Com protagonistas feitos um pro outro, “Um Crime Para Dois” usa humor para solucionar mistério

Comédia produzida pela Paramount constrói narrativa em torno de personagens que não abrem mão da comédia

por Matheus Fiore

Boa parte das comédias românticas tem como objetivo extrair humor de eventos ordinários, do dia-a-dia de seus personagens. São filmes que encontram seu humor justamente no que há de mais normal no universo de seus personagens e do filme. Há, porém, comédias românticas que optam por algo diferente: partem do rotineiro para o absurdo como forma de estudar o relacionamento de seus personagens. A Netflix tem investido bastante no segundo modelo. O divertido e criativo “Megarromantico”, de Todd Strauss-Schulson, por exemplo, utiliza como dispositivo narrativo um “feitiço” que desloca completamente seu filme da realidade: a protagonista vivida por Rebel Wilson acorda em um mundo inteiramente moldado ao redor das comédias românticas, e lá, precisa encontrar seu amor próprio e se libertar de suas travas psicológicas. 

Agora, o serviço de streaming aposta novamente em uma comédia do tipo, mas dessa vez, utilizando eventos absurdos que na verdade nem são lá tão absurdos assim com este “Um Crime Para Dois”, dirigido por Michael Showalter – que foi responsável pelo hit “Doentes de Amor” – e que originalmente foi desenvolvido pela Paramount até ser vendido à Netflix por conta da pandemia. A trama acompanha o casal Jibran e Leilani (Kumail Nanjiani e Issa Rae), que estão prestes a se separar após quatro anos de relacionamento quando testemunham um crime – e, pior, se tornam os únicos suspeitos. A dupla, então, abandona qualquer resquício de sanidade e resolve tentar por conta própria resolver o mistério.

Showalter constrói seu filme de maneira interessante. Antes de se tornar uma aventura investigativa bastante despretensiosa, “Um Crime Para Dois” se apresenta como uma típica comédia romântica de rotina. Um casal se conhece, se aproxima, se apaixona e vê o relacionamento se desgastar com o tempo. Quatro anos depois, o namoro já está fadado ao fim, até que o tal crime acontece e o casal, um pouco por burrice, um pouco por ego e um pouco por pura necessidade narrativa, se vê “obrigado” a mergulhar de cabeça na história. 

Nesse sentido, a maior qualidade de “Um Crime Para Dois” é o filme não ter vergonha de assumir seus absurdos, reconhecendo e abraçando as patacoadas de seus personagens. Todas as ideias propostas por Jibran e Leilani constroem personagens infantis e irresponsáveis, mas Showalter não utiliza isso para desdenhar da dupla, e sim para construir mais situações de humor. A própria trama de investigação criminal é algo menor, servindo de escada para novas piadas como quase tudo na narrativa.

A maior qualidade de “Um Crime Para Dois” é não ter vergonha de assumir seus absurdos

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A próxima piada é sempre o foco do filme, e Showalter faz questão de mostrar como, até mesmo dentro do universo do filme, os personagens muitas vezes soam como outsiders naquele mundo. Muitos dos momentos engraçados de “Um Crime Para Dois” são filmados de forma que o personagem responsável pela piada divide o tempo de tela com seu interlocutor, que quase sempre reage com uma feição de estranhamento, de incômodo com a situação. Com isso, a narrativa mostra como, mesmo desajustados, aquele casal é perfeito um para o outro, justamente pelo fato de que são os únicos na trama que vêem o mundo com o mesmo olhar infantil.

Outro aspecto interessante é como o longa brinca com os gêneros cinematográficos. Há diversos segmentos do filme que ensaiam mergulhar a narrativa em um tom mais sombrio, digno de produções de terror sobre investigações policiais ou verdadeiros slashers, mas Jibran e Leilani sempre “sequestram” esses esforços em direção à comédia. Nem mesmo as cenas que mais se aproximem de uma violência mais visualmente forte recebem o peso de um filme mais sério, justamente pelo fato de Jibran e Leilani não permitirem que nenhuma daquelas situações receberem este devido tratamento.

Há diversos segmentos que ensaiam mergulhar o filme em um tom sombrio, mas a narrativa sempre é levada em direção à comédia

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Alguns recursos, porém, acabam sendo esgotados pelo uso excessivo, e Showalter e os montadores Vince Filippone e Robert Nassau parecem não encontrar o momento certo de encerrar uma cena sem que a piada se torne repetitiva e desgaste. São justamente as piadas mais curtas e simples que funcionam, enquanto as mais elaboradas muitas vezes podem soar como uma tentativa de extrair quaisquer ideias cômicas possíveis das situações sem que haja algum filtro sobre elas.

Outro problema de “Um Crime Para Dois” é a dificuldade de trabalhar os problemas do casal durante o humor, obrigando o filme a sempre interromper seu ritmo para que haja um momento de introspecção e reflexão, de forma a mostrar algum “amadurecimento” desses personagens, como se Showalter não acreditasse que o humor pode funcionar dramaticamente para algo além das simples piadas.

Tendo uma proposta temática e estética bastante simples, “Um Crime Para Dois” é uma obra eficiente dentro de seus esforços. O filme nunca se rende ao drama e é fiel à natureza cômica de seus personagens, que parecem ser incapazes de observar o mundo com um olhar que não seja o cômico. O longa rejeita qualquer sobriedade ou seriedade por parte de Jibran e Leilani, e é nesse encontro de duas figuras essencialmente bobas que a comédia da Netflix consegue funcionar. Não há porque forçar o drama ou o terror quando fica nítido que tudo na narrativa existe em função da comédia, e é por entender isso que Showalter consegue entregar um filme descontraído que, de quebra, ainda mostra de cinco em cinco minutos o porquê daqueles personagens de fato parecerem ter nascido um para o outro.

nota do crítico

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