“O Diabo de Cada Dia” estuda o mal presente na essência humana

Antonio Campos desconstrói relação neurótica do povo estadunidense com inimigos externos para mostrar que nem sempre o mal tem origem e fim

por Matheus Fiore

O título de “O Diabo de Cada Dia” (ou no original, “The Devil All the Time”) já dá conta da ideia que o diretor Antonio Campos quer construir ao longo do filme. Nos levando ao passado dos Estados Unidos, durante o período entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, Campos quer estudar como o mal não existia somente além das fronteiras e não era – como muitas vezes a propaganda americana faz parecer – algo exclusivo de inimigos políticos e ideológicos. O drama protagonizado por Tom Holland mostra como mesmo em uma típica cidade americana o mal se faz presente, visto que ele é parte da essência humana per se.

No filme, Holland interpreta Arvin, filho de um veterano da Segunda Guerra que se encontra com a maldade humana em suas mais diversas formas ao longo da vida. Desde os líderes religiosos inescrupulosos até os serial killers que, bem, não possuem exatamente um motivo para serem o que são. Para executar essa ideia, Campos constrói uma narrativa que amarra diferentes histórias, sem muitas conexões essenciais, mostrando como parece ser impossível fugir do lado sombrio da humanidade ou fingir que ele existe apenas no que é externo à nossa zona de conforto.

O diretor Antonio Campos no set

É interessante observar como esse mal se materializa em figuras tão típicas da sociedade. O já mencionado líder religioso, por exemplo, é um deles: o pastor vivido por Robert Pattinson, que se aproveita de seu poder e influência para abusar sexualmente de jovens fiéis, talvez seja o melhor exemplo disso, seguido pelo xerife interpretado por Sebastian Stan que, mesmo a priori parecendo um sujeito normal, aos poucos revela seu lado obscuro. Esse panorama geral é muito bem aproveitado pelo fato de Campos utilizar o protagonista como fio condutor, mas manter o foco em todo o universo daquela pequena cidade. Constrói-se um mundo no qual diversas histórias se desenvolvem paralelamente, e em comum tenham apenas o encontro constante com algo maligno.

Um aspecto bem imposto na narrativa é a sensação de perigo iminente rondando o espaço. Não só quando alguma figura mal intencionada está em cena que o espectador se encontra apreensivo, mas basicamente, todo o tempo. Isso ocorre principalmente pelo bom uso da trilha e de uma fotografia sombrios, que envolvem o lugar inteiro em uma aura de corrupção (não no sentido político ou econômico, mas moral). Todos os personagens, portanto, são figuras nascidas e criadas em um mundo essencialmente dúbio, complexo e constantemente perigoso.

É interessante observar como esse mal se materializa em figuras tão típicas da sociedade

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De certa forma, esse retrato do mal como algo essencialmente humano remete um pouco a filmes como “Terror Cego”, de Richard Fleischer – na obra de 1971, Mia Farrow interpreta uma jovem cega da burguesia que é perseguida por um assassino sem rosto, sem nome e sem motivo. Mas se o longa de Fleischer procura sempre inserir nuances políticas retratando questões de classe social apenas para puxar o tapete do espectador, mostrando um mal que existe por existir, no caso de “O Diabo de Cada Dia”, Campos se interessa mais pela citada relação de medo do desconhecido, do forasteiro, ao passo que também cria uma subversão dramática ao mostrar que o mal pode vir de qualquer lugar, mesmo de onde nos sentimos seguros e acolhidos – afinal, em teoria não há muitos lugares mais seguros do que uma igreja.

Essa busca pela exposição da hipocrisia da sociedade, que vilaniza o externo e glorifica o interno, se aproxima de outro filme recente lançado pela Netflix, o ótimo “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi” de Dee Rees. A diretora americana, porém, focava ainda mais na crueldade como ferramenta de retrato da hipocrisia, enquanto Campos transforma todo seu filme em uma história um pouco mais irônica e de críticas sutis, já que seu interesse é pela forma como a história se amarra e não pela construção de tensão por acontecimentos isolados.

Campos transforma todo seu filme em uma história irônica e de críticas sutis

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Chega a ser irônico que a figura mais pura e inocente de “O Diabo de Cada Dia” seja justamente uma mulher que morre por algo além do poder humano, um câncer. É como se Campos fizesse questão de pontuar que, por mais religiosos que seus personagens sejam, o destino que os aguarda não faz qualquer julgamento de valor e não haverá amparo divino nem mesmo para os que mais creem em uma força maior.

Para que toda essa proposta funcione, é essencial a sintonia entre as atuações. Enquanto Holland e Bill Skarsgard (que vive o pai do protagonista) sempre parecem incomodados, aflitos com as situações bizarras e violentas que perpassam suas vidas, as figuras vilanescas como o pastor de Pattinson e o serial killer de Jason Clarke são sempre mais bobos, quase “inocentes” já que nem parecem ter consciência das atrocidades que cometem – o que de forma alguma os inocenta ou atenua seus feitos, obviamente.

Assim, explorando a complexidade humana, a hipocrisia da sociedade e a natureza inexplicável do mal, Antonio Campos faz um drama que flerta com o terror em muitos momentos e é capaz de sempre nos deixar apreensivos pela próxima tragédia. “O Diabo de Cada Dia” quer nos mostrar como não há lugar seguro, que os demônios que temos em nossas próprias mentes podem ser tão terríveis e inexplicáveis quanto aqueles que encontramos nas grandes guerras. 

nota do crítico

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