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Assediada

Assediada

por Anna Castanha

• Texto em resposta à crônica “Assédio”, de Stalimir Vieira, publicada no dia 4 de dezembro de 2017 no jornal Propmark.

Preciso confessar uma coisa. Por muito tempo eu tive que suportar um profundo nojo de você. Acordava de manhã, já tremendo de medo por saber que estaríamos dividindo o mesmo ambiente para, como sempre, aguentar você chegando, sorrindo um bom dia lascivo entre os lábios úmidos e os dentes arreganhados. Você não percebia, mas, quando eu sentava ao seu lado e ligava meu computador, fechava os olhos e desejava sumir dali. Para, em seguida, reabri-los e perceber que você estava com seus olhos fixos em mim, sem a menor cerimônia, me constrangendo, como um predador escolhendo qual parte do corpo da presa atacar primeiro. Como eu odiava a ideia de você tocar em mim…

E levantar para buscar café? Era um inferno. Eu sentia seus olhos acompanhando pedaços do meu corpo aonde quer que eu fosse e, assim, eu sempre me via perseguida e abusada. Me sentia constantemente desnudada, sem liberdade de ir e vir, só porque sou mulher e você, homem.

Eu tentava disfarçar fazendo de conta que estava de olho no Instagram, mas nem assim você se tocava do quão inconveniente era, muito menos do abuso que infringia em mim. Certo dia, quando eu me curvei para falar com um colega, sentada à sua frente, percebi que você não tirava os olhos dos meus seios e senti vontade de chorar. Você era meu chefe, eu precisava daquele emprego e se eu denunciasse seu comportamento abusivo, quem acabaria no olho da rua seria eu. Aliás, não só ficaria desempregada como queimada no mercado.

Sei bem como funcionam as empresas. Quem manda são os homens, sempre em grandes cargos do alto escalão. Nos tratam como meros objetos decorativos em reuniões.

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A partir desse dia os assédios ficaram ainda mais graves. Você começou a jogar indiretas sobre almoço a sós, jantares depois do expediente e a me questionar constantemente o que eu pretendia fazer no final de semana. Eu me esquivava; fazia de tudo para cortar o assunto. Minha vontade era de mandar você à merda, exigir que você tivesse o mínimo de respeito por mim, sua funcionária. Nunca tive coragem. Sei bem como funcionam as empresas. Quem manda são os homens, sempre em grandes cargos do alto escalão. Nos tratam como meros objetos decorativos em reuniões, não nos deixam expressar nossas opiniões, isso quando não roubam nossas ideias. E se resolvemos elevar o tom de voz, nos fazer ouvidas, podemos até ser mal interpretadas.

Você não fazia questão de disfarçar o quão mal-intencionado estava. Na verdade, não era uma questão de intenção, mas o quanto você não respeita as mulheres que trabalham na mesma empresa que você, principalmente se são subordinadas. O tempo passa e o nosso chefe chama você e lhe oferece uma promoção. Mais que uma surpresa, foi um alívio, pois você ficaria afastado de mim. Na manhã em que ele juntou a equipe e fez o comunicado formal, quase não escutei nada do discurso porque você, asqueroso como sempre, me olhava como se eu fosse uma refeição, na frente de todos os presentes. Eu me senti invadida, desnuda à força, como todas as vezes em que você me encarava. Sabia que essa promoção significa para você mais dinheiro e mais poder, o que com certeza faria com que você se achasse no direito de assediar ainda mais as mulheres da empresa. Por outro lado, você ganhou uma sala e ficou finalmente isolado. Era como se eu tivesse ganhado aquela promoção, pois a partir de então passei a ter cada vez menos o desgosto de olhar na sua cara.

Um dia, eu tive que entrar na sua sala para tratar de um assunto que dependia da sua aprovação para ir adiante. Respirei fundo. Me preparei o dia todo e engoli o asco. Não suportava a ideia de ficar sozinha numa sala com você, pois sabia que era a oportunidade para você me assediar, e ainda não haveria ninguém por perto para provar o que eu tinha vivido até pouco tempo atrás.

Tive que mostrar o trabalho na sua máquina. A empresa nos fornecia computadores sucateados, por isso diversos formatos de arquivos só eram possíveis de serem abertos em algumas poucas máquinas. A sua era uma delas. Fui obrigada a sentar do seu lado para explicar o job, o que me embrulhou o estômago. Pensei comigo mesma:

“Engula no nojo. Seja firme. Você precisa desse trabalho. Você tem um filho pequeno que depende só de você e esse desgraçado sabe disso. É por isso que ele não faz questão de esconder o assédio. Ele sabe que você está nas mãos dele aqui dentro”.

Você forçou uma situação para tocar o seu braço no meu e eu procurei manter a imagem do meu filho na mente para não cuspir na sua cara. Tentei ser o mais objetiva possível. Senti que você estava prestes a fazer um comentário qualquer, algo engraçadinho, e me levantei num ímpeto. Pensei de novo no meu filho, nas diversas madrugadas viradas trabalhando graças às suas exigências, sem aumento, no quanto meu esforço durante todo esse tempo nunca foi valorizado e no quanto eu vinha sendo oprimida, silenciada e abusada por você. Sem pensar, falei: “Chefe, tô precisando de um aumento”. Você se levantou também. Com certeza não esperava por isso. Eu tremia de nervoso; era a primeira vez que eu enfrentava você. Mas eu estava farta. Ficou claro que você, no alto da sua frágil masculinidade, não sabe lidar com mulheres fortes. Infelizmente, de tanto apanhar, eu me tornei uma. Aí você não aguentou e pediu demissão.

Fiquei tão feliz, você nem imagina o quanto. Mais feliz ainda foi minha trajetória depois da sua saída. Eu finalmente pude ser valorizada, ouvida, expressar minhas ideias, ter um salário compatível com meus colegas homens. Eu deslanchei.

A propósito: minha vida amorosa é problema meu. Vai cuidar da sua.

Anna Castanha é especialista em Diversidade e Comunicação, e proprietária da Iden Consultoria de Marketing LGBT.

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