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Transcrição Mamilos 75 - Depressão

Transcrição Mamilos 75 – Depressão

Jornalismo de peito aberto

por Mamilos

Nosso programa mais escutado até o momento foi gentilmente transcrito pelos Melhores Ouvintes Jéssica Marques, Ju Matsuoka, Fernanda Cappellesso, Debora Martins, Aline Bergamo, Leticia Dáquer e Alan Bastos para ser acessível a não ouvintes e para que os mamileiros possam encontrar facilmente seus trechos preferidos. Obrigada e Go Mamilos \o/

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Locutores: Caio Corraini, Cris Bartis, Ju Wallauer, Ciça Maia, Fernando Duarte e Pedro Calabrez.

Vinheta de abertura: Esse podcast é apresentado por b9.com.br.

Cris: Mamileiros e Mamiletes, bem-vindo ao seu espaço aconchegante de conversa, encontro, desconstrução e construção. Você chegou no Mamilos e hoje vamos conversar sobre depressão. Eu sou a Cris Bartis.

Ju: E eu sou a Ju Wallauer.

Cris: Prepara o coração para fortes emoções.

Ju: Caio lindo, escolhe uma trilha com muita sensibilidade pra embalar a nossa conversa?

Caio: Olá, personas! Corraini aqui novamente para trazer a vocês os responsáveis por dar mais cor ao Mamilos dessa semana. Mas gente, antes de recitar aqui o meu textinho falando sobre as bandas que vocês podem me recomendar para sonorizar o podcast, eu preciso fazer um aviso. Nós tivemos alguns problemas técnicos no programa de hoje, então além da qualidade de alguns dos microfones estar aquém do que a gente geralmente oferece pra vocês, no final da teta três deles foram cortados. Então vai chegar um momento em que vocês vão ouvir a voz da Ju um tanto diferente, um tanto abafada. E isso fui eu pegando o som dela que vazou no microfone das outras pessoas, né, dos microfones que não deixaram de funcionar, pra salvar o conteúdo. Então, desde já, fica o nosso pedido de desculpas. Bora voltar ao normal então? Lembrando sempre que se você quiser colaborar com o conteúdo musical desse programa pode nos recomendar bandas ou artistas independentes no e-mail [email protected], [email protected] E facilita e muito a minha vida se vocês enviarem os links do site oficial do artista ou então onde nós podemos buscar o download direto das músicas dele para utilizar no episódio. Nessa edição nós vamos ouvir o EP do Casa de Velho, uma banda lá de Fortaleza.

[Sobre trilha]

[Desce trilha]

Cris: Beijo para…

Ju: Rossini e Carol, de Nova Iguaçu…

Cris: Pra Júlia Carvalho, de Nova York, que inclusive ofereceu hospedagem pra gente e inclusive nós vamos usar, eu acho que ela não imaginou. Júlia, segura aí que a gente vai, hein.

Ju: Vamo mesmo. Pra Lina e pra todos os Mamileiros que foram comemorar o aniversário do Yassuda, em especial pra Luca, que trabalha na mesma agência que eu, é mamileira e nunca tinha vindo falar comigo.

[Risos]

Ju: Gente, já falei pra parar com isso. A coisa mais legal do mundo é encontrar nesse mundão vasto alguém que compartilhe os mesmos papos com a gente. Se um dia você me encontrar, vem me abraçar e vem me contar qual é o seu programa preferido.

Cris: Por favor, se for me abraçar só avisa antes que é por isso, senão eu vou assustar.

Ju: [Risos]

Cris: Um beijo pra todo mundo que mandou e-mail sugerindo contatos pra teta sobre índios, a gente realmente tá de olho, vai guardar esses contatos, essas recomendações, pra quando a gente for aprofundar o tema.

Ju: E pra todos os melhores ouvintes que contribuíram para construir essa pauta dividindo experiências, links, dúvidas… vocês são muito foda e a gente morre de orgulho.

Cris: E ó, continuem, né? Nesse negócio aqui, a gente fala e depois a gente escuta. Então fale com o Mamilos. Você pode falar com a gente no Facebook (Link para página do Mamilos no Facebook: https://www.facebook.com/mamilospod), no Twitter (Link para perfil do Mamilos no Twitter: https://twitter.com/mamilospod), na página do Mamilos dentro do B9 (Link pra página do Mamilos no site do B9: https://www.b9.com.br/podcasts/mamilos/) ou no nosso e-mail. Qual é o nosso e-mail, Juliana?

Ju: [email protected]

Cris: [email protected]

Ju: E no Patreon, o Mamilos agradece os melhores ouvintes que apoiam nosso projeto com doações, especialmente, quem é você que tá aqui, hoje, acompanhando a gravação?

Gustavo: Oi gente, tudo bem? Bom dia, boa tarde e boa noite. Mamileiros e mamiletes, sempre quis falar isso.

[Risos]

Gustavo: Eu sou o Gustavo, Gustavo Fernandes e tô aqui hoje acompanhando a gravação com as meninas.

Ju: Então venha você também assistir uma gravação do Mamilos, seja nosso patrono, entre no grupo de discussão do Mamilos do Facebook. A gente agradece textualmente poucos nomes, mas vamos começar lá. O Gustavo Fernandes…

Cris: O Paulo Gomes.

Ju: O Fernando.

Cris: Rodrigo Cruz.

Ju: Danilo Yamakishi.

Cris: Sílvia Gurgel.

Ju: O Erick, de sempre.

Cris: Guilherme Honorato.

Ju: A Mariana Ruggeri.

Cris: Camila Matsukuma.

Ju: Fagner Coelho.

Cris: Tiago Resende.

Ju: Jaqueline Costa.

Cris: Ken Fujioka.

Ju: Almocei com ele hoje inclusive, beijo Ken.

Cris: Olha, com almoço tem que… Patreon aí hein, vamo melhorar esse Patreon.

Ju: Paulo Rigue.

Cris: Lucas Sales.

Ju: Isabela Rerdi.

Cris: Pernetinha.

Ju: Marina Feltran

Cris: Alex Vilaverde.

Ju: André Dorte.

Cris: Alexander Decker.

Ju: E Christopher Murata.

Cris: Gente, e aí o quê que acontece? O Mamilos tava lá, Mamilos cromados tava de repouso, ressurgiu como uma fênix no programa passado, eis que: dose dupla de Mamilos nesse programa. Mamilos cromados pro vídeo da Skol e pro vídeo da Avon, ambos celebrando o Dia do Orgulho GLBT. Os vídeos são superlegais, um é mais emotional, o outro é super pra cima. E é legal marcas apoiarem e conduzirem a conversa pra esse lugar, eu particularmente entrei nos comentários do vídeo da Avon e, pra minha grata surpresa, tipo, 90% das pessoas elogiando. Isso foi muito legal. Então parabéns às marcas e confiram os vídeos.

Ju: É, nos comentários da página do B9, que geralmente tem um chorume quando põe peça feminista, tava incrível os comentários da Skol, graças à Mupoçonaria. Parabéns meninos, muito bem, brigada.

Ju: Merchand então, a gente tem falado bastante sobre corrupção no Mamilos nos últimos meses, como, claro, a maior parte dos noticiários. E, eu já conversei bastante com a Cris, bate um desânimo porque esse poço não tem fundo, né? A gente raramente fala sobre soluções, porque a gente mostra só o diagnóstico do tamanho do problema. Por isso a gente ficou super feliz de divulgar uma iniciativa pra monitorar gasto público, tornando a gestão do dinheiro mais transparente. Essa iniciativa chama Observatório Social do Brasil, foi fundado em 2008 por estudantes, aposentados, empresários e profissionais de diversos setores, todos são voluntários. Que que eles fazem? Eles acompanham licitações e pregões de compras de órgãos públicos municipais, em 19 estados. E eles acompanham as entregas, pra saber se a população tá recebendo os bens e serviços que pagou.

Cris: Bom isso, hein.

Ju: Então, um serviço muito legal. Porque assim, a gente fala isso. Você não tem como ficar acompanhando cada uma das coisas, então fazer isso colaborativamente é muito legal e isso sim tem um poder grande de diminuir corrupção. E eles lançaram essa semana uma campanha de crowdfunding pra arrecadar fundos pra manter o trabalho que eles já tão fazendo e pra ampliar o número de cidades que a entidade tá instalada. Vale muito a pena fazer parte dessa mudança, mais do que reclamar, ser parte de uma coisa nova, de uma construção de uma cidadania e de uma política diferente, de um gerenciamento de gasto público diferente, então, URL amigável: www.osbrasil.org.br/participe.

Cris: Vamos então para o Fala que Eu Discuto.

[Sobe trilha]

[Desce trilha]

Cris: O Wayne disse no Twitter: “Com mais um episódio brilhante e como sempre mostrando que mulher fala sobre qualquer coisa, inclusive futebol”.

Ju: Ainda mais com a Camila Mattoso né? O Atelier do Design disse: “Eu sempre fico chocada como a gente simplesmente não conhece o Brasil, a gente sabe mais dos Estados Unidos do que dos nossos índios”.

Cris: O Gerson Brito, de Olinda: “O maior problema sobre as Olimpíadas é o descaso com os atletas. Eles, menos os de futebol, vivem o ciclo olímpico de quatro anos e nesse tempo precisam atingir e manter ranking, se manter sem lesões e manter o preparo, ou seja, não é de quatro em quatro anos que se faz um atleta olímpico. Eles precisam surgir antes, doze anos em média, serem notados e incentivados a se preparar para entrar para o ciclo olímpico que envolve uma série de competições, inclusive no exterior, que muitas vezes são bancadas pelo próprio atleta, que por isso tem que manter uma fonte de renda que sustente seu esporte. É difícil ser profissional dessa forma. Somos um país plural, multicultural, multirracial, de diversos gêneros e biotipos, por que sofrer com a ditadura de um único esporte?”.

Ju: O Alessandro Bezerra disse: “Olá meninas do Mamilos Podcast, sou professor de geografia na cidade palco de parte do conflito citado por vocês no cast. Dourados fica 35 quilômetros de Caarapó, local do conflito, e a 120 quilômetros de Ponta Porã e posso garantir uma coisa, o conflito repassado pela mídia não chega nem perto da guerra que enfrentamos aqui. A região é fundada com base no que se chamou de Colônia Agrícola Nacional de Dourados, projeto de reforma agrária implantado por Getúlio Vargas que consistia em dar títulos de posse pra quem ocupasse e tornasse produtiva a terra, ou seja, o inverso do que os nativos fazem. A relação dos índios com a terra é totalmente diferente dos não-índios, a terra pro índio é parte dele, então a relação fica bem complicada. Para os agricultores, aquela é a terra deles, porque vem da herança dos avós. O problema é que há um preconceito geral contra o indígena na região, basicamente fundada por latifundiários e, dessa forma, os indígenas ficam à margem de tudo. Os proprietários de terra fizeram um comboio com mais de 60 caminhonetes, onde perseguiram e atiraram contra os indígenas que invadiam o que eles consideram como terra deles. Os indígenas também estavam armados. Com relação as conclusões que tomaram, nenhum dos dois estão certos ou errados, mas se for tentar responder essa questão, acho que vou causar outra guerra aqui na região. P.S.: Estou em pé aplaudindo a melhor e mais sensata discussão sobre futebol que ouvi em minha vida. Parabéns”.

Cris: Vamo então pra teta? Tá na hora?

Ju: Bora.

Cris: Chegou?

Ju: Chegou, e essa teta é longa, gente. Essa teta é grande, hein, prepara!

[Sobe trilha]

[Desce trilha]

Cris: Vamo começar apresentando quem vem abrilhantar e falar desse órgão tão complexo que é o cérebro? Vamo começar com quem já é de casa? Quem já tá acostumado a brilhar no Mamilos?

Ju: Vocês pediram e ela voltou! Ciça Maia!

Ciça: Olá a todos. Prazer enorme de tá aqui novamente. O desejo de voltar era imenso. Muito bom tá aqui aqui novamente.

Ju: Fala quem é você, Dra. Ciça.

Ciça: Psiclóloga cognitiva, trabalho com EMDR e Brainspotting e sexualidade.

Ju: Muito bem. Temos também Pedro Calabrez. Pedro, quem é você?

Pedro: Olá a todos. Eu sou pesquisador do laboratório de neurociências clínicas da Escola Paulista de Medicina, da Unifesp. Eu sou professor e agradeço muito aí pelo convite de vocês para participar do programa de hoje.

Cris: E quem vem agora, Fernando, “rapa do tacho”, conta aí.

Fernando: Eu sou Fernando Duarte, eu sou psiquiatra, trabalho principalmente em CAPES, e na atenção básica municipal.

Ju: O que é CAPES?

Fernando: CAPES é o Centro de Apoio Psicossocial, Centro de Atenção Psicossocial. É uma proposta de substituição dos manicômios, já surgiu há bastante tempo, bem bacana.

Ju: Vai rolar uma teta de luta antimanicomial?

Fernando: Ainda vai! Espero estar presente!

Ju: [risos]

Cris: Seu nome tá anotado aqui, viu, acabei de anotar.

Ju: Bom, tem mais um ano que a gente gestou esse programa. É o mais pedido por vocês, sem comparação. Ele já chega com a responsabilidade de ajudar muita gente que já passou por isso, tá passando ou assistindo alguém muito querido passar. Um programa para falar da ferida aberta que a gente por constrangimento, mas afeta todas as famílias, classes sociais, sexos e raças. Só de perguntar nas redes dúvidas e sugestões sobre o tema a gente recebeu uma enxurrada de mensagens e oferecimentos de ajuda. Porque é ferida aberta, exposta e latente. Porque a nossa ignorância sobre o tema é abissal, mas só não é maior do que o medo. Hoje a gente falar sobre o buraco negro no peito que parece sugar os sonhos, energias e desejos da gente, nos despindo de todo o recheio que nos permite encarar a vida. Que nos deixa ocos, vazios, engolindo a nossa vitalidade. Vamos falar sobre o que sabemos hoje de como esse buraco se instala, como ele funciona e das forças que desenvolvemos pra arrancar ele do nosso peito.

Cris: De acordo com a previsão da OMS (Organização Mundial da Saúde) feita no século passado, em 2030 o mal seria responsável por 9,8% do total de anos de vida saudável perdidos para doença. Pois esse índice foi atingido em 2010. A depressão atinge hoje quase 7% da população mundial – cerca de 400 milhões de pessoas. Incapacita os atingidos pela doença, coloca enorme peso em suas famílias e rouba da economia a energia e o talento das pessoas.

Ju: Em 2010 os custos diretos e indiretos da depressão eram estimados em US$ 800 bilhões no mundo todo. De acordo com as previsões, esse custo deve mais do que dobrar nos próximos 20 anos. Os males da mente são os mais prejudiciais e limitantes entre todos os grupos de doença. E a depressão, individualmente, é a mais incapacitante das doenças.

Cris: No Brasil, 7,6% dos adultos já foram diagnosticados com depressão, o que equivale a 11 milhões de pessoas. Dentre os brasileiros, mais da metade, ou 52%, usa medicamentos. Os dados são do IBGE. Em 16 anos, o número de mortes relacionadas com depressão cresceu 705%. A faixa etária correspondente à terceira idade é a que reúne as estatísticas mais preocupantes. Então nós vamos começar nossa conversa, e é bom a gente ajustar aqui o quanto a gente vai conseguir cobrir. Mas pra você saberem que a gente conhece o todo o que realmente existe aqui um universo dentro de cada tipo. Então nós não vamos falar de depressão infantil, depressão na terceira idade, borderline, bipolaridade, síndrome do pânico e suicídio. Porque são temas associados, mas cada um deles tem um universo inteiro pra ser explorado, então aqui hoje a gente vai falar mais a depressão como todo, trazendo muita das respostas pras perguntas que vocês nos colocaram. Fica aí todos esses outros universos paralelos listados pra gente conversar sobre eles em algum outro momento.

Depoimento Ju Geve: O meu nome é Juliana Geve, eu tenho 46 anos, dois filhos. Eu sou publicitária e sempre tive muito orgulho do meu caminho, né. Comecei a trabalhar com 18 anos, sempre criei meus filhos e tudo. E quatro anos atrás, depois de uma relação que acabou dum jeito muito duro, assim, muito difícil. Eu fiquei muito triste, né, o que é natural. O que não é natural é que 6 meses depois eu continuava muito triste, né. Muito triste, muito apática e assim, um dia uma amiga me sugeriu, falou “será que você não tá deprimida?” e tudo. Eu falei “‘magina, isso, eu não, depressão não é pra mim. Imagina eu trabalho, eu crio os meus filhos, eu não sou disso, né”. Ela falou “É, eu acho que você devia procurar ajuda”. Nessa época embora não tivesse parado de trabalhar, eu tinha parado de fazer ginástica, eu tinha parado de tomar café com os meus filhos de manhã, e no fim de semana, principalmente quando eu tava com eles, eu ia pro cinema e eu via cinco a seis filmes por fim de semana, né. Eu emendava uma sessão na outra só pra poder ficar quieta no escuro e sem interagir com ninguém. E de manhã eu me arrastava pra fora da cama antes de ir pro trabalho e passava o dia inteiro no trabalho como um robô. E isso foi ficando muito difícil pra minha vida porque eu trabalho com criação e imagina, não conseguia contribuir com nada, né. Não conseguia ter ideia, né. Eu estava sobrevivendo simplesmente. Isso afetou os meus filhos bastante, né. Mas principalmente a minha filha, que na época tinha uns 17 anos, e eu lembro que de noite quando eu chegava em casa e me jogava na cama, às vezes até sem tirar a roupa do trabalho, sem nada, né, eu deitava simplesmente. Ela vinha pra minha cama, né, saía do quarto dela, vinha pra minha cama e ficava segurando a minha mão até eu dormir, né, ou ela dormir. E nos fins de semana também que ela costumava ir pra casa do pai dela, ela sempre dava um jeito de voltar antes, né, ou de não dormir lá pra dormir comigo. E ela dizia, me disse anos depois, que ela fazia isso porque ela ficava muito preocupada de me deixar sozinha. E isso é uma coisa, é uma, é um remorso que eu vou arrastar pela vida, assim, da minha filha, imagina uma menina de 17 anos, né, ver a mãe que devia ser um símbolo de força, né, de segurança e tudo, apática daquele jeito. Então por um bom tempo, né, a gente quase trocou de papéis. Ela era a mãe eu era filha, né, porque ela, ela ficava me convencendo a fazer as coisas, né. Me convencendo a levantar, me convencendo a tomar banho, me convencendo a dormir, é uma loucura que isso aconteça. E eu passei dois anos nessa vida, até que eu fui procurar ajuda. Voltei a fazer terapia e quando o meu terapeuta começou a falar que eu devia procurar uma psiquiatra, que eu tava com sintoma de depressão e tudo, eu achei um absurdo, né. Achei que não era pra mim e tinha muito medo de tomar remédio, muito medo do que os remédios pudessem fazer com a minha cabeça, que embora eu tivesse me sentindo horrível sempre tive muito medo de coisas que mexessem aí com o sistema nervoso central. Mas acabei indo na psiquiatra e conversamos bastante, tudo, ela me deu um remédio pra tomar, eu tomei o remédio o primeiro mês e não senti absolutamente nada. Aí isso confirmou a minha teoria, o meu preconceito de que aquilo não era pra mim, de que não ia funcionar pra mim, que remédio de depressão era só pra gente fraca, aí eu voltei nela depois de um mês e ela ajustou a dose. Quando ela ajustou a dose minha vida mudou, assim, fiquei impressionada com como é que uma coisa química pode fazer uma diferença tão grande na vida da gente, né. Eu voltei a ter vontade de viver, eu voltei a fazer ginástica, eu voltei a tomar café com os meus filhos, voltei a ter vontade de trabalhar, a ter vontade de me cuidar. Ah, é importante dizer também que eu falei que minha filha me convencia a tomar banho e tudo mas assim, eu nunca, mesmo profundamente, né, inerte, apática, e tudo, nunca descuidei da minha aparência porque eu sabia que era fundamental eu manter pros outros uma imagem, né, uma aparente imagem, assim de normalidade, né. Isso fazia parte do meu personagem, né. Então sempre aparecia no trabalho bem, arrumada, né, maquiada, tal, mas assim, não tolerava nenhum tipo de contato físico, né. Se alguém encostasse em mim, eu desabava de uma forma muito pesada.

Ju: A gente tem que começar perguntando o quê que é depressão, Ciça?

Ciça: Depressão é algo tão complexo, tão grandioso que é impossível você descrevê-la em uma única palavra, né. Mas eu diria que a depressão é a perda de si mesmo, né. O princípio básico sobre a depressão é a perda de si mesmo.

Fernando: É uma doença mental. É uma doença que faz com que a gente se sinta muito triste na maior parte do tempo, sem vontade de fazer as coisas, pensando muita coisa ruim, com pensamentos de culpa, mágoa, arrependimento, pensamentos de baixa auto estima, de morte até. E com vários sintomas físicos como o cansaço físico, alteração do sono, alteração do apetite. É uma doença muito traiçoeira porque uma doença silenciosa. A gente não vê, ela não sangra. Se sangrasse a gente ia correndo pro médico e tratava. Mas não. O mais comum é as pessoas ficarem meses, anos, deprimidos sem saber que tá tendo aquilo, sem saber que aquilo é um problema.

Ju: É como a Ju falou no depoimento dela né. Que ela demorou 2 anos para buscar tratamento.

Cris: Mas como que a gente vai conseguir diferenciar a tristeza da depressão?

Fernando: Nem sempre é tão simples diferenciar. Se eu fosse dar uma resposta muito simples e rápida, a gente chama de depressão quando existe um comprometimento social, profissional, um prejuízo muito grande na vida da pessoa. Aí a gente chama de doença depressão. Se não é uma coisa que prejudica tanto a vida da pessoa, do tipo uma coisa ocasional, ou depois que o time perdeu, ou depois de um término de relacionamento, isso a gente não chamaria de depressão.

Cris: Mas eu posso falar que uma tristeza que se prolonga por tempo demais deveria ser verificada?

Fernando: Talvez seja depressão.

Cris: Porque tem uma questão que é a seguinte, a gente vive hoje numa sociedade que ela supervaloriza a felicidade. É todo mundo feliz o tempo inteiro, cê entra nas redes sociais e todo mundo tá feliz, todo mundo é feliz o tempo todo. Então eu acredito que a gente desaprendeu um pouco a lidar com tristeza. Parece que você não pode ficar triste. Eu costumo falar isso às vezes eu chego no trabalho e falo “nossa, quê que cê tem?”, a pessoa “ah não sei, acordei meio triste hoje”, “não, num fica assim!” Então assim, ficar triste não é bom, e aí a gente não tá pegando um sentimento que é comum, que é normal, e muitas vezes levando isso pro lado da doença?

Fernando: Difícil dizer, pode ser que sim e pode ser que não. Eu acho que tem tristezas que são normais que todo mundo tem, não existe ser humano que nunca ficou triste na vida, não é todo mundo que tem depressão; depressão é uma coisa muito mais intensa, muito mais grave, muito mais prejudicial mesmo, sabe.

Cris: Incapacitante, né.

Fernando: Isso. Tem um escritor que fala sobre depressão e que ele compara a tristeza com a depressão, ele fala, é um continuum, é um espectro? É, mas é como se a tristeza fosse aquela ferrugem no portão de casa que você dá uma esfregadinha, você limpa, passa e tá tudo certo, e a depressão fosse deixar aquela casa abandonada por 100 anos, onde não sobrou mais nada, sobrou só pode ferrugem de tudo que ficou lá.

Ju: Quem é esse escrita esse escritor?

Fernando: Esse escritor chama Andrew Solomon. Ele escreveu um livro chamado O Demônio do Meio-Dia. Recomendo.

Cris: A gente é apaixonada por esse moço.

Ciça: A gente pode dizer também que a tristeza, ela passa pra depressão quando vários aspectos da vida de uma pessoa são afetados. A tristeza, por exemplo, eu estou triste porque eu perdi meu animal de estimação. Oquei, eu vou ter um tempo ali de tristeza, né, é importante também viver essa tristeza, né, como a Cris tava falando, parece que a tristeza e o sofrimento não fazem parte do humano, né, mas são coisas que nós aprendemos a lidar e aprendemos muitas vezes lá desde criancinha observando como os adultos, né, os nossos cuidadores lidam com isso, né. Mas voltando, assim, eu penso que a tristeza ela passa pra uma depressão quando ela acaba englobando todos os aspectos da vida de uma pessoa, poderíamos dizer assim?

Ju: O Andrew Solomon ele fala assim: luto é quando você fica muito triste pela perda de alguém ou, enfim, de uma situação, cê pode sofrer o luto pelo fim de um emprego, por exemplo, ou de outras coisas, você fica muito triste, seis meses depois você continua triste mas está um pouquinho melhor. Quando seis meses depois você está no mesmo estado incapacitante, quando você não tem, ele compara muito a depressão, ele fala que depressão, o contrário de depressão não é felicidade. O contrário de depressão é vitalidade. Então que uma das coisas principais pra você diagnosticar a depressão não é a tristeza, mas é a falta de energia pra fazer qualquer coisa da vida, quando qualquer atitude corriqueira cotidiana passa a exigir uma energia que você não tem, é um esforço sobre-humano, e isso por um período contínuo de tempo.

Cris: Só porque a gente não vai entrar muito no tristeza aqui, eu gostaria de recomendar um compêndio científico muito importante chamado o filme da Pixar, Divertidamente, que trata muito bem a importância da tristeza e a necessidade do equilíbrio de todos os sentimentos num ser humano. Juro, faz aí que vai economizar um tempinho de terapia e vai entender que a tristeza faz parte também. Como a gente tá tratando aqui é depressão como doença, e aí ela assim como, oquei, temos um problema, go, como que a gente vai fazer com isso, a gente não vai aprofundar tanto, mas eu acho muito interessante vocês assistirem.

Fernando: Essa definição da Juliana, ela é importante, né, a falta de vitalidade. Acho que do ponto de vista filosófico geral, chamar a depressão de falta de vitalidade é coerente, mas claro, é um conjunto de sintomas, né, isso que é importante entender, é um conjunto de coisas costuma aparecer simultaneamente. Então frequentemente você vai ter uma falta de vontade e de disposição, você vai ter um comprometimento do humor, e aí vem a tristeza e por aí vai, mas tem quadro de depressão por exemplo onde o humor não tá tão comprometido mas a motivação tá super comprometida, então a pessoa não tá necessariamente triste, mas ela tá extremamente desmotivada e sem vontade de efetivamente fazer as coisas. Frequentemente você vai ter variações e alterações bruscas do peso da pessoa, ou porque ela começou a comer demais ou a comer de menos, ela acaba variando de peso muito rapidamente, é MUITO comum você ter alterações de sono, né, é super comum por exemplo o depressivo acordar antes do que ele gostaria e não conseguir voltar a dormir. Muitas vezes é comum também o depressivo dormir demais, passar muito tempo dormindo efetivamente, né, mais de 12 horas, e por aí vai. E é interessante perceber como é sempre pros extremos, né. Come demais, come de menos, dorme demais, dorme de menos, e tudo isso, é claro, em conjunto, forma aquilo que um profissional de saúde competente, um psiquiatra, e um psicólogo possivelmente também, é capaz de olhar e falar, bom, aí a gente tem um quadro onde aparentemente esse sujeito ele efetivamente está dentro de um episódio depressivo e dependendo do tempo em que ele tá a gente pode de fato dizer que ele sofre de transtorno depressivo. Então o que eu queria dizer aqui é, nós temos que tomar cuidado muito com uma banalização gigantesca que tá acontecendo da depressão nos dias de hoje. Eu convido quem tá me ouvindo agora a dar alt-tab no que cê tá fazendo, vai pro Facebook, digita lá no campo de busca do Facebook “depressão”. Eu fiz isso pouco tempo atrás, não sei se vou acertar, mas aparece Diva da Depressão, Game of Thrones da Depressão, Friendzone da Depressão é outro que aparece também, e a gente sorri e a gente dá risada com isso, mas eu gostaria também de fazer um paralelo aqui pra gente entender a seriedade disso. Vamo pegar uma doença que ela é grave, que ela é muito dura pra todos que tão envolvidos nela, pro paciente, pros seus familiares, que é o câncer, ok? Se a gente fizesse uma página de Facebook “Câncer” com piadinha, como será que as pessoas iriam receber isso? Provavelmente eu ia ter muita gente que ia falar, Pô, peraí, cara, esse negócio é sério, vai ficar fazendo piada disso, tem gente que sofre muito por causa disso. No entanto a gente não faz a mesma coisa com depressão. Diva da Depressão é engraçadinho, muita gente ouve isso e fala, bom aí vem um discurso do politicamente incorreto. Não é isso, a gente tá falando de uma coisa que é séria, tal como o câncer, a depressão é uma doença que ela tem uma característica de ser debilitante, sim, pro paciente, pros familiares, sobretudo depressão mata. Depressão aumenta o risco de suicídio, depressão aumenta o risco de doença cardiovascular, depressão aumenta o risco de derrame cerebral, depressão aumenta o risco de asma, depressão aumenta o risco de uma série de outras doenças que efetivamente matam as pessoas. Então acho que é muito importante uma educação da sociedade de entender que essa banalização da depressão faz com que exatamente isso que a gente já disse aqui, que a depressão ela tem uma acepção no senso comum de tristeza, de mera tristezazinha, ai, não, tô deprimido, ou então de uma circunstância que é triste, num tom até jocoso de piada quando você faz Game of Thrones da Depressão. A gente tá falando de uma coisa que é muito séria, ela precisa ser entendida na sua composição, né, na sua fenomenologia, pra quê?, pra que quem sofre disso em primeiro lugar entenda que tá sofrendo disso, sobretudo também pra que as pessoas elas parem de se autodiagnosticar depressivas porque isso ainda que, é claro, você possa verificar os sinais, você precisa de um profissional de saúde pra te diagnosticar, te recomendar qual que vai ser a terapêutica mais relevante praquele quadro que você tem, porque depressão não é uma só, cê tem quadros leves, cê tem quadros moderados, cê tem quadros graves, e isso vai variar e a competência para avaliar isso ela é a competência de um profissional de saúde mental que tá habilitado a fazer isso, e isso passa por, em primeiro lugar, eu diria desbanalização, né, deixar de banalizar, ou seja, trazer pra espera da seriedade que é necessária, e com isso fazer que as pessoas não tenham medo de ir ao psicólogo ou ao psiquiatra, com que elas não tenham essa ressalva que é muito comum que as pessoas tenham de por exemplo, ah, eu não vou no psiquiatra porque isso significa que eu sou doido, ou que eu não vou tomar remédio porque isso não tem, não preciso de remédio pra isso, porque a medicação, por exemplo, na depressão ela é importante em determinados quadros e tal, como é pra alguém que sofre de diabetes ter uma regulação melhor da sua insulina. Então a gente tá falando de algo que é orgânico, a gente tá falando de algo que tem suas raízes no funcionamento do cérebro. Isso é muito importante.

Ciça: Coloca como frescura, né.

Pedro: Sim, preguiça, é muito comum. O sujeito que é depressivo é muitas vezes visto como preguiçoso, como fresco, como fraco…

Fernando: Ele é visto tanto pela família, pelos amigos, quanto por si próprio.

Pedro: Exatamente.

Ciça: E aí vem a vergonha, né.

Pedro: Com certeza, que é um dos piores sentimentos que existe, que faz o sujeito, ele numa bola de neve agravar ainda mais o quadro que já tá fazendo ele tá daquele jeito. Mas um ponto que eu acho importante colocar é assim, existe uma tradição filosófica muito famosa que a gente chama de dualismo psicológico, que essencialmente propõe que a mente e o corpo são duas entidades distintas e separadas. René Descartes, o filósofo pai da filosofia ocidental moderna, ele é um grande dualista, né. Pro Descartes mente é um negócio, corpo é outro, completamente diferentes, são naturezas distintas. E aí 94 um neurocientista chamado Antonio Damasio, que é dos mais famosos neurocientistas especialistas em neurobiologia das emoções, ele publica um livro com título provocativo e proposital que se chama O Erro de Descartes, onde ele vai através de uma série de casos clínicos demonstrar que é errado dizer que a mente e o corpo são separados, por quê?, porque quando você lesa o cérebro, por exemplo, você tem consequências psicológicas imediatas. Uma lesão cerebral, ela gera uma consequência psicológica. O entendimento que a gente tem hoje, e aí eu uso uma frase do Steven Pinker, que um psicólogo da Universidade de Harvard, “a mente é o que o cérebro faz”. E a gente não tem que entender a mente, o cérebro e o ambiente como coisas divididas; é um continuum onde a relação entre o ambiente, e aí ambiente é cultura, sociedade, nutrição, sabe, todas as coisas? O cérebro, o corpo, a biologia e as derivações psicológicas disso, é a relação de todas essas coisas que transforma a gente no que a gente realmente é, que faz a gente ser o ser humano que a gente é.

Cris: Tá, mas peraí, Pedro, cê tava falando que, se, por exemplo, eu machuco a minha mão, o cérebro identifica que a minha mão tá machucada, né, tá sangrando, qualquer coisa assim, eu vou no médico, eu vou no hospital. Só que o cérebro é o próprio órgão que está doente. E aí?

Pedro: Esse é o maior desafio, né? Esse é o grande problema. Na verdade quando você cai nesse escopo, né, de doenças que afetam diretamente o cérebro, aí cê pode ter as mais variadas. Aí você tem um problema, que é o autodiagnóstico se torna muito mais difícil, porque, como o Fernando disse aí no começo, a gente não sangra quando tá deprimido. Na verdade, às vezes, a depressão ela vai gerar outras coisas, dor de estômago, que você acha que é dor de estômago, mas na verdade a causa original daquilo é o teu cérebro com certas alterações estruturais, funcionais que fazem com que ele opere de uma forma que ela é distinta. Então, pra quem tá me ouvindo, que fique claro, tá: o cérebro de uma pessoa depressiva, ele é diferente. Ele é um cérebro que ele tem certos déficits. A gente tá tendo grandes avanços hoje em dia em neurociência pra compreender a neurobiologia disso, que permite com que uma série de tratamentos e terapêuticas sejam oferecidas. E aí acho que um dos exemplos interessantes disso e muito claros, a ideia é: mente e corpo não são duas coisas separadas, tá. A mente ela deriva do funcionamento do corpo. Cérebro sendo aí um dos principais órgãos nesse sentido. Não só cérebro, né? Se você imaginar o seu intestino influencia a sua mente. Você tá com diarreia cê não toma decisão da mesma maneira, né.

[Risos]

Ciça: Até mesmo porque nós temos neurônios nos intestinos.

Pedro: É. Não, neurônio…

Ciça e Pedro: …no corpo inteiro.

Pedro: O ponto na verdade..

Fernando: Este é o maior fabricante de..

Fernando e Ciça: …de serotonina.

Pedro e Ciça: Sim… Exatamente.

Pedro: Que é o neurotransmissor superenvolvido…

Ciça: Com a depressão…

Pedro: …no cérebro, com transtorno depressivo. Mas corpo e mente são entidades que estão unidas, e portanto hoje a psicologia ela tem que ser irmã da psiquiatria e das neurociências…

Ciça: São casadas.

Pedro: E nesse diálogo a gente consegue promover saúde de uma forma infinitamente mais eficaz do que se a gente ficar dividindo isso entre quadradinhos que não dialogam.

Ju: Os quadros depressivos, eles são comuns a vários transtornos psíquicos. Como que a gente consegue diferenciar quando eu tenho um episódio depressivo ou quando eu tenho depressão, ou quando eu tenho… A diferença entre depressão e demência, depressão e pânico, depressão e luto, depressão e melancolia…

Fernando: A característica chave da depressão é a tristeza durante a maior parte do tempo, né. Durante a maior parte dos dias durante um tempo considerável, vai de pelo menos, no mínimo duas semanas. Além de anedonia, que é a perda do prazer, a perda de vontade de fazer as coisas.

Cris: Deixa eu só te perguntar sobre sintoma já que você entrou nisso. Que a gente tá falando bastante de tristeza e dessa falta de vitalidade, mas recentemente eu fiquei sabendo de um caso de uma pessoa com que eu já trabalhei, que era um cara extremamente agressivo. Ele chegava e ele gritava muito, e ele agitava todo mundo, e era um cara assim… Ele falava muito alto e tudo assim, sabe, ele era muito agressivo, ele era agressivo com todo mundo, ele fazia o local ficar com essa atmosfera. E depois que a gente se separou de trabalho e tudo mais, eu fiquei sabendo que ele foi diagnosticado com depressão. Existe também a depressão que não é necessariamente a tristeza, ou, que você tá falando de extremos, né.

Fernando: Sim.

Cris: Come muuuito, come nada…dorme muito, dorme nada…Tem isso também?

Fernando: É… Na verdade, tem claro, eu até tava deixando pra falar isso mais tarde quando a gente ia falar de diferença de homem e mulher. Porque é mais comum as mulheres aparecerem mais melancólicas e os homens aparecerem mais irritados ou agressivos. Ou até nos extremos de idade também, do tipo crianças ou idosos também podem se apresentar mais irritados do que melancólicos, mas isso é uma diferença que é comum aparecer.

Cris: Faz parte de sintoma, então.

Fernando: Faz! Faz parte de sintoma. São características diferentes, né. Então às vezes a pessoa pode ser mais quieta, parada, e isso ser a depressão, ou ser mais melancólica, com menos energia, e a pessoa também pode ser oposto, pode ser super ansiosa, né. E quando a gente fala de depressão e ansiedade, são doenças que são MUITO, muito, muito comórbidas, muuito. Tanto que…

Cris: O que é comórbidas?

Fernando: Quando aparece duas doenças juntas, ao mesmo tempo, tá. Comorbidade é uma outra doença junto. Então no caso da depressão e da ansiedade é…. São tão próximas assim… De todo mundo que tem depressão, mais de 80% das pessoas que tem depressão tem sintomas ansiosos, e da ansiedade é mais ou menos a mesma coisa. Quem tem ansiedade, quase 90% tem sintomas depressivos. Mas bom, eu tinha falado antes, a característica principal da depressão é tristeza, anedonia, né, a perda da iniciativa, da vontade de fazer as coisas. A característica típica do pânico são aquelas crises muito curtas, muito intensas de extrema ansiedade, com aquele medo de que a pessoa vai morrer ou medo de que ela vai enlouquecer, ou de que ela vai perder o controle e que vem junto com vários sintomas físicos. No TOC já aparece outros sintomas como pensamentos obsessivos, repetitivos, intrusivos, a pessoa não quer pensar naquilo, mas o pensamento vem. E ela tem um esforço muito grande pra não deixar esse pensamento entrar na cabeça dela, mas o pensamento entra assim mesmo, e ela acaba tendo que fazer alguma coisa, propriamente dito, seja limpar uma mesa, seja organizar alguma coisa, seja lavar as mãos, pra ver se aquele pensamento ruim vai embora. E mais cedo ou mais tarde o pensamento volta de novo. Tudo isso pode estar presente com sintomas depressivos ou não. Nem sempre a gente vai conseguir diferenciar isso de forma tão clara, tá. Eu dei aqui alguns pontos marcantes…

Ju: Mas o tratamento é diferente, né. Então por exemplo, se você for diagnosticado como depressivo e na verdade o que você tinha era uma demência, o seu tratamento pode, no final, acabar te deixando pior…

Fernando: É, no caso da demência especificamente, o tratamento simplesmente não vai ser muito eficaz, né. Mas às vezes a depressão…

Ju: Mas a doença vai progredir enquanto ela deveria tá sendo tratada pra não progredir né.

Fernando: Sim…

Cris: É… Eu acho que quando a gente fragmenta isso em outras entregas, que não a depressão, acho que deve trazer até um certo conforto. Eu conheço uma pessoa que foi diagnosticada como bipolar, e eu lembro do conforto que ela teve: ‘Ah então é isso! Beleza, então vamo resolver isso aqui, entendi, é isso mesmo’.

Pedro: É isso traz uma coisa boa, pra saber o que você tem, uma coisa que ela é confortante, sem sombra de dúvidas. Vou dar um exemplo recente…Uma ex-aluna minha, ela tem uma característica, que é relativamente comum até, mas ela quando vê certos números, esses números são sempre de uma cor. A gente chama de sinestesia isso, né, ela é sinestésica. Então, sei lá, o “um” é azul, sempre que ela vê o “um” ele tá azul, sempre que ela vê um “dois” tá amarelo. Isso é muito comum, a sinestesia de número e cor. E ela não sabia que aquilo era sinestesia, ela não sabia o nome daquilo, ela sabia que ela via números em cores. E uma aula, completamente sem querer, eu falei sobre sinestesia. Falei que é mais prevalente em quem tem veia artística e por aí vai, ela veio me agradecer profundamente, porque ela falou “Nossa, agora eu sei o que eu tenho! Agora eu sei o que tá acontecendo em mim.”

Fernando: E mesmo esse programa hoje aqui falando de depressão, também é muito bacana, porque tem muita gente que sente esse sintoma de depressão há muito tempo e só da gente tá falando que isso existe, que isso é uma doença real, pô, tem muita gente que estuda isso, que vive de tratar isso, e explicar os sintomas, como por exemplo eu expliquei… Isso dá uma sensação de pertencimento, da pessoa se sentir “Puxa vida, eu pertenço ao mundo. Isso que eu sinto, eu não tô sentindo sozinho. Tem uma galera que sente junto comigo.” Isso dá um conforto enorme…

Ju: E põe galera né.

Cris: “Eu não sou preguiçoso, eu não sou…”

Fernando: É… Sabe, “ Não é isso! Eu não sou mau caráter, eu não sou…” Sabe…

Ju: “…fraco…”

Fernando: “Eu não queria de propósito furar todas as festas e ficar na cama o dia inteiro, sem fazer nada, sem nem tomar banho.”

Ju: Aliás essa é a próxima pergunta, a gente tem, de uma certa maneira, uma visão bem estereotipada da depressão. Então se você está depressivo, você automaticamente não sai da cama, se você saiu da cama a ponto de ir no aniversário do seu primo, então não é tão depressão assim. Então tem até o caso de uma menina que tava de licença saúde pelo INSS e aí viram no Facebook dela, uma foto dela viajando e rescindiram o benefício porque se tá viajando não tá com depressão, né, gente. E aí isso é uma boa, Ciça, até porque a gente acabou de ouvir uma história da Ju falando que ela conseguiu trabalhar, ela era extremamente funcional, ela continuou tendo vida social, mesmo que diminuída, mas ela continuou tendo, muitas pessoas nem souberam que ela teve depressão. Então falar de que não é sempre essa caixinha fechada, né.

Ciça: É. Sem dúvida, né. É um julgamento completamente distorcido, né, da sociedade. Justamente por não conhecer, por desconhecer, né, o termo depressão e estigmatizar a pessoa, segregar e tudo mais. Então às vezes essa pessoa pode tá fazendo um esforço, né, muito grande pra sair da cama, pra sair de casa, né, pra retomar os contatos sociais, né. Então você vê como as mídias sociais, né, como Facebook e tudo isso também sempre passam a imagem da felicidade. Ah, então se a pessoa saiu da cama, então ela não tá depressiva. Ela tem que perder o benefício dela, né. Mas ao contrário, isso pode fazer, ela já deve tá tendo um benefício de sair de casa através do tratamento da depressão, né. Então os julgamentos são muito delicados, né.

Fernando: São. O próprio critério de diagnóstico da depressão diz que a pessoa tem que tá triste a maior parte do tempo, durante a maior parte dos dias.

Fernando: Mas é muito comum a pessoa conseguir reunir todas as forças lá do âmago e conseguir ir numa festa, encontrar todo mundo, sair, tirar foto, ser super legal, ela volta, se joga na cama e não consegue sair de lá depois por duas semanas. E tem muita gente que fica deprimido e ninguém percebe, a família não percebe, amigos não percebem.
Ju: Como que é isso? Eu tenho depressão ou eu sou depressivo? Faz parte da minha personalidade ou é uma… Por exemplo: eu tenho gripe, eu não sou uma pessoa gripada, mas eu sou míope.
Fernando: Eu prefiro considerar, eu prefiro explicar pra as pessoas que: a pessoa tem a depressão, ela não é depressiva. Eu prefiro considerar a depressão como uma doença como qualquer outra, do tipo: eu tenho pneumonia, eu tive gripe ou eu tenho um problema renal, eu tenho depressão, eu não sou a depressão. Às vezes é comum a pessoa pensar: Eu sou depressivo, eu sou desse jeito e desse jeito que eu sou eu não mudo nunca mais, porque esse sou eu, eu penso assim…
Ju: Síndrome de Gabriela.
Ju cantando: Eu nasci assim, eu cresci assim, sempre fui assim…
Fernando: Por aí, eu acho quando a pessoa se interpreta desse jeito: Eu sou depressivo, eu acho que ela já se coloca com maior dificuldade de um dia conseguir mudar. E se ela tem a depressão, não, ela tem a depressão, é uma doença, tem tratamento, melhora, tem até cura, por que não?
Pedro: Por exemplo, vou dar um exemplo da esquizofrenia, a gente usava o termo esquizofrênico durante muito tempo e hoje a gente fala: pessoa com esquizofrenia, tá? Porque como o Fernando apontou, existe uma importância muito grande de, ainda que o cérebro de uma pessoa depressiva, ele tem as suas peculiaridades, a gente sabe que tem componente genético, a gente sabe que, enfim, é um transtorno que é muito diferente de uma gripe, tá, muito diferente. Mas, apesar disso é uma questão até de postura do profissional de saúde perante o paciente, deixar claro pra esse paciente que ele não deve se reduzir quando ele se olha no espelho, quando ele interpreta a sua própria vida, à depressão, assim como à esquizofrenia, ou seja qual for o transtorno. Por que, a partir do momento que você faz isso, você limita bastante o escopo de ação que a pessoa tem mediante as coisas que ela tem alcance na vida dela e até a própria forma como ela vai abordar as terapêuticas e por aí vai. Então, a gente opta por isso, por falar que é um pessoa com depressão, que é uma pessoa com esquizofrenia.
Ciça: Mesmo porque, uma coisa importante, né? Que o Fernando falou, uma palavra muito importante nesse contexto todo é a cura, né? Então você dizer que é uma doença, né? E não que você é um depressivo, porque existe a cura e eu acredito na cura. Eu acredito que todos nós aqui compartilhamos do mesmo pensamento, né, Fernando?
Fernando: Claro, sem dúvida.
Leonardo: Eu sou Leonardo Filomeno, um dos criadores do blog “Manual do homem moderno” e já tive depressão. Passei pelo mal num período de dois anos, foi logo depois de perder o emprego e ter uns problemas financeiros e eu só enxerguei isso depois de fazer uma merda que quase terminou com o meu casamento, foi então que eu decidi como meta de vida falar sobre o problema dentro do meu site, para poder conseguir conscientizar o homem. O resultado foi impressionante, na matéria de texto que eu fiz mais de 100 mil pessoas leram o conteúdo. Eu recebi uma enxurrada de mensagens, foram mais de quinhentas, entre desabafos e pessoas querendo ajudar companheiros e amigos que passavam pelo mesmo problema. Quanto à doença em si, não existe diferença entre a depressão que afeta o homem e a mulher. A diferença que eu percebi, através de pesquisas pra poder escrever sobre o tema, é no modo como o homem enxerga o mal e principalmente como ele vai procurar resolver esse problema. De uma maneira geral, quando a mulher percebe que tem depressão, ela vai buscar ajuda, ela corre atrás de informação, fala com as amigas, ela é sincera tanto nos sinais quanto no diagnóstico. Já a maioria dos homens, não tem toda essa pró-atividade, quando se trata de depressão ele prefere esconder do mundo e da sua parceira o que tá passando, ele não consegue aceitar a doença, ele tem aquela visão de homem provedor, de macho alfa. Foi passado por seu pai, através de gerações, de que o homem não pode demonstrar os sentimentos e emoções, pra ele depressão é frescura, é algo que se cura enchendo a cara no bar. Ele não consegue se abrir com os amigos, com os familiares, até mesmo por preconceito, e acaba usando máscaras pra continuar convivendo com o problema na sociedade sem que as pessoas percebam. E eu vi um estudo gringo que apontava que o resultado, ele é chocante, enquanto as mulheres são muito mais propensas a se declararem deprimidas, os homens são muito mais propensos a se matarem por causa do mal. Numa margem de 4 pra 1. Ou seja, a cada quatro homens que se matam por causa de depressão, uma mulher faz o mesmo. Você começa a perceber que você pode ter alguns indícios de depressão quando o seu humor começa a alterar, quando você começa a ter falta de interesse de fazer atividades que normalmente você faria sem relutar, você começa a ter problemas pra dormir e outras coisas. Mas também tem uns sinais e alguns indícios que acontecem em grande parte no sexo masculino. Um dos sinais mais comuns é o aumento de consumo de álcool, drogas e outras substâncias que podem afetar o seu comportamento, e isso tudo são paliativos que o cara pode usar para diminuir aquela sensação de desânimo e mal-estar. Um outro sinal forte é o consumo excessivo de pornografia, que ele usa para aliviar aquele humor baixo que ele tem, num curto prazo, e isso com frequência acaba levando a um vício. Pra ele tentar acabar com o problema de depressão que ele não consegue enxergar ainda, ele acaba adquirindo um comportamento workaholic, ficando no trabalho até mais tarde, fazendo muita hora extra, isso tudo serve para ele encobrir aquelas coisas ruins que estão acontecendo na sua vida e que ele não consegue explicar e nem dizer o quê que é realmente. Outros sintomas mais comuns também são diminuição do desejo sexual, um aumento de irritação e um comportamento de risco, ele começa a dirigir de forma mais imprudente, beber enquanto dirige, participar de jogos de azar, são todos pequenos indícios que podem sinalizar que ele tá passando por depressão.

Cris: Pedro, eu queria que você falasse um pouquinho pra gente sobre isso, sobre como a mulher percebe a doença e como o homem percebe a doença.
Pedro: Bom, existe um fator cultural muito importante nisso e a gente não pode nunca descartar a existência disso, até porque como eu já disse tudo isso é um continuum, né? Ambiente, cultura, sociedade, cérebro, mente, tamo falando de um espectro onde você tem diversos elementos dentro deste espectro e obviamente você vai ter hoje uma estigmatização da depressão que ocorre no homem de uma forma distinta do que ocorre na mulher. A gente tem uma sociedade onde é promovida uma ideia de homem macho alfa, de homem sem fraquezas, de homem que quando enfrenta uma fraqueza ele tem que se mostrar bravo, ele tem que desbravar, ele tem que se mostrar aquela coisa meio Arnold Schwarzenegger em filmes dos anos 80, né? E ai o que ocorre é por natureza até da questão de ser um estigma social, vem o sentimento social, talvez um dos mais comuns sentimentos sociais que existem, que é a vergonha. Então, o homem, ele vai ter vergonha de buscar ajuda, porque ao buscar ajuda ele se declara fraco e ao se declarar fraco ele tá quebrando essa ideia de masculinidade que é construída na cabeça dele pela família desde que ele nasceu, né, e pela sociedade como um todo. Onde se resolve então isso, se resolve, por exemplo, no boteco, né? Você vai pro boteco e enche a cara, tá chateado, liga pro teu amigo e fala “Ô, vamo tomá uma?” E aí você bebe, e o álcool nesse sentido, aliás falando de maneira geral em relação ao depressivo, tá? Isso é uma coisa que também está presente nas mulheres. O depressivo, ele adora se automedicar, ele busca muito a automedicação que costuma ser o quê? Costuma ser essas drogas que tão ao acesso livre e fácil da pessoa, então vai buscar beber, né? Bebida alcoólica, fumar e por aí vai. E no caso do álcool em especifico, o álcool, ele vai ser em primeiro lugar ansiolítico, então ele vai fazer com que haja uma inibição de certas estruturas cerebrais que fazem com que você se sinta menos ansioso, que faz com que você não se preocupe tanto com o futuro e perceba que uma das características da depressão é por exemplo, aquilo que a gente chama de “antecipação catastrófica”, o sujeito ele olha pro futuro e espera que tudo aquilo no futuro que vá acontecer, vai ser ruim, né? Ele olha pra frente e fala que vai ser ruim, vai ser sempre ruim, e a partir do momento que você inibe certas estruturas cerebrais, especificamente as frontais, você perde um pouco isso, porque você perde um pouco, exatamente, essa porção ou este pedaço dentro de um sistema cerebral muito amplo, mas é uma estrutura cerebral que tá te auxiliando a olhar pro futuro, pensar nele, verificar o que vai acontecer e por aí vai… E aí o sujeito fica mais tranquilo, por quê? Porque isso reduz a ansiedade. Além disso, o álcool ele vai também ser motivante, né, dopaminérgico, ele vai fazer com que você empolgue, né? Então o álcool ele tem uma operação química no cérebro que é muito interessante, então é ansiolítico, ao mesmo tempo que ele é dopaminérgico que vai te motivar, né? A gente tá falando do circuito que a gente chama de “circuito dopaminérgico” onde a dopamina é um neurotransmissor importante e é um circuito que ele tá associado a motivação e prazer. E nesse sentido, parece um remédio lindo, né? Parece maravilhoso.

Cris: É, falando assim, né?

Pedro: Você bebe, então você fica menos ansioso, você fica empolgado, você fica bem, só que o problema é o depois. Porque você que tá me ouvindo e você não é depressivo, você bebe e fica de ressaca, a ressaca vai ser uma dor de cabeça, vai ser um certo mal-estar. Só que a ressaca numa pessoa depressiva, isso já é uma coisa muito bem documentada, ela é muito mais grave, ela pode inclusive fazer com que o indivíduo, ele entre num episódio depressivo. Ou seja, a ressaca pro depressivo, ela é muito dramática, ele vai ficar muito pior do que tipicamente uma pessoa não depressiva fica. E isso dura dois a quatro dias, então não é aquela coisa de um diazinho só, aquela pessoa ela vai ficar sem vitalidade durante diversos dias depois da bebedeira, e aí tipicamente o que se pode fazer para curar isso, beber mais. Aí ele volta a ficar mais relaxado e mais empolgado, só que isso vai agravando o quadro cada vez mais. Então é muito perigoso essa automedicação, né? Que o depressivo, às vezes busca, porque isso pode parecer num primeiro instante que você tá melhor, mas saiba que isso pode e provavelmente irá te prejudicar amanhã e por alguns dias depois.

Fernando: A gente sabe que hoje a prevalência da depressão ela é mais ou menos duas vezes maior nas mulheres do que nos homens. Então as mulheres sim, deprimem mais. Não se sabe exatamente o porquê, mas provavelmente tem motivos aí hormonais e genéticos, assim como culturais também. Talvez a vida seja muito mais complicada pras mulheres, muito mais pesada, né.
E também tem aquela questão do risco de suicídio, né, que o risco de tentativa de suicídio nas mulheres é duas vezes maior do que pros homens. É muito grande. Só que os homens tendem a conseguir ter suicídio com sucesso até três vezes mais do que as mulheres. Em geral porque os homens acabam escolhendo métodos mais letais, como armas de fogo e enforcamento, enquanto que as mulheres acabam optando por métodos menos letais, como por exemplo, cortar os pulsos e overdose.

Cris: Então, quando a gente começa a lidar e ver a doença de uma maneira geral, pode surgir a questão: existe um grupo de risco? Tem gente mais propenso a ter depressão, Fernando?

Fernando: Não se saberia dizer exatamente grupos, mas com certeza existem muitos fatores de risco. Uma doença clínica, por exemplo, é um fator de risco pra depressão. Quem tem diabetes, ou quem tem hipertensão, ou quem tem câncer, ou quem tem várias outras doenças, principalmente as crônicas, está com o risco aumentado de desenvolver depressão. Quem tem derrame, por exemplo né – o AVC – tem uma chance altíssima de desenvolver depressão depois disso. Existem outros fatores de risco, como por exemplo, o sedentarismo é um fator de risco pra depressão. Isolamento social, ter poucos contatos sociais, ou não ter um emprego, ou não ter família…. Tudo isso aumenta o risco pra depressão. Uso de drogas, com certeza aumenta pra caramba o risco de se desenvolver depressão. Pensamento negativo, né? Então a pessoa que é pessimista: é um problema ser pessimista? Não, a princípio não. Tem gente que é otimista e tem gente que é pessimista. Mas seria um fator de risco, assim como fumar é um fator de risco pra enfartar. A pessoa que quer ser pessimista, ela tá num risco maior de quem sabe um dia desenvolver depressão.

Pedro: A depressão ela tem componente genético e ela tem fatores ambientais que dialogam pra formar aquilo que vem a ser o transtorno. E um importante fator de risco é abuso infantil – e esse abuso ele pode ser o abuso físico, com envolvimento sexual ou não – e ele pode também ser o abuso afetivo, tá. E esse abuso afetivo, nele tá incluída a negligência afetiva, o abandono afetivo por parte da família. São todos fatores de risco muito bem documentados.

Cris: Bullying entra nessa…?

Pedro: Sem sombra de dúvida entra, sim. Esses estressores todos. Qualquer tipo de estressor, né? Ou seja: algo que gere um estresse, que gere um desbalanço muito grande na vida, especialmente quando você tá num período de formação, num período de desenvolvimento crítico do seu cérebro, sabe? Infância, adolescência… isso pode sim aumentar o risco. Não só isso, por exemplo, consumo de droga pela mãe enquanto ela tá grávida. Isso aumenta risco relativo de uma série de transtornos mentais. Então é entender o quê? Que o cérebro em formação, um cérebro que está se formando, ele é muito mais sensível a todos os fatores de risco que fazem com que manifeste-se a depressão, e não só ela. Uma série de outros transtornos mentais também.

Fernando: Um outro fator de risco super importante são traumas emocionais. É muito comum a gente ver pessoas assim… Todo mundo passa por trauma emocional na vida, seja a perda de um ente querido, perda de emprego, ou alguma doença, alguma coisa assim. Quem enfrenta muitos desses traumas e especificamente de forma seguida aumenta o risco demais dessa pessoa acabar deprimindo de fato. Não ser apenas um luto. Daquele luto acabar se transformando numa depressão de verdade.

Ciça: Bom, seguindo a linha de raciocínio do Pedro, né, nós podemos considerar que as primeiras sensações da infância é que vão refletir as sensações emocionais que ficam, né, registradas no cérebro e no corpo, é que vão se manifestar na adolescência e na vida adulta. Em decorrência disso, podem surgir episódios depressivos como outras doenças psíquicas também. Então, seria importante avaliarmos a adaptação, né, a resiliência de cada pessoa. O quanto ela tem a facilidade de sair daquele processo de sofrimento, da tristeza. O significado que ela dá às situações, aos acontecimentos. Existem pessoas que se separam, né, de um relacionamento amoroso e depois de dois meses de alguma forma tentam suicídio… E tem pessoas que depois de dois meses tão fazendo uma volta ao mundo e muito bem, obrigada. Então vai muito do significado que cada um dá às situações, né? E esses significados eles já vêm de encontro com o que já foi visto lá desde a primeira infância, que é onde são desenvolvidas as crenças, né? As crenças subjacentes, as crenças centrais, então você também no processo depressivo – juntamente com a medicação, né, Fernando? – Você ter um trabalho terapêutico e trabalhando essas crenças é muito valioso pra chegar à cura, né?

Fernando: Claro.

Ju: Pra falar um pouco de causa, né, porque vocês falaram de fatores de risco, mas a gente vê que a prevalência de depressão aumentou muito nos últimos 50 anos. Depressão é o mal do século? Ou o estilo de vida que a gente vive hoje, de estresse, de afastamento da natureza, de isolamento, de competitividade, de falta de propósito, de conviver em redes sociais que todo mundo parece feliz o tempo inteiro. Isso interfere na incidência de doença na população?

Pedro: Olha, o cérebro é uma máquina. E ele é uma máquina, portanto que vai ter suas limitações, né. Apesar de ser uma máquina extremamente adaptativa, apesar de ser uma máquina fantástica e talvez a mais fantástica máquina do universo, o cérebro ele tem suas limitações. E o mundo contemporâneo ele exige do cérebro muitas coisas. E essas exigências do mundo contemporâneo, elas definitivamente não são adequadas àquilo que o cérebro é capaz de entregar. Ao volume de informação que chega a nós, ele é absurdo, não tem como você conseguir manter processos de atenção a tudo o que tá chegando e isso gera estresse por definição. Além disso, você tem problemas como o trânsito, por exemplo, cada vez mais crescendo e a gente sabe hoje, estudos demonstram claramente, que trânsito é uma coisa à qual a gente não se adapta, que gera angústia e essa angústia ela é permanente enquanto a gente tiver que viver dentro do trânsito. Além disso, a gente vive uma vida que é sedentária. E é interessante aqui fazer uma coisa que é muito importante, que é mostrar pras pessoas que o conhecimento não é suficiente. Tem muita gente que fala “ai, vamo educar a sociedade… conhecimento ele é suficiente”. Não é suficiente. Todo mundo sabe que comer junk food e que ser sedentário é muito perigoso e mata. No entanto, quando você vai ver os dados, as pessoas elas tão engordando. As pessoas elas estão cada vez mais sedentárias. Elas estão se alimentando cada vez pior. Conhecimento infelizmente não é suficiente, porque a gente tem muito conhecimento a respeito de uma série de coisas. A gente sabe hoje, por exemplo, que – como eu já disse, repito – uma importante terapêutica pra depressão, especialmente em quadro leve e mais ainda pra prevenir, né, é a atividade física regular, acompanhada de alimentação saudável e no entanto, apesar disso, é muito difícil na sociedade atual você encontrar tempo. As pessoas usam muito essa frase, né, “eu não tenho tempo”. Que é uma frase mentirosa. É uma frase de auto-engano. O correto é dizer “não é a minha prioridade”. Porque tempo todo mundo tem 24 horas por dia. É como você distribui essas 24 horas é que a tua existência ela vai se formar. E aí então a gente fala “não tenho tempo”. Por quê? Porque tenho que trabalhar, porque tenho que fazer isso, porque tenho que fazer aquilo… E tudo isso deriva de exigências que são do mundo contemporâneo. Então a gente tem um mundo que promove sedentarismo. A gente tem um mundo que promove uma alimentação indulgente. Que é obvio, se você trabalha que nem um louco, se você vive no trânsito por horas e se você não tem tempo, ou diz que não tem tempo, na verdade você não prioriza exatamente as coisas que te fariam ficar melhor. Você vai querer uma indulgência, cê vai querer um prazer imediato e extremo. E nada mais fácil do que comer. Nada mais fácil do que beber, encher a cara, fumar… Recorrer a esses recursos de prazer imediato, que no fim das contas só agravam ainda mais o processo.
Então, o que eu quero dizer aqui…. Eu tô indo até um pouco além da esfera da depressão em si. Eu tô falando de um problema que ele é um problema social, tá? Por quê? Porque esse problema social acarreta sem sombra de dúvida um maior número de casos de depressão. Mas não é só depressão. Quando você olha pra uma sociedade que vive nessa loucura que a gente tá vivendo, a gente tá promovendo doenças que vão além da depressão. Que vão além dos transtornos mentais. Que vão no fim das contas gerar doenças em todas as esferas que a gente poderia imaginar. A gente está, sim, construindo uma sociedade que ela é mais doente por conta de exigências que a gente coloca em cima das pessoas. Por conta de uma ideia. Tem uma frase, acho que é do Woody Allen, ele diz assim: “Como eu seria feliz se eu fosse feliz”. Essa ideia de você postergar a felicidade… Eu vou sofrer pra caramba, e aí eu vou ser feliz depois. Essa ideia que é incorreta, porque é óbvio que você produz menos se você tá triste e angustiado. É uma ideia de produtividade antes de bem-estar. E sem bem-estar você não é produtivo. E a gente tem que educar a sociedade, pra entender isso. Pra entender que… Eu tenho alunos, por exemplo, que tão estudando e entram no trabalho e batem no peito com orgulho dizendo “ah, eu dormi três horas essa noite”. Isso mata. Não dormir mata. É um negócio que literalmente… Pessoas que têm um sono de má qualidade elas morrem antes, elas desenvolvem uma série de doenças por causa disso. Então a gente tem que parar de se orgulhar de um jeito de viver que é absolutamente doido, que aparentemente é por conta de uma questão de produtividade, mas que no fim das contas tá fazendo as pessoas serem menos produtivas, porque se elas fossem saudáveis, se elas fossem mais felizes, se elas cuidassem da sua saúde mental, elas produziriam mais. Elas seriam pessoas que funcionariam melhor e que, portanto, gerariam maior movimento de economia e todas essas coisas. E quando você vai pra países que se preocupam com essa dimensão da saúde, você vê o reflexo disso na produtividade das pessoas de maneira clara. Infelizmente a gente tá a anos-luz de conseguir fazer uma coisa dessa numa saúde pública no Brasil. Mas é super importante ter isso em mente pra que a gente viva melhor, mais saudável, mais e produza mais também.

Fernando: A depressão de fato ela é uma doença muito prevalente. Ela sempre foi muito prevalente. Ela é muito mais prevalente do que as outras doenças mentais. Então sim, ela sempre existiu. E também é verdade que tem se aumentado o diagnóstico. Pessoas tão sendo diagnosticadas hoje e que não eram diagnosticadas antes, que…

Cris: Deixa eu te contar uma história engraçada, falando disso. Minas, né? Mas eu tenho uma tia-avó que morreu de tristeza, morreu de amor na verdade. E era tão romântico todo mundo falar que ela morreu de amor. E eu cresci ouvindo “ah, tenho uma tia que morreu de amor… morreu de amor.” Tão poético. E sei lá, depois de adulta eu fui falar “como é que morreu mesmo a fulana?”. Não, é que ela era noiva de um cara e o cara foi para aquela guerra, acho que Segunda Guerra Mundial que brasileiros foram, né. E ela despediu dele na linha do trem, a casa dela era perto da ferrovia, e ele foi embora e nunca mais voltou. E ela nunca mais soube dele e eles tavam de casamento marcado. Então ela passou o resto da vida na janela esperando ele voltar. Eu falei: “gente, ela tava doente! Como assim vocês estão falando que ela morreu de amor?” Ela tava doente. Então acho que muitas, e muitas e muitas pessoas morreram sem conseguir tratamento, definharam né? A minha vó falou “ah, ela ficou tão magrinha.” É claro, ela tava doente. Então vindo nisso que você tava falando de, agora conhecer diagnóstico, eu acho que traz isso pra luz.

Fernando: Sim. Hoje as pessoas têm mais conhecimento, têm mais noção do que é depressão, de que é uma doença mesmo. É muito importante que isso está sendo mais diagnosticado, que as pessoas estão conhecendo mais e podendo tratar. Também é verdade que a prevalência tá aumentando, provavelmente tem a ver muito com isso que o Pedro falou, o meio de vida, o estilo de vida das pessoas está sendo cada vez mais estressante. Estresse piora depressão, não tem como.

Pedro: Eu vi recentemente um pensador, que eu admiro muito inclusive, dizendo o seguinte: “que a depressão aumenta a produtividade humana”. Ou seja, que a depressão é fruto de grandes gênios. Aí ele deu um exemplo de Van Gogh, ele deu um exemplo de autores (…)

Fernando: (…) Proust.

Pedro: (…) É, Proust. Enfim, os clássicos exemplos de pacientes psiquiátricos ou que seriam pacientes psiquiátricos caso fossem diagnosticados (…)

Ju: (…) Todos os autores românticos, que morreram de amor né…

Pedro: (…) e Hemingway, sabe umas coisas assim. Muito legal, né, quando você pega uma exceção dessa, de um sujeito que ele conseguiu, talvez, a gente nem sabe porque a gente não tem o relato clínico desse indivíduo. Não houve uma análise a partir de um profissional de saúde mental. A gente tá analisando baseado em relatos biográficos, no que ele escreveu. Completamente distorcido e enviesado. Aí você acha que isso é bacana. “Então, bom, significa que o transtorno mental faz com que surja grandes gênios e grandes obras.” E isso ignora a realidade do transtorno depressivo, que é a realidade de milhões de pessoas no mundo que não conseguem levantar da cama pra trabalhar. Que não conseguem levantar da cama pra tomar banho e se vestir. Que não têm ânimo pra ir ver as pessoas que de fato ama e de fato faz bem pra elas. Então, eu quero dizer assim, é muito perigoso você romantizar a depressão no exemplo da exceção de gênios que nós inclusive, sabemos pouco de fato a respeito dessa genialidade. E aliás nós não sabemos se, sem o transtorno talvez eles não fossem mais gênios ainda. A gente não tem essas informações. Então não romantize a depressão. Se tem o artista que por acaso ele foi depressivo e é um grande gênio, isso não significa que a depressão é causa dessa genialidade. Muito pelo contrário, ela pode ser inclusiva algo que tolheu, que sufocou a genialidade que poderia ter sido maior ainda se não fosse o fato do indivíduo ser depressivo.

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(início do voice feito pela Ju Matsuoka 1:04:07, ajeitado por Leticia Dáquer)

Fernando: Também existe uma certa teoria aí de porque que a depressão, entre tantas outras doenças mentais, é tão mais prevalente do que as outras. Tem pessoas que acreditam que a depressão ela conseguiu ser sustentada com uma prevalência alta ao longo de tantos e tantos e tantos anos de existência humana, não foi uma doença que foi excluída por seleção natural, ela permaneceu prevalente, porque acredita-se que a depressão possa ter um lado bom, como o momento onde a pessoa fica mais reclusa ou mais introspectiva, e ela sai disso mais fortalecida. Eu quero deixar bem claro que isso não quer dizer que não se deva tratar, tem que tratar, é pra tratar, mas talvez exista um lado positivo na depressão.

Ciça: Dentro do que o Pedro colocou também, né, hoje o número excessivo de informações, né, eu percebo a importância de fazer uma seleção dessas informações para que você pode se adaptar e ter uma vida menos estressante, que tem pessoas que querem saber exatamente tudo, e o que são informações que não vão levar a nada. Então eu colocaria mais um ingrediente aqui na nossa roda que é a questão do afeto, afinal de contas nós estamos falando de um transtorno de afeto, né, depressão e o afeto. Então como é importante, né, a questão do isolamento, a questão da vergonha, a questão de talvez de, me corrija, Fernando, a base da depressão como desamparo. Esse desamparo pode ser até entendido já desde lá detrás, desde a infância, né, então nós tamos falando muito de afeto, né, de alguma forma. Então eu gostaria assim de humanizar um pouco mais a depressão. Todas as informações, claro, são super importantes, né, mas essa questão afetiva, como é importante também, né, pros cuidadores, a própria pessoa que tá com depressão entender também que ela pode confiar em alguém, em uma pessoa mais próxima, e dizer o que ela sente, que ela sente vergonha, ela sente culpa, que ela está com a auto-estima baixa, ela está sem autoconfiança, então a importância disso também como hoje o diálogo, a fluidez, não das redes sociais, mas sim das redes pessoais, podem estabelecer um contato, um vínculo maior e auxiliar muito num episódio de depressão.

Pedro: Todos os estudos de bem-estar, tô olhando logo um lado positivo agora, todos os estudos de bem-estar que já foram feito, bons estudos, né, estudos relevantes, eles demonstram que a principal variável para o bem-estar humano é a qualidade das nossas relações. Qualidade e não quantidade, evidentemente. Não é difícil você fazer um auto diagnóstico disso. Eu quero que quem tá me ouvindo agora pense o seguinte: quantos por cento do teus pensamentos diários são sobre outras pessoas. E claramente você viu que o modo de operação padrão do teu cérebro é pensando no outro. E não é à toa, nós somos uma espécie social, um bicho social, e o social é de longe o céu e o inferno da nossa vida. Pessoas elas são o céu e o inferno, então a ideia aqui é, e quando eu tô falando da vida saudável, na tua vida saudável saiba que a qualidade das tuas relações é o grande a grande variável que vai está envolvida no teu bem-estar. Também no entanto pode ser a grande variável que tá envolvida na tua angústia, né, isso é muito importante, relações elas podem ser aquilo que te leva, né, à tristeza e à depressão, mas sobretudo ao depressivo é a depressão nesse sentido ela é uma doença muito capciosa, uma doença muito sacana, porque o depressivo ele tem muita vontade de ficar sozinho. Ao ficar sozinho quê que ele tá fazendo? Tá piorando o quadro depressivo dele, porque a maior fonte que existe de potencial melhora pra ele é se rodear de pessoas amadas e de pessoas queridas pra que ele melhore, e nesse sentido então tome muito cuidado com o ímpeto de ficar sozinho se você é depressivo, e lute contra esse ímpeto porque é se rodeando de pessoas queridas que talvez você consiga exatamente aquela força necessária para que você saia do buraco, pra que você comece o passo, o primeiro passo pra melhorar a tua vida. Então a solidão é de longe uma das piores coisas que existe para o ser humano, sempre vai ter um que vai falar “ah, mas e Mogli o Menino Lobo, e o ermitão?” Isso são exemplos caricatos. Tudo bem, pode até ter um ermitão e outro ali, mas eu tô falando de população humana, do que é estatisticamente prevalente, e é indiscutível, seja pessoas introvertidas ou extrovertidas, pessoas amadas, pessoas queridas, as relações de qualidade elas são cruciais para o nosso bem-estar, elas são cruciais para a nossa felicidade, elas são sobretudo cruciais pra que o depressivo ele consiga se recuperar da depressão que ele tá sofrendo. Então rodeie-se de pessoas queridas e amadas porque não há fator mais importante do que esse pra viver bem.

Gica: Oi, Mamilinas, aqui é a Gica Yabu, e tô sofrendo em posição fetal por não tá nessa mesa maravilhosa desse programa. MÁS, adivinha quê que eu vim fazer aqui? Eu vim falar sobre omeu tratamento da depressão. Meu primeiro diagnóstico foi aos 15 anos, feito por um homeopata, meio estranho, naquela época o diagnóstico fez muito sentido porque, oras, uma vez que seu pai é depressivo, seu vô é depressivo, sua vó é depressivo, everybody é depressivo, toma aqui seu Fluoxetil, fluoxewalele, não lembro o nome do remédio agora, mas era um nome esquisito pra fluoxetina e tinha gosto de abacaxi. O problema foi que… A minha depressão foi tratada assim, né? Nesse caso, como uma deficiência química, toma esse negócio aqui e tudo vai dar certo. O lance é que esse negócio ai me deixava totalmente flertada e esse medicamento acabou me fazendo mais mal do que bem. Bom, anos depois, uns quase cinco anos depois, volto a procurar… Volto a procurar, nada! Procuro pela primeira vez um psiquiatra. Eu já dona de mim mesmo e tudo mais, e a gente iniciar um novo tratamento, dessa vez com o Wellbutrim, que é o Bupropiona. E o Wellbutrim me fez muito bem e parece que deu match muito lindo com meu cérebro e funcionou por muito tempo. Além do Wellbutrim, também comecei a fazer ioga, e a cantar, e tal, e tudo mais, então foi muito bacana. Depois eu tive umas idas e vindas no tratamento, porque o tratamento de depressão… Ele tem isso, né? Você de repente fica bom, ‘Gente, que loucura! Tô boa! Não preciso mais desse negócio aqui’, e vez ou outra a gente fica nessa de até onde isso aqui sou eu e até onde isso aqui é o remédio. Então, misture a isso mais aquelas clássicas ‘Ah, isso deve ser coisa da minha cabeça’, ‘Ah, eu consigo passar por essa sozinha’, ‘Ah, a depressão nem existe’. Pois é, sim, passei por todas essas fases, até que com, sei lá, vinte e poucos, já morando em São Paulo, o meu cardiologista me sugeriu ‘Viu, dá uma ida aqui num psiquiatra que eu estou achando que você está deprimida’. E eu fiquei brava, falei ‘Como assim. Você nem me conhece e cê está me mandando para o psiquiatra. Onde já se viu!’. E ainda bem que fui. Dessa vez, consegui com a psiquiatra em questão entender que, puta, não tinha problema nenhum de eu ter depressão, né? Era uma condição minha que tava lá por razões genéticas, por razões ambientais, por uma série de razões. Comecei a fazer psicanálise, voltei pro remédio e depois de um tempo, adivinha: criiiise. Pois é, foi uma crise punk, que nem remédio e nem nada deu conta. E aí eu precisei buscar mais reforços dos meus Avengers. Então fui fazer terapia, eu fui entender melhor. Eu fui olhar pra esse bicho aí, que vez ou outra tomava as rédeas das situações e me incapacitava completamente. E só quando eu comecei a me assumir como pessoa deprimida, ou pessoa que controla uma depressão, enfim, eu não sei direito como eu me autodenomino… Foi que eu consegui meio que desembaralhar e desenozar uma porção de gatilhos e coisas que me deixavam muito vulnerável e muito próxima de ter crises a qualquer momento. Então com remédio, com terapia e com coragem, eu consegui controlar. E hoje… Hoje eu sei que tenho depressão, sei que preciso ficar sempre alerta e aprendi a ouvir meu corpo de modo que ao pintar os primeiros sinais eu já fico esperta, já começo a meditar, já começo a olhar pra mim, já começo a entender se não tô me colocando numa situação de muita pressão que pode fazer esse jogo virar (risinho) pro mal. Então é isso, galera! Tratamento é o que não falta, tá cheio aí! Mas o importante é saber que a ajuda tá aí, ela tem várias formas e que passar por essa birosca aí acompanhado é muito, muito melhor.

Ju: Fernando, eu queria saber sobre… Vamo conversar um pouquinho sobre tabu da medicação, né? Porque, assim, em vários depoimentos a gente já ouviu isso de como é vergonhoso você ter que usar o medicamento porque você pode estar com a perna quebrada, tudo bem, mas estar com a cabeça quebrada, isso é muito vergonhoso. Você ter que tomar um remédio pra consertar sua cabeça é fracasso total.

Fernando: É muito comum acontecer isso, sim, das pessoas terem medo de tomar remédio, falar assim ‘Meu, pelamor de Deus, não posso estar tão mal a ponto de precisar um remédio pra melhorar minha cabeça’. Esse receio, esse medo, esse talvez preconceito, é uma das coisas que hoje mais prejudicam o tratamento. Tem muitas pessoas que até hoje têm o medo, por exemplo, de ‘ah, e se eu ficar viciado no antidepressivo?’, sabe? Isso, pelo menos, é o que os pacientes mais me perguntam. ‘Esse remédio vicia? Esse antidepressivo vicia?’. Eu queria deixar muito claro pra todos os ouvintes: antidepressivo não vicia, tá! Não! Não mesmo. Não. Não mesmo. Não vicia. Não sei se tem alguma forma de eu deixar isso mais claro. Antidepressivo não vicia, tá? A gente não está falando de remédios tarja preta, por exemplo, como o tão popular Rivotril. Quando a gente está falando de antidepressivos, os antidepressivos eles não causam dependência. O que acontece é que, em alguns casos, a depressão se torna uma doença crônica e a pessoa precisa tratar a doença pra sempre, assim como faria um hipertenso tomando uma medicação anti-hipertensiva. A medicação anti-hipertensiva não causou dependência, ele não ficou viciado naquilo. Mas ele… É uma doença que ele vai ter que tratar pra sempre e às vezes a depressão também funciona assim. Se a gente fosse falar do Rivotril, que é tão popular. Imagina, o Brasil é o país que mais prescreve Rivotril no mundo e tem muita gente que antigamente prescrevia Rivotril pra tratar depressão. Isso é um grande erro. O Rivotril não melhora a depressão, não trata depressão. Ele é um calmante só. Ele sim, causa dependência, ele não melhora a depressão. O que às vezes faz é a pessoa dormir aquela noite e assim que ela acorda no dia seguinte, ela está exatamente do jeito que ela estava antes. Sem melhorar em nada o aspecto da depressão dela.

Ju: Mas, é… Uma das causas do aumento do consumo de Rivotril no Brasil é porque diversos outros médicos, que não psiquiatras, estão receitando Rivotril, né? Na realidade é isso.

Fernando: É… É muito comum isso. Você vê, às vezes, cardiologistas que tão atendendo uma paciente que pânico, que procurou eles achando que tinha um a doença cardíaca e ele simplesmente prescreve o benzo [benzodiazepínico], prescreve o Rivotril, porque vai dar uma resposta rápida e ele não está muito preocupado se o paciente ficar dependente ou não. Ele pensa com ele ‘Ah, se ficar dependente, eu mando para o psiquiatra. O psiquiatra resolve isso’. Ou mesmo um ginecologista, ou sei lá… Eu não estou querendo falar mal das outras especialidades, mas é comum os psiquiatras terem um pouco mais de precaução na hora de prescrever esses calmantes porque eles sabem que a dependência é um negócio muito grave e eles sabem que nenhuma outra pessoa quer tratar essas dependências, né? O médico que não quer tratar isso, ele simplesmente segue prescrevendo isso pra sempre. Enquanto que alguns médicos que percebem o quanto isso faz mal tentam tratar essa dependência, e é difícil tratar essa dependência. Infelizmente, hoje em dia na psiquiatria, o tratamento ainda é bastante empírico. Então é muito teste e acerto. A gente testa uma medicação e a medicação pode dar certo, como pode não dar certo ou ela pode dar certo por algum tempo, e às vezes a gente precisa trocar. E é muito difícil saber de antemão qual remédio que vai responder para aquela pessoa específica. Então a Gika acabou aí passando por muitos problemas aí ao longo da história e isso às vezes acontece mesmo com as pessoas. Sobre o negócio de esconder remédio, é muito comum hoje. Todo mundo tem tanta vergonha de estar deprimido, de estar tomando medicação, que as pessoas escondem mesmo, não mostram pra ninguém. Não mostram nem em casa, nem pros parentes próximos, que está tomando medicação. Eu tenho vários pacientes meus que não tomam e às vezes eles preferem não contar pra ninguém, porque é tão desgastante explicar pruma pessoa que a depressão é uma doença importante que ela própria está melhor com a medicação, né? Eu tenho uma paciente que ela, sim, sempre melhora com a medicação. Sempre que o marido descobre que ela tá tomando a medicação, o marido dá um jeito de jogar fora a medicação, porque ele fala que isso é frescura, que ela não precisa disso, que ela é uma mulher forte, que ela só precisa encontrar mais a família. E daí ela sempre piora e depois de um tempo que ela piora, ela procura mais uma vez o tratamento. Então, pra ela, é simples. Ela precisa continuar tomando o remédio. Ela tem isso, ela com essa consciência dela e ela não conta pro marido nunca. E eu já convidei inúmeras vezes pra ela trazer o marido mas ele simplesmente não vai porque ele… Não é ele que tem o problema, então ele nem acha que ela deveria ir. É, infelizmente essa coisa ainda acontece. Eu acredito que as pessoas deveriam, aos poucos, vencer esse tabu. Eu acho que deveriam falar sobre depressão. Deveria ser como falar que tem, sei lá, uma torção no tornozelo, ou falar que tem algum problema no fígado, ou qualquer outra doença. Deveria ser tão comum quanto. Hoje em dia ainda não é. Hoje em dia, a sociedade ainda vê uma pessoa que está deprimida como uma pessoa pior. Por esse motivo, talvez por algum tempo, as pessoas ainda precisem esconder que tem essa doença aí e que elas tomam remédio.

Cris: Mas dá pra fazer o contrário, Fernando? A pessoa não quer tratamento e eu vou lá e coloco comprimido na comida, ou no suco.

Fernando: Olha, eu não acho que essa seria uma boa ideia, tá? Não acho mesmo. Na verdade já ouvi inúmeros relatos disso, de familiares que tão tão preocupados com a pessoa que escondem a medicação na comida dela, no suco dela e fala ‘Não, não precisa tomar, mas toma esse suco, toma essa vitamina’. Na verdade eu não acho isso é uma boa ideia porque a gente não está falando de uma doença que dá e passa, a gente não está falando de, tipo, uma gripe, uma pneumonia que, enfim, toma um remédio por um tempo e passou. São doenças que a pessoa precisa tomar durante muito tempo. E se ela precisa tomar durante muito tempo, ainda mais falando de depressão, a pessoa precisa querer melhorar. Ela precisa querer tratar isso. Não faz sentido ela recusar o tratamento e alguém forçar isso. Em outras doenças, isso pode ser até mais complicado, porque em algum momento da vida a pessoa não vai tomar aquele suco, não vai tomar aquela vitamina, não vai comer aquela comida. E daí ela pode piorar. E isso gera mais um outro problema, porque, se durante tanto tempo a família concordou que ela não tomasse o remédio, por quê que agora a família tá querendo que ela tome o remédio? Só porque ela não tomou o suco, não comeu a comida? Por causa disso eu acho mais importante que a pessoa queira se tratar, que ela veja o tratamento, do que que ela não veja os comprimidos escondidos.

Pedro: Um exemplo importante disso que o Fernando falou é que o seguinte: a banalização da depressão, que falei no início, ela inclusive dá margem pra que as pessoas elas compreendam ainda menos o indivíduo que vive com depressão. Muitas vezes o individuo que vive com depressão ele revela, ele chaga para uma pessoa e fala ‘Eu sofro com transtorno depressivo’ ou ‘Eu sou uma pessoa com depressão’. E aí ela ouve de pessoas para as quais ela falou ‘Ah, eu também já tive depressão. Terminei com o meu namorado e fiquei deprimida’, sendo que, na verdade, a pessoa ela teve um episódio de tristeza, que é absolutamente comum, e ela tá equiparando aquela tristeza que sentiu com o indivíduo que é depressivo e, nesse sentido, diminuindo aquilo que o indivíduo que é depressivo tá sofrendo. Isso é muito perigoso. A banalização da depressão faz, inclusive, com que pessoas achem que estão deprimidas, quando na verdade estão meramente tristes, e que por isso achem que a pessoa depressiva, ela na verdade deva sair com muito mais facilidade daquilo que ela está vivendo. Então as pessoas têm que entender que não é porque você ficou chateado, triste ou mesmo que você às vezes ficou depressivo, às vezes você foi uma pessoa que você teve um caso de depressão… O teu caso de depressão não é igual ao caso da pessoa que tá te contando, né? A depressão, ela se apresenta de uma série de maneiras distintas, que às vezes vão de leve a moderada a grave e não adianta você achar que a forma como você convive com a tristeza, com a depressão, ou seja lá com o que for, vai ser a mesma que o outro também viverá. Cabe ao psiquiatra verificar isso, cabe ao psicólogo num processo terapêutico verificar isso e não a você comparando sua experiência individual com a da pessoa. É o típico exemplo do pai que chega para o filho e fala ‘Cê tem tudo para ser feliz’, quando na verdade o que ele deveria dizer é ‘Você tem tudo que eu acho que no teu lugar me faria feliz’. É isso que é a honestidade de entender que o que o outro sente é o que ele sente e não corresponde àquilo que você sente. Uma certa humildade afetiva que todos deveriam ter e sem sombra de dúvida isso ajudaria muito a compreensão do que a depressão traz pra uma pessoa.

Ciça: Parece, assim, que o marido tem uma dificuldade, né, dentro do que o Pedro está colocando, de estar lidando com a angústia do outro, né? E também o medo, né, de pensar que um dia ele também pode estar exatamente daquela forma. Então, você é forte, você não precisa de medicação, você dá conta disso, né, mas… E por outro lado, é uma garantia pra ele de que ele… A dificuldade dele de lidar com a angústia do outro, né? E por outro lado, quanto à pessoa com depressão, ela se sente com defeito, né? Ela se sente à margem da sociedade. Então, é importante esse acolhimento, né, Pedro? Esse entendimento, esse suporte das pessoas que estão ao redor.

Ju: Se por um lado a gente já defendeu, aqui, sobre a importância da medicação, de não se ter medo, de não ser ter preconceito, quanto a isso, quanto a usar medicação, a gente também tem o reverso dessa moeda que a medicalização da existência. Então é uma pílula pra cada coisa que eu preciso fazer: uma pílula pra dormir, uma pílula pra acordar, uma pílula pra me animar, uma pílula pra me acalmar, né? Então, usar artifícios pra conseguir funcionar, pra conseguir fazer qualquer coisa da vida, né? O que que você acha disso, Ciça?

Ciça: Ju, eu penso que a partir do momento que você começa a usar uma pílula pra cada coisa, que hoje, infelizmente, tá comum… E, assim, às vezes é indicado no banheiro feminino, no banheiro masculino, na balada, ‘Ai, toma isso que vai te deixar… uhu’, né? Então, a falta de contato consigo mesmo. A questão dos limites, até onde eu posso ir, voltando ao que eu coloquei no início, como conceito quase que a um princípio básico da depressão, perder-se de si mesmo. Quando você se afasta de você, você não se ouve mais. Aqui, o tempo todo, nós estamos falando dos estigmas, dos valores da sociedade, das questões culturais, né, em volta da adesão ao medicamento, até as pessoas tão próximas com tanto preconceito, mas nós vamos colocar agora então o paciente, a partir dele, né, o que ele sente ser levado mais em conta e não ser avaliado por tudo isso, né, da avaliação do outro, o que gera também mais tristeza ainda, né? De qualquer forma, nós tamos falando sempre correlacionando a depressão a perdas. Então, a perda de si mesmo e parece que leva a medicação existencial. E é onde a pessoa se afasta cada vez mais de si próprio.

Fernando: Ju, os psiquiatras são bastante criticados no mundo inteiro por isso, por, às vezes, prescrever medicações para coisas que são normais, coisas que fazem parte da vida e que não precisariam estar tomando aquela medicação, não precisariam de uma medicação pra resolver aquele problema. Precisariam talvez só de compreensão ou de qualquer outra coisa. Eu queria só enfatizar que hoje o problema bem maior ainda é a depressão não diagnosticada. Claro, provavelmente tem bastante gente que toma medicação sem tá doente e isso é uma megadiscussão, mas um problema muito maior ainda é gente que tem depressão e não trata. [A gente… Depressão…] Porque não acredita que tá deprimido, que precisa de remédio, tem medo do remédio, tem medo do psiquiatra porque não quer passar nele ou porque é médico de louco e eu não sou louco. Então esse ainda é o maior problema mesmo. E mesmo as pessoas que tomam remédio sem estar doentes, isso é um problema, mas não é um problema tão grande porque a gente não está falando de medicação que, às vezes, cai cabelo, que tem um prejuízo muito grande. Provavelmente não vai fazer uma diferença muito grande, né, para essas pessoas. Agora, faz diferença em quem tá deprimido e não recebe diagnóstico.

Pedro: Um aspecto importante disso tudo também é entender que a ideia de pílulas mágicas pra você resolver problemas da vida é um sintoma da contemporaneidade. A gente vive um mundo hoje que promete de forma bastante clara que é fácil você resolver problemas que na verdade são supercomplexos. A dieta pra você emagrecer 10 kg em 1 mês. Sabe capa de revista Nova, que é tudo com um numerozinho: 50 formas de conquistar um homem, 99 maneiras da barriga chapada no verão. Aí tem a versão masculina da revista Nova que é a revista Men´s Health, né? Uma espécie de revista Claudio. (Risos) Curiosamente a mesma coisa: propostas formulaicas e simples pra questões que não são. Sucesso profissional não vai ser com 10 formuleta de revista. Assim como, isso é importante, né, transtorno depressivo não vai ser resolvido ‘Ai, tomei uma pilulazinha e fiquei bom’. O teu problema de sono ele não vai ser resolvido ‘Ai, tomei um Rivotrilzinho e fiquei bom’. A gente, infelizmente, vive uma cultura hoje onde tudo tem que ser imediato. Isso só agrava o processo de tratamento, a terapêutica, por quê? Porque se a depressão é algo que se manifesta no cérebro da pessoa, ela tá envolvida em todas as ações dela no dia-a-dia e, portanto, a pessoa vai precisar reformular, reintender, recomp… A pessoa vai precisar fazer um processo de recompreensão da sua realidade pra quê? Pra que em todas as suas atitudes ela esteja buscando evitar aquilo que a doença traz de ruim e também, é claro, melhorar na essência. E é claro, isso vai envolver, por exemplo, o sedentarismo, que é um problema gigantesco, a má alimentação, que agrava tudo isso, o uso de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas, que agrava também tudo isso, a busca de diminuir os estressores, se o trabalho estiver estressando demais reconsiderar a maneira como esse trabalho tá afetando a tua vida, se você tem relações que te puxam para baixo, relações que são âncoras negativas, também revisitar e verificar se isso vale a pena. Não é uma pilulazinha. A medicação antidrepressiva é fundamental? Sim, claro, mas não ache que ela é uma coisa mágica que você vai lá, tomou e pronto, tudo ficou bem. Quando você não reestrutura e não reformula uma série de outras coisas na tua vida, que são fatores de risco, que tão estressando e tantas outras coisas que acabam levando você para o caminho depressivo.

Ciça: É o quanto o autocuidado, né? O autocuidado: você ter ciência do quanto você pode se cuidar. Eu acrescentaria aí também uma palavra, Pedro, fazendo um contraponto aí com tudo que nós falamos, né, na questão da depressão, do desânimo, ‘tá rá rá’: a esperança. Então… E não a expectativa. Que não vem na medicação mas vem muito mais de como o psiquiatra lidou com aquele paciente, né? Às vezes um contexto, uma… Um olhar diferente do psiquiatra, já vai fazer toda a diferença praquele paciente, né?

Ju: Sim.

Pedro: A esperança no sentido não de esperar e ficar o tempo inteiro esperando em vez de viver. Mas a de viver olhando para o futuro e enxergando nele algo de bom e possivelmente melhor do que aquilo que a gente tem agora. E aí… O Fernando falou de otimismo no começo, pessimismo e otimismo, e há algo no pessimismo e otimismo que são de postura de fato, né. E você pode me ouvir agora e pensar ‘Ah, mas um otimista é um imbecil feliz’ e, nesse caso então, o pessimista nada mais é do que um imbecil infeliz. (Risos da Cris) E aí eu queria saber em qual dos dois que você fica.

Ciça: Uhum.

Ju: O remédio te deixa… Faz ser outra pessoa?

Fernando: Acho que não. Eu acho que o remédio não transforma você em outra pessoa. Você não ser torna outra pessoa por estar tomando remédio, por estar melhor, assim como eu acho que uma pessoa que usa desodorante, ela também não se torna outra pessoa. (Risos) Porque o cheiro natural dela é outro, entendeu? E assim como a pessoa também escova o dente todo dia e, apesar de ser natural as pessoas terem cárie e a gente escovar os dentes pra não ter cárie, pra não cair o dente, a gente não fica… Não se torna outra pessoa. Não fica artificial, sabe? Eu prefiro ver de uma maneira mais natural, assim. É melhor a gente tratar depressão, é melhor a gente não estar deprimido. Eu prefiro acreditar que a gente é assim.

Cris: Ciça, uma das perguntas que as pessoas mais fizeram pra gente é: como eu posso ajudar uma pessoa que eu amo, que eu me importo com ela, e eu estou percebendo que essa pessoa não tá bem? Eu percebo diversos dos sinais que nós falamos aqui nessas pessoas. Como ajudar?

Ciça: Muitas vezes, Cris, a pessoa, dependendo do grau de depressão que ela está, ela às vezes não aceita ajuda. Então é a importância da adesão à medicação. Então, como ajudar numa situação? Não deixar a pessoa sozinha, saber que se a pessoa que está no quadro depressivo ficar hostil ou irônica, com raiva, que não é com ela. Saber diferenciar isso.

Fernando: Uma coisa que eu queria falar bastante também, eu acho muito importante para os familiares que estão preocupados com uma pessoa deprimida ou um amigo, ou qualquer pessoa assim, entender que a depressão é uma doença e que a pessoa ficou doente e que não é culpa dela. Não é culpa dela ela ter ficado deprimida, assim como não é culpa nossa, não é culpa do, sei lá, do patrão, ou do ex-namorado. Aconteceu. As doenças em geral são assim, ninguém pede pra ficar doente. Acontece. E, uma vez que acontece, a gente tem que tratar. É muito comum você ver uma pessoa deprimida e as pessoas em volta, no início, quererem ajudar, quererem chamar pra sair e ‘vamo ver um filme’, e ‘vamo escutar uma música’, e ‘vamo fazer isso’, por estar preocupado com ela. E com… À medida em que o tempo vai passando e que a pessoa deprimida não melhora e não quer sair mais de casa, não quer fazer nada, essas pessoas em volta começam a ficar com raiva, né, de falar ‘Pelo amor de Deus, essa pessoa também não se ajuda se ela não se ajuda, também não vou querer ficar arrastando’. Entenda que não é culpa dela. É uma doença. Aconteceu. Provavelmente o tratamento envolve muitas coisas. Claro, envolve também ela querer se tratar, também tem isso, mas nesse momento é muito importante a informação. Olha, isso talvez seja uma doença. Talvez seja importante você procurar um profissional, né? Eu acho muito importante pra essas pessoas em volta, não cobrar nada. Oferecer, do tipo: ‘Quer sair?’, ‘quer ver um filme?’, ‘quer dar uma volta’. Não é não. Evitar forçar porque senão… A pessoa que está deprimida ela percebe que as pessoas envolta tão cobrando ela e, pelo fato de ela não conseguir cumprir com as expectativas dos familiares, dos amigos, ela fica mais deprimida ainda.

Pedro: E um aspecto importante, assim, a depressão ela se manifesta muitas vezes como agressividade, isso faz muitas vezes com que um casal, por exemplo, o homem, muitas vezes, costuma manifestar mais agressividade, pode ser a mulher também, e essa agressividade é percebida de uma maneira defensiva que gera briga, a briga gera cobrança, a cobrança… Enfim, vira uma bola de neve negativa. Então, muito cuidado ao interpretar a agressividade, que às vezes é proveniente da depressão, como uma agressividade gratuita, como uma agressividade de alguém que é cruel ou que gosta, porque pode parecer. É isso que é interessante: o depressivo ele pode parecer cruel, ele pode parecer que tá gostando de fazer aquilo quando na verdade aquilo é uma manifestação do transtorno. Não só isso. Tem um outro lado da… Parece que é preguiça. A pessoa não tem vontade de sair e aí o namorado ou a namorada pensa ‘Ele não gosta de mim porque não quer fazer as coisas comigo’. E aí isso agasta os dois, ao afastar você tá deteriorando uma relação de qualidade, com isso você está piorando o quadro de depressão da pessoa. Essa compreensão é fundamental evitando, como bem o Fernando falou, a cobrança, evitando a exigência, e sobretudo evitando o embate, a agressividade, que quanto mais você faz isso, mais você estressa e quanto mais você estressa, mais você piora o quadro. E aí a terapia, por exemplo, é muito importante. A presença do casal, se for um casal, na terapia é importante.

Ciça: Sem dúvida, Pedro. Também como a rede de conhecimento, a rede que essa pessoa tem… Social, né? Além do terapeuta, ou do psiquiatra, a família, os amigos, né? Isso é muito importante. Agora é comum, infelizmente, uma pessoa com algum transtorno mental, né, uma ansiedade, uma depressão, né, o pânico, as pessoas vão de início, como o Fernando já colocou, né… As pessoas vão de início, ficam próximas e depois de um mês todo mundo desaparece. Às vezes depois de quinze dias. Então com essa rede de apoio é importante, não faz mal se ficaram duas pessoas, mais a irmã, o marido, o cachorro de estimação muitas vezes sente e vira um objeto maior ainda de estima, né, então como é importante essa rede social e, eu diria, tolerância. Tolerância dessa pessoa, desse cuidador. E esse cuidador também se apoiar nessa rede social.

Pedro: E não dê conselhos como… É o mais comum, né? Você vê uma pessoa mal e você fala ‘Sai dessa’. Que conselho mais imbecil, porque se a pessoa pudesse sair, ela sairia. Ninguém tem prazer de ficar mal. ‘Sai dessa’ significa que está sobre o controle da pessoa sair dessa. Uma das melhores coisas que você faz pra qualquer pessoa, pode ser o depressivo, mas também uma pessoa triste é estar lá disponível, é dizer ‘Eu tô aqui pra você. Se você precisar de qualquer coisa, eu tô aqui pra você’. Essa talvez seja a melhor postura possível que você pode adotar.

Cris: É muito interessante vocês falarem sobre isso porque quando você está convivendo com uma pessoa que tem depressão, a dificuldade está nisso, né? Olha: você não pode cobrar, você não pode estressar, você não pode insistir, você não pode julgar, porque ela está doente. Só que você continua levando a vida. Você tem uma série de coisas pra fazer, cê tem as suas responsabilidades, você precisa da outra pessoa pra fazer uma série de obrigações, de outras coisas na vida, seja na relação filho, na relação marido, na relação pais. Então, assim, as pessoas que convivem com pessoas que têm depressão passam também por um processo complexo, de muitas vezes ela se sentir sozinha. Por quê? Porque você olha pro outro e o outro está doente, quem vai ter que carregar tudo? Você.

Fernando: E pode ser bastante desesperador: a pessoa convive com uma pessoa deprimida e de sentir que não pode fazer nada, porque qualquer coisa que faz, a outra pessoa piora.

Cris: Essa sensação de impotência, ela é muito difícil de lidar. Chega um ponto que você fica assim ‘Mas até quando eu tenho que esperar?’.

Ju: Para falar um pouco mais sobre como é conviver com alguém com depressão, a gente vai escutar agora a Pérola.

DEPOIMENTO DA PÉROLA
Pérola: Meu nome é Pérola e eu sofro com a depressão desde os 16 anos. Na verdade eu nunca tive depressão, a depressão foi a depressão da minha mãe que desestabilizou minha vida logo cedo. Eu sinto como se eu tivesse perdido a minha musa inspiradora muito cedo, porque essa doença é terrível e ela desestabiliza não só a pessoa que tá doente, mas também quem tá ao seu redor. Eu lembro que na primeira grande crise da minha mãe, eu assumi a casa, eu tive que cuidar do meu irmão caçula, eu fui mãe dele, porque ela simplesmente não podia. Aí eu tive que fazer coisas e ser pra ela alguém que, aos 16 anos, era muito difícil. Mas eu fiz, eu tava lá. E a dor de não se sentir o bastante, sabe? De não se sentir suficiente me perseguiu a vida inteira. Primeiro eu fiquei muito frustrada, depois eu me revoltei, depois foi a culpa mesmo, eu me sentia culpada por não conseguir mais ajudar. Na verdade, não querer conviver com todo aquele sofrimento que não tinha mais nenhum sentido pra mim, eu não conseguia ver sentido em tudo aquilo. Só pensava ‘Porra, eu tô aqui, mãe’. E eu queria desesperadamente que isso bastasse. Ela se recuperou, claro. Ela se recuperou dessa primeira e de várias outras crises. Minha mãe foi uma pessoa… Uma pessoa incrível, assim… Ela não foi uma pessoa deprimida a vida inteira, como eu via no final, como eu sentia no final. Tava perdida. Na verdade ela era uma mulher inteligente, adorável, amorosa, dona de uma empatia muito acima da média. E eu amava ela demais. (Suspiro e princípio de choro) Mas em cada crise, eu voltava a ser criança. Eu voltava a ser aquela menina frustrada por não bastar, frustrada por não ser suficiente. E, assim, por mais entendimento que eu tivesse da doença, porque eu tive que acompanhar, tive que me aprofundar, nessa doença, não adiantava porque quanto mais ela precisava de mim, menos eu conseguia ajudar. O que eu quero dizer com esse depoimento, é uma coisa que nem todo mundo sabe, mas é que quem cuida de uma pessoa com depressão também precisa de ajuda pra poder continuar ajudando.

Fernando: Olha, a minha vontade de falar pra Pérola depois de ter ouvido o depoimento dela é: Pérola, não é culpa sua. Não é culpa sua. A sua mãe ficou doente. As pessoas ficam doentes e a gente não sabe por quê. Pode ser por muitas coisas, pode ser simplesmente uma coisa genética. E a sua mãe poderia ter, por exemplo, uma arritmia no coração e também não seria culpa sua. E é claro que cê vai fazer o que você puder pra que a arritmia no coração dela não piore. Tudo bem. Mas às vezes a gente não consegue fazer tudo isso. Ela teve uma doença, a doença foi grave e a gente sabe, na medicina tem muitas doenças que são refratárias ao tratamento, que a gente mesmo tentando tratar da melhor maneira possível, às vezes não melhora. E às vezes a medicina acaba focando mais em tentar adaptar a pessoa na presença da doença do que em obter uma remissão, uma cura total.

Ju: É isso que eu ia te perguntar, porque ela fala de várias crises. Como é isso? A depressão ela vem em fases, ela permeia sua vida inteira?

Fernando: A depressão, a princípio, ela é uma doença que é episódica, é uma doença episódica… Inclusive, o diagnóstico chama ‘episódio depressivo’, mas é uma doença com uma altíssima chance de recorrência, né. Então tem gente que diz que hoje em dia cerca de 50% a 60% das pessoas que tem um episódio depressivo na vida e que esse episódio é tratado corretamente, acabam tendo um novo episódio depressivo na vida e essa chance de ter mais um episódio depressivo vai aumentando a cada episódio, né? Acaba sendo semelhante com a própria epilepsia, que a cada convulsão que a pessoa tem aumenta a chance dela ter uma nova convulsão e outra. E o caso, provavelmente, da mãe da Pérola, assim como de muitas pessoas, acaba às vezes sendo isso, de pessoas que têm uma depressão que é do tipo recorrente. A depressão sempre volta. Esses são os casos em que a pessoa precisa tratar a vida inteira. É como se fosse uma miopia, que ela tem que usar o óculos a vida inteira, ou uma hipertensão.

Ju: Mas existe um check-up, por exemplo, pra prevenir? Porque, por exemplo, se você falar ‘Ah, doenças do coração: elas também são genéticas assim como a gente sabe que uma boa parte da depressão… Ela também é genética. Em estudos tem um percentual muito grande de depressivos que tem mães depressivas ou alguém da família é depressivo’. Se eu tenho, por exemplo, alguém na minha família que tem câncer, eu tenho que fazer periodicamente check-ups para câncer. Existe isso em termos de depressão?

Fernando: Check-up não. Mas se você tem um familiar de primeiro grau próximo com depressão, sim, aumenta a chance de você algum dia desenvolver depressão e aí a gente começa a pensar em formas de prevenir a depressão. Então, como o próprio Pedro tinha falado antes: atividade física é uma excelente forma de prevenir a depressão; a meditação é excelente forma de prevenir a depressão; terapia, outra excelente forma de prevenir a depressão; a alimentação saudável, preferir alimentos (vegetais, frutas, legumes) menos processados, né, do que cheese-egg-bacon com salada e maionese ou bolacha recheada, tudo isso tende a ter mais consequências piores.

Pedro: Vá, ouvinte, ao Google agora, digite dieta do Mediterrâneo. E é essa dieta que você tem que tentar colocar na sua vida. Na verdade há várias, mas esse é uma das mais estudadas pela medicina e, sem sombra de dúvida… Se você parar pra pensar que Platão, numa época que não existia nem antibiótico, nem privada, viveu 80 anos. Há algo de interessante na forma como ele vivia. Platão era um atleta, né? Platão significa ‘ombros largos’. Platão ele se alimentava da dieta do Mediterrâneo. Platão era um cara que mantinha seu cérebro ativo, né, afinal de contas, era um grande filósofo. Todas as práticas que são importantíssimas para manutenção de saúde mental.

Ju: É importante ressignificar a dor? A gente está falando aqui agora de como conviver uma vez diagnosticado, já feito o tratamento. Então, assim, a gente sabe que você tem que se manter atento aos sinais, você vai se conhecer melhor e você vai se manter atento aos sinais do seu corpo, do seu comportamento, do seu humor. Mas, com relação a quando o depressivo olha pra trás, pra experiência dele, é importante ele ter uma elaboração disso?

Ciça: É, Ju. Sem dúvida a ressignificação da dor do sofrimento do episódio depressivo é que já chega à cura. Ele vai ressignificar todo o processo de sofrimento, de dor emocional psíquica pela qual ele passou e isso também ajuda, dentro do que nós estamos falando aqui de coisas preventivas, né, há uma prevenção porque se ele tiver de novo, novamente, beirando a um novo episódio ele já vai saber melhor como lidar com aquilo, vai buscar ajuda mais rapidamente, principalmente ir ao psiquiatra vou continuar ou voltar ao processo terapêutico. Eu acrescentaria também o quanto é importante os pensamentos positivos, já que a depressão ela é permeada de negativismo, então o esforço… Você pode fazer um esforço, isso pode ser treinado e aprendido a ter pensamentos positivos. O pensamento positivo no sentido de você estar em contato com a realidade. O quanto algo que você pode estar planejando pro futuro, pode, há probabilidade de dar certo ou errado, mas também de dar certo e errado, não só errado, entendeu? O paciente depressivo ele vai sempre achar que vai dar errado, né? Então, o quanto você pode no seu dia-a-dia ter pensamento positivo nesse sentido, não como auto-ajuda. OK? Uma coisa mais… No sentido de você sabe a realidade, qual é, porque isso é muito importante. O depressivo, às vezes, ele vê as coisas enviesadas, né? Nem sempre o depressivo ele vê a realidade como a realidade é. A realidade, muitas vezes, também pode ser boa, depende muito da maneira que cada um julga a situação. Então, cada depressivo, é um depressivo em especial. Então, voltando no pensamento positivo, o quanto isso auxilia o cérebro, o Pedro pode me orientar melhor aqui, esclarecer melhor, na condição das substâncias químicas.

Pedro: Claro. É difícil estabelecer esse nexo de causalidade, dizer o que é causa e o que é efeito, né, porque, claro, o quanto você tem de controle sobre determinadas coisa é uma coisa que é muito complexa de se discutir, né, porque tá falando…

Ciça: E é o que as pessoas mais buscam, né, a garantia do dia de amanhã…

Pedro: E a certeza de que você possui as rédeas da sua vida, de maneira absolutamente controlada. E não é assim, né? O próprio conceito de julgamento, se você parar pra pensar, ele é sempre positivo, no sentido de que há uma ação: o mundo ele é, o mundo não é bom ou ruim, ele é. O universo existe, as folhas caem no outono, o céu é azul. Quem atribui valor às coisas é um cérebro humano que olha pra esse mundo e interpreta nessa realidade determinadas características onde você coloca isso num espectro de positivo ou negativo. Então, por isso que eu digo que, claro, o depressivo ele vai ter uma característica de ser mais realista e, por vezes, mais pessimista, só que devemos perceber que o oposto, olhar para o mundo de forma positiva, é ativo também, existe uma certa ação, então tem algo de postura nisso. Sem sombra de dúvida. Eu conheço pessoas que se glorificam pelo seu pessimismo e acham que isso é bom e fazem um exercício de pessimismo na hora de olhar a realidade. Só que também temos que entender que boa parte desse pessimismo, ou realismo exacerbado do depressivo, não está sobre o seu controle. É uma manifestação de um olhar para o mundo, como você olha pro céu e interpreta como azul, ele olha pro mundo e interpreta como cinza no sentido mais afetivo. Então, sim, há algo de postura, claro, mas também há algo que tá muito fora do nosso controle e se alguém aqui que está me ouvindo já acordou triste, onde estava no teu controle acordar triste? Onde tava no teu controle sair da tristeza por um mero desejo, né? Não é bem assim.

Ciça: É, exatamente. É importante nós sabermos e como é difícil obter essa conscientização de que nós não temos garantia da nada e controle de nada.

Pedro: E aí, quando você fala da meditação, que já foi dita pelo Fernando como algo que é muito benéfico, a medição ela reestrutura teu cérebro. O teu cérebro ele fica estrutural e funcionalmente diferente depois que você pratica meditação todos os dias por um mês, né, fazendo com que teu cérebro funcione melhor. A meditação é um ótimo exemplo de algo que você escolhe fazer, que é ativo e que causa alterações que são fisiológicas e as consequências fisiológicas são uma vida psicológica mais saudável, uma vida psicológica melhor, mais alegre, mais feliz, mais focada, mais motivada e por aí vai.

Ciça: É interessante também você falar das escolhas, né, a motivação pras escolhas. Como isso é importante também. Já que nós estamos falando da falta de vontade, nem sempre a vontade é o que nos dirige e sim as escolhas, ou seja, as escolhas com os pés no chão, em contato com a realidade e como a realidade é difícil, às vezes, de ser enxergada diante das expectativas, de ideais, de ilusões que as pessoas criam em volta da própria vida. E quando elas abrem a cortina, né, tiram o óculos escuro e o pensamento está todo enviesado, ela entra em contato com a dor, com o sofrimento, o mundo desmorona e ela percebe a realidade que está em volta dela e como ela vai dar conta daquela nova realidade. Por isso é importante talvez, depois de um episódio depressivo que seja na vida, você dar um novo significado, você ressignifica a dor através da vida.

Fernando: Eu tenho uma grande amiga que ela sempre fala dos dois sentidos da palavra cura. Existe a cura como a eliminação completa da doença, de qualquer problema, que a pessoa tinha uma doença e não tem mais e existe a cura do queijo, que ele passa por um processo e se transforma em outra coisa, de repente uma coisa até mais gostosa.

DEPOIMENTO DA SAMARA BARROS
Samara: Meu nome é Samara Barros, tenho 34 anos, sou publicitária e criadora do site ‘Mãelévolas’ e eu tive depressão pós-parto. Depois do nascimento do meu filho eu tive obviamente a exaustão, o cansaço dos primeiros dias em casa, privação de sono, mas, além disso, eu sentia um sufoco, uma falta de ar, uma angústia que ficava pior no final do dia. E como esses sintomas são parecidos com os do ‘Baby blues’, eu achava que era isso e que ia passar. Mas depois do primeiro mês não passou, foi ficando pior, veio o segundo mês e eu comecei a sentir aquele medo de ficar sozinha em casa, eu tinha um pânico, um pavor, que eu não conseguia explicar o que era e eu ficava apática quando eu estava com outras pessoas. Em almoço de domingo, por exemplo, eu tava completamente irreconhecível, eu não conseguia interagir. Eu só sentia aquele pavor muito forte e só melhorava quando estava com meu marido, quando eu estava com a minha mãe. E aí minha mãe precisou viajar, eu tive minha primeira crise que foi uma explosão de choro, de desespero, uma coisa que eu não conseguia mais controlar. Sentia uma pressão muito forte no peito, parecia que tinha alguma coisa me empurrando, uma falta de ar horrorosa. No dia seguinte, eu procurei um psiquiatra e depois de uma conversa de uma hora ela deu até um diagnóstico que era depressão pós-parto. E pra mim aquilo foi um alivio, porque pelo menos eu sabia agora que tinha um nome o que eu estava sentindo. E ela me explicou que isso é uma doença, que era químico, que precisava ser tratado com medicamento e que aconteceu, no meu caso, em decorrência duma queda brusca hormonal, mas também somada a uma cobrança muito forte, uma ansiedade, uma expectativa muito alta acerca da maternidade, que obviamente não aconteceu porque a realidade é bem diferente do que vendem para a gente, nesse caso. E o que ela me disse e que me marcou muito é que a partir daquele momento eu deveria fazer somente aquilo que me desse vontade, que eu não deveria me forçar a nada. Ela explicou até que os depressivos tendem a eleger alguns portos seguros e foi por isso que eu precisava, assim, eu só queria estar junto com a minha mãe ou junto com meu marido. E naquele dia eu voltei pra casa, esperei minha mãe voltar de viagem, catei minha mala, peguei meu filho e me mudei pra casa dela. Comecei a tomar o remédio e ali começou acho que o segundo maior desafio que era fazer as pessoas entenderem o que eu estava passando, porque é muito difícil as pessoas compreenderem, ninguém sabia por que eu estava na casa da minha mãe e não na minha casa, as pessoas queriam vir visitar e aí eu tinha que explicar que eu estava na casa da minha mãe. E quando eu falava, porque eu sempre fiz questão de falar a verdade, vinham sempre aqueles comentários, tipo, ‘Ah, mas isso é normal. A gente fica meio chateado mesmo de ficar em casa mas vai dar uma volta, tomar um café que isso passa’. As pessoas não têm realmente… Zero a noção da dimensão do que é isso e que isso é uma doença, enfim. Então cê tem que ser muito paciente. Com isso, eu comecei a ficar muito… Eu não conseguia me conformar com o fato das pessoas não saberem o que é a depressão, o que é a depressão pós-parto, porque ninguém fala sobre isso. As pessoas te preparam pra amamentação, te preparam para o parto seja lá qual for o tipo, mas ninguém fala que isso existe. As pessoas precisam saber. Então, quando eu já estava muito… Assim, depois de dois meses, três, fazendo a terapia, tomando a medicação, eu me senti bem, comecei a me sentir bem melhor, eu voltei a trabalhar e eu falei ‘Eu quero publicar essa história, porque eu quero que todo mundo saiba o que eu passei pra que fique mais fácil para as outras pessoas entender se elas passarem pelo mesmo’. E quando eu fiz o post no blog…

(início do Voice Typing feito pela Ju Matsuoka, ajeitado por Leticia Dáquer)

…falando sobre isso a repercussão foi bem interessante, porque tanto pessoas conhecidas, amigos, que acabaram confessando que já tiveram alguma coisa do tipo que toma o remédio pra isso, pessoas super próximas que nunca tinham falado sobre isso, quanto também conhecidos que vieram e se aproximaram, e até hoje, que faz mais de um ano isso, algumas pessoas falam ‘nossa, eu li seu texto, super me emocionei, eu também passei por isso’, e em alguns casos as pessoas dizem que ainda estavam sentindo tudo aquilo mas sentiam vergonha de procurar ajuda, até porque os familiares também não entendiam. É difícil pras pessoas ainda compreenderem como é que alguém tem um filho super lindo, super saudável e não tá feliz com aquela situação. Por isso que eu decidi sempre contar essa história toda vez que eu tenho uma oportunidade. Na semana passada meu filho fez 1 ano e eu percebi que em alguns momentos, principalmente agora, que a gente vai lembrando do quê que a gente tava fazendo um ano atrás, aqueles sintomas ainda voltam, então quando eu tô com ele em casa, tranquila, tendo um momento legal e tal, de vez em quando ainda vem, parece que tem uma cutucada lá, de medo e de alguma outra coisa que eu sentia na época. Eu acho que é um trauma igual àquele joelho da gente que dói quando o tempo esfria, sabe. Acho que ele sempre vai tá lá de alguma forma.

Ju: Pobre não tem depressão? Isso é problema de rico?

Pedro: Pobre tem depressão, tem muito mais até que os ricos, até. Os principais estudos dizem que quanto mais carente a população, maior o índice de depressão. E também é comum as pessoas que têm um nível sócio-econômico melhor conseguir explicar isso melhor, tipo, conseguir dizer ‘eu tô triste’, ‘eu tô sentindo muita angústia’, enquanto que às vezes a pessoa que tem um nível sócio-econômico pior às vezes dizem ‘eu tô com dor’, né, ou ‘eu tô nervoso’, e não consegue significar isso tão bem. Aí é mais comum a pessoa procurar ajuda só pra sintomas físicos, como dor de cabeça ou dor nas costas, ou dor no estômago, sei lá, do que falar que tá sentindo angústia. Também acredita-se que as pessoas mais pobres e elas podem ter mais depressão que as pessoas mais ricas porque elas são mais doentes, elas têm menos acesso à saúde, e também assim, as pessoas que são ricas, elas mesmas se perguntam, ‘poxa, eu não tenho nenhum problema, eu tô bem, eu tô casada, eu tenho emprego, eu não tenho dívida, eu não teria porquê estar me sentindo tão mal’. Enquanto que a pessoa que às vezes tem um nível sócio-econômico pior, ela já tem tanto problema na vida que aquilo parece que condiz, ‘claro que ela tá deprimida, claro, ela tem um monte de problema’, e nesse sentindo ela acaba ficando mais tempo deprimida e demorando mais tempo ainda pra pedir ajuda.

Ciça: É interessante também que muitas pessoas com poder aquisitivo maior às vezes um episódio de depressão, os questão em volta perguntam ‘nossa, mas ela tem tudo, não falta nada, como é que ela deprimiu?’ E hoje ainda bem, né, Fernando, tem o CAPS, o Centro de Apoio Psicossocial, que atende as pessoas mais carentes e que às vezes essas pessoas não têm um repertório maior, né, como uma pessoa com o intelectual mais desenvolvido, mas elas às vezes têm uma aceitação, uma adesão à medicação maior do que uma pessoa com mais esclarecimentos.

Fernando: E uma coisa gravíssima, sim, nós temos hoje em dia serviços públicos de amparo a essas pessoas mas quando você olha a verba que a psiquiatria possui na saúde pública e você compara isso com o volume de anos de vida saudáveis que são perdidos e o custo que isso vai gerar em termos de produtividade, não condiz, a conta não bate, a gente não tem verba suficiente, a gente tá carente dentro dos hospitais públicos de maior investimento pra que a gente consiga atender melhor a população, sem sombra de dúvida.

Ciça: Isso me traz desesperança.

Fernando: Mas, eu diria, tem melhorado, infelizmente não na velocidade que talvez fosse ideal, mas tem melhorado.

Ju: Ciça, pessoas felizes não têm depressão?

Ciça: Têm, sim. Primeiro, o que é a felicidade, né? O que é a felicidade, a felicidade ela é constante? Não, né. Você pode ter momentos felizes, momentos de alegria e momentos depressivos.

Ju: Mas é que tem pessoas que você reconhece socialmente como pessoas muito funcionais, muito felizes, são a alegria da festa, o palhaço também pode ter depressão?

Ciça: Claro que sim. O palhaço inclusive é a figura a depressão, né? Você vê que o palhaço tem cara de choro, né, o riso dele é como se fosse um choro, né. Agora, pessoas às vezes com muita alegria de viver, colocaria assim, não a felicidade, né, uma alegria de viver constante, também pode ser acometida de uma depressão, de um episódio de depressão.

Fernando: A gente teve um… dois episódios bem traumáticos recentes, que foi o suicídio de um membro lá Hermes e Renato, inclusive o suicídio do Robin Williams também, que foi…

Ciça: Exatamente…

Fernando: …duas pessoas que eram tidas como incríveis humoristas, e que enfim…

Ciça: Bem lembrado, Fernando.

Pedro: No quadrinho chamado Watchmen, o Alan Moore descreve um episódio que eu acho interessante, que o sujeito chega no médico, no pronto-socorro, e fala, ‘doutor, não vejo sentido na vida, não tenho vontade de levantar da cama, não tenho vontade de fazer nada, tudo o que eu faço é triste, tô angustiado o tempo inteiro, quê que eu faço?’. O médico vira pra ele e fala, ‘ué, o grande palhaço, o Pagliacci, tá na cidade, vá ao circo assisti-lo e você vai ficar melhor’. E o sujeito vira e fala, ‘mas doutor, EU SOU o Pagliacci’. Acho que isso de uma forma poética demonstra exatamente que às vezes aquela fronte, aquela coisa que você vê, aquela maquiagem que você vê da alegria, esconde por trás daquilo muito mais coisa. E no artista isso é muito crítico, né, na pessoa pública isso é muito crítico.

Ciça: Eu colocaria também o quanto cada um tem seus recursos emocionais pra lidar com situações que podem levar a episódio de depressão, a situações depressoras, às causas de risco, então o quanto de recurso emocional, ou seja, quais são as ferramentas que a pessoa tem para lidar com as situações de sofrimento, de desgaste, os traumas, as lembranças que ficam, as lembranças indesejadas, que percorrem às vezes, ficam lá escondidas no subconsciente, né, no cérebro, e acabam afetando a vida dessa pessoa nas crenças, né, eu sou incapaz, eu sou burro, eu tenho defeito, são crenças negativas que a pessoa acaba elaborando a partir de uma situação. Então aí a terapia cognitiva ela é muito eficaz pra ressignificar a dor. Eu tenho uma paciente, hoje ela tá com 32 anos, ela se apresenta assim: eu me chamo Marieta e desde os 5 anos de idade eu sou depressiva. Ela se apresenta como depressiva. Marieta Depressiva, é o sobrenome. Então nós estamos fazendo um trabalho de ressignificar os momentos que ela deu sentido para a vida dela acerca das experiências com os pais, os avós, então ela está ressignificando todas essas situações.

Ju: Pra finalizar, Ciça, pessoas fortes não têm depressão? Depressão é pros fracos?

Ciça: Quanto mito, né, quanta crença inadequada… O que é uma pessoa forte, né? O que é uma pessoa fraca? Dá pra definir isso, Fernando?

Fernando: Acho muito difícil, né. A força pode tá em muitos aspectos diferentes da gente.

Ciça: Exatamente. E às vezes o que pode pra um parecer uma fraqueza, praquela pessoa é onde ele encontra força. Às vezes as pessoas costumam por falta de repertório de entendimento, né, de um vocabulário mais específico, às vezes, acabam distorcendo um pouco, né, o que uma pessoa num estado depressivo pode tá falando, como ele se manifesta perante aquele episódio, então uma pessoa forte, o que é ser forte? É estar funcional no dia-a-dia? É estar alegre? É ser feliz, né? Será que isso é ser forte também?

Ju: Não, mas eu sobrevivi, passei bem por pobreza, eu sou um homem que eu me construí sozinho, eu sobrevivi à morte da minha mãe, sofrendo, claro, mas eu aguentei isso, eu aguentei o trauma da separação com os meus filhos pequenos, eu aguentei quando a minha empresa quebrou, eu sou um homem forte, eu não tenho depressão. Não é pra mim, entende, depressão é coisa de gente fraca.

Ciça: É, eu diria que você pode ser um homem saudável. Essa fortaleza, né, esse homem forte que você se diz ser, ele pode ser emocionalmente saudável. Então é o significado que ele tá dando pra cada perda. Agora é óbvio também que tantas perdas assim vai chegar uma hora também que a pessoa vai dizer ‘Peraí, eu quero deprimir’, né, Fernando, vai chegar uma hora que alguém, será que tem alguém tão resistente assim? Aí entra a resiliência também, né.

Fernando: É, a gente até imagina que devem ter pessoas muito saudáveis, muito saudáveis, que são capazes de enfrentar muitos problemas, muitos traumas, e não ficarem deprimidos. Não é o que acontece na maioria das vezes. A gente vê a pessoa que enfrenta muitos traumas, tendo a força que for, fica deprimida, ficando mal. Eu também tive um paciente que… Por ser homem, por ser bastante… machista, até, e muito forte. Ele ficou anos e anos deprimido, extremamente irritado, e brigava com as pessoas na rua, por qualquer motivo, e apanhava também. E quando ele conseguiu finalmente pedir ajuda, e ir numa consulta, conversar comigo sobre as coisas que ele sentia e chorar bastante, isso, claro,

começou o tratamento naquele momento, ele melhorou tanto tanto tanto tanto tanto, ele parecia um relato vivo, sabe, que pessoas fortes deprimem.

Pedro: Se você tá ouvindo isso tudo então e você acredita que é ou já foi diagnosticado como depressivo ou convive com uma pessoa depressiva saiba que apesar de tudo de ruim, é óbvio, que a doença traz, nós estamos num momento hoje no mundo onde nunca houve tantos pesquisadores, médicos, psicólogos, profissionais da saúde que estão empenhados em resolver esse problema, em descobrir formas e terapêuticas para que as pessoas vivam melhor. Então saiba que não é uma sentença de morte, não é uma coisa que vai fazer com que pra toda a eternidade a sua vida deixa de fazer sentido, jamais. Hoje a gente tem caminhos, e não são poucos, pra que a vida melhore, pra que a depressão melhore, só que tem uma questão que é muito importante, que é você precisa dar um passo, fazer alguma coisa a respeito, e sobretudo você precisa entender que isso não é uma jornada que você enfrenta sozinho. O apoio ele é crucial, a busca de um profissional ou de profissionais é essencial, a busca de pessoas queridas pra rodear você também é muito importante, e acima de tudo não ache que é uma coisa que você vai esperar e aí eventualmente vai passar, porque muitas vezes se a tua postura for passiva, você só tá se condenando a ficar mais tempo ainda com isso. Quando você estende a mão pra pedir ajuda, talvez seja esse momento onde a tua vida vai começar a mudar. Não tenha medo, não tenha vergonha, dê um primeiro passo, eu prometo a você que a vida pode melhorar sim. E irá.

Ciça: Eu gostaria só de acrescentar mais um passo importante na questão da prevenção, dentro do que o Pedro tá falando, a questão da habilidade social. O quanto a habilidade social pode ser benéfica a auxiliar e manter bons relacionamentos sociais, né? Isso pode ser um componente benéfico pra prevenir alguns quadros depressivos.

[Sobe trilha]

[Desce trilha]

Cris: Vamos então para o Farol Aceso. Vamos começar com as visitas. Vamo lá, Fernando! O quê que cê tem aí para indicar?

Ju: Compartilhe sua sabedoria conosco!

Fernando: Olha, eu gostaria de indicar pros ouvintes uma artista que eu tenho ouvido bastante ultimamente, que é a Lana Del Rey. Então… Poxa! Todas as músicas dela, vai. Parece coisa de bicho-grilo, é super alternativo, meio deprê até, mas ela manda bem demais.

Cris: Pedro?

Pedro: Bom, já devem tá cansados de ouvir isso, mas vai de novo. Se você está sentado, levanta a bunda da cadeira, vai se exercitar. Se alimente melhor e sua vida com certeza vai mudar. Também se você tá sentado e quer permanecer sentado ou já voltou da academia, o que você faz é entrar no canal da ‘Casa do Saber’ no YouTube, eu sou um dos professores da casa, mas tem outros professores muito melhores do que eu (risada da Cris) e é um lugar bastante bacana de você aprimorar seu conhecimento. Pílulas de ideias muito legais pra gente pensar melhor.

Cris: Tá certo. Ciça, querida. Quê que você indica?

Ciça: Ai, eu indico o documentário da Estela Renner ‘O começo da vida’, que eu acredito que tem tudo a ver com tudo o que nós falamos hoje, né? Como você cria um cidadão para o mundo. E também indico sessões de EMDR, o Brainspotting, para superação de vários transtornos mentais.

Cris: E vamos chamar aqui Gustavo, né, pra aproveitar essa visita aqui e vir indicar alguma coisa bem interessante pra gente. Gustavo, o quê que cê manda, querido?

Gustavo: Bom, vou dar duas dicas então, aproveitando que Mamilos é sempre em dois. A primeira é um blog que chama ‘Africanamente’, que eu acabei de descobrir que a Cris Bartis seguia esse blog (Risada da Cris). E por acaso ele é meu. Eu comecei um projeto sobre as experiências que eu vivi na África como voluntário, então eu compartilho essas experiências e ajudo pessoas que também querem ir pela primeira vez. Eu senti muito a falta desse diálogo. Então, hoje me coloco à disposição. ‘Africanamente’.

Cris: Eu comecei a ler e é bem legal, gente. Entra lá.

Gustavo: Olha só, né? Melhor propaganda que essa, não tem. Então ‘africanamente.com’ também tá no Facebook: Africanamente. O outro, que é um filme que eu lembrei muito durante o papo aqui hoje, é o ‘Alive Inside’. Ele tá no NetFlix, pra variar, e fala sobre idosos com Alzheimer e um tratamento com base na músicas que fizeram parte da história deles. É o filme que eu mais chorei na minha vida, mas um choro que não tinha nada de dor. Era um choro extremamente de inspiração e alegria. Então, eu recomendo demais para as pessoas, ‘Alive Inside’.

Cris: Boa. Ju?

Ju: Eu peço para que vocês, por favor, assistam dois TEDs do Andrew Solomon, o ‘Depressão, o segredo que compartilhamos’ e o ‘Como os piores momentos de nossa vida nos tornam quem somos’. Por favor, assistam. Além disso, a gente vai colocar na pauta uma série de vídeos que nos ajudaram a estudar pra pauta, que, assim, são supercurtinhos e são mais didáticos, mais… Tem metáforas muito bacanas para entender a depressão. Então sugiro que vocês acessem os links da pauta. Além disso, de novo, vou voltar a indicar o livro ‘O carrasco do Amor’ do Irvin Yalom. Ele é um psiquiatra e ele vai fazer estudo de caso, vai mostrar o estudo de caso de sete pacientes que falam sobre as ilusões que todos nós temos, as grandes ilusões da vida que nos protegem para que a gente viva e o que acontece quando esse véu se rasga e a gente é obrigado a confrontar a realidade que é difícil de encarar, como a morte, envelhecer, solidão, enfim, essas coisas. E por último, eu passei o fim de semana passado em três festas juninas em um fim de semana. Passei por duas fogueiras, uma festa supersignificativa na Waldorf, que é a Festa da Lanterna, e passar um fim de semana completamente alheia de discussões, de tretas e textões, e superenvolvida em uma coisa básica como olhar o fogo e cantar músicas até elas virarem mantras, me fez acreditar muito mais na gente, no nosso potencial como comunidade, que eu acho que discutir as problemáticas toda semana no ‘Mamilos’ vai, às vezes, minando um pouco a nossa confiança em como a gente tem a capacidade de, como sociedade, resolver problemas. Então, reunir pessoas ao redor da fogueira, cantar músicas e a gente olhar um pro outro e enxergar que a gente funciona como comunidade é uma coisa que faz bem. Então, aproveitem as festas de São João, as festas juninas, pra estar em comunidade, observar a fogueira e se dar esse tempo. Aproveitar esse momento de reflexão. Cris?

Cris: Eu vou indicar uma playlist no Spotify muito especial, que tem feito muito sucesso, uma curadoria de altíssimo garbo e elegância, feita pela minha filha. Então, é numa experiência incrível que o AG sentou com ela pra fazer e eu achei muito legal. Ela ia escutando a música e ela falava ‘Essa vai pra playlist’, ‘Essa não’. E dentro das músicas que ela foi escolhendo, depois eu fui ouvir, eu falei ‘Filha, por quê que você colocou, tipo, Garota de Ipanema?’, ela ‘Ah, eu acho bonitinho’, e tipo como que ela aprecia cada sonoridade. Aí o outro ela escolheu porque tem uma palavra. Aí ela escolheu ‘Preta, preta, pretinha’, aí ela falou ‘Ah! Parece que essa música foi feita pra mim’. (Risadinha da Ju). Falei ‘Como é convencida, né?’ Eu tô criando um monstro. E aí tem… Ela fez uma playlist Brasil e agora ela está trabalhando a playlist Dance. Então tá impossível. Curtam lá, a playlist tá dentro do perfil do AG, a playlist da Tamires que chama Brasil. E minha filha tem muito bom gosto, viu? Eu fiquei bem feliz de ver. É isso então? Temos um programa?

Ju: Temos.

Cris: Temos um longo programa. E no finalzinho, uma surpresa pra vocês, meus queridos: nós estamos saindo de férias. Sim, não chorem, não adianta ficarem malucos, férias escolares começam na semana que vem, crianças loucas em casa, trabalho acontecendo. ‘Mamilos’ de molho, ‘Mamilos’ de férias. Durante o mês de julho, curtam todos os programas, assista…

Ju: Façam maratona.

Cris: Ouçam tudo aquilo que cê falou ‘Ai, já tem um outro então não vou ouvir esse’. Então volta lá, agora é hora de ouvir. Em breve estaremos de volta. Muito obrigada, beijo!

[Sobe Trilha: ‘Eu vou construir / Tão breve / Tão breve / Tão breve’]

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