Apesar de certa romantização, “Dom” mostra o valor de ouvir todos os lados de uma história

Com destaque para atuação de Gabriel Leone, primeira série brasileira original da Amazon Studios retrata o drama pessoal do chamado "bandido gato" do RJ

por Soraia Alves

AVISO: Este texto contém alguns SPOILERS da série.

No começo dos anos 2000, a alta sociedade do Rio de Janeiro viveu amedrontada por uma onda de assaltos violentos realizados em prédios de luxo de bairros como Barra da Tijuca, Recreio e Zona Sul da cidade. A quadrilha comandada por Pedro Machado Lomba Neto, apelidado de Pedro Dom, ficou conhecida tanto pela violência e tortura psicológica empregadas nas vítimas, quanto pelo modus operandi que se valia da estética do líder do bonde para ter fácil acesso aos prédios. Branco, com olhos azuis e de classe média, Pedro não parecia suspeito para uma sociedade que perpetua diariamente o racismo estrutural de “preto e pobre é bandido”. Sua saga de crimes terminou em 2005 e o que restou a Pedro é ter sido eternizado em matérias jornalísticas como “o bandido gato do Rio de Janeiro”.

Mas toda história tem mais de um lado, e todos os lados merecem sempre ser ouvidos. E é partindo dessa ideia que “Dom”, primeira série brasileira original da Amazon Studios, mostra a trajetória do famoso “bandido playboy” ao longo de 8 episódios que retratam o drama pessoal e familiar de Pedro. A trama humaniza Dom, que teve o primeiro contato com a cocaína ainda criança, e com essa abordagem entendemos que ele, assim como tantas outras pessoas, é parte de um problema estrutural muito maior.

Breno Silveira (“2 Filhos de Francisco”) criou a série inspirado por relatos de Luiz Victor Dantas Lomba, pai de Pedro, que procurou a produtora do cineasta para contar o outro lado da história (que também virou um livro assinado por Tony Belotto). Com isso, “Dom”, que é produzida pela Conspiração, foca na trajetória de dependência química do protagonista, em suas relações familiares e nos problemas sociais estruturais que levam à destruição pessoal e em cadeia. A história ganha ainda mais intensidade com a excelente interpretação de Gabriel Leone, que transita por cenas de “fissura”, arrependimento, paixão e explosão de forma impressionante. Gabriel é tão profundo e crível que, por vezes, chegamos a questionar o desempenho de Flavio Tolezani como seu pai, especialmente nas cenas mais dramáticas entre os dois. Mas não há exatamente um problema com Tolezani, como vemos em cenas de muita entrega como as do hospital no episódio 5. É Leone que simplesmente está fabuloso.

No entanto, há um certo problema quando a humanização proposta ao protagonista soa como romantização da realidade. Na série, quase todos os assaltos são realizados enquanto os moradores estão viajando, o que diminui muito a ideia de “vítimas de Dom” para o espectador. Quando ele tem qualquer ação de descontrole durante os roubos, quase sempre isso é mostrado como uma consequência de erros de outras pessoas do bonde. Cabe à personagem de Isabella Santoni, inclusive, agir da forma ameaçadora e zombadora pela qual o grupo ficou conhecido. Aos poucos, compramos a ideia de Dom agir mais como um articulador, um estrategista da quadrilha, e menos como alguém que aterrorizava pessoas com uma granada em mãos, como constam diversos relatos das vítimas na época.

Há ainda uma cena do passado do protagonista que, após ser atropelado quando criança, teria sido diagnosticado com uma rara condição do sistema nervoso que o impediria de sentir dor, e que beira uma tentativa de explicar os posteriores vícios e problemas desenvolvidos por ele. Não há uma glamourização do crime na série, mas sim um eufemismo sobre Pedro Dom que acaba diminuindo os conflitos antagônicos que personagens do tipo causam no espectador.

A história ganha mais intensidade com a excelente interpretação de Gabriel Leone, que transita por cenas de “fissura”, arrependimento, paixão e explosão de forma impressionante

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Outro ponto a ser considerado é a linha temporal mesclada da série, que mostra presente e passado tanto de Dom quanto de seu pai, um policial civil aposentado que colaborou com investigações sobre o início do tráfico de cocaína no Rio de Janeiro na década de 1970 e chegou a integrar o chamado Esquadrão da Morte. A história paralela de Victor Dantas jovem (neste ponto vivido por Filipe Bragança) funciona como contextualização de sua também relação com as drogas, bem diferente da de Dom, e a posterior vivência com um filho dependente químico. Mas a grande teia de guerra às drogas acaba dando a cada episódio uma sensação de freio de mão puxado. Ainda que a história desenvolva uma certa curiosidade por conta de Ribeiro (Fábio Lago), as empreitadas do jovem Dantas “morro acima” ocupam muito mais tempo do que deveriam, e são facilmente os momentos mais desinteressantes e dispensáveis da produção.

As idas e vindas no tempo, porém, funcionam melhor quando focadas em Dom. Nelas vemos as inúmeras internações pelas quais ele passou, a tentativa frustrada de que a FEBEM (atual Fundação Casa) poderia ajudá-lo, e o acolhimento familiar seguido do desgaste por um resultado não efetivo. Essas passagens também explicam a relação conturbada entre Dom e o pai, assim como a amizade de infância com Lico (Ramon Francisco), fechando o ciclo de questões pessoais importantes para a construção do protagonista. Há de se elogiar, também, a ambientação de três décadas do Rio de Janeiro em imagens nostálgicas e poéticas, principalmente percebidas nos diferenciais sutis dos morros cariocas.

Há um certo problema quando a humanização proposta ao protagonista soa como romantização da realidade

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Na reta final de “Dom”, quando finalmente a história do Dantas jovem já não tem mais espaço, a corrupção policial que mantém Pedro fora da cadeia perde o impacto que deveria ter por conta das atuações tão inferiores ao restante do elenco. Ainda assim, esse é mais um ponto essencial da trama para entendermos a importância de conhecer todos os lados de uma mesma história, ainda que seja para sair dela com mais questionamentos que respostas. O episódio final é mais um bom momento para contemplar a atuação de Gabriel Leone e a direção de Breno Silveira e Vicente Kubrusly, embora não deixe de, mais uma vez, vincular as decisões de Dom à influência de terceiros.

Victor Dantas faleceu em 2018, e não chegou a ver a história de seu filho sendo mostrada na tela por outro ângulo além daquele da imprensa da época.

“Dom” está disponível no Amazon Prime Video.

nota do crítico

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