Imagem: COBRA KAI (L to R) RALPH MACCHIO as DANIEL LARUSSO and WILLIAM ZABKA as JOHNNY LAWRENCE of COBRA KAI Cr. CURTIS BONDS BAKER/NETFLIX © 2020

3° ano de “Cobra Kai” consolida amadurecimento de personagens sem esquecer da pancadaria

Busca por equilíbrio obriga Johnny Lawrence e Daniel LaRusso a amadurecerem nos novos episódios para se tornarem verdadeiros senseis

por Pedro Strazza

Os primeiros episódios da primeira temporada de “Cobra Kai” prometiam dar um novo olhar para “Karatê Kid”, popular filme dos anos 80 que trazia Daniel LaRusso (Ralph Macchio), um adolescente comum de Los Angeles, utilizando o caratê para superar o bullying. Por anos, os fãs dos filmes questionavam o fato do protagonista ter vencido o torneio regional de artes marciais utilizando um golpe ilegal, e o revisionismo chegou a questionar até mesmo o heroísmo do personagem, que muitas vezes começava as brigas ao invés de reagir à violência que sofria.

A produção surgiu exatamente desse debate de um filme querido por quem viveu os anos 80, mas o que se vê quando se assiste à série, porém, é bem diferente de uma mera inversão de papéis. Mesmo que o protagonismo aqui seja de Johnny Lawrence (William Zabka), “Cobra Kai” não aposta simplesmente em retratar o ex-bully como príncipe injustiçado e LaRusso como o vilão hipócrita. Na verdade, a série (ainda bem) se mostra bem menos maniqueísta que isso, e busca não tornar o mundo da obra cinzento, mas… equilibrado. É na busca pelo equilíbrio, pela filosofia do yin-yang de luz e sombra, que “Cobra Kai” constrói sua trajetória, e isso se consolida de vez no terceiro ano da série.

Pela primeira vez nas mãos da Netflix – a obra foi originalmente produzida e distribuída pelo YouTube antes de ser comprada pelo principal serviço de streaming do mundo –, “Cobra Kai” em sua terceira temporada mostra seu lado mais maduro. Se o primeiro ano via de maneira mais otimista o retorno de Johnny ao caratê ao reabrir a academia Cobra Kai, o segundo já mostrou os efeitos desse retorno, intensificando principalmente o lado sombrio representado pelo vilão John Kreese (Martin Kove). Não à toa, a 2ª temporada encerrou com literalmente uma grande rinha escolar, com dezenas de caratecas se espancando pelos corredores do colégio, mostrando como o desequilíbrio causado pelos atritos entre os senseis prejudica o emocional daquelas crianças.

Se o terceiro ano traz como drama central o resultado de todos os acontecimentos anteriores – um dos protagonistas, Miguel (Xolo Maridueña), está em coma após a luta na escola – é normal também uma mudança de tom. Nos primeiros episódios, a ação e a comédia abrem um pouco de espaço para o drama das consequências. O que não falta são problemas: personagens em fuga, com problemas financeiros, com problemas de saúde, e o caratê praticamente banido da cidade em virtude dos eventos anteriores. É uma guinada dramática corajosa, mesmo que discreta, que permite que a série torne-se mais reflexiva, respire e amadureça.

Isso reflete diretamente nos principais astros da série, Johnny e Daniel, que afastam-se do caratê – pelo menos de início. A sagacidade de “Cobra Kai” está em saber alinhar essas necessidades dramáticas com as demandas nostálgicas da série. Afinal, por melhor que seja a série, boa parte do público está lá apenas para sentir um gostinho do passado ao rever rostos queridos da série de filmes. A ida de Daniel LaRusso ao Japão, portanto, é um exemplo perfeito de como os roteiristas da série sabem dosar as necessidades narrativas e mercadológicas da obra. É claro que, ao chegar em Okinawa, Daniel reencontra figuras importantes do seu passado e que marcaram os filmes, mas isso também é importante dramaticamente ao mover a série, tornar seus personagens mais complexos e a obra, como um todo, mais madura.

É compreensível que os novos episódios de “Cobra Kai” foquem um pouco menos nos jovens e mais nos adultos, então, já que com o universo da série extremamente bagunçado em virtude das brigas anteriores, o momento é propício para os adultos amadurecerem e se prepararem para orientar seus discípulos. Mais do que uma série nostálgica e de equilíbrio, “Cobra Kai” se torna uma série sobre responsabilidade, sobre paternidade – em suas diversas formas – e sobre legado e princípios.

Nos primeiros episódios, a ação e a comédia abrem um pouco de espaço para o drama das consequências

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Isso também impacta na forma como a série lida com John Kreese, desde o segundo ano o principal vilão. Antes o mal encarnado, Kreese aqui ganha novas nuances. No tempo natural da série, claro, ele continua sendo o grande antagonista, mas “Cobra Kai” traz flashbacks do passado do personagem enquanto ele estava na guerra do Vietnã. A ideia não é justificar seus erros, porém, mas mostrar como até sua vilania possui uma origem complexa, no caso, e a influência negativa de outros militares em sua vida. É também nessa parte da temporada, entretanto, que “Cobra Kai” acaba por ter seu ponto fraco, já que a reconstrução do passado do vilão acaba por ser algo protocolar, genérico, que existe exclusivamente para enriquecer essa ideia de que “Cobra Kai” não trata personagens apenas como vilões e mocinhos.

Quando a série finalmente volta a explorar os adolescentes, por outro lado, ela ganha um fôlego imenso. A introdução de novos vilões entre a molecada é interessante, e permite que seja formado pela primeira vez um “time” de malvados. Aqui entra uma característica essencial para o funcionamento da narrativa e “Cobra Kai”: a total ausência de vergonha em soar ridículo. O seriado não faz cerimônia nenhuma ao filmar o time de jovens caratecas vestidos com roupas excêntricas e coloridas que os fazem parecer Power Rangers do mal. “Cobra Kai” mantém sempre algo mais concreto como sua base – na terceira temporada, o drama sobre paternidade e equilíbrio – mas nunca tem medo de “sujar as mãos” e abraçar outros caminhos narrativos.

Há por exemplo uma luta na casa de um personagem que talvez seja o grande momento de ação da 3ª temporada, e que, assim como a luta da escola do 2º ano, é filmada e coreografada como uma verdadeira dança, muito mais preocupada no impacto visual direto do que na lógica ou no realismo das imagens. É gratificante ver como a série, vez ou outra, toma a liberdade de jogar o realismo para o alto e abraçar o exagero e, mais do que isso, é muito positivo que a série consiga fazer isso e ainda desenvolver drasticamente seus personagens mais jovens especificamente nos momentos de absurdo e fantasia.

É gratificante ver como a série, vez ou outra, toma a liberdade de jogar o realismo para o alto e abraçar o exagero

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Muitos poderão reclamar que a conclusão do terceiro ano de “Cobra Kai” tenha um tom de gancho não muito agradável, mas ao meu ver a série termina seu terceiro ano justamente amarrando seus acontecimentos com sua ideia de equilíbrio. É no amadurecimento que pode vir a levar personagens como Johnny e Daniel deixarem de lado suas diferenças para perceber que, no fundo, não são tão diferentes assim, que “Cobra Kai” fará com que o espectador perceba a lenta mas palpável evolução de cada um daqueles seres humanos.

Assim como seus personagens – e porque não, seu público – “Cobra Kai” começou com um olhar enviesado, infantilizado e meio bobo, mas aos poucos amadurece e mostra que até uma farofa de pancadaria pode ter sua sabedoria.

A terceira temporada de “Cobra Kai” estreia na Netflix no dia 1° de janeiro.

nota do crítico

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