamar que você estava. Não tem nada a ver você subir no patamar da pessoa. Assim…
Ana Paula: [interrompe] Não tem nem…
Ju: Não entra na minha cabeça.
Ana Paula: Isso tem uma coisa assim, divorciou o padrão da família cai. E se o padrão da família cai, na verdade realmente tavam juntos também. Não só emocionalmente, eu não vejo muito como pensar emocionalmente a gente tá junto, mas profissionalmente, financeiramente não. É difícil pensar assim, e o direito não pensa assim né. O direito pensa se tá junto…
Ana Canosa: [interrompe] Tá junto.
Ana Paula: Tá junto verdadeiramente cresceu junto. Ganhou…
Ana Canosa: [interrompe] Aí tem uma coisa muito… Uma coisa de liberdade…
Cris: [interrompe] Que é o indireto. Não adianta, se você faz uma empresa enquanto você tá casado com uma pessoa, indiretamente ela pode ter contribuído, cuidando da casa, suprindo as necessidades enquanto você investia na empresa. É o que…
Ana Paula: [interrompe] Te amparando! É o amparo.
Cris: É o que o direito chama de amparo. Eu acho extremamente frustrante…É… É uma divisão cinquenta-cinquenta quando as pessoas tomam carreiras completamente diferente, tem ambições completamente diferentes, mas eu acho que entender isso claramente é o melhor que se pode fazer antes de casar. Porque se você não entende isso, leia o contrato.
Ana Canosa: E é muito louco. Porque, por exemplo, nos casos que eu atendo eu já vi… Quando um dos parceiros traz esse assunto de maneira clara, do tipo: nós somos casados com comunhão parcial de bens, mas eu fiz essa empresa, to usando isso como exemplo, e eu acho que você não tem direito. Então eu quero que você abra mão, faça um documento, sei lá… Já tive várias situações em que se pede pra fazer um documento, não sei nem se isso é válido ou não. Geralmente as pessoas ficam tão mal com outro, como assim… Então assim, que é nosso problema de não discutir de maneira concreta e objetiva. Porque veja, essa sua questão Ju, é uma questão ética sua, e eu não vejo porque que eu tenho que pegar metade da empresa desse sujeito.
Ju: [interrompe] Sim, sim eu percebo que é muito minha. Eu não colaborei em nada, eu não fiz nada..
Ana Canosa: Outra pessoa vai achar que tem. Então esses ajustes financeiros eles tem que ser falados. Conversados…
Ana Paula: [interrompe] E tem uma coisa muito interessante hoje, esses ajustes financeiros podem ser falados e conversados, DURANTE o casamento.
Ana Canosa: Isso! Não precisa esperar o divórcio.
Ana Paula: Não, e pra manter inclusive quem casou com comunhão universal, pode mudar pra comunhão parcial…
Ana Canosa: [interrompe] Pode mudar, isso.
Ana Paula: E depois pode mudar pra separação, durante o casamento.
Ju: Ah, que interessante! Eu não sabia disso.
Ana Paula: É isso pode.
Cris: O que que é a separação?
Ana Paula: A separação convencional é…É exatamente o oposto, né? O que eu adquiri em meu nome é meu, mesmo que você tenha me amparado, né, porque amparou. E o que ele adquiriu no nome dele é dele.
Cris: Se fala muito pouco sobre isso, quando se vai ao cartório, dar entrada nos papéis…
Ana Paula: [interrompe] Hoje mas… É..hoje mais.
Ana Canosa:[interrompe] Eu fui casada… No meu primeiro casamento pra exemplificar, eu fui casada com separação total de bens, isso há 20 tantos anos atrás.
Ana Paula: Que era raro…
Ju: E aí foi fácil separar.
Ana Canosa: Foi. Foi mais fácil mas a gente tinha um apartamento em comum, que eu fora do divórcio, paguei a metade pra ele, porque o apartamento só estava no meu nome porque ele tinha sido falido. Então a separação total de bens foi pra proteger o meu nome, então isso foi uma decisão, ok. Então nós tínhamos um apartamento comum, comprado com dinheiro dos dois, ok? Só que ele estava no meu nome, se eu quisesse…
Ju: [interrompe] Se fosse má fé, né?
Ana Canosa: Eu saía do casamento e dizia assim: “Amigo, tchau, falou, apartamento tá no meu nome”.
[ todas falam ao mesmo tempo]
Ju: Não existe lei que te proteja da má fé. É isso. Principalmente numa relação tão íntima. Então se tiver má fé, você tá ferrado de qualquer maneira.
Cris: É, o problema é quando a dor, e a vingança, e a frustração, sobrepõe até o seu caráter.
Ana Paula: Isso… Exatamente.
Cris: Porque a pessoa pode realmente não tá de caso pensado sobre aquilo, mas de repente…
Ana Canosa: [interrompe] Naquele momento…
Cris: Fico imaginando é um grande diretor de uma multinacional e a esposa parou de trabalhar porque ele pediu, e ela cuida dos filhos, e tudo mais, e aí chega um belo dia que ele fala: Eu quero me separar porque eu vou casar com minha secretária que tem 22 anos. Essa mulher fala: Você vai, bonito, mas eu vou te tirar é tudo!
Ana Paula: Mas eu vou te dizer que…
Cris: Então é um jeito de mostrar a dor que ela tá sentindo. E cada um usa essa arma que eu acredito que deve ser muito difícil isso.
Ana Paula: É. E muitas vezes usa de maneira absurda, metendo os filhos no meio. Uma coisa que a Ju falou, não existe lei que te proteja da má fé. Quem vê divórcio…
[Risos]
Ana Paula: Eu falo homem, mas assim é a mesma coisa, pessoas mal intencionadas que querem se divorciar, cinco anos antes…
Cris: Nooosso pai! Aí já vamos pra outro nível…
Ana Canosa: [interrompe] Começa a passar os bens pro nome de não sei quem… Opa, vários!
Ana Paula: [interrompe] No momento que a bomba caiu, ela já fez todo o estrago. O fim é só levantar a cortina…
Cris: [interrompe] Dar a informação.
Ana Paula: Porque o estrago já foi todo feito.
Cris: Mas Ana, dá pra separar sem essa agressividade toda?
Ana Canosa: Claro. Dá, bom, depende, óbvio. Se você tiver pessoas saudáveis emocionalmente…
Cris: [interrompe] Mas dá pra separar sem… Não só com o dinheiro mas sem essas agressões, manipulações, jogo de culpa, perseguição.
Ana Canosa: Dá se você tiver pessoas saudáveis emocionalmente…
Cris: [interrompe] Que que as pessoas tem que fazer para reconhecer o fim? Mesmo que ela não queira.
Ana Canosa: Reconhecer o fim.
[Risos]
Ana Canosa: Primeiro é isso. Gente…
Ju: [interrompe] Reconhece a perda.
Ana Canosa: Reconhece a perda. Agora tem uma coisa…
Cris: [interrompe] E não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.
Ana Canosa: Tem uma coisa que eu sempre falo pros meus pacientes, que é muito importante pra todos os processos, que é a finalização de todos os processos, que é o seguinte, finalizou a história como? Como você finalizou essa história? Porque é diferente eu dizer assim, meu ex-marido me traiu, me corneou com uma mulher de 26 anos e não sei o que, foi embora, me deixou na mão, eu tô fudida, que meu filho…blá-blá-blá. Isso é um jeito de falar. Outro jeito de falar diz assim, puxa vida meu, meu marido se apaixonou por outra pessoa e não deu mais o nosso casamento.
Cris: Que adulto, né? [Risos]
Ana Canosa: É a maneira que você fecha a história pra você. Se você fechar a história pra você, você como vítima, você com a autoestima lá embaixo, você foi traída, você…
Ju: [interrompe] Foi trocada, substituída.
Ana Canosa: Acabou. Acabou tua vida. Até você se…Sabe. Até você se reerguer vai ser muito difícil. Agora, então eu sempre falo, vamo vê como que você vai finalizar essa história. Então você precisa começar a lidar com suas crenças sobre o divórcio. Qual é a… AAh, toda mulher que é divorciada acabou, ela não vai encontrar outra pessoa, casamento tinha que ser até o fim da vida. Então tudo isso tem a ver com as crenças que você tem. Se você aceitar o fato de que ninguém é de ninguém, que as pessoas podem deixar de amar que o amor pode acabar que você pode ter várias relações ao longo da sua vida de amores e tomara que tenha, né, pra quem se divorcia que tenha outros amores. Que a vida é assim, você não é uma unanimidade, que o outro muda, que os planos mudam, e que de repente você não é mais a pessoa que o outro quer. Ou o outro não é mais a pessoa que você quer. Se você aceitar isso, já é 80% do caminho, aí você finaliza sua história dizendo, olha, acabou o tesão pra gente e pra mim sexo é muito importante, acabou a admiração, então eu já não estava mais feliz ao lado do outro. O outro já não me quer mais, já não me deseja, se envolveu com outra pessoa. Então se você, você finaliza a história de um jeito positivo, foi bom enquanto durou, né. Só que chegou num momento que a gente já não se ajustava. Então é um jeito diferente…
Cris: [interrompe] Não precisa ser tão dramático. Tão novelesco…
Ana Canosa: Não precisa dramatizar. Afff maria, pelo amor de Deus…
Ana Paula: Isso é ruim, muitos casais trazem para o poder judiciário uma discussão que não é do poder judiciário, é uma discussão psicológica, terapêutica, emocional deles. Só que eles querem discutir isso na frente do juiz.
Cris: Ana Paula, você fica muito fazendo a terapeuta? Como que você lida com isso?
Ana Paula: Faço. [Risos] Sem conhecimento técnico algum.
[Risos]
Ana Paula: A gente faz…
Cris: [interrompe] Mas o ombro amigo tá lá,né. E não tem jeito de escapar.
Ana Paula: E liga sábado a noite, e liga no dia seguinte ao Natal. Essas são as tristezas. No dia seguinte do Natal, no dia seguinte do Ano Novo, um dia depois do Dia das Mães. São os momentos que a pessoa diz, “Aah… Ele…”
Ju: [interrompe] Não, mas… Mas tem mais a ver com as expectativas não cumpridas, do que com a falta do relacionamento. Não é que eu sinto falta dele, porque no Natal ele era um puta cara amoroso que fazia o Natal incrível. É que eu sonhei com uma família de Natal unida e eu to no Natal sem família por causa daquele corno…
Ana Canosa: [interrompe] Que são as crenças. Exatamente.
Ju: [interrompe] Que não me deu. Assim, eu casei com ele pra ele preenchesse essa expectativa e ele frustrou essa expectativa.
Ana Paula: Mas eu te digo que muitas vezes, isso eu faço demais, eu pergunto pro cliente: ele não é tão ruim assim, senão…Não foi sempre. O que que ele é bom? Muitos clientes dizem: eu tô com ódio, tô com raiva, ele fez isso, ele fez aquilo, mas ele é um excelente pai. MUITOS clientes me dizem isso.

(Bloco 8) 1:11’00” – 1:20’59”
Ju: Essa era a pergunta que eu ia te fazer. Que é assim: Pra quem já viu muito divórcio litigioso, você vê pessoas – que é o que você falou: Que nenhuma lei dá conta da má fé – tem pessoas que são ardidas de se fazer um divórcio. Tem pessoas que são péssimos ex-maridos; péssimos ex-mulheres. E eu lembro, tava falando pra Ana que assim, a minha vó me contava muita história quando eu era adolescente. Ela destruiu a minha ilusão. Acho que todo mundo começa a vida amorosa com a ilusão de que assim “ah, problemas existem. Não, eu sei que problemas existem, mas não com esse cara que é maravilhoso, incrível e fantástico. Não tem nada a ver. Esse cara não tem nada a ver com as histórias que eu escuto!” E o fato que ela me contava das histórias do meu vô mostrava que assim não existe ser humano que casou com um crápula. Todo mundo casou com um príncipe. Ninguém casou com um sapo. Todo mundo casou…
Ana Canosa: [interrompe] Ninguém é 100% crápula…
Ju: Todo mundo casou com o incrível. E aí no meio do caminho desandou a maionese. E aí o que eu perguntei pra Ana: Como você enxerga direto a parte mais feia, o que que você observa? Que tipo de pessoa você, cara, você não quer se divorciar de uma pessoa assim? Então, preste atenção, assim, na hora que você começou o relacionamento, não adianta ele ser um bom marido, na verdade você tem que procurar um bom ex-marido.
Ana Canosa: [interrompe] Um bom ex-marido. Exatamente! Um bom ex-marido vai te dar uma tranquilidade para que sequer chegue a ser ex-marido, ne? Você tem um casamento acho que mais tranquilo.
Ju: Não porque se chegar, porque é o que a Ana tava falando: Bom, no casamento, o amor acaba. Então é bom que você comece o amor sabendo que o amor vai acabar. E ai se não acabar, ótimo, que bom! Tomamos precaução demais. Mas sabendo que o amor vai acabar, que tipo de pessoa eu não quero que seja o meu ex.
Ana Paula: Olhe para os amigos dessa pessoa. Eu sempre digo: Meu, presta atenção nos amigos e nas relações e de como essa pessoa lida com os amigos, que tipo de amigos tem e como lida com a família. Por que isso fala muito sobre a personalidade de alguém. Muito!
Ju: O pior perfil de pessoas, o pior tipo de ex-marido que você já teve que lidar, o pior tipo de ex-mulher que você já teve que lidar: Qual é o perfil?
Ana Paula: Olha que coisa engraçada. O ex-marido ruim é o homem muito bem sucedido que sempre teve o dinheiro na mão e ele quer deixar claro que é ele que tá dando. Mesmo quando ele paga pensão pra ex-mulher.
Ana Canosa: [interrompe] Não abre mão do poder, né?
Ana Paula: Não abre mão do poder . É ele que deixa claro. Eu tenho mulheres que tem direito de receber a pensão. Elas ligam pro ex-marido que não depositou e ligam numa situação de submissão. Pedindo! Não é pra pedir!
Cris: [interrompe] É um direito.
Ana Paula: O cartão de crédito não vem te implorar que pague. A ex-mulher vai implorar que pague, muitas vezes. Então pra mim, o pior é o ex-marido dono do dinheiro. O bonzão. Esse é o crápula. A pior ex-mulher é a rancorosa. E normalmente é porque: Ou foi traída ou nesse momento está sendo. O ex-marido que ele consegue
Ju: [interrompe] Ele refez a vida…
Ana Paula: Ele refez a vida. Tá tudo , muitas vezes tá tudo muito bem. Até o dia que o ex-marido se casa. Até o dia que o ex-marido põe outra mulher dentro de casa, põe, consegue uma namorada. Muita ex-mulher procura pra saber: Como é que eu vou deixar os meus filhos ir com essa mulher que eu nem conheço?
Ana Canosa: Então eu vou dar a minha dica para as mulheres sobre essa questão, esse aprendizado do amor romântico que eu acho que tá mudando nessa nova geração, mas que a gente ainda tem isso ainda meio incrustado, assim, que é o fato de ser escolhida. Se você pegar todas as histórias de fadas do século XX, XXI, etc, tirando as novas heroínas que são mais guerreiras. Todas as mulheres vão para o baile para serem escolhidas por um príncipe. Elas se matam e se estapeiam, nem que elas tenham que cortar o dedo e o calcanhar pra botar o sapatinho pro príncipe vir, entendeu? Então elas se matam. Essa é uma construção cultural em relação ao machismo, né, muito forte. Então as mulheres não escolhem os parceiros, elas querem ser escolhidas a qualquer preço. E aí quando ela é tirada do seu posto.
Cris: [Interrompe] Aí ela foi preterida…
Ana Paula: Aí ela foi preterida. Ai ah, meu bem, ela vai virar a madrasta, né, o perfil da madrasta. Aí ela vai querer matar a outra que tirou o lugar dela e o parceiro que tava ali. Então a gente tem que aprender a escolher em conjunto. As mulheres que entram numa relação para serem escolhidas por um homem de qualquer maneira, que vão matar as outras, que vão ser vingativas, vão ser, sabe? Que tem inveja das outras mulheres. Essas tão perdidas porque no futuro serão essas ex-mulheres rancorosas.
Cris: Ana Paula, mas fala pra gente e os filhos com isso? Como que acontece hoje? Porque tem pequenas viradas aí, a nova legislação tem aumentado um pouquinho a porcentagem de casais compartilhando a guarda. Hoje a gente tem 7, 7% dos casais que fazem isso, mas 85% ainda a guarda é da mãe. A legislação que mudou agora em 2014, a guarda só não é compartilhada se um dos pais abrir mão dela voluntariamente. Ou se o juiz perceber que aquele pai não tem condição. Mas como que é nesse processo de separação judicial a questão dos filhos?
Ana Paula: Eu vou te falar como professora e como advogada. Como professora eu sempre digo que o que a gente viu depois de 77 foi uma geração de filhos de pais de fim de semana. O pai homem. O pai era um pai de fim de semana e de fim de semana alternado. A mãe realmente ficava com o filho e o pai vinha pegar pra passear no sábado e entregava no domingo. Isso quando muito. Quando era pequenininho nem isso.
Cris: Eu fui essa geração e inclusive eu não queria ir.
Ana Paula: Muita gente! Então …
Cris: [Interrompe] Porque era chaaaato!
Ana Paula: Você não forma o vínculo com o seu pai…
Cris: [Interrompe] Não forma…
Ana Paula: Você não estreita o laço com seu pai a ponto de esperar aquele dia. Porque chega com quatorze anos você fala: “Ah, eu não posso ir na festa de não sei quem porque eu tenho que sair com o meu pai” E isso é, foi muito ruim. Foi muito prejudicial.
Cris: E tem o tempo todo, né, um fala mal do outro. É uma chatice infinita.
Ana Paula: [Interrompe] Que ainda agrava esse problema. E o que que eu vejo hoje com a guarda compartilhada e na verdade eu acho que a guarda compartilhada, como professora, eu acho a guarda compartilhada a grande sacada dessa nova mudança de direito de família porque mesmo que o pai não queira. É isso que eu sustento que acho que tem que ser. Mesmo que o pai não queira, ele precisa fazer parte da vida do filho. Porque aí sim nós vamos forçar uma barra…
Ju: [Interrompe] Ele também é responsável né? Ele vai falar: Ah, eu não sei. Ótimo, aprenda! Porque a mãe não tem essa opção, né?
Ana Paula: E isso é ruim pro filho. Porque o pai ele vai trabalhar, ele não tem aquela maternidade… Tem que forçar a barra! Pra mim, tem que forçar a barra. Porque aí a gente começa a construir uma geração de pais que troca fraldas, que faz a mamadeira, que levanta de madrugada…
Ju: [Interrompe] Que vai na reunião de escola.
Ana Paula: Que vai n a reunião de escola…
Ju: [Interrompe] Que vai na pediatra.
Ana Paula: E que fala no trabalho: “Hoje eu tenho que sair mais cedo porque eu tenho pegar meu filho!”
Cris: [Interrompe] mas onde que a professora… Onde que a professora discorda da advogada?
Ana Paula: Com tristeza, a advogada vai te dizer que muitos juízes, inclusive, e muita gente diz o seguinte: Ora, se este pai, se esta mãe, não conseguem conversar e não conseguiam quando estavam casados. E não conseguem entrar num acordo quando estavam casados. Agora divorciados quando eles não querem a guarda compartilhada, não sou eu que vou obrigá-los. Eu como juiz, eu como advogado, não posso obrigá-los a manter uma guarda compartilhada se nem eles mesmo querem. E nisso tudo, ninguém tá pensando no filho.
Ju: Na criança…Fala um pouco sobre aquele acordo de parenting que eu te mostrei que acontece na Austrália. Eu nunca tinha ouvido falar disso…
Ana Paula: [interrompe]Eu também nunca.
Ju: [interrompe] E eu achei muito legal.
Ana Paula: A Ju me me mandou um acordo de parenting né? Que na Austrália e eu não verifiquei a fundo se é isso mesmo…
Ju: [interrompe] Uma amiga minha fez isso lá…
Ana Paula: Se é obrigatório ou se isso é só uma direção
Ju: [interrompe] Um proposta…
Ana Paula: Uma diretriz. A pessoa ao se separar. Quando começa a pensar, os dois começam a pensar nisso: Tem filhos? Vai impactar a vida dos filhos? Sem dúvida nenhuma. Então desde antes começam a cumprir determinadas etapas. Eles passam por determinados passos e eles vão: Como nós vamos conversar? Como nós vamos fazer? E ai
Ju: [interrompe] É formalizar…
Ana Paula: Vai aos poucos formalizando isso…
Ju: [interrompe] É dar uma esteira mais estruturada pras decisões que você já vai ter fazer, tipo: Como vamos falar sobre sexualidade com eles? Como vamos falar sobre religião? Que tipo de pedagogia vamos escolher?
Cris: Que o pior na guarda compartilhada é essa sensação de não pertencimento, né, que pode refrigerante aqui e lá não pode, aqui pode ..
Ana Paula: Mas isso é a vida da pessoa, é a vida da criança eu acho. Eu não vejo. Eu acho isso utópico! Eu achei lindo, mas acho utópico para o Brasil e até para quem tá muito mais evoluído, mesmo no Brasil. Como você já de antemão já determina: Olha nós vamos entrar em acordo que ele vai ter essa religião e vai seguir essa religião? Eu acho que isso… botar muita coisa no papel, nessa situação de direito de família…
Ju: [interrompe] Engessa. Pode engessar.
Ana Paula: Engessa.
Ju: [interrompe] É verdade…
Ana Paula: Eu tenho um, que eu acho um cliente que um dos que eu mais gosto ali. A gente se afeiçoa. Eu tenho um cliente que ele é judeu ortodoxo. Com quatro filhos. Pequenos. A mãe não é judia e eles têm e mantêm guarda compartilhada. E eles têm e mantêm uma guarda alternada que é muito mais complicada. A guarda compartilhada é o compartilhamento de decisões e os pais, pai e mãe, mantêm um contato maior com o filho e estão ali sempre na trilha constante do filho. A guarda alternada que eu tenho, que eu vejo, o filho dorme segunda, terça e quarta na casa do pai. Quinta, sexta e sábado na casa da mãe ai domingo, segunda e terça vai para o pai. E isso, eu consegui isso nem sei como. Por que a grande maioria dos psicólogos é contrário a essa, a essa configuração e diz que isso faz uma bagunça na vida do filho. Eu ouvi juiz falar para mim: Mesmo que os dois queiram, doutora, eu não vou homologar esse acordo. O juiz não homologou o acordo. A gente conseguiu por, em outro juízo, por conta de outra configuração, mas o fato é que isso está homologado e eles mantêm essa guarda compartilhada. Um dos filhos tinha dois anos. E eles tem uma vida muito saudável. Com um filho fazendo shabat numa sexta feira e não fazendo na outra. Como é que se explica uma coisa dessas?

(Bloco 9) 1:21’00” – 1:30’59”
Cris: A mesma régua não dá pra todo mundo, né? E Ana, o que que as pessoas precisam fazer no momento do divórcio ali, ou, como se comportar pra causar o mínimo de dano aí no filho?
Ana Canosa: Então, eu acho que, primeiro aguentar a ansiedade. Porque nós somos uma sociedade muito ansiosa, né? Pra resolver tudo, pra dar todas as respostas, pra já organizar tudo como “Toda criança vai sofrer se tiver essa guarda”…
Ju: [interrompe] Alternada.
Ana Canosa: …alternada. Porque vai mudar a rotina”. Não é toda criança que vai sofrer, vai depender de como os pais vão lidar com isso. Então, assim, nós somos uma sociedade ansiozéssima . Então, a gente tem que aprender a lidar com o “Eu não sei”. As pessoas têm que dar tempo para se estruturar primeiro pra depois comunicar as crianças. Porque quando você senta com a criança pra se comunicar de maneira mais tranquila, não emocionada, não dramática e que você diz assim ó “Amanhã seu pai vai embora de casa”, né?
[Risos]
Ana Canosa: E “Com quem você quer ficar???” Sabe, umas coisas… pra uma criança de 3 anos…
Ju: [interrompe] A gente ia conversar sobre isso…
Ana Canosa: Então, assim, gente, para. Seja adulto. Tá doendo, lamba as suas feridas. Vai chorar no colo das suas amigas. Vá procurar terapeuta mas, só lide com criança depois que os dois, como casal, se for possível, obviamente, já tiverem resolvido determinadas situações. Onde um vai morar, como é que vai ficar a casa, como é que vai ser essa guarda ou, como é que nós estamos encaminhando essa… como é que nós estamos pensando essa guarda. Porque você tem que comunicar a criança dando a segurança pra essa criança de que, “Olha, vai ser diferente…”
Ju: [interrompe] Mas vai ser bom mesmo assim.
Ana Canosa: Mas vai ser bom.
Ju: [interrompe] E a gente sabe o que a gente tá fazendo.
Ana Canosa: E como é que a gente vai… Exatamente. “Fique tranquila”. Porque o adulto é o esteio da criança.
Cris: Tem uma coisa que é muito dolorosa, muita gente fala assim “Ah, eu até penso em separar, mas eu não separo porque eu tenho filho”.
Ana Canosa: Ah, e daí que tem filho. Filho é uma coisa.
[Risos]
Cris: [interrompe] Me conta. A criança tem que pagar essa promissória aí, que não foi ela que comprou?
Ana Canosa: Lógico que não. Lógico que não. E ela, lá na frente, ela vai fazer terapia por causa disso. Porque vai dizer, “A minha mãe passou a vida toda dizendo pra mim que não se separou do meu pai por minha causa”. Já tive vários pacientes assim. E isso vai impactar na vida amorosa desse indivíduo lá na frente, né? Na sua autoestima. Na… Nesse senso de responsabilidade de ser mãe da mãe, porque isso acontece muito também, ou mãe do pai.
Ju: É aquela coisa, tudo tem um custo na vida. Ficar, tem um custo, sair tem um custo. Você tem que saber o que você consegue fazer melhor.
Ana Canosa: E hoje… exatamente. Eu acho que as crianças, convivendo com filhos de pais separados, divorciados, pais de mesma orientação sexual… Gente, elas tiram muito mais de letra, desde que os adultos não façam da vida dessa criança um inferno.
Ju: É aí que eu ia perguntar. Não é só os adultos. Até o sistema judiciário pode colocar a criança no epicentro do furacão. Então assim, Ana Paula, pode pedir pra colocar a criança pra depor? E ela ter que escolher um dos pais?
Ana Paula: Isso, eu acho isso absurdo, né? E as… Muita gente, as pessoas perguntam… “Mas ponha… pergunte pra ela com quem ela quer ficar”. Isso não se pode perguntar. Isso não se pode perguntar pra pessoa… normal, assim, mais velha, e sabendo o que ele quer. Porque ele vai dizer “Quer os dois”. A criança quer ficar com os dois pais. E colocar na mão de uma criança a decisão, isso… E ninguém mais faz isso… a verdade é que, hoje em dia não…
Cris: [interrompe] Já fizeram muito, né? Hoje em dia não se faz mais…
Ana Paula: Mas não assim… E hoje em dia não se faz mais isso…
Cris: [interrompe] Eu acho que nem precisa chegar no judiciário, né? Acho que os próprios pais, dentro de casa, principalmente, se um tá sendo, entre aspas, abandonado, ou foi traído, então a tendência é “Não, não vou perder o filho. Já perdi o companheiro, ou a companheira. Filho eu não perco”.
Ana Paula: Mas não é um prêmio, né? Eu vejo muito assim. Muitos filhos também sentem isso. Foi o meu pai que traiu a minha mãe ou vice-versa e o filho se sente traído. O filho não foi traído. Não existe muito… Nesses casais mais complicados, não existe muito a linha entre a conjugalidade e a parentalidade.
Ana Canosa: Parentalidade, exatamente.
Ana Paula: Uma coisa é o relacionamento que ele tinha com a mulher dele, outra com o filho.
Ana Canosa: Uma coisa… Agora, a gente volta para um aspecto que você falou, Cris, que é a história da posse. Nós somos pais e mães possessivos também, que a gente acha que a criança não pode dizer que não gosta, que tá com raiva de você. A maior dificuldade do ser humano é lidar com a raiva. Nós não aprendemos cedo, pedagogicamente, a “Como é que eu lido com raiva?” Essa foi uma preocupação que eu tive muito com meu filho. Como eu vou ensinar meu filho, então… Que começa assim, batendo na sua cara, com um ano de idade, e aí você segura na maõzinha e fala “Não pode bater… ok, né?”… Aí pega… Segunda fase, joga o brinquedo. “Ó, não pode, porque quebra… nãnãnã…” Terceira fase. Terceira fase a criança faz o que? Diz aí pra mim. Ela não pode bater, já aprendeu que não pode enfiar o dedo no teu olho. Ela já não pode… Então, o que que ela vai fazer? Ela já fala. Aí não pode xingar. Como que você expressa raiva que você tem da sua mãe, do seu pai, etc? Você tem que ensinar essa criança. “ Grrrrrrrr ”. Tudo bem. “Não gosto de você”. Tá bom, agora você não está gostando mesmo. A gente não ensina as pessoas que elas podem ter raiva, só que essa raiva não precisa destruir o outro. Ela tá, tá com raiva de uma coisa naquele momento. Então, os adultos, num caso de divórcio… Como é que essa criança vai expressar, inclusive, o fato de querer ou não ficar com alguém ou não. Como é que ela trai essa mãe? Quantos filhos no divórcio não sentem que, que se eles abandonam… não querem, que se eles não aguentam aquela mulher, ou aquele pai, deprimido dentro de casa, chorando, sofrendo porque se divorciaram? Aquela vítima. Sabe a… a… E tem muita gente que se põe nesse papel. Não aguenta mais conviver com aquela criatura. Que adolescente não tem vida, porque a mãe tá o tempo todo com doença, com não sei o que porque se divorciou. Vive tendo que resolver problemas de vida dele, porque a mãe não fala com o pai. Como é que esse adolescente tem força para dizer “Ó, seguinte, esse problema é de vocês, ok? Tchau. Eu não vou viver assim”. Nós temos, como adultos que vão ensinar crianças, a empoderar nossas crianças, a que elas possam ter autonomia, e não se sintam tão dependentes dos pais afetivamente, a ponto de limitarem a sua vida, por causa do divórcio dos pais, mal gerenciado. Só que, pra isso, você tem que ensinar seu filho que, às vezes… Por exemplo, eu to andando com meu filho no… Eu abraço ele assim, aí ele tira a minha mão. Eu falo “Tá pesando a minha mão? Você não gosta que a mamãe ponha aqui?” Ele falou: “Mãe, pesa”. “Então vamos arrumar um outro jeito pra eu poder andar com você, porque eu adoro andar com você juntinho”. Ele não precisa gostar de eu botar a mão dele aqui, gente… Só que se você leva isso pra um lado afetivo. “Meu filho não me ama!!! Meu filhoooo…” Que é o que as pessoas fazem.
Ana Paula: É uma traição, né?
Ju: É… mas tem uma, vai, é muito importante o que você tá falando. Porque a gente tem muito ouvinte adolescente lidando com o divórcio dos pais. E você falar que eles não estão errados de não querer se envolver e limitar sua vida pelo… Discussão de relacionamento dos pais é muito importante, mas, por outro lado, você tem crianças que não podem escolher e que não…
Ana Canosa: [interrompe] Isso é muito triste.
Ju: E que não tem capacidade mental, psicológica e nem autonomia pra poder escolher e uma coisa que a gente vê e que os ouvintes colocaram muito pra gente é a situação onde, judicialmente já tá resolvido, mas no dia a dia vão ter que ter muitos acordos ainda e aí, um não fala com o outro, o pai não fala com a mãe, e a criança é mediadora do conflito o tempo inteiro. Uma criança, às vezes, de 7, 8, 9, 10 anos.
Ana Canosa: É. Eu recebi recente… essa semana. Um e-mail de uma mulher, que tem justamente essa situação. A irmã dela está… se divorciou e parece que tá vivendo um sofrimento muito grande, e começou a agredir a filha de 12 anos. De bater. E a menina está desenvolvendo transtorno de alimentação. Né? Então, tá ansiosa, etc. E a mulher falou assim “O que que eu faço? Ela é a irmã” né? Então aí você tem alguns caminhos…
Ju: [interrompe] Teoricamente eu não posso me intrometer porque, né, “É a minha filha, eu cuido como eu quiser”.
Ana Canosa: Você tem alguns caminhos, né? Tentar convencer a sua irmã, mas pelo jeito ela não tá, né? Porque ela diz que conversa muito com a irmã, mas a irmã não vai… Não vai ao terapeuta, tá bom. Então você pode oferecer terapia pra esta menina, né?
Ju: Sim.
Ana Canosa: Desde que a mãe, obviamente, permita. E, em último caso, Conselho Tutelar.
Ana Paula: Se colocar em risco…
Cris: [interrompe] É muito importante essa rede, né? Em volta da criança.
Ana Canosa: A rede de apoio familiar. Conselho Tutelar. E não tenha medo.
Cris: E eu acho isso muito importante. De a gente alertar primo, irmão, tio, sobrinho. Fiquem de olho nos casais que estão se separando, porque vocês podem ser um agente ajudador…
Ana Canosa: [interrompe] Isso.
Ana Paula: [interrompe] Ótimo.
Cris: …Deste casal…
Ana Paula: Agora acho…
Ju: [interrompe] E não tenha medo de comprar briga…
Ana Canosa: [interrompe] Isso.
Ju: …Pra proteger menor. Isso eu acho que a gente tem muito medo. Existe essa proteção da família como “Ah, o pai, ele é autônomo pra decidir qualquer coisa”. Então muitas vezes você vê, “Ah, o pai tá batendo na criança”. Você não concorda, mas, é….
Ana Canosa: É o pátrio poder, poder familiar…
Ju: É o pátrio poder, você não pode fazer nada. Então… eu acho importante a gente colocar nesse programa, justamente, o que a gente tá falando de divórcio é: se você é parte da família, se você é parte da escola, enfim, da comunidade que suporta essa criança. Você tá vendo uma criança em sofrimento. Você é adulto. Ela não pode fazer nada. Você pode.
Ana Canosa: Exatamente.
Ana Paula: Então, mas Ju, no caso da menina, com 12 anos. Que tá sendo abusada pela mãe, fisicamente, tá com problema alimentar… A presença do pai, ali, muito mais tempo e com muito mais qualidade de decisão, é fundamental pra tentar evitar isso. Pra tentar evitar a alienação parental, a guarda compartilhada é um instrumento maravilhoso. E pra evitar que o divórcio impacte mais ainda a vida do menor, a guarda compartilhada também é um instrumento maravilhoso. É o que a gente tem. Uma coisa que tá no novo código de processo civil, entrou agora em vigor, em 2016. E que pode mudar muito a cara dos litígios de família, é a mediação. Então agora nós estamos… A gente sempre tentou botar isso, né? Trazer mediação. Mas agora a mediação veio pra lei. Agora a mediação está na lei. Ainda estamos engatinhando. A professora fala, “Lindo”…
[Risos]
Ana Paula: A advogada diz “Eu não vejo, mediação, não vejo”. Vejo muita conciliação, mas mediação, judicial, aquela mediação que o juiz determina que as partes se submetam, não vejo.
Ana Canosa: Agora tem uma coisa também, é, quando a gente fala dessa coisa de ter os amigos, a família, né? Pergunte pra sua melhor amiga se você não está ficando louca. Porque é isso, nós somos seres frágeis e às vezes a gente se depara com partes da nossa personalidade que a gente nunca imaginou. Como essa vontade de matar o outro, essa raiva, essa… Pergunta pra sua amiga “Cara, to ficando louca? Porque se eu estiver ficando louca, me diz”.
[Risos]

(Bloco 10) 1:31’00” – 1:40’59”
Ju: [interrompe] E construa uma boa rede pra te amparar numa hora dessas.

Ana Canosa: Me ajuda, me ajuda, por que eu preciso de ajuda.

Cris: [interrompe] A dor pode levar pra esse lugar, né?

Ana Canosa: Muito, muito

Cris: Mas então, indo pra esse step final aqui… E o recomeço? Fala um pouquinho pra gente sobre lidar com esses sentimentos negativos, essa culpa, o abandono, o rancor, a raiva, a solidão, o orgulho ferido, o que que dá aí pra se permitir pra… pra esse próximo passo? Fênix, momento fênix.

Ana Canosa: Momento fênix, vou contar… uma paciente recente minha, que se separou e aí ela, em toda sessão… ela tinha se separado, sei lá, separou em processo, tava separando e não separou. Daí toda sessão ela falava assim: “Nossa Ana, quanto tempo vai durar isso? Não, porque eu tô muito mal, chorei o fim de semana inteiro. Meu Deus do céu, não tô aguentando. Quanto tempo ? Eu acho que eu tô louca, que eu nunca mais vou sair disso”. “Meu amor, olha, é o seguinte: Faz 15 dias que você se separou, tá supernormal”. [Risos] Passou 2 meses “Continuo chorando muito, quanto tempo vou ficar assim, eu não vou encontrar ninguém”. “Querida, fazem só 2 meses, tá? Fica tranquila, porque eu não sei de onde que você acha que, depois de 8 anos de casada, 2 meses você vai tá linda, saltitante, encontrando todos os caras do Tinder. Calma, que as coisas não são assim.” Então a primeira questão é: Luto é luto. Todas as sociedades que têm a tradição da vivência do luto e todos aqueles rituais, os lutos duram 2 anos. A gente pra dizer que uma pessoa não está suportando o luto, 2 anos pra diante, ok? Até 2 anos, isso vamos dizer, é um parâmetro, até 2 anos se você tá triste, tá tudo bem. Passou de 2 anos, já começa a falar: “Opa, já devia tá passando por esse processo, tá?. Então 2 meses é pouco pra quem viveu 8 anos num casamento, principalmente quando essa pessoa não estava pensando em se separar, que são aquelas separações que o outro traz, né? O outro traz a proposta. Então primeiro lamba suas feridas, é momento de lamber as feridas, de acolhimento, de ficar em casa, de buscar os amigos e de recomeçar e se apoiar em esporte, é muito importante, porque isso ajuda a combater a depressão, é muito importante pra você mexer o corpo; fazer coisas que gosta e manter o trabalho, né? E estar com os amigos.

Cris: Eu acho que tem uma coisa importante aí também, que esse sofrimento intenso, ele pode fazer mal pra saúde física, né? As pessoas não podem se descuidar da saúde física logo após o divórcio. Por que o que a mente padece o corpo sente, não é isso mesmo?

Ana Canosa: É isso mesmo

Cris: E ficar de olho nisso. E eu acho que principalmente em casos onde a pessoa se sente muito magoada, é uma coisa meio AA, né? Meio Alcoólicos Anônimos.

Ana Canosa: É, exatamente.

Cris: Tipo se perdoe, perdoe o outro. Porque você vai ter que fechar, pra ferida sarar, você vai ter que cuidar dela direito.

Ana Canosa: Fecha a história

Cris: Ficar só olhando pra ela, não vai sarar. Eu passei por um processo de divórcio 10 anos atrás que foi uma relação muito boa, que durou o tempo que tinha que durar, eu não acredito que tenha sido uma relação mal sucedida. Uma relação que terminou de uma maneira muito feliz até, com bastante tranquilidade, mas me surpreendi muito de entender que a pessoa ainda se sente, depois de 10 anos, culpada pelo que aconteceu há 10 anos atrás. Então eu acho que a gente precisa realmente enterrar o passado. E mesmo que você tenha errado, falar: “Putz, errei mesmo, né?”, veja bem.

Ana Canosa: E tirar a palavra culpa, porque a palavra culpa está muito ligada à questão religiosa, do pecado. É responsabilidade. “Qual foi a minha responsabilidade nessa relação? Qual foi a minha parte?” Então acho que é importante fazer esse balanço, fechar a história pra você. “Olha, meu casamento finalizou por causa disso, disso e disso, né?” Se perdoar e tal, lamber as feridas, dar tempo ao tempo e lembrar sempre que recomeçar é bom e que bom que nós temos a oportunidade de recomeçar. E que a primeira pessoa que escuta o que você fala, é você mesmo. Então se você começa a dizer a assim: “Nunca mais vou conhecer alguém, nunca mais vou casar, nunca mais não sei o que, nunca…”. O dia que você começar a dizer, “pode ser que eu encontre alguém, pode ser que eu seja feliz, pode ser que essa viagem seja legal”, você vai ver que a viagem vai ser legal e pode ser que realmente, você encontre outra pessoa. Então é importante você também mudar o discurso sobre seu futuro

Cris: Mas pra isso tem que manter uma distância de segurança do ex? E essa relação aí de ficar olhando pela fechadura pra ver se ele tá se ferrando bastante?

Ana Canosa: Eu, Ana Canosa, acho importante, acho que ficar de olho no outro 24 horas por dia, só acho que putz, só vai deixar você cada vez mais junto dessa história, vai ficar vez difícil fechar. Eu acho que tem que manter distância. Eu acho.

Cris: Tem uma coisa muito louca na gente, né? Porque quando você tá com a pessoa, você acha que você é muito importante. Então se você não está com ela, é óbvio que ela tá sofrendo, ela tá muito mal. E se ela tiver muito mal, que bom que ela tá muito mal, porque isso significa que eu era importante. E a partir do momento que ela não tá tão mal assim, puxa, talvez eu não seja tão importante assim. Eu acho que a gente mistura um pouco, a expectativa do eu e do outro e esse olhar na fechadura, eu acho que ele é extremamente doloroso.

Ana Canosa: E ele enlouquece, porque você pode dizer assim: “Ah, ele não me amava”. Como é que você sabe? Você não sabe, porque as pessoas amam de maneiras muito diferentes…

Ju: E demonstram sentimento, e principalmente sofrimento, de maneiras muito diferentes.

Ana Canosa: Muito diferentes. Você nunca sabe o que tá na percepção, na pele do outro. Você não sabe, você pode ter conjecturas e hipóteses. Então ficar aficionada e presa no que o outro tá sentindo agora que se divorciou, se é mais, se é menos, você vai ficar doida. Eu sei que isso é sedutor, eu sei que a gente faz isso. Mas eu acho que a gente tem que tentar fazer o movimento contrário.

Ju: É ser consciente de que você não tá acessando, você não tem como saber isso então, desapega. Pra finalizar tem um questionamento, que quando a gente pediu pros ouvintes falarem sobre divórcio a gente fez, que é assim. Falando tudo sobre o que a gente falou, que o amor termina, que uma pessoa não é capaz de dar tudo o tempo inteiro, a gente tem uma série de fatores concorrendo na vida moderna, no jeito que a gente vê o mundo hoje, que destroem as relações e tal, casamento é uma instituição falida? O casamento vale a pena? E eu queria que vocês dessem uns 20 centavos sobre a questão.

Ana Paula: Eu acho que o casamento vale muito a pena, sim. Não é instituição falida, o casamento é outro do que a gente tinha no passado, houve uma mudança no que hoje nós conhecemos por casamento. Acho sim que as pessoas procuram o amor da vida delas, sempre. Não digo pra você que tem que ser casamento, no cartório, com o papel. Mas que eu ainda entendo que as pessoas sempre procuram estar junto, com quem elas estão amando nesse momento, sim, eu acho que elas procuram. E procuram com projetos, procuram com planos futuros, não é só o casamento em si. É o casamento porque quando estivermos casados vamos ter um sítio, quando estivermos casados vamos viajar pra Paris, quando estivermos casados vamos ter filhos e depois netos, e vamos fazer isso com os filhos e isso com os netos. Eu não vejo o casamento como uma instituição falida, eu vejo como uma instituição que vai mudar, isso eu acho que vai mudar. Já mudou muito, a pessoa se casava de verdade, pra ficar pra sempre a todo custo. Hoje as pessoas casam pra ficar pra sempre, não a todo custo. As pessoas não estão dispostas a abrir mão de certas coisas para manter o casamento. E eu acho que no futuro as pessoas vão se casar muito mais livremente. Vão dizer: “Ah, vou casar hoje, mas daqui a 5 anos, nós vamos rever esse casamento, daqui a 10 e daqui a 15 e sucessivamente”. Faço votos de que isso dê certo.

Ju: E você Ana?

Ana Canosa: Eu concordo plenamente com a Ana. Eu acho também que não é uma instituição falida, acho que é uma instituição em mudança e acho que se é o outro que te motiva a desejar, fique com o outro. Eu acho que a relação… De novo, eu vou repetir, que eu acho que não há lugar nas relações sociais e afetivas que mais te faça crescer do que um casamento. Não há, na minha percepção, não há. Acho que nem a questão do filho, é tão… porque o filho você tem ali um amor que te move, pra quem construiu esse amor incondicional, que faz você mudar, ser mais generoso e tal, mas é tão instintivo que é diferente do casamento. O casamento não é instintivo, passou a paixão, gata, sou eu e você, você é uma outra pessoa, eu não tem instinto nenhum pra fazer você feliz.

Ju: É uma escolha, é uma construção.

Ana Canosa: É uma escolha movida pelo meu desejo, então é mais difícil do que com o filho, por isso é que você cresce muito com essa convivência, né? Agora eu acho que tem de ser de qualidade, não pode ser abusivo. Eu acho que você pode ter 3, 4 casamentos na vida, você pode morar junto, morar separado. E tem gente que não quer se casar e tá tudo bem.

Ju: Concordo e você Cris?

Cris: Eu acho que depõe contra falar que o casamento é uma instituição falida, quando você é casada.

[Risos]

Ana Canosa:Acho bom seu marido…

Cris: Somos 4 mulheres casadas nessa mesa, então todas falaremos a mesma coisa.

Ju: Não, pode falar.

Cris: Eu acho que eu não invisto em nada que eu não acredite. E cada vez mais, eu tenho 7 anos de casada, é meu segundo casamento e eu aprendo cada dia mais a lidar com as oscilações de felicidade e com os planejamentos de longo prazo. E pra mim a grande revolução do amor é conseguir amar a mesma pessoa, por motivos diferentes, em situações diferentes da sua vida e acredito que o casamento precisa acompanhar… O acordo de casamento, precisa acompanhar a modernidade e a agilidade da vida e acredito num amor que perdura e num casamento que perdura quando existe liberdade e acho que os termos de liberdade são diferentes de pessoas pra pessoas. E num compromisso que as pessoas se… rala muito pra dar certo, mas rala muito.
(Bloco 11) 1:41’00” – 1:50’59”
Ju: É um projeto, né?
Cris: É um projeto onde você fica no operacional 90% do tempo, mas você tem que dar um jeito de ter os 10% estratégico, se não, aí não funciona. Juliana, já sabemos que você curte se casar, mas diga…
Ju: Eu não queria me casar, né? Eu nunca quis me casar, eu não queria nem namorar, quanto mais casar. Porque eu vinha de uma história de tentar forçar um quadrado caber num círculo durante 4 anos. E de ter mil projetos e, na hora que ruiu tudo, eu enxerguei que… “Cara, porque que eu fiz essa força gigantesca? Não preciso disso. Ninguém precisa disso”. E eu achava que “Vamos ser feliz sem isso”. E, de repente, quando eu via… Tinha mudado tudo e… Eu acho que foi um encontro muito feliz, de muito mais sorte do que juízo e a coisa funciona muito bem. Mas, no que reforço bem a minha experiência… A minha resposta sobre casamento, no geral, se casamento é uma instituição falida ou não… Eu curti muito um monólogo que tem no filme Frida Kahlo, que uma artista fala pra ela, quando ela vai casar, que é assim, “Eu vejo que muitas pessoas casam por motivos acessórios”. Casa pra sair da casa dos pais, casa pra ter independência financeira, casa pra dar satisfação pra sociedade. Então casa porque, “Puxa, eu namorei 7 anos e eu vou fazer o que”? Casa porque quer ter família, quer ter filho. Não necessariamente quer aquela pessoa, mas com quem então eu vou casar? E eu acho que isso, isso já começou errado. Já foi difícil, não vai rolar. Mas o discurso dessa amiga da Frida Kahlo é muito legal, porque, assim… Quando você é autônoma, quando você não tá dando satisfação pra ninguém, quando você entende todas as limitações que o amor romântico tem e, ainda sim, você escolhe, autônoma, livre, consciente, se unir a uma pessoa pra um projeto de longo prazo, de parceria, cumplicidade e tudo o mais, isso é muito revolucionário.
Ana Canosa: É mesmo.
Ju: É o oposto do que a gente falar “Ah, o casamento é você sair com a manada e tal…” Sim. É. Quando você põe no piloto automático, é. Mas o casamento pode ser a coisa mais revolucionária que um ser humano escolhe fazer. Você juntar o seu destino a uma outra pessoa sabendo que ela é diferente de você, sabendo que ela veio de outras referências, que ela tem outro jeito de lidar com o mundo, e sabendo que, exatamente como a Ana Paula falou “Nunca mais vai ser do seu jeito”. Que você vai ter que ceder todos os dias da sua vida, nunca mais, a porta não vai ser fechada. Sim, a cama não vai ser do seu jeito, jeito de acordar. Nada mais na sua vida, num micro, nada mais vai ser do seu jeito. Saber isso, escolher isso, e consciente, eu acho muito revolucionário.
Ana Canosa: E sabe o que eu acho? É um privilégio.
Ju: Ah, eu acho.
Ana Paula: A gente se casa por amor. Mas, pensa, no planeta Terra, quem é que pode, de verdade, casar por amor? Quando casa vendido, quando casa prometido, quando casa porque tem que casar. Então, casar por amor é um privilégio. Quem tem essa liberdade, essa autonomia e tá consciente de que é com esse… É privilégio. É quase como votar, né? Não é todo mundo que vai poder não…
[Risos]
Cris: Pessoas, amem-se. É isso, então? Vamos pro farol acesso?
[música instrumental]
Cris: Vamos então para o farol acesso. Vamos começar com a Ana Paula. Ana Paula, diz pra gente, que tem de legal aí, pra indicar?
Ana Paula: Vou indicar tudo que tem a ver com minha área. Um livro, mais antigo, mas um livro surpreendente, se chama, “O Código da Vida”, escrito pelo Saulo Ramos. Esse livro é muito legal, inclusive porque tem uma questão de família no fundo. É uma questão bem atual, política, mas tem uma questão de família no fundo que é bem interessante. Um filme que eu acho interessante que assistam é um documentário chamado “A Morte Inventada”, que trata de alienação parental. Traz casos reais. Traz relatos muito, muito fortes. E muita gente pode, talvez, se identificar com esses relatos, com esse documentário, “A Morte Inventada”. E, eu não assisti, eu só ouvi falar, mas eu ouvi falar muito bem, e pretendo assistir. Estes cinco episódios de um programa agora dentro do “Fantástico”. Que são relatos de alguns casos que a advo… a juíza Andrea Pachá, do Rio de Janeiro, vivenciou na vara de família da qual era juíza. Se não me engano chama “Segredos de Justiça”, esse quadro no “Fantástico”. São cinco episódios, não vi, volto a dizer, mas to achando que vai ser muito interessante. Uma juíza que tem essa visão, essa vivência… Ela deve ter muita coisa interessante pra contar.
Cris: Boa. Ana Canosa, por favor, o que você vai nos brindar com recomendações?
Ana Canosa: Vamos lá. Filmes… “O Despertar de uma Paixão”, que é um filme lindíssimo, já mais antigo. Outro antigo, que eu adoro também, que eu acho que fala um pouco sobre a questão da dificuldade de divórcio, do enlouquecimento das pessoas, que é “A Guerra dos Roses”. Que é um misto de drama e comédia, que são dois filmes que eu super indico. E alguns livros, como “O Amor Companheiro” de Francisco Daudt da Veiga, que é livro muito interessante da Sextante, que fala sobre essa doação generosa numa relação de amor. Um outro livro, agora mais pra pegada do sexo, que é o “Amadora”, de Ana Ferreira, que são contos eróticos. Então, praquelas pessoas que estão aí, precisando despertar o desejo, colocar, se disponibilizar pro sexo na relação, porque o desejo espontâneo não tá aparecendo… Lembrando que ele é um mito, compra um livro erótico, deixa do lado da cabeceira e lê. Porque isso faz com que a gente comece a alimentar a questão do prazer sexual.
Ju: Põe o sexo na pauta, né?
Ana Canosa: É, exatamente. E assista o “Escola para Maridos” que tá no seu quarto episódio, né? Semana que vem entra no quinto, mas dá pra assistir os episódios anteriores no “Fox Life”, é o canal da TV a cabo. E no aplicativo “Fox Play” também dá pra assistir, que tá no quarto e vai pro quinto episódio.
Ju: E você, Cris?
Cris: Eu vou indicar um filme que é bem queridinho, assim. Acho que as pessoas já podem conhecer um pouco, mas acho que tem tudo a ver com o que a gente tá falando que é a “Trilogia do Antes”. Tem o “Antes do Amanhecer”, o “Antes do Pôr-do-Sol” e o “Antes da Meia-Noite”. E vai desde o amor romântico, lá, muito, né? Muita paixão, muita coisa envolvida, à maturidade, aos questionamentos e até onde o amor ou o relacionamento, ou mesmo o casamento pode nos levar. Os atores são extremamente apaixonantes e acho que vale muito a pena assistir na sequência. Faça uma sessão pipoca, assim, dando um pouco… Assista um por dia, sabe? Pra ficar com aquele gostinho. Os filmes têm cerca de 9 anos entre a filmagem de cada um deles. Então é legal acompanhar o amadurecimento da história até com o amadurecimento físico dos atores. É um filme pra saborear, pra assistir devagarzinho. E relembrar coisas importantes sobre um relacionamento a dois. Ju, e você, que que vai mandar?
Ju: Pra pensar sobre a pauta, tem um filme que eu achei que era muito bobo, não quis ver e… Eu assisti fim de semana passado, e ele é sensacional. Chamado… Em português é “Florence, Quem é Essa Mulher”. Ele é com o Hugh Grant e com a Meryl Streep. E assim, a sinopse do filme é uma mulher, uma patronesse das artes que no final da vida resolve que ela vai cantar. E ela não tem o menor dom pra isso, só que todo mundo fica com dó e ninguém quer falar pra ela isso. E a sinopse não me fez querer ver o filme. Assim, não cometa o mesmo erro que eu. Você já sabe tudo que precisa saber pra querer ver esse filme. Meryl Streep.
[Risos]
Ana Paula: Ela é incrível, né?
Ju: Você vai, você vai, acredita. Ela escolheu fazer esse filme. Então você vai. É muito engraçado. É com aquele cara que faz o “Big Bang Theory”, o Howard. Assim, eu já achava ele engraçado, mas nesse filme ele mostra que ele realmente é um comediante, porque tem horas que, assim, é simplesmente focando na cara dele, as expressões que ele faz… Você começa a rir, aí você vai pra um outro patamar, outro patamar, outro patamar, assim, é sensacional. Muito bom o filme. E no meio disso tem uma discussão de que o marido dela mora em outra casa e tem uma amante. E é muito legal pra fazer essa discussão que a gente fez hoje. Tipo assim, isso quer dizer que ele não amava ela? Isso quer dizer que ele não era fiel a ela? Isso quer dizer que o casamento deles era de fachada? Isso quer dizer que eles não eram felizes? Cara, assista o filme e tire sua conclusão, tá? Eu achei muito bom, vai bem ao encontro do que eu acredito. E o filme é divertidíssimo, é pra morrer de rir. Assim, era eu, minha mãe e o Merigo assistindo, assim, chorando de rir. E, pra ficar mais divertido ainda, para desopilar, porque a gente tá precisando, né, amigos? Não tá muito fácil essa vida… Assistam o filme “O Bebê de Bridget Jones”, que é uma bobajada completa. É o oposto de tudo que a gente falou aqui. É a romantização ao extremo, mas, eu tava falando pro Merigo, é tipo “Rock VI”, sabe?
[Risos]
Ju: Ele é… não importa, gente, não é a vida real. É simplesmente uma celebração de uma fase da sua vida, de um momento da sua vida. Então, assim, você riu com ela e chorou com ela no momento em que você tava, vai, adolescente, começando a vida adulta, e tal. Aqueles dramas ressoavam em você. Você ainda pensava aquilo tudo e tal e você foi meio que crescendo com a personagem. Então ela agora, tá nesse dilema de “O que que eu faço”? Com 43 anos, vou ter filho, não vou ter filho? Essa medida de felicidade, né? Não consegui casar. Como é que vai ser isso? Assim, é com o mesmo humor bobajada dela, com o mesmo humor físico, né? Dela cair, se enlamear toda e tal. E a gente chora de rir e foi muito gostoso. Eu acho que tem um componente bem saudosista em gostar dessa comédia. Talvez se você for ver e você não assistiu os outros dois ou assistiu os dois na sequência só pra poder ver esse, talvez não faça tanto sentido pra você, né? Mas de qualquer forma, é muito levinho, muito, muito levinho. Falei pra uma amiga minha que é um quiche, né? É levinho, é nutritivo, você sai felizinha do…
[Risos]

(Bloco 12) 1:51’00” – 1:52’36”
Ana Canosa: [interrompe] É tão importante…
Ju: Exatamente. Então, é assim…
Cris: [interrompe] É alienação para manter a sanidade.
Ana Canosa: É importante.
Ju: E é ótimo filme pra assistir com o seu amor, né? Porque às vezes a gente assiste tanta coisa cabeça e tal e não colabora pra relação em nada, né? Então é bom, é importante também… É também importante assistir esses filminhos que você abraça mais gostosinho, e sai mais inspiradinho, né?
Ana Canosa: Isso. Total.
Cris: Então vamos aí. É isso então?
Ju: Dica da tia Ju.
Cris: Temos um programa?
Ju: Temos um super programa
Cris: Fica a gostosa sensação de continuar conversando com vocês a cada semana. Obrigada, gente! Beijo!
[Sobre trilha]

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