Especial “First Cow”, parte 1: para roteirista, filme é sobre encontrar o verdadeiro berço da América

Ao B9, Jon Raymond revela como filme é uma "resposta em 180°" aos arquétipos do faroeste

por Pedro Strazza

Hoje um dos gêneros mais tradicionais do cinema norte-americano, o faroeste a cada ano que passa encontra novas vidas nos festivais e no circuito a partir do que, em essência, é um processo contínuo de ressignificação de histórias e arquétipos. Desvendar o mito por trás dos heróis clássicos de diretores como John Ford, Howard Hawks e Raoul Walsh e trazer ao público uma versão mais física da realidade da tal fundação da América soa maçante por natureza, mas ainda assim é um procedimento que continuamente renova a produção, empurrando-a numa expansão para o Oeste própria.

“First Cow” é um bom exemplo deste momento. Lançado há dois anos no Festival de Veneza, o filme de Kelly Reichardt desde a estreia atrai o público em torno de sua peculiar premissa envolvendo ladrões de leite na Oregon do início do século 19, “descoberta” na história – e logo pela audiência – nos dias de hoje após encontrarem acidentalmente um par de esqueletos. Uma história protagonizada por um cozinheiro, um imigrante chinês e, claro, uma vaca, três personagens que até então ocupavam o fundo de cena de todas as tramas do Velho Oeste – e que aqui não deixam de ser coadjuvantes ao processo maior de formação dos Estados Unidos.

Viver sob a sombra da História é uma definição que parece adequada o suficiente à carreira de Reichardt, que muito antes de “Nomadland” vencer o Oscar já explorava com afinco as vidas dos esquecidos pelo país. Mas entre “First Cow” e “O Atalho”, seu outro faroeste estrelado por Michelle Williams, persevera também uma noção de revirar a história contada, desfazendo assim a lenda que se tornou fato comum aos olhos contemporâneos.

Para Jonathan Raymond, essa proposta é crucial aos projetos que toca com a diretora. “Parte dessas duas histórias, e na verdade todos os filmes de alguma forma, são meio que construídos contra certas expectativas, contra certas ideias repassadas”, comenta o roteirista ao B9: “Recontar algumas dessas histórias de faroeste, como a história da migração para o Oeste pelos pioneiros ou, no caso de ‘First Cow’, a história do início da noção de nação, eu meio que estou sempre argumentando contra minha educação do primário, que era muito mais sobre celebrar a história e a cultura do colonialismo branco”.

“É uma espécie de discussão constante na minha cabeça, dado que eu tinha provavelmente 10 anos de idade na época. É sobre perceber que as coisas que eu estava aprendendo na escola não necessariamente refletiam a cultura que eu estava vivendo ou a terra que via pela janela.”

Apesar da posição firme sobre a perspectiva do filme, Raymond também reconhece o “processo difícil” por trás da concepção de “First Cow”, cuja base é o “The Half-Life” que publicou em 2004 e carrega importância semi-sobrenatural à sua trajetória no cinema. Foi depois que leu o livro que Reichardt entrou em contato com ele atrás de mais histórias daquele estilo, fundamentando uma parceria de roteiro que já dura 5 dos 7 filmes dirigidos pela cineasta. E nos 15 primeiros anos, Reichardt e Raymond mantiveram vivo o sonho de dar vida à obra que deu início a tudo.

Voltar ao mundo de “The Half-Life”, porém, ficou mesmo para quando o projeto enfim começou a decolar. “Eu honestamente não tinha relido o livro em um bom tempo”, rememora o escritor; “Foi um processo muito interessante de revisitar esses personagens e estes temas, torcendo-os em um formato diferente. Acabou sendo como se algo novo acontecesse, não foi apenas reempacotar a história e um monte de coisa teve que ser criada”.

As mudanças às quais Raymond se refere são mesmo drásticas. Enquanto o filme dirigido por Reichardt se concentra na luta por sobrevivência de Cookie (John Magaro) e King-Lu (Orion Lee) e seu plano de roubar leite de uma vaca importada por um poderoso senhorio local (Toby Jones), o livro de 2004 expande não apenas essa história para englobar a jornada de Cookie pela China, mas uma trama no presente que se aprofunda na descoberta das tais ossadas do início, com protagonistas e dramas estabelecidos. Não há uma vaca à vista na história, enquanto King-Lu só vai aparecer lá pela metade, depois que Cookie acaba se separando de um outro parceiro.

Tudo isso precisou ser reduzido ou descartado, até porque o orçamento de pouco mais de US$ 2 milhões não permitia uma escala tão ambiciosa. “As primeiras cenas, como quando eles se conhecem na floresta e se encontram depois em meio a uma briga de bar, são tiradas diretamente do livro. Depois disso, porém, o filme vira algo completamente diferente” diz Raymond, que não hesita em definir a produção como uma “adaptação radical” da história: “Do meu lado, eu me beneficiei muito de conhecer o livro tão intimamente, se eu fosse apenas contratado para adaptá-lo eu não sei se seria capaz de tomar as liberdades que acabei tomando”.

Mas mesmo todo esse malabarismo e o fato de trabalhar com uma obra maior da carreira não distorceram a forma como ele e Reichardt normalmente escrevem os roteiros, até porque, segundo o escritor, cada projeto segue uma lógica muito própria. “A essência geral é que a gente constrói uma estrutura inicial, como personagens e a trama, e depois eu escrevo um primeiro rascunho em cima disso.” afirma; “daí nós meio que continuamos o trabalho preenchendo o cenário mudando-o o quanto for necessário”.

Se aprofundar na pesquisa histórica da época também foi outro pilar importante da criação do roteiro – e um que o roteirista define como um dos grandes prazeres de se retornar a “The Half-Life”. “Eu já havia feito muita pesquisa durante a escrita do livro, mas havia uma magnitude diferente ao estudo que precisava ser feito ao filme”, comenta com alguma alegria no semblante, definindo como um aprofundamento que adoraria ter feito com a obra original: “Nós pudemos aprender muito mais sobre as culturas indígenas da região e ir fundo nas vestimentas e tecnologias tribais que existiam naquele momento”.

Com tanto estudo acontecendo, porém, alguns acasos felizes foram importantes – inclusive a inclusão de sua maior estrela. Assim como Reichardt, Raymond admite ser uma espécie de mistério como a vaca entrou em cena para se tornar o centro dos acontecimentos do filme, mas por suas lembranças a origem do animal provém exatamente deste esforço de recontextualizar o cenário do livro para o longa:

“No livro há essa sequência em que eles viajam à China com seu próprio produto, e eu acho que houve uma virada onde pensei ‘Bom, nós não temos os recursos para enviar estes personagens à China de 1820’, mas algo de alguma forma poderia vir a eles, era importante que tivéssemos uma commodity que chegasse a esse novo mundo que eles estavam. Aí eu não sei o porquê de uma vaca vir à mente, mas assim que pensei nisso, comecei a imaginar como a primeira vaca chegou ao Noroeste Pacífico e como esses caras poderiam aproveitá-la – e eu sabia que eles iriam porque escrevi sobre eles por tanto tempo.”

A descoberta do animal obviamente facilitou grande parte do trabalho de adaptação, com o escritor definindo sua criação como uma forma de incluir todos os temas e pontos emocionais do livro enquanto reduzindo sua escala para o escopo cabível ao orçamento. “É uma dessas coisas onde você vive com aquilo tempo o suficiente e acaba precisando de um pequeno catalisador para se alterar tudo”, tenta resolver o autor. 

Todo esse procedimento está a serviço de novo desta reinterpretação maior do gênero, uma que o próprio Raymond define como uma “resposta em 180° ao filme de camaradagem” do faroeste. “Há definitivamente uma tentativa consciente de pegar personagens que normalmente estão nas margens mais afastadas do western e ver o que acontece quando eles são na verdade o centro” diz; “O personagem do cozinheiro é alguém que já apareceu por uns 5 minutos em uns 500 faroestes, ele é um personagem que vive nas beiradas, e qualquer asiático nestes filmes apenas ocupa um lugar no fundo de cena. Tentar contar uma história da perspectiva deles imediatamente se torna algo muito diferente”.

Apesar desse trabalho imenso, a maneira como a diretora expande isso nas narrativas ainda desperta grande fascínio no escritor. “Há certos ritmos na maneira como ela edita e uma graça nas suas composições que abrem uma maneira diferente de assistir esses filmes. Os trabalhos dela deixam você ter um pensamento enquanto os vê, eles não os estão agarrando a todo momento” reflete Raymond, que ainda define a obra de Reichardt como um “respiro humano”

“Mesmo que eu esteja nas conversas, eu sou mais uma válvula de escape para ela a partir de certo ponto” brinca com alguma humildade.

“First Cow” está disponível para locação digital e estreia no catálogo da MUBI no dia 9 de julho.

Leia a crítica do filme

Leia a segunda parte do especial “First Cow”

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