“Jumanji: Próxima Fase” discute conflitos geracionais em aventura turbinada por comédia

Jake Kasdan retorna à direção com filme um pouco mais maduro e tão divertido quanto antecessor

por Matheus Fiore

Remakes e continuações são uma moda antiga de Hollywood, mas estão tendo um curioso pico no atual momento. Mesmo que sejam uma saída “fácil”, eles também são artisticamente um desafio para seus realizadores. Recontar uma história já bem estabelecida requer alguma criatividade, afinal, já que há de se trazer algo novo. Simplesmente refazer uma obra quadro a quadro, acrescentando apenas alguma novidade tecnológica e estética – como no caso do terrível “Rei Leão” – pode até render bilheteria (que, no fundo, é a única coisa que importa para os estúdios), mas não necessariamente traz nada de novo artisticamente. Como disse Luca Guadagnino, é preciso desmistificar os remakes e quebrar o tabu em torno deles.

No caso de “Jumanji”, seu remake obviamente parte das pretensões gananciosas da Sony Pictures, mas apesar disso o “Bem-vindo à Selva” de Jake Kasdan era o verdadeiro exemplo de versão modernizada de uma obra bem estabelecida. O filme segue a lógica do original de Joe Johnston lançado nos anos 90 e inspirado no livro de Chris Van Allsburg, mas trocando um jogo de tabuleiro por um video game. Agora, dois anos depois, o diretor retorna com este “Jumanji: Próxima Fase”, que resgata o mesmo elenco e o mundo do jogo apresentado na aventura anterior.

Mas se no filme de 2017 Kasdan utilizava a aventura e a comédia para falar sobre autoestima na juventude e temas do tipo, na de 2019 se dá um passo além para tratar sobre aprendizado e amadurecimento. Partir de um remake para modernizar a obra tanto esteticamente quanto tematicamente, por si só, já merece elogios. Portanto, mesmo que o novo “Jumanji” não seja um filme memorável e revolucionário, o resultado é uma obra que, por partir de ideias interessantes e as trabalhar com a qualidade mínima para o funcionamento da narrativa, já consegue um bom resultado.

Jake Kasdan (à direita) orienta Dwayne Johnson no set

Há algumas sutis mudanças em relação ao filme anterior. No arco de “Bem-vindo à Selva”, a entrada no mundo dos games foi algo acidental, como se um poder superior enviasse os personagens para lá para que eles pudessem se ver com outros olhos e aprender mais sobre si mesmos. Em “Próxima Fase”, a chegada do elenco ao game é algo proposital. Spencer, o protagonista, opta pelo videogame por estar desiludido com sua vida no mundo adulto, criando uma interessante relação de escapismo. O restante dos personagens acaba indo atrás para resgatar o amigo.

Kasdan ainda é hábil ao manter o filme como um blockbuster, mesmo que aborde assuntos um pouco mais complexos do que se pode esperar de uma produção do tipo. Os personagens de Danny DeVito e Danny Glover, por exemplo, também fazem parte da trama e do jogo, interpretando respectivamente o avô do protagonista e seu antigo sócio. Fica de lado a reflexão sobre a adolescência e, agora, novas formas de utilizar os corpos entram em ação: as mudanças psicológicas da vida adulta e as mudanças físicas da chegada da terceira idade.

Fica de lado a reflexão sobre a adolescência e novas formas de utilizar os corpos entram em ação

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O interessante é que o filme consegue abordar tais tópicos sempre dentro da esfera humorística, desenvolvendo os temas partindo de piadas sobre, por exemplo, um idoso debilitado habitar dentro do game o corpo de um bodybuilder como Dwayne Johnson. É nessa abordagem que se constrói toda a narrativa gameficada de “Próxima Fase”, que passa a dar menos atenção para a estrutura da narrativa em si que para o desenvolvimento de seus personagens – desta vez a forma não é mais uma novidade, então é mais utilizada apenas como condutor intelectual. As ideias são desenvolvidas durante as piadas e a aventura, não havendo uma divisão da parte formal e conteudística do filme; a sequência é bastante precisa em sua proposta, pois se desenvolve tanto durante os momentos engraçados quanto urgentes da trama.

Kasdan ainda é perspicaz ao perceber o potencial de ter duas gerações tão distantes em um mesmo universo moderno. Quando o personagem de Danny Glover se torna o guia do grupo – em virtude das características de seu avatar biólogo e especialista em linguística no videogame –, o restante do grupo questiona sua lentidão para expressar opiniões e repassar informações, algo que, a priori, soa como uma simples piada, mas logo revela-se uma forma da narrativa brincar com a forma com que cada geração lida diferente com o tempo e a modernidade.

Kasdan ainda é perspicaz de perceber o potencial de duas gerações tão distantes em um mesmo universo moderno

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Não por acaso, a narrativa de “Próxima Fase” é ágil, urgente, tanto pela sucessão de acontecimentos quanto pela forma com que Kasdan e seu diretor de fotografia, Guyla Pados, constroem visualmente o filme, sempre com planos cheios de movimento e cenas com muita movimentação no cenário – tanto dos corpos quanto dos próprios objetos cênicos. Cria-se, então, um mundo que não só reflete essas demandas da sociedade moderna como contrasta juventude e vida adulta de forma enriquecedora para o desenvolvimento das ideias.

Um atalho ou outro que a narrativa assume aqui e ali para imprimir tensão no ato final – os personagens são praticamente forçados a perder algumas de suas três vidas para que todos cheguem ao ato final dependendo do sucesso da missão para sobreviver – acabam tirando a naturalidade dessa construção dramática, mas, pondo de lado essas facilitações, “Próxima Fase” lida bem com o peso de ser um remake e uma continuação ao explorar novos caminhos dentro de uma proposta nem tão inovadora. Ao fim, é bem bacana perceber como o cineasta constrói personagens com olhares tão diferentes para as experiências vividas dentro do jogo. Fortalece a ideia de abismos geracionais e enriquece a diversidade daqueles personagens. Em uma inevitável continuação, espero que Kasdan consiga manter o nível.

nota do crítico

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