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# 2017: o ano que não acabou – para o combate aos casos de assédio sexual
- URL: https://www.b9.com.br/2017-o-ano-que-nao-acabou-para-o-combate-aos-casos-de-assedio-sexual/
- Published: 2017-12-26T20:43:42.000Z
- Updated: 2017-12-26T20:43:42.000Z
- Description: O ano marcou denúncias de assédio, mas principalmente as consequências que elas trouxeram, e as empresas já entenderam isso
- Author: Soraia Alves
- Tags: Cultura, Negócios, comportamento, house of cards, Netflix, Quentin Tarantino, Uber, #wp, #wp-post

Das lembranças marcantes de 2017, com certeza temos o grande número de denúncias de abuso sexual contra figuras públicas, principalmente da indústria cinematográfica. Mas na verdade, o destaque vai para os desdobramentos que essas denúncias tiveram, pela primeira vez, nas carreiras dos abusadores e o como isso representa só o começo de um combate muito mais forte ao assédio sexual nas mais diferentes áreas, incluindo política, startups de tecnologia e o mercado de comunicação.

Cronologicamente, o primeiro grande caso de exposição sobre assédio sexual do ano veio com a engenheira **Susan Fowler**, ex-funcionária do **Uber** que relatou através de um texto em seu blog o assédio sofrido de seu gerente, que inclusive utilizou o software de bate-papo da empresa para tentar convencê-la a fazer sexo com ele. Tudo isso foi levado antes por Susan ao departamento de **Recursos Humanos** do Uber, que simplesmente ignorou a reclamação alegando que o gerente possuía “um alto desempenho” dentro da empresa.

Com a denúncia feita publicamente e acompanhada de prints das mensagens como prova, o então presidente-executivo do Uber, **Travis Kalanick**, soltou uma nota de repúdio e pediu uma grande investigação na empresa. **O resultado:** 215 reclamações de assédio moral e sexual, e mais de 20 funcionários demitidos.

Isso somado a alguns casos de passageiras que sofreram assédio e até estupro durante corridas pelo app levantaram o questionamento sobre a segurança não oferecida pelo aplicativo e até mesmo o quanto a própria cultura do Uber (e de muitas startups) sobre encontrar brechas para “funcionar como quiser e escapar das consequências” acabou contaminando todos os setores da empresa. Daí para os debates sobre uso de dados pessoais do usuário, remuneração injusta de motoristas e o movimento **#DeleteUber** foi questão de tempo.

Na indústria cinematográfica, a grande repercussão foi com os mais de 82 relatos contra o produtor **Hervey Weinstein**, que começaram a surgir em outubro e foram expostos pelo **The New York Times**. Com atrizes como **Gwyneth Paltrow** e **Angelina Jolie** endossando o coro de vítimas do produtor, restou a Weinstein amargar **como resultados** a demissão de seu próprio estúdio, a **Weinstein** **Company,** a expulsão da **Academia de Artes e Ciências Cinematográficas**, responsável pelo **Oscar** e da **British Academy Film Awards** (**Bafta**), além de ainda estar sob investigação das polícias dos Estados Unidos e do Reino Unido.

O **"Weinstein Effect”** trouxe uma enxurrada de denunciais sobre abusos sofridos por mulheres e homens em Hollywood nas últimas décadas: **James Toback**, diretor e roteirista foi acusado por mais de 38 mulheres, **Dustin Hoffmann**, acusado pela escritora **Anna Graham Huntes** de assédio quando ela tinha 17 anos, **Lars Von Trier** denunciado pela cantora **Björk**, **Ben Affleck**, que ao demonstrar-se enojado com o caso de Weinstein foi recordado pela atriz **Hilarie Burton** de seu comportamento nada apropriado durante a participação dos dois em um programa da **MTV**.

Por fim, **Kevin Spacey**, denunciado por **Anthony Rapp** (**"Star Trek: Discovery"**), que afirma ter sido assediado por Spacey quando tinha 14 anos, e que **resultou** no cancelamento da série **"House of Cards"** pela **Netflix**, na suspensão de sua homenagem no **Emmy** e na [troca feita pelo diretor **Ridley Scott**](https://www.b9.com.br/sai-o-primeiro-trailer-de-all-the-money-in-the-world-com-christopher-plummer-no-lugar-de-kevin-spacey/) de Spacey por **Christopher Plummer** no filme **"Todo Dinheiro do Mundo".**

### Assediadores não passarão e as empresas já entenderam isso

O que marca todos os casos relembrados acima é que, de fato, as denúncias resultaram em uma consequência para o abusador. Essas demissões e investigações surgem como um leve sentimento de "o cenário está começando a mudar", afinal, denúncias sobre assédio sexual em indústrias como a de Hollywood não são novidades - **Roman Polanski** e **Woody Allen** estão aí para nos mostrar que a carreira de um acusado de assédio nunca deixou de seguir bem produtiva e reconhecida.

E não, não é uma "caça às bruxas" como Allen afirmou temer ao se pronunciar sobre o caso de Weinstein. É justamente uma evolução que mexe desde a visão do que é um assediador - que vai muito além de um estranho na rua - até o estabelecimento de um verdadeiro ambiente de trabalho saudável.

Nisso, pesquisas como a **[“Hostilidade, silêncio e omissão: o retrato do assédio no mercado de comunicação de São Paulo”](https://www.b9.com.br/estudo-do-grupo-de-planejamento-apresenta-retrato-do-assedio-no-mercado-de-comunicacao-de-sao-paulo/)**, criada pelo **Grupo de Planejamento de São Paulo** em parceria com a **Qualibest**, são essenciais para mostrar a realidade do assédio entre profissionais em diferentes áreas de atuação. Aqui, por exemplo, vimos que entre os profissionais de comunicação de São Paulo, 99% já presenciaram situações de assédio moral e 97% de assédio sexual.

E é justamente esse [combate à toxidade de cada mercado](https://www.b9.com.br/83580/braincast-257-assedio-no-mercado-de-comunicacao/) que começamos a ver em 2017\. A **Microsoft**, por exemplo, eliminou uma política interna que requeria aos funcionários solucionar denúncias do ambiente de trabalho em particular. Ou seja, se antes casos de abuso e assédio deveriam ser resolvidas a portas fechadas na empresa, agora elas podem ser levadas à justiça.

Essa cláusula é tão comum nas empresas dos Estados Unidos que a estimativa é que, aproximadamente, 60 milhões de funcionários estão sob ela e não podem recorrer a um tribunal porque suas empresas os obrigam a resolver tudo internamente.

Denúncias contra o grupo **Vice Media**, por exemplo, alegam que a empresa fez[ 4 acordos internos](http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/12/1945734-depois-de-ford-e-microsoft-vice-e-acusada-de-conivencia-com-assedio.shtml?ref=b9.com.br), pagou indenização para as vítimas e tudo ficou por isso mesmo, mostrando como a cláusula funciona na prática. A Vice afirma ter demitido os envolvidos.

Sobre as atitudes de Weinstein, **Quentin Tarantino** afirmou que *"sabia o suficiente para fazer mais do que realmente fez"*. E é isso o que grande parte das gigantes mundiais estão entendendo: elas sabem o suficiente para fazer mais.

[A realidade do assédio moral e sexual no ambiente de trabalho é conhecida](https://www.b9.com.br/assediada/) pelos núcleos de RH, diretorias, gerências ou pelo colega de trabalho ao lado. Mas o saber e se manter em silêncio custará cada vez mais caro às empresas.

2017 é mesmo o ano que não acabou para o combate ao assédio sexual.