“Enola Holmes” injeta temas feministas em narrativa para a família

Produção reenquadra elementos e personagens icônicos das histórias de Sherlock Holmes para tratar de questões da sociedade patriarcal

por Pedro Strazza

Muito se reclama da tendência atual de Hollywood por revisitar insistentemente as mesmas histórias para manter a indústria funcionando, mas por mais que exista uma razão neste criticismo há de se acrescentar que ora ou outra este sistema de dependência fabril dos estúdios e produtoras rende alguns revisionismos, mesmo quando preso às cacofonias do momento. Bom caso desse efeito é este “Enola Holmes”, cuja premissa parte de uma obra já há muito consolidada no imaginário popular – as aventuras de Sherlock Holmes, no caso – para redirecioná-los a uma vertente inusitada: e se além de um irmão, o famoso detetive inglês também tivesse uma irmã?

É verdade que o material base aqui não seja os livros de Arthur Conan Doyle e sim a série de publicações dos anos 2000 assinadas por Nancy Springer, mas para além das questões da trama fica evidente do princípio que a produção comandada por Harry Bradbeer assume para si a relação com a iconografia do parente famoso de sua protagonista. O mais curioso é como esta relação se dá, porém: mesmo voltado ao público jovem e se ensaiando como “filme família”, o longa rejeita a conotação simples para lidar de maneira direta com todo o leque simbólico em torno do investigador. Ao contrário de outras produções infanto-juvenis inspiradas pelos livros, como “O Ratinho Detetive” e “O Enigma da Pirâmide”, “Enola Holmes” é menos uma homenagem ao universo de Sherlock Holmes que uma oportunidade de confrontação.

Sinais desta escolha aparecem desde o início do filme e os mais evidentes vem do roteiro de Jack Thorne, que com agilidade revela trabalhar de maneira diferente com os personagens de sempre. O exemplo mais evidente é o irmão mais velho da família, Mycroft Holmes (Sam Claflin), que se em outras adaptações é sempre retratado como figura autoritária desta vez é elaborado como antagonista patriarcal despudorado a partir do momento que a mãe (Helena Boham Carter) desaparece misteriosamente. É uma projeção surgida com naturalidade se considerar que a perspectiva da narrativa parte de Enola (Millie Bobby Brown), a filha mais nova e a qual recebe uma educação diferente dos mais velhos e livre das estruturas da sociedade inglesa do início do século XX – o qual sem dúvidas impõe às mulheres uma série de restrições para “preservar” sua elegância e “focar” na procriação e cuidado das crianças.

Neste ponto, não chega a ser uma surpresa que Bradbeer trabalhe a desconstrução destes valores sobretudo com as quebras de quarta parede da protagonista. Escalado para o trabalho na esteira do sucesso arrasador de “Fleabag” – o qual comandou a esmagadora maioria dos episódios ao lado da criadora e roteirista Phoebe Waller-Bridge – o diretor britânico busca refazer o caminho de “confessionário” do seriado não somente para disfarçar os (muito frequentes) momentos expositivos do longa com o recurso, mas também para reforçar a narrativa de solidão de Enola dentro de sua jornada de amadurecimento. Para além do humor, a protagonista conversa com o público porque não há outro interlocutor na trama a partir do momento que sua mãe desaparece, e este talvez  seja o ponto maior do filme: saídas da juventude, as mulheres são deixadas à própria sorte dentro de uma sociedade que a todo instante busca forçá-las a cumprir papéis pré-determinados.

Enola conversa com o público porque não há outro interlocutor na trama a partir do momento que sua mãe desaparece

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Discutir a partir desta constatação se a abordagem de “Enola Holmes” é condizente ou não com os debates vigentes do movimento feminista é algo que não cabe a esta crítica (nada poderia ser mais absurdo que um homem tratando do tema, afinal), mas enquanto filme infantil é interessante observar como a produção a todo momento parece habitar uma posição de negociação entre esta aspiração e sua identidade de gênero. Bradbeer e o roteiro de Thorne sofrem um pouco para fazer coexistir a história da protagonista com uma pretensa narrativa de laços familiares em crise, e o Sherlock de Henry Cavill é quem mais precisa ir e vir nestas duas esferas para manter o todo coeso. Versão mais jovem e iniciante (Watson nem existe aqui), o detetive na trama carrega a imagem do irmão famoso que deixou de lado a família e por isso precisa fazer as pazes com Enola, mas ao mesmo tempo este papel serve de escada para algumas verbalizações de injustiças sociais – uma conotação reforçada pela culpa passiva que ele carrega ao assistir de maneira silenciosa estas relações, como fica claro na cena com a judoca interpretada por Susan Wokoma.

Este uso do personagem em si já é bastante evidente e bastaria enquanto abordagem temática, mas a questão é que o longa aos poucos se utiliza cada vez mais dos simbolismos fáceis para fazer valer a mensagem até o ponto onde tudo começa a ficar um tanto redundante de se assistir. Para cada piada esperta como do comparativo entre os cartazes de recompensa, há um reforço de narrativa que soa desnecessário ou até mesmo uma volta extra na trama que no fim não rende além do já apresentado – um traço capaz de lembrar ao espectador que este é o primeiro longa-metragem de Bradbeer para os cinemas. A passagem da história pelo internato, neste ponto, é o ato mais revelador destas fragilidades – porque não basta apresentar a professora de etiqueta vivida por Fiona Shaw para lembrar o punitivismo da estrutura social, ainda se faz necessário colocar Enola num uniforme similar ao de uma freira para expor a hipocrisia.

O filme parece habitar uma posição de negociação entre a aspiração feminista e sua identidade de gênero

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Há quem neste momento ponha estas vulnerabilidades estruturais como parte da aventura inocente que o filme ensaia ser, mas o próprio ato dos realizadores de abarcar estas questões de forma consciente impede a produção de retornar à posição original. É neste ponto que “Enola Holmes” escancara sua condição enquanto produto, com seus frutos sendo muito mais resultado de uma série de casualidade de “apostas” baseadas em mercado ao invés de uma proposta lógica que esteja de acordo com os valores buscados, da quebra da quarta parede inspirada em “Fleabag” ao próprio clima de narrativa “esperta” que caracteriza as adaptações de Sherlock Holmes desde os filmes estrelados por Robert Downey Jr. no fim dos anos 2000.

Ainda assim, há de novo de se observar a consequência indireta em jogo neste momento. Como “Aves de Rapina”, o filme de Bradbeer pode não escapar de sua origem na linha de produção, mas seu esforço em tentar reconhecer os tempos contemporâneos e trabalhar isso dentro das histórias conhecidas pode encontrar sua redenção em alguns – em especial os mais novos.

nota do crítico

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