“A Mula” reflete Clint Eastwood com imperfeição e brilhantismo

Novo filme do lendário cineasta é essencialmente falho e original

por Matheus Fiore

Do estudo do faroeste de “Josey Wales, O Fora da Lei”, “O Cavaleiro Solitário” “O Estranho Sem Nome” à desconstrução do sonho americano por meio do fracasso em “Honkytonk Man – A Última Canção” e “Menina de Ouro”, o cinema de Clint Eastwood teve diversas fases ao longo das décadas. Por essa longevidade e variação nas formas de explorar o próprio cinema e sua relação com a produção estadunidense, a carreira de Eastwood se tornou, de certa forma, um registro da própria Hollywood. E Clint, por estar muitas vezes no cerne desses estudos (como ator, protagonizou os cinco filmes citados, por exemplo), se tornou a forma física da própria indústria.

Nos últimos anos, Clint tem optado por uma maior exposição. Filmes como “15h17: Trem Para Paris” trazem um diretor totalmente desprendido de seu legado e interessado em experimentar novos modelos narrativos – ao ponto de utilizar heróis reais como protagonistas da obra e, com isso, brincar com uma transição de imagens dramatizadas com passagens reais. O que Clint faz em seu novo filme, porém, é virar a câmera para si mesmo e analisar sua própria trajetória, como artista e como ser humano, e fazer um exercício de autoconhecimento.

Clint Eastwood (à direita) no set

Em “A Mula”, nova obra de Clint Eastwood, o cineasta comenta sobre o cinema, mas partindo da autoanálise. É um filme sobre o cinema do próprio diretor e sobre o diretor em si. Uma espécie de epitáfio de uma lenda viva, que parece pronta para se despedir; Clint é um artista que carrega em seu olhar o DNA do cinema norte-americano. Aqui, o diretor/roteirista/ator interpreta Earl Stone, um nonagenário arrependido por ter desperdiçado quaisquer oportunidades de fortalecer seus laços familiares em prol de sua vida profissional. A fim de recuperar o tempo perdido ajudando financeiramente sua filha, ex-esposa e neta, Earl decide trabalhar como mula de membros do cartel mexicano, transportando drogas pelas estradas dos Estados Unidos.

Eastwood não esconde a forte dose de autobiografia em sua obra nem mesmo na escalação do elenco. No papel da filha, que está há mais de uma década brigada com seu pai, está ninguém menos que Alison Eastwood, filha do cineasta. Essa construção de paralelos, porém, nunca é direta nem explicitada – mesmo que assistir a Earl recebendo um prêmio de horticultura na mesma época em que Eastwood recebeu seu último Oscar seja um paralelo inevitável.

Clint Eastwood carrega em seu olhar o DNA do cinema norte-americano

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O cineasta constrói uma narrativa baseada no constante choque entre dois mundos muito diferentes: um mais leve e um de enorme peso dramático. Quando acompanhamos as cenas lideradas pelos personagens do cartel mexicano, há a esperada tensão inerente à situações do mundo do crime, mas a chegada de Earl parece imprimir leveza a qualquer ambiente que ele esteja. É um personagem que não só se recusa a dobrar-se à modernidade – sua repulsa pelos smartphones e desinteresse por compreender como eles funcionam explicita bem a rejeição de Eastwood aos padrões contemporâneos –, como também não vê a submissão como uma alternativa, mesmo que isso possa custar sua vida. Como resultado, a tensão é sempre contrastada pelo humor de Earl. Esse choque de tons permite que os limites do protagonista sejam bem delineados – quando próximo de sua filha ou de criminosos que não confiem nele, Earl não conseguirá adocicar a cena como de costume.

Earl, assim como seu intérprete e autor, é um sujeito que viveu o suficiente para não temer o futuro e ostenta orgulhosamente suas marcas. Como frisou o crítico Wallace Andrioli em sua crítica, a forma que o próprio Clint filma seu corpo é uma prova disso: o diretor não tem o menor pudor em escolher planos que expõem a fragilidade do corpo de um quase nonagenário e nem mesmo em colocar este corpo em cenas que exponham sua idade de forma direta. Cenas essas que, geralmente, são retratadas com humor, para mostrar como Clint é bem resolvido com seu passado – há uma polêmica mas divertida passagem na qual Earl encontra-se em uma cama com duas mulheres muito mais novas.

O diretor não tem pudor de escolher planos que exponham a fragilidade do próprio corpo

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Essa fragilidade do corpo acaba sempre contrastada com o mundo no crime no qual o personagem opera. O frágil e vacilante Earl é, muitas vezes, cercado por sujeitos brutamontes, que tornam-se imponentes não só pela postura agressiva e pelo linguajar, mas também por estarem quase sempre armados. Criando essa diferença tão grande entre o ritmo do adorável e falho Earl e os perigosos membros do cartel, Eastwood consegue, por meio do estabelecimento dessa tensão inerente às situações, comentar sobre como ele mesmo se encontra diante da indústria cinematográfica: um artista que, no passado foi adorado, mas hoje não possui o mesmo prestígio.

O fato é que, assim como Earl Stone, Clint Eastwood é uma figura ciente de seus erros e não busca corrigi-los por meio da arte, pois é ciente de que o passado é imutável, mas sim admitir suas falhas e registrá-las. Earl e Clint também são, porém, sujeitos que têm muito a ensinar. O diferencial, que faz de Eastwood um artista diferenciado na história de Hollywood, é ter a maturidade, a inteligência e o talento para expor-se justamente quando ninguém mais esperava isso dele. Earl/Clint decidem arriscar quando ninguém mais tinha expectativas sobre seus feitos, e só alguém único e especial é capaz disso.

nota do crítico

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