Despido de magia, “Dumbo” é um espetáculo antiquado

Alimentado pelo esgotamento do cinema de Tim Burton, remake da tradicional animação da Disney sobrevive apenas do comentário metalinguístico sobre o atual estado do estúdio

por Pedro Strazza

No hall das animações clássicas da Disney, “Dumbo” é dono do que talvez seja o mais atribulado histórico de produção. Além de seguir o retumbante fracasso financeiro de “Fantasia”, a história do filhote de elefante que podia voar foi lançada após a famosa greve de animadores do estúdio de 1941, que não apenas resultou em quase 700 demissões como também impactou de forma direta no trabalho então minimalista de animação da companhia, que junto da contenção de custos fez do projeto um dos menos “vistosos” da época.

Mas ao mesmo tempo que o longa perdeu com a greve em termos de valor de produção, é inegável o quanto “Dumbo” ganhou no campo de subtexto com todo o caso. Embora não se veja no filme o mesmo apuro estético de conterrâneos como “Branca de Neve e os Sete Anões” ou “Pinóquio”, a produção carrega em seu âmago toda uma variedade de comentários ácidos sobre a indústria do entretenimento disfarçado em seus números musicais e momentos de comédia, dos trabalhadores braçais do circo que nunca chegam a ganhar um rosto ao arco de seu protagonista, cujo desespero em libertar a mãe do cativeiro o leva a buscar o voo a custo de humilhação e mesmo da (quase) morte. Tudo dentro da tradicional fábula de inocência do estúdio, o que só acrescentava voracidade a uma animação inevitavelmente fascinante em seus problemas e contratempos.

É inevitável então que questões de contexto e espelhamento com a realidade presente se manifestem como uma força em qualquer nova encarnação da história nos cinemas, e isso inclui sem dúvida o remake live-action que o estúdio lança agora nas telonas. Não ajuda muito o atual cenário vivido pela Disney no mercado, onde a empresa se ameaça tornar (ou já é) dominante num meio até então equilibrado depois da compra de tantos estúdios – incluindo aí a compra bilionária da rival21st Century Fox – e a reunião progressiva de franquias multimilionárias que a previnam contra qualquer chance de fracasso na busca de seus objetivos.

Dado estes pressupostos, a grande questão é: este novo “Dumbo” é capaz de incorporar estes elementos externos à sua narrativa? Ou o estado das coisas é tão rígido que este viés pertence única e exclusivamente a uma interpretação aberta do público?

Tim Burton no set do filme

Nas mãos de Tim Burton, o filme parece perseguir estes dois extremos a seu jeito, o que não deixa de ser em si um paradoxo curioso. Mesmo engessado aos valores por trás da atual linha de produção da “atualização dos clássicos” do estúdio, espaço criativo não falta ao projeto, que faz a história de Jumbo Jr. deixar de ser uma animação econômica de uma hora para torná-la uma grande produção hollywoodiana de mais duas horas de duração.

Nas mãos do roteirista Ehren Kruger, entretanto, esta expansão é traduzida na concepção de uma trama maior, incluindo ramificações temáticas e estruturais que englobam entre outros uma narrativa sobre maus tratos aos animais – algo natural se considerar a necessidade de enquadrar a produção aos valores do século XXI, mesmo sua premissa se passando no início do XX. Assim, além de vermos na tela uma adaptação quase literal do conto escrito por Helen Aberson e Harold Pearl, o longa também ganha uma segunda parte ambientada no circo megalomaníaco de V.A. Vandevere (Michael Keaton) intitulado “Dreamland”, que compra o empreendimento do antigo dono do elefante Max Medici (Danny DeVito) para lucrar em cima da “magia” e encantamento promovido pelo animal.

Como o nome do empreendimento do antagonista sugere, a adição deste novo segmento não deixa de ser em si uma grande tentativa da produção de manter vivo este legado “amaldiçoado” do original, e a direção de Burton não demora a reconhecer esta proposição na narrativa. Enquanto a trajetória de Dumbo é “amenizada” com a entrada de crianças no posto de seus fiéis escudeiros e a sublimação da caricatura dos palhaços como figuras humilhantes – é difícil obter o mesmo efeito quando o principal representante é o ator Colin Farrell no papel de um artista traumatizado pela Grande Guerra (uma tentativa de contexto, aliás, que termina inútil no filme) – os conflitos de visão entre os dois donos de circo ganham maior terreno nas mãos do diretor, que encena o “embate” não pelas vias de pureza artística mas sim de comprometimento humano: se o Vandevere de Keaton é mau por priorizar o negócio acima de tudo, o Medici de DeVito tem bom coração por no fundo ter criado um vínculo com seus funcionários e desejar a eles o melhor.

Os conflitos de visão entre os donos de circo ganham espaço nas mãos de Burton, que o encena pelas vias do comprometimento humano

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A fábula sobre corporativismo e arte que Burton e Kruger constroem sobre os dois empreendedores a partir desta condição é atrativa até certo ponto, ainda mais quando o filme revela posteriormente o empresário vivido por Alan Arkin como real elemento determinante do sucesso ambicionado por todos os personagens. Os dois atores também contribuem muito para tornar os seus papéis palpáveis ao público, dando um corpo mais sólido aos maniqueísmos que o roteiro sofre para manter estáveis – se DeVito é capaz de disfarçar as transformações abruptas de seu papel, Keaton faz da crescente de insanidade de Vandevere o conduíte ideal para revelar sua posição de vilão.

A decisão por conduzir a história sobre este ponto de empresarial, porém, também limita muito os caminhos narrativos do filme, ainda mais porque esta busca por um ideal artístico dentro da escala de poder não parece dizer muito a ninguém além dos próprios produtores e sua relação enquanto mão-de-obra do estúdio. O subtexto, assim, passa a agir como fator limitante ao resto da produção, cuja narrativa fora deste comentário metalinguístico não é capaz de articular algo além de um espetáculo antiquado, seja nas ideias ou no ideal de deslumbramento proposto.

A fábula sobre corporativismo e arte que o filme constrói sobre os dois empreendedores é atrativa até certo ponto

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A maneira como o roteiro trata seus protagonistas ajuda a elucidar parte deste problema encarado pelo remake (até porque é difícil encontrar qualquer alma nos personagens fora da necessidade de manter a trama seguindo em frente), mas no fundo o que move a sensação de um grande deserto criativo é mesmo o esgotamento já atestado do próprio cinema de Burton, que se mostra confortável em repetir aqui seus cacoetes como bordões estilísticos. Como em quase todos os seus outros trabalhos na década, o diretor repete no remake a figura de alguém rendido à fama e à imagem construída pelo público e realizadores, entregando ao espectador a decisão do que salvar e descartar do que restou em seu modo de operação – e isso se espalha até mesmo à condição oprimida de seus personagens principais, cuja fuga final na história não poderia estar mais presa aos velhos moldes.

É por conta da condição pasteurizada de seu realizador que apesar de toda uma “visão artística” este novo “Dumbo” soe no fim como um filme de produtor, mesmo quando se prestando ao exercício de destruir a “terra dos sonhos” para promover um ideal de espetáculo humanizado e tocante. Um vazio de boas intenções, aliás, que no fundo ajuda a melhor compreender o paradoxo final do projeto, o da máquina hollywoodiana que se alimenta do exercício da autocrítica.

nota do crítico

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