“Operação Fronteira” traz seus personagens diante de um acerto de contas com o passado

Novo filme de J.C. Chandor lançado na Netflix explora complexidades morais de ex-agentes de operações especiais do exército estadunidense

por Matheus Fiore

Operação Fronteira começa com uma palestra do veterano William Miller (Charlie Hunnam, de “Círculo de Fogo”e “Z: A Cidade Perdida”) sobre sua experiência como agente de operações especiais do exército americano. Miller fala sobre a dedicação necessária para cumprir suas missões, sobre o sentimento de dever que permeia as decisões de um agente como ele. Não há, porém, sorrisos, bem como não há, nos elementos cinematográficos, um tom heróico no registro dessa palestra. A cena é fotografada de forma acinzentada e sem trilha sonora. Com um lento zoom-in que aproxima a câmera do personagem, aos poucos o plano se fecha, exclui o entorno e deixa William envolto apenas pelo fundo preto da cortina atrás de seu corpo. É como se o discurso revelasse não um herói orgulhoso de seus feitos, mas um homem assombrado pela escuridão de seu passado.

No filme de J.C. Chandor, acompanhamos a história de cinco agentes de operações especiais que partem para uma missão final, que os garantirá a aposentadoria. Essa equipe é composta por, além do próprio Miller, pelo líder, Pope (Oscar Isaac), Redly (Ben Affleck), Catfish (Pedro Pascal) e Ben (Garrett Hedlund). Todos os personagens são marcados por traumas, fracassos ou dificuldades. Para todos, a chance de ir à tríplice fronteira localizada na Amazônia é a chance de por um ponto final em uma fase de suas vidas e começar uma nova trajetória.

A obra é dividida em dois blocos de uma hora. No primeiro bloco, somos apresentados aos membros da equipe, com destaque para o protagonista, Pope, e seu melhor amigo, Redfly. Pope funciona como o olhar dos personagens e do público para a situação, pois é quem organiza a missão e conhece o território onde ela ocorre, o agente serve como elo entre os colegas e aquele mundo tão distante da vida nos Estados Unidos. Já Redfly recebe um carinho especial do roteiro por ser o personagem com os problemas do dia-a-dia: má relação com a ex-esposa, dificuldades financeiras, filha adolescente distante… Se, para Pope, a missão tem, além do valor financeiro, uma motivação pessoal, que é livrar a região do traficante, para Redfly, é a chance de utilizar a grana para colocar sua vida de volta nos trilhos.

O restante dessa primeira parte engloba toda a missão, que começa e termina antes do fim da primeira hora do filme. O mais interessante vem depois da missão: a partir do ponto em que os agentes conseguem o dinheiro, o retorno para casa passa a ser um pesadelo. Não só a dificuldade de voltar para os Estados Unidos, mas o carregamento do dinheiro também se torna um fardo. Os personagens passam a entrar em conflito com a própria ganância, além de serem assombrados pelo passado violento que todos carregam.

Há poucas figuras antagonistas no filme. As que existem praticamente não são personificadas, pois o foco do roteiro é criar situações nas quais Pope, Redfly & Cia. se veem confrontados pelas próprias escolhas. No caso de William, por exemplo, é estabelecido que o personagem tem certo fascínio por contabilizar coisas (palestras, viagens etc), e essa mania do personagem é utilizada justamente para falar sobre seu histórico como soldado, que matou dezenas de pessoas e vive com o peso dessa violência. É interessante ainda que essa violência que está no passado e presente dos personagens ainda os assombre. O ponto alto do arco de um dos personagens, por exemplo, é resultado direto de monstros criados por ele e sua violência ao longo de “Operação Fronteira”.

Os personagens são confrontados não pelos inimigos, mas por suas bússolas morais

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O que aflige os membros do esquadrão, então, não são as limitações de recursos para transportar o dinheiro, a dificuldade em enfrentar exércitos de traficantes, nem nada do tipo; o contrapeso que sempre empurra os personagens para trás é sua própria bússola moral. Pope & cia. constantemente se veem diante de situações em que precisam escolher entre uma saída que facilite a continuidade da missão e uma saída que mantenha algum resquício de humanidade em seus feitos. Não surpreende, portanto, que haja vários momentos importantes da narrativa centrados nos dilemas morais pelos quais os personagens passam.

O roteiro constrói essas ideias de forma que os próprios personagens parecem estar cientes delas. Quando o pai ausente diz que ama sua filha e ela responde que “sente sua falta”, não é preciso um diálogo para elucidar que, desde que voltou da guerra, ele não é mais o mesmo: o olhar de Ben Affleck é suficiente. Já quando algum dos dilemas morais citados ocorre, também não é preciso mais do que uma frase como “esta é uma escolha da qual você não poderá retornar para mostrar como ali há uma noção de que toda a equipe pisa em ovos e trabalha não só às margens da lei, mas nos limites de seus próprios conceitos de moral.

Ao fim, fica faltando algum empenho para tornar as relações dos personagens mais substanciais. Há muitas referências ao passado, mas há pouco que cimente o que fortalece o laço entre os agentes – e o final depende excessivamente desses laços para funcionar. Por outro lado, é interessante ver como a questão moral se torna algo cada vez mais presente ao longo do filme, como se os personagens, por estarem em uma missão que remete aos seus passados, revivessem e digerissem seus feitos; uma forma de acerto de contas com o destino que os faz rever seus ideais.

O roteiro coloca os personagens em dilema sobre manter sua humanidade ou cumprir a missão

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A estrutura do filme, por si, já é um elemento basilar para que o longa tenha esse desenvolvimento psicológico em seus personagens. O grande assalto, que poderia ser posicionado no clímax do filme, acontece precisamente no meio do segundo ato. O clímax é guardado não para a conquista financeira ou para a vitória na batalha, mas para a constatação de seus erros e amadurecimento daqueles que são perseguidos por seus feitos. É interessante ainda que Pope, o protagonista, seja sempre o que guia essa humanização dos personagens e costuma desviar o foco da missão principal para realizar algo que confirme sua humanidade, como no caso da criança que aconselha na fuga da reta final do longa, mas ainda mais interessante é perceber como essas situações se relacionam com o dinheiro. Em todos os momentos nos quais Pope resgata seu lado humano, ele está abrindo mão de alguma quantia em dinheiro, seja para doar para alguém, para pagar por um serviço ou até mesmo para reparar algum dano. Essa “troca” evidencia como a narrativa de “Operação Fronteira” cria esse jogo de oposição entre retorno financeiro e pessoal.

Mesmo que seja incapaz de aproveitar todo o potencial de seus personagens – ainda que o humor esteja bem azeitado pelo entrosamento do elenco e todos os problemas de cada um dos agentes seja extremamente crível, ainda faltam momentos que criem o foreshadowing necessário para um maior impacto na cena final –, “Operação Fronteira” é um filme que balanceia bem o drama e a ação. J.C. Chandor e Mark Boal (co-roteirista) conseguem humanizar figuras que seriam facilmente detestáveis, e o fazem justamente por não negarem, mas abraçarem as complexidades desses indivíduos; fazem dos defeitos de seus personagens não algo a ser necessariamente problematizado, mas sim o embrião dos percalços pelos quais os agentes passarão durante toda a missão.

Operação Fronteira” é, portanto, não apenas filme de assalto, mas um filme de fuga: do legado, do trauma e do que desumaniza; e também um filme de busca: pelo equilíbrio que permita que eles saiam da tríplice fronteira mantendo o que eles possuem de mais valioso: a própria humanidade.

nota do crítico

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