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Sem reinventar a roda, “Kate” é filme de ação honesto, mas sem encanto

Novo original da Netflix vem na onda do sucesso de filmes como “John Wick”, “Atômica” e “Resgate”, mas se esquece do principal: a ação como protagonista

por Matheus Fiore

O cinema de ação teve dois grandes pontos de virada nas últimas duas décadas. O primeiro foi quando filmes como “A Identidade Bourne” criaram uma nova demanda do público no trato da ação, com as produções passando a precisar de mais “realidade”. Tanto as tramas começaram a ser mais políticas e abordando conspirações e corporações, quanto a ação passou a ser mais calcada na realidade. Saiu o kung fu e o caratê, que tanto fez sucesso outrora, e entrou um modelo de combate mais urbano, de sobrevivência, com influências filipinas do Silat, que não possui a mesma plasticidade. Foi um momento no qual o cinema de ação passou a se preocupar menos com a magia das sequências e mais com elementos como a tensão e a “verossimilhança”.

O segundo ponto demorou um pouco mais para vir. Com o cinema de ação totalmente contaminado por essa infrutífera – já que todo filme é, por essência, uma mentira – busca pela verdade, produções como “John Wick” trouxeram de volta o apreço pelas artes marciais clássicas, bem como o desapego da realidade. Deram uma nova abordagem para a estrutura do exército de um homem só e voltaram a valorizar as cores, os movimentos de câmera… enfim, a mise-en-scene do cinema, algo que ficou desvalorizado na incessante busca por “realismo” imposta por cineastas como Christopher Nolan.

“Kate”, novo filme da Netflix dirigido por Cedric Nicolas-Troyan – do esquecível e esquecido “O Caçador e a Rainha do Gelo” – vem na onda de blockbusters de ação que seguem (ou tentam seguir) a linha de “John Wick” com uma ação supostamente bem coreografada e filmada com nitidez – o mesmo que ocorreu com “Atômica” e “Resgate” acontece aqui. Mas se “Resgate” acertava por tratar a ação como prioridade, “Atômica”, ao meu ver, perdia um pouco por não conseguir decidir entre a ação e a trama política, parecendo perdido entre as duas coisas.

Infelizmente “Kate”, nesse caso, se assemelha mais ao último. O filme tem a mais simples proposta de todas as obras de ação mencionadas, com a assassina Kate (Mary Elizabeth Winsted) sendo envenenada e tendo apenas 24 horas para encerrar suas pendências com inimigos antes de partir. No caminho, esbarra com a filha de uma de suas vítimas, Ani (Miku Martineau), e passa a protegê-la conforme segue com seu plano.

Na primeira metade do filme, Nicolas-Troyan até tenta criar cenas de ação interessantes, mas conforme o filme avança a ação parece importar cada vez menos, ao passo que a filmagem também perde um pouco de sua qualidade. Quanto mais Ani se torna relevante para a trama, menos a ação é relevante – o que é uma pena, já que Martineau apresenta a melhor atuação do longa.

Quanto mais Ani se torna relevante para a trama, menos a ação é relevante

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O que o diretor parece não notar é que a trama não é lá essas coisas, e não há grande apelo em tentar tornar o drama de suas personagens o foco narrativo de “Kate”. Quanto menos o drama importa, mais o filme funciona. A obra tem seus melhores momentos justamente quando sua protagonista é puro instinto e age apenas para localizar, identificar e eliminar seus inimigos, como uma assassina pronta para degolar o próximo alvo. Já quando para para desenvolver Kate e companhia, Nicolas-Troyan não consegue simplesmente porque… não há o que desenvolver. Seus personagens são puro arquétipo, e não possuem a mínima individualidade que possa lhes dar um pouco de vida.

Não ajuda que a ação não seja tão atrativa visualmente. Voltando às comparações com a maior referência dos filmes de artes-marciais da última década, “John Wick”, o diretor Chad Stahelski, por ter trabalhado com dublês e coreógrafos, sabe como poucos cineastas contemporâneos filmar a ação, de forma que os combates por si são o suficiente para a cena funcionar. No caso de “Kate”, há uma clara necessidade de apelo para recursos como a câmera lenta e o gore para que a violência tenha algum impacto. É nítida a dificuldade do autor de articular a ação de forma que ela seja autossuficiente; ela precisa sempre estar à serviço do drama ou atrelada a tripas e mutilações.

A obra tem seus melhores momentos justamente quando sua protagonista é puro instinto

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Outro claro movimento de “Kate” para mascarar o quão medianas são suas sequências de ação é encher o filme de flashbacks que tentam alavancar o drama. O problema é que, de novo, os personagens jamais parecerem ter material o suficiente para justificar seu drama. A ação é anulada pelas questões pessoais dos personagens, que só ganham alguma robustez quando o passado é revisitado por flashbacks que se repetem e pouco acrescentam.

Assim, a Netflix traz mais um exemplar típico de seu catálogo de originais: um filme que não reinventa a roda, que se aproveita bem de uma certa tendência do cinema contemporâneo e torna o menu de opções mais diverso. Uma pena, entretanto, que Cedric Nicolas-Troyan não consiga tirar mais, pois há elenco, há potencial, há uma história suficientemente interessante. Mas falta imagem, falta coreografia, falta direção… enfim, falta um pouco de tudo que torna um filme de ação interessante. 

“Kate” estreia na Netflix nesta sexta-feira, 10 de setembro.

nota do crítico

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