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Estudo mostra como séries criminais dos EUA distorcem visões do público sobre raça, gênero e o sistema de justiça

"NCIS", "The Blacklist" e "Blindspot" estão entre séries apontadas pelo Color of Change que mais deturpam as noções do espectador sobre o sistema e o comportamento ideal dos oficiais

por Pedro Strazza

A ONG de defesa dos direitos civis dos EUA Color of Change divulgou nesta terça-feira (21) a primeira edição de um estudo que se debruça sobre questões de representação em séries criminais estadunidenses. Intitulado “Normalizing Injustice: The Dangerous Misrepresentations that Define Television’s Scripted Crime Genre”, o relatório bota em evidência uma série de arquétipos e tipos de histórias geralmente utilizados em programas do gênero que ajudam a distorcer a visão do público sobre temas como raça, gênero e o sistema de justiça do país.

Como escrito no documento, “estas representações fictícias são construídas com base em falsas percepções sobre o sistema de justiça e como este se correlaciona com questões de raça e gênero enquanto ignora muitas realidades importantes.”, o que por consequência pode levar muitos espectadores a fazer muitas constatações equivocadas sobre os aparatos públicos e como eles podem ser reparados, assim “colocando a opinião pública contra esforços necessários e críticos de reforma do sistema”.

Estes danos no caso se relacionam a narrativas recorrentes de produções do tipo, claro, mas também a questões de produção e diversidade dentro do setor criativo da indústria. De acordo com o estudo, o gênero de séries criminais é o menos diverso dentro da programação da TV estadunidense, com 81% dos showrunners sendo homens brancos e 78% dos roteiristas das séries analisadas serem brancos. Não apenas os negros estão em meros 9% dos scripts, mas 20 das 26 produções analisadas pela Color of Change contam com nenhum ou 1 roteirista negro em suas salas de criação.

As histórias contadas, enquanto isso, propagam vícios no mínimo problemáticos. Entre as descobertas feitas pela pesquisa, o relatório mostra que a maioria dos programas analisados apresentam injustiças do sistema sendo cometidas por “homens da lei” sem nenhuma consequência e, portanto, sendo normalizados – há inclusive muitas ocasiões em que os erros são posteriormente encorajados ou até perdoados no episódio. Quase todos os seriados analisados também criam a impressão de que reformas não são necessárias no sistema de justiça, além de muitas usarem personagens não brancos para passar a sensação de validação de mal comportamento, seja no apoio ou prática de tais ações.

Neste sentido, o relatório aponta pelo menos oito séries de televisão do gênero como capazes de proporcionar o maior estrago neste campo, incluindo “NCIS”, “Máquina Mortífera”, “Elementary”, “The Blacklist”, “Blindspot”, “Bluebloods”, “Chicago P.D.” e “Law & Order: Special Victims Unit”.

O estudo envolveu a análise de 353 episódios de 26 séries diferentes e roteirizadas que foram produzidos entre março de 2017 e julho de 2018 para canais de TV ou serviços de streaming – sendo que o processo de seleção dos episódios de cada programa foi randômico e abarcou 70 a 80% de cada temporada. Os capítulos foram estudados com base em três métricas distintas:

  • Uma razão que compara o número de ações injustas cometidas pelo profissional de justiça enquadrado como herói com a quantidade de mesmas atitudes dos vilões;
  • Um índice que cataloga as séries que mais retratam atos injustos sem reconhecê-los como tais ao mesmo tempo que mantém um número alto de personagens não brancos como heróis;
  • Um ranqueamento de integridade racial que ordena as séries sobre a razão entre o número de personagens não brancos com a porcentagem de criativos não brancos na sala de roteiristas do programa.

Com 70 páginas de análise sobre os dados coletados, o relatório conclui com recomendações severas a executivos e produtores de reconhecer a situação como um problema sistêmico, seja pela convocação de auditores externos da indústria ou pela necessidade da promoção de maior diversidade no gênero. “Nós agora sabemos o quão perigoso pode ser o papel da televisão roteirizada quando o assunto é distorcer a compreensão das pessoas sobre crime, raça e justiça.” escreve o presidente da Color of Change, Rashad Robinson, na divulgação do estudo, sobre o qual também acrescenta que estes programas “encorajam o público a rejeitar reformas e apoiar o pior tipo de comportamento dos policiais, promotores e outros oficiais – práticas que destroem vidas de pessoas negras”.

Você pode ler o estudo da Color of Change na íntegra (e em inglês) aqui.

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