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Cidades americanas começam a punir quem olha o celular enquanto atravessa a rua

Cidades americanas começam a punir quem olha o celular enquanto atravessa a rua

Multas variam de US$ 15 a US$ 99, dependendo do número de reincidências

por Gessica Borges

Há menos de um mês eu livrei uma mulher de um atropelamento. Tínhamos acabado de descer em um ponto de ônibus e ela ia atravessar a rua sem nem notar que o farol estava fechado aos pedestres. O motivo nem preciso dizer. Depois do susto, iniciei uma autopatrulha para evitar que mesmo acontecesse comigo. A verdade é que a gente não percebe a extensão do quanto estamos conectados (ou hipnotizados) com o que acontece do outro lado da tela.

Para evitar que cenas assim se tornem frequentes, a cidade de Honolulu, capital do estado norte-americano do Havaí, aprovou há pouco mais de um mês uma legislação que pune com multas cidadãos que atravessam “uma rua ou rodovia enquanto olha um dispositivo eletrônico móvel”, o que inclui smartphones, câmeras, notebooks e videogames. Agora Stamford, Connecticut, pode se tornar a segunda cidade dos EUA este ano a combater o problema com multas.

“O ponto é que, se você está na rua e não presta atenção, isso é perigoso”, disse o prefeito de Stamford, David Martin. Um dos membros do conselho de representantes da cidade acredita que as pessoas pensarão duas vezes antes de violar a regra, que pode gerar multas de até US$ 30. Em Honolulu, a lei entrará em vigor no próximo dia 25 de outubro prevê multas que variam de US$ 15 a US$ 99, dependendo do número de reincidências.

Direito de ir e vir, mas com cuidado

Como toda legislação nova, alguns céticos se perguntam se as novas regras são injustas, ou mesmo contraproducentes. Jonathan Matus é CEO da ZenDrive, um aplicativo que usa sensores para alertar motoristas em relação à concentração, para promover uma direção mais cuidadosa. Ele acha que a lei pode dar abertura a motoristas imprudentes, que podem passar a culpar a pedestres por acidentes. “Claro, as pessoas podem entrar em uma situação arriscada [ao usarem o celular ao atravessar], mas isso pode implicar que os pedestres sejam frequentemente culpados”.

Especialistas em segurança apontam para os números: as mortes de pedestres dos EUA aumentaram de 5.376 em 2015 para quase 6.000 no ano passado, o maior número em mais de duas décadas, representando um aumento de 22% em relação a 2014, segundo dados de um relatório produzido pela Governors Highway Safety Association.

No Brasil também há uma preocupação. Segundo a pesquisa Mobile Consumer Survey (2015), os brasileiros desbloqueiam o celular, em média, 78 vezes ao dia. O número é maior entre pessoas com idades de 18 a 24 anos. Elas checam seus dispositivos 101 vezes ao dia, enquanto pessoas mais velhas (45 a 55 anos) verificam o aparelho 50 vezes. A edição da pesquisa do ano passado mostra em que 15% dos brasileiros navegam pelo telefone enquanto atravessam a rua.

Nem lá nem aqui há estatísticas que comprovem uma relação direta das mortes com o hábito de mexer no celular, porém não parece uma especulação tão absurda ligar um dado ao outro. Afinal, eu realmente vi uma mulher quase ser atropelada por causa disso e aposto que vários de vocês também já presenciaram cena parecida. Se a tecnologia ainda não criou antídotos contra si mesma, alguns Estados pensam que é a hora de intervir.

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