Cultura

O horror de “A Vastidão da Noite” está no medo e exploração do desconhecido

Estreia de Andrew Patterson na direção mistura terror e ficção-científica com qualidade

por Matheus Fiore

Uma das discussões que mais pautam o debate da crítica e da cinefilia atualmente é a importância do roteiro em uma obra. Para alguns, o roteiro é até mais importante que a direção de um filme. Proponho, então, um exercício simples: imagine um mesmo roteiro nas mãos de Christopher Nolan, Michael Bay, Sofia Coppola, Jordan Peele e Paul Thomas Anderson, cinco cineastas com suas respectivas assinaturas estéticas, suas próprias características artísticas e que fariam, mesmo que a partir de um mesmo texto, cinco obras diametralmente opostas.

Por que isso acontece? É simples: em um filme, o importante nunca é o que é contado, mas como é contado. O cinema é uma forma de arte exclusivamente audiovisual, e só impacta seu espectador pela forma como as imagens e o som articulam qualquer ideia na tela.

É interessante mencionar essa discussão para falar sobre “A Vastidão da Noite”, filme de estreia de Andrew Patterson que chegou recentemente ao Amazon Prime Video, porque o longa, a priori, pode muito bem parecer para a maior parte do público como um filme “de roteiro”. Não é. O filme se passa durante a Guerra Fria, no sul dos Estados Unidos durante a corrida espacial entre os americanos e os soviéticos, e gira em torno de dois adolescentes apaixonados por rádio que notam uma frequências estranha em determinada noite.

“A Vastidão da Noite” é um filme de expectativas. O espectador, assim como a dupla vivida por Jake Horowitz e Sierra McCormick, faz novas descobertas a cada interação com alguém que possa ter alguma informação sobre o estranho clima que paira sobre a cidade. Há um tom soturno em cada plano escolhido por Patterson. A própria abertura do filme, que começa com uma televisão antiga apresentando o filme como se fosse um episódio de “Além da Imaginação”, já deixa claro que, o que quer que encontremos dali para frente, certamente não se trata de uma história normal.

Quando o filme dentro do filme se inicia, porém, o diretor nos joga no que inicialmente parece ser uma história de colegial americano dos anos 50. Jovens discutindo sobre suas atividades escolares e nada de muito importante acontece. Esse começo pode parecer descartável, mas é importante para estabelecer a dinâmica entre os personagens e a normalidade de um lugar que está prestes a ser perturbado por uma ameaça externa.

Voltando à relação entre texto e imagem (e roteiro e direção), em “A Vastidão da Noite”, todas as novas informações que, pouco a pouco, constroem a paranoia dos protagonistas, são trazidas com base no texto. São os diálogos e relatos de terceiros obtidos por rádio ou entrevista que trazem algo sombrio para os personagens. Há de se pontuar, porém, uma diferença: os relatos impactam exclusivamente nos personagens, pois essa sensação de vulnerabilidade e exposição que Everett e Fay sentem ao passarem a acreditar em uma possível invasão comunista ou alienígena, só se transforma em apreensão do público graças à forma como Patterson articula isso visualmente.

A vulnerabilidade de Everett e Fay se transforma em apreensão do público graças à articulação visual de Patterson

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Novamente: não é o que é dito, mas como é dito. “A Vastidão da Noite” cria o clima de terror com a construção de uma identidade cinematográfica que gera constante apreensão. Os personagens sempre estão em ambientes escuros, com apenas seus corpos e um ou outro objeto iluminados. A profundidade de campo é pequena, fazendo com que objetos muito próximos ou muito distantes da câmera fiquem desfocados. Além disso, uma boa parcela do filme é feita com base no travelling – a lenta aproximação da câmera em direção ao centro do plano. Com isso, Patterson consegue nos colocar no mesmo ambiente psicológico que Fay e Everett, e então, o terror está formado.

Outra característica importantíssima para o funcionamento de uma narrativa baseada na dialética entre o texto e o impacto visual do texto é a manutenção do mistério. Afinal, o que buscam Fay e Everett? O que os personagens encontram no fim dessa jornada? O fato de o filme apenas nos dar relatos e manter tudo em segredo ajuda no esculpimento desse terror baseado no imaginário, no intangível. A dupla principal não consegue sequer imaginar o que vai encontrar ao fim da viagem. É interessantíssimo observar, por exemplo, como cada relato impacta de uma forma nos personagens, fazendo com que um fique mais curioso e o outro tenha certo medo de chegar ao fundo de tudo.

Cada relato impacta de uma forma nos personagens, fazendo com que um fique curioso e o outro receoso

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Que bom que Patterson consegue transformar isso em cinema, de forma que seus diálogos sejam o que conduz o filme a novos momentos de pura tensão, mas nunca sejam o mais importante. O que “Vastidão” tem de melhor é mostrar como o que é dito impacta no mundo. voltamos, então, à primeira questão do texto: o funcionamento do filme se deve não ao seu roteiro, mas à capacidade do autor da obra de articular todas as ideias desse roteiro em audiovisual, e assim, nos permitir sentir o mesmo que sentem seus protagonistas.

Mantendo sua narrativa sempre calcada na força da sugestão e da imaginação e se recusando a explorar o místico de forma mais explícita, Andrew Patterson é bem-sucedido em seu primeiro filme por ser fiel a essas ideias. O que importa, aqui, não é a revelação, não é o que está por trás dos mistérios, não é uma teoria conspiratória comunista ou uma possível invasão alienígena, mas sim como tudo isso impacta na mente de seus personagens. “A Vastidão da Noite” é muito mais sob o medo do desconhecido – principalmente em uma sociedade que vivia sob medo constante de uma nova guerra –, do que sobre o desconhecido em si. 

nota do crítico