Transmissão ágil do Oscar 2019 não esconde cerimônia fadada à paródia

Contraste das estatuetas de “Green Book” e “Bohemian Rhapsody” com reconhecimento a cineastas negros e mulheres expõem fragilidades do discurso progressista da Academia mais uma vez, agora em tom perigoso de chacota

por Pedro Strazza

Entre as diversas escolhas peculiares tomadas por votantes e organizadores do Oscar 2019, nenhuma pareceu tão arbitrária e ao mesmo tempo tão simbólica desta edição quanto a escolha de Julia Roberts para o posto de apresentadora da estatueta de Melhor Filme. A surpresa da revelação da atriz, uma das principais estrelas da Hollywood dos anos 90 e 2000, como portadora do anúncio do grande vencedor da noite pode ter mergulhado o evento em um clima de antecipação ainda maior, dado que sua presença ali não dava qualquer indício da identidade do filme eleito, mas também escancarava uma sensação confusa de falta de unidade que a cerimônia até então carregava silenciosamente. A ideia de Roberts apresentar a última estatueta, no andar da carruagem, parecia algo de outro planeta se considerar o clima que vinha embalando a premiação até então.

Não que este clima já apresentasse alguma uniformidade antes da entrada da última apresentadora, porém. Em muitos sentidos, a 91° edição do maior prêmio de prestígio de Hollywood viveu uma noite atípica em seu puxa-repuxa, que se por um lado refletia a polarização crescente dos votantes, por outro não deixava de emitir certo exotismo no caráter tão contraditório das escolhas que pautaram a lista de vencedores. Foi um Oscar, afinal, onde Spike Lee enfim foi contemplado com uma estatueta de Roteiro Adaptado alguns minutos depois de “Green Book: O Guia” ser anunciado o vencedor de Roteiro Original – um delírio que só não foi o maior da noite porque “Bohemian Rhapsody” conseguiu descolar quatro dos cinco prêmios aos quais concorria.

Além do próprio caráter das escolhas, esta sensação de absurdo contraditório deve muito à decisão da organização em não contratar/conseguir um apresentador para a cerimônia deste ano. Embora a ausência de um host tenha agilizado muito a premiação e colocado o Oscar praticamente num passo de maratona – uma sensação palpável quando a primeira estatueta da noite foi entregue a Regina King com menos de dez minutos de transmissão – a decisão por falta de opções da produtora Donna Gigliotti e do diretor Glenn Weiss em conceber a apresentação sem um maestro à frente das câmeras deixou a cerimônia muito à deriva das categorias e dos discursos de seus vencedores, uma medida que, dado o cenário pós-expansão dos membros da Academia, permitiu ao prêmio amplificar todas as vozes por trás da estatueta – algo que, claro, ajudou a tornar a cerimônia uma manifestação viva do conflito brutal que rege a votação atualmente.

Spike Lee em seu discurso de agradecimento após a vitória de “Infiltrado na Klan” em Roteiro Adaptado

Posto isso, não dá pra afirmar que o Oscar não tirou alguns bons momentos do completo estado caótico em que se meteu sem esta âncora que guiasse o público de uma categoria à outra. Alinhado ao perfil dos campeões anunciados, o ritmo acelerado da transmissão deu um gás inédito ao prêmio, que fosse na constatação do favorito ou na surpresa do azarão só se beneficiava dos impactos seguidos dos anúncios e discursos sem enrolação. O início foi prova maior disso: já antes do primeiro intervalo o público que acompanhava a cerimônia pelas redes sociais pode se emocionar com o discurso de Regina King ao receber a estatueta de Atriz Coadjuvante e ficar um tanto constrangido com o discurso atrapalhado da equipe de maquiagem e penteados de “Vice” ao receber o prêmio da categoria.

As apresentações especiais também não ficaram devendo. Mesmo sem Kendrick Lamar (que declinou o convite para se apresentar no evento), as quatro apresentações a seu jeito não se arrastaram e deram poder de fogo ao show, em especial a performance da vitoriosa “Shallow” cuja filmagem por Weiss amplificou todo o poder da cantoria de Lady Gaga e Bradley Cooper – que aqueceram a seu jeito a premiação.

Momentos emblemáticos e divertidos não faltaram, especialmente na primeira metade onde estes momentos melhor se acumularam. Os grandes momentos iniciais da noite vieram sem dúvida das duas primeiras vitórias de “Pantera Negra”, que apesar de todo o ineditismo de ser a primeira produção da Marvel Studios a receber o prêmio entrou para a história por conferir a segunda e terceira estatuetas a mulheres negras fora das categorias de atuação em 91 anos de premiação – no caso a figurinista Ruth E. Carter e a diretora de arte Hannah Beachler.

Outra categoria da primeira metade do evento que surpreendentemente se tornou um grande momento foi a estatueta de Documentário em Curta-Metragem para “Absorvendo o Tabu”, cujo triunfo foi saudado com clara surpresa pelas realizadoras. Dito aos prantos pela diretora Rayka Zehtabchi ao receber o prêmio da Academia, o “Eu não acredito que um filme sobre menstruação ganhou o Oscar” sintetizou, de alguma forma, o teor político que aos poucos se manifestava mais uma vez na premiação, em especial sobre o tema do muro do presidente estadunidense Donald Trump na fronteira com o México, que aparecia salpicado nas vozes de alguns dos apresentadores.

Mas se nos últimos anos esta ambição (para bem e para mal) se converteu dentro dos caminhos tomados pela noite, desta vez o rumo foi outro, mais simbólico – e foi mais ou menos a partir deste ponto que a cerimônia começou a desandar.

Ruth E. Carter discursa no palco após receber o Oscar de Figurino por “Pantera Negra”

Não ajuda muito nesta hora que “Bohemian Rhapsody” e “Green Book” foram juntos de Alfonso Cuarón e seu “Roma” os filmes que começaram a tomar conta do evento. Enquanto o futuro campeão do prêmio de Melhor Filme foi confirmando a narrativa da vitória com timidez ao descolar os prêmios de Ator Coadjuvante e Roteiro Original, a cinebiografia tomou as atenções da transmissão com naturalidade ao vencer todas as categorias que disputava, incluindo o troféu de Montagem que imediatamente explodiu em controvérsia nas redes sociais. A cada triunfo do “filme do Queen”, a exclusão crescente do “diretor” do projeto Bryan Singer nos discursos de agradecimento alimentava um vazio retórico que haveria de se perpetuar para outras estatuetas e a narrativa geral de triunfo das mulheres e negros na cerimônia – que em números acumularam respectivamente 15 e 7 dos troféus distribuídos na noite.

Enquanto este conflito se formava, quem acabou diminuído na noite mesmo com uma boa quantidade de vitórias foi o próprio “Roma”, até então um dos grandes favoritos desta edição. Ainda que tenha levado o prêmio em três categorias diferentes do Oscar – Filme Estrangeiro, Fotografia e Direção – o longa da Netflix parecia habitar outra esfera da premiação, com Cuarón recebendo as três honrarias com discursos efusivos e apaixonados pelo cinema mas que pouco reverberavam para além do agradecimento – o que não deixa de ser esquisito considerando que estes foram os primeiros grandes triunfos da plataforma de streaming na premiação. Foi um efeito contrário ao visto, por exemplo, com Guillermo del Toro em 2018, cujo “A Forma da Água” liderava um Oscar explicitamente voltado a latinos, e mesmo Spike Lee este ano, cujo discurso político forte foi ao lado de sua celebração com o amigo Samuel L. Jackson a grande cena do prêmio.

As categorias principais de atuação, por outro lado, se mantiveram fortes mesmo estando plenamente descoladas, talvez por conta da surpresa na confirmação de Rami Malek como vencedor de Ator por seu Freddie Mercury e a reviravolta da derrota de Glenn Close para Olivia Colman em Atriz – a vitória da protagonista de “A Favorita” (que com o prêmio garantiu que todos os indicados a Filme tivessem uma categoria ganha), aliás, rendeu outro bom discurso de agradecimento pela surpresa escancarada da artista com sua conquista.

Se a rixa da Netflix com a Academia movimentou ou não a diminuição de “Roma” na cerimônia é difícil definir, mas a consagração de “Green Book” foi menos uma “conquista” dos velhos moldes da indústria sobre o streaming que o suposto ápice de uma linha narrativa em torno do tema racial e que incluía os Oscar dados a “Pantera Negra” e “Infiltrado na Klan”. A intenção é bonita, mas a contradição é inegável demais para ser ignorada: aos olhos da Academia a vitória da comédia de Peter Farrelly pode até significar uma conquista para o debate sobre o preconceito racial sob vias da reconciliação, mas na prática o que se vê é o retorno a uma velha prática de auto-congratulação dos votantes sobre a eleição de uma produção de moral ultrapassada e adequada a seus padrões.

É uma vitória que certamente representa uma volta perigosa e mesmo danosa para o futuro da Academia se considerar também todas as medidas recentes para diversificar e ampliar seu corpo de votantes, o jeito que a entidade encontrou no esforço de se manter atual e longe da irrelevância que outros tantos prêmios possuem hoje em relação ao público. A busca por vencedores mais ousados e que reverberassem perante o público, responsável por consagrar “Moonlight” há dois anos, parece estar sendo perdida aos poucos em prol de um novo conformismo, cujas escolhas mesmo distantes da auto-homenagem de anos como de “O Artista” e “Birdman” tendem a levá-lo ao campo perigoso da paródia e do ridículo da repetição. É uma noção sem dúvida acentuada pela nova vitória de uma comédia de boas intenções sobre a relação de um branco e um negro em um carro sobre obras mais ousadas – e “Green Book” não deixa de ser um novo “Conduzindo Miss Daisy” para assombrar Spike Lee, pelo visto – mas que também se espalha para momentos específicos da cerimônia como o clipe da performance vencedora de Malek exibido durante o anúncio dos indicados a Ator que englobava ele cantando – sendo que o ator é dublado por outro em “Bohemian Rhapsody”.

Mas por mais tentadora que a comparação com “Miss Daisy” seja, no fim a vitória de Farrelly e “Green Book” não deixa de ser um triunfo da Amblin de Spielberg, a mesma que há 20 anos viu seu “O Resgata do Soldado Ryan” ser derrotado pelo “Shakespeare Apaixonado” de uma forma também muito polêmica e que dali pra frente alteraria para sempre a forma como a competição pela estatueta se daria. A questão, agora, é saber qual caminho a Academia seguirá nos próximos anos, o do retorno das velhas práticas ou a aceitação da suposta diversidade que alimenta – dois rumos que ao contrário do que “Green Book” prega estão cada vez mais irreconciliáveis.

Confira a lista completa de vencedores aqui

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