Como “Game of Thrones” mudou a televisão para sempre

Entre altos e baixos, série deixa sua marca e um grande legado na história do meio

por Matheus Fiore

Séries de televisão são anunciadas e canceladas constantemente. Para quem procura, há sempre alguma novidade surgindo por aí. Porém, de vez em quando uma série consegue se destacar e, em casos excepcionais, redefinir a forma como o público a consome.

“The Sopranos” e “Lost” talvez tenham sido os dois primeiros grandes exemplos de uma transformação nas formas de consumo e produção no meio neste início de século. Enquanto a primeira se sobressaiu por conseguir com maestria colocar o público na perspectiva de um personagem com complexidade ímpar, a segunda teve um impacto maior na relação com o espectador. “Lost” fez com que milhões de fãs criassem e inundassem fóruns para discutir teorias que explicassem os mistérios da série.

Depois disso, outro drama viria a se tornar um marco: “Breaking Bad” colocou o espectador em uma situação semelhante a que ocorreu com “Sopranos”, mas com um investimento maior na construção visual de seu episódio. Em um tempo no qual as televisões não mais são aquelas caixas com tubos traseiros, e sim grandes superfícies planas que transmitem séries em HD e 4K, uma obra que invistisse na qualidade da fotografia e da direção de arte certamente se destacaria perante as demais. O seriado da AMC trouxe não só uma revolução, mas uma inovação estética no formato das séries.

Depois disso, chegamos a “Game of Thrones”, que assim como “Sopranos” era também uma série original da HBO. Inspirada na saga de livros de fantasia de George R. R. Martin, “As Crônicas de Gelo e Fogo”, o programa pode ter passado por muitas situações peculiares ao longo de sua trajetória, mas muito do seu sucesso é compreensível se olharmos para o passado das séries mencionadas. Mas nem só no aproveitamento do passado há méritos: a HBO também conseguiu com o seriado, mais uma vez, redefinir a forma como o público consome séries.

Aperfeiçoando o que veio antes

As influências de estilo foram muitas no programa comandado por David Benioff e D.B. Weiss. De “Lost”, por exemplo, “Game of Thrones” parece ter herdado os mistérios e os segredos: o passado de Jon Snow, as lendas mitológicas acerca da morte e vida de alguns personagens, a origem de alguns vilões… muito da fantasia presente na série era fortalecida pela curiosidade do público nessa relação da trama com o desconhecido, o que resultou em uma enxurrada de teorias que consumiram a internet e fizeram com que a série se tornasse a com mais teorias de fãs já vista.

Ao contrário do programa da ABC, porém, “Game of Thrones” fez isso no auge da internet e do boom das redes sociais, um cenário que só potencializou o cenário de especulação e discussão. Se tornou um hábito a série estar semanalmente no topo dos trending topics mundiais, por exemplo, e isso certamente ajudou a aumentar o interesse do público pela história.

Já “Sopranos” possibilitou que “Game of Thrones” construísse um território cinzento entre seus heróis e vilões. Se a primeira temporada da série de fantasia seguia uma dramaturgia mais clássica e estabelecia de forma clara ao público quais personagens eram bons e maus, estas noções maniqueístas aos poucos foram se diluindo e tornando mais turva a visão do espectador.

Bom exemplo disso foi o personagem de Varys. Apresentado de início como um conspirador, contrapondo-se à retidão moral do então protagonista Ned Stark, na temporada final o conselheiro já é retratado como um dos sujeitos mais bem intencionados de Westeros, a ponto de morrer para não se render à tirania de sua rainha. Jamie Lannister é outro que mostrou esta complexidade ao longo da história, sendo dono de um arco que o levou da posição de um dos maiores vilões a uma das maiores vítimas daquele mundo imundo. O contrário obviamente também aconteceu: Daenerys Targaryen, uma das principais heroínas ao longo de todo o seriado, acabou se revelando a grande vilã final de Westeros com um plano de propósitos genocidas.

Um épico de grandes proporções, físicas ou digitais

É de “Breaking Bad”, porém, que vem o elemento que mais eleva “Game of Thrones” a um patamar inédito na televisão. Embora nem de longe a série escrita por Benioff e Weiss se aproxime da narrativa lenta e essencialmente visual feita por Vince Gilligan, a série foi quem mais se preocupou em levar a estética cinematográfica às telas de televisão. Grandes locações, centenas de figurantes e auxiliares de produção, grandes efeitos digitais para engrandecer cenários e construir monstros e exércitos… em “Game of Thrones”, havia tudo que era necessário para se fazer um verdadeiro épico fantástico na telinha.

Episódios como a “Batalha dos Bastardos” criaram um novo nível de exigência quando se fala de escala em séries de televisão, não apenas pela excelência de elementos como a fotografia, a direção de arte, o figurino e demais elementos cênicos, mas também pelo tamanho do feito alcançado em momentos cataclísmicos como estes. O episódio da guerra entre os exércitos de Jon Snow e Ramsay Bolton, só para ficar em um exemplo, contou com a participação de mais de 500 figurantes e 600 membros da equipe, levando incríveis vinte e cinco dias para ser plenamente filmada.

Foram momentos como este que são essenciais para as estruturas de uma série épica como de “Game of Thrones”, que começou com cenários mais modestos para – aos poucos e em vista do crescente sucesso – encontrar espaço e explorar cada vez mais o seu potencial megalomaníaco.

A série da HBO também foi muito beneficiada pelo momento em que foi lançada. Se em “Lost” momentos como “we have to go back” ecoavam mais em fóruns nichados e em discussões de bar, o Casamento Vermelho e o duelo entre Oberyn Martell e o Montanha ganharam bastante volume nas redes sociais e serviram de alicerce para que a série se tornasse centro de todas as atenções na internet.

Até o momento, “Game of Thrones” é sem dúvida a série que melhor aproveitou o frenesi do meio virtual e a necessidade da atual geração de comentar o produto consumido em tempo real, a todo segundo. Mesmo que o ideal seja assistir uma série ou filme dando o máximo de atenção possível, se tornou praticamente impossível não comentar o seriado em tempo real pelo fato de o programa ter se tornado algo além de um produto audiovisual da HBO. A série se tornou um evento que definiu uma geração e, portanto, redefiniu a forma de se consumir séries de televisão.

Expectativas, erros e acertos

Se o sucesso midiático por um lado surgiu como uma benção um tanto inédita para o seriado, foi pela mesma que “Game of Thrones” formou também uma base de fãs das mais apaixonadas, algo que com certeza ajudou a elevar as expectativas da série ao patamar mais alto possível. Isso obviamente levou o programa a um enorme dilema envolvendo sua trama: enquanto nas primeiras temporadas a ideia foi sempre de surpreender o público e inverter o jogo quando tudo parecia caminhar para uma jornada de bem contra o mal mais clara, nas últimas – ou para ser mais exato, nas duas temporadas finais – a série passou a alimentar a ideia de que a conclusão traria um clássica desfecho de comercial de margarina, voltando a arregimentar seu elenco de personagens em torno de mocinhos e vilões.

Foi uma decisão que obviamente dividiu o público em dois grupos maiores de expectativa. Enquanto parte do público aguardava ansiosamente pela confirmação do final adocicado, a outra, tão ansiosa quanto, esperava pela nova puxada de tapete que redefinisse os rumos da trama. Não havia como escapar da horda de reclamações, que inundaram as redes sociais ao longo de todas as últimas semanas da série.

Vale pontuar aqui que as reclamações também extrapolaram questões narrativas e envolveram a própria transmissão, já que as plataformas da HBO e da HBO Go apresentaram inúmeros problemas ao longo dos seis últimos episódios. Foi uma bela lição a ser aprendida pelas emissoras donas das próximas mega-produções da TV, ainda mais porque estas terão que lidar ainda mais com o streaming

Não ajudou muito, porém, a nítida queda dos roteiros. Nas primeiras temporadas, “Game of Thrones” era elogiado por não deixar pontas soltas e sempre caprichar no desenvolvimento de suas tramas – toda a queda de Ned Stark, por exemplo, foi anunciada e vivida por seu antecessor, Jon Arryn – mas já nos momentos derradeiros a série passou a transformar em essencial elementos que eram tidos como características menores até então, a exemplo das tendências tirânicas de Daenerys que no curso de seis episódios escalonaram sem qualquer noção de ritmo.

Claro que o problema não passa necessariamente pelo fato da outrora protagonista se revelar a grande vilã, mas sim o fato disso não ter sido aproveitado a fim de fortalecer seu arco. Há anos Daenerys agia de forma exagerada e até mesmo executava prisioneiros e inocentes sem a menor necessidade; o defeito foi a série nunca ter aproveitado isso para implementar em seus coadjuvantes (como Jon Snow, Tyrion, Varys e os demais próximos da rainha) a ideia de escolher um novo representante. Em vez de manter sempre o terreno cinzento e expor as falhas dessa personagem, os roteiristas optaram por negligenciar todos os seus erros para, ao fim, trazer a revelação de sua vilania como uma reviravolta, e não como a conclusão de um arco construído com mais calma.

Ao mesmo tempo, é inegável que os produtores e roteiristas foram inteligentes de saber lidar com as críticas e adaptar a série aos defeitos que surgiam ao longo das temporadas. Bom exemplo são as questões envolvendo a nudez, o sexo e o estupro da série: nos primeiros anos de “Game of Thrones”, estes elementos eram marcantes nos caminhos da trama, mas também eram criticados e vistos por muitos como uma objetificação muito escancarada dos corpos femininos; aos poucos, porém, reduziu-se a participação destas cenas até sua completa eliminação, substituindo a luxúria pela paixão. Se antes o amor entre os personagens era demonstrado através de cenas de sexo, ao fim a série tornou-se mais fantasiosa e calcada no emocional, deixando o físico de lado.

Alguns criticam o fato de a série ter se podado para agradar o público, mas analisando sob outra perspectiva podemos ver como ela foi uma das várias manobras de inteligência da HBO, que soube lapidar seu produto a fim de melhor representar os interesses do público. Ainda pode-se lamentar, porém, que essa busca pelo agrado dos fãs acabou tornando muitos momentos da série um tanto quanto semelhantes às fan fictions dos espectadores, o que enfraqueceu o elemento surpresa que tanto funcionou na primeira metade do programa.

O legado final de “Game of Thrones”

A HBO não entregou uma série perfeita. Não só a reação do público, mas as críticas com as mais variadas opiniões evidenciam que nem todas as arestas foram devidamente aparadas. Muitas subtramas foram sugeridas e acabaram simplesmente esquecidas ou subaproveitadas ao longo dos anos, uma noção que evidencia também o quanto de conteúdo o programa possuía para mais episódios e, quem sabe, até mais temporadas.

Mesmo assim, tanto em termos de mercado quanto de arte “Game of Thrones” é a série de maior impacto cultural em muito tempo dentro dos rumos da televisão. Não só por redefinir a forma do público consumir e se relacionar com séries, mas também por elevar o nível de exigência no que tange escalas de produções épicas e mostrar como o público se interessa e anseia por grandiosidade, mesmo que fora das telonas do cinema.

O melhor disso tudo, porém, é o fato de os produtores e roteiristas terem conseguido finalizar a obra tendo esse enorme e inquestionável impacto cultural e valorizando toda a mitologia da série. Há diversos sinais disso, desde o legado de Ned Stark na forma de pensar e agir de personagens como Jon e Sansa, que buscam sempre a alternativa lógica e ética para as adversidades, como também na construção de rimas entre o começo e o final da série. Se “Game of Thrones” abre seu episódio piloto com um trio nortenho sendo perseguido por white walkers em uma floresta além da muralha, a série fecha justamente com Snow e um grupo de “selvagens” entrando em uma floresta além da muralha. Como se a série ressignificasse o espaço e transformasse em esperança um ambiente que, a priori, era de terror, medo.

Afinal, “Game of Thrones” trata disso o tempo inteiro. O poder não é algo a se temer, e sim a ser bem utilizado e distribuído. O problema de Westeros nunca foi necessariamente os Lannister, os Baratheon ou mesmo os Targaryen, e sim seus líderes egocêntricos, tiranos e imperialistas. Ao final, a conclusão é clara: é necessário trazer uma nova luz ao que já conhecemos, tanto para identificar tendências tirânicas em possíveis líderes, como para ver com otimismo e até como um recomeço, um cenário que, outrora, representava medo. Que bom que, assim como os personagens conseguem fazer essa ressignificação na série, a própria obra também é bem sucedida ao lançar um novo olhar para a forma como produzimos e consumimos arte para a televisão.

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