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Em “Os Últimos Jedi”, Rian Johnson explora novos cantos da galáxia

Em “Os Últimos Jedi”, Rian Johnson explora novos cantos da galáxia

Oitavo episódio de “Star Wars” tem homenagens a Carrie Fisher e alguns dos melhores momentos de toda a franquia

por Virgílio Souza

Oitavo capítulo, “Os Últimos Jedi” é um filme bem diferente de seus companheiros de franquia. Se os primeiros minutos de projeção levam o espectador a um território familiar, com ajuda do clássico tema musical de John Williams e do tradicional letreiro amarelo, o que vem a seguir trata de subverter grande parte das teorias cultivadas pelo público. Rian Johnson, que assume a direção no lugar de J.J. Abrams, está mais interessado em contar sua história do que em atender os desejos dos fãs ou mesmo seguir um esquema mais convencional, como aquele tomado como referência (com enorme sucesso) por “O Despertar da Força” há quase dois anos.

Uma vez estabelecidas as bases desse universo, refundado com novos personagens que seguem novas trajetórias, o diretor/roteirista se vê confortável o suficiente para nos lançar diretamente na ação, e aí as mudanças já começam a aparecer. O fato de esse ser o primeiro “Star Wars” a seguir de imediato os eventos de seu antecessor não atrapalha seus planos. Ao contrário: mesmo o cliffhanger mais imediato do filme anterior, envolvendo o encontro de Rey (Daisy Ridley) e Luke Skywalker (Mark Hamill), surge visto com outros olhos, tratado de uma forma inesperada em prol da narrativa atual.

“Os Últimos Jedi” se aproxima mais de “O Império Contra-Ataca” do que de qualquer outro episódio da franquia

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Nesse sentido, a quebra de expectativas ocupa uma posição central na proposta de Johnson. Ao espalhar os personagens pela galáxia, formando núcleos bem definidos, o roteiro permite explorar possibilidades inéditas com relação não apenas a suas jornadas pessoais, mas também no que diz respeito à mitologia da série como um todo. Interações conhecidas, como aquelas entre mestre e aprendiz ou piloto e comandante, ganham nova roupagem, e questões como o equilíbrio entre luz e escuridão rendem discussões mais complexas do que a divisão sugeria anteriormente.

Rian Johnson no set

Se não levarmos em conta as inversões na trama, apenas o molde ou ponto de partida, “Os Últimos Jedi” se aproxima mais de “O Império Contra-Ataca” do que de qualquer outro episódio da franquia — com toques de “O Retorno de Jedi” aqui e ali. Porém, mais importante do que se prender a essas semelhanças (o treinamento isolado, as viagens dos rebeldes para bases secretas, a construção do antagonista) é notar que o oitavo capítulo pega emprestado do segundo/quinto sua melhor característica. Johnson aproveita a oportunidade para se aprofundar no universo, organizando esse trecho intermediário menos como um filler que não investe na imersão e mais como um momento de pensar as coisas, sobretudo os protagonistas e seus dramas, sob outra perspectiva.

O movimento pode afastar uma parcela dos fãs, ao menos aqueles atraídos somente por remixagens dos originais, mas o esforço para oferecer um produto distinto é visível. Para tanto, o filme tem a missão de conciliar um conjunto de demandas complicadas. É preciso lidar com a herança de Abrams (além de suas criações, tudo o que seu longa referencia), adicionar ingredientes frescos à receita (sejam eles personagens, cenários ou temáticas) e ainda operar como ponte entre os dois extremos de uma trilogia que se encaminha para o fim.

A capacidade do filme de combinar imagens inteiramente originais e planos facilmente reconhecíveis não tem precedentes na franquia

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A solução encontrada funciona em partes. O emaranhado de tramas abre espaço para que Johnson visite locais antes inexplorados, com dinâmicas e seres próprios, e o trabalho de Steve Yedlin na câmera consegue dar bastante personalidade a cada um deles — a arena do confronto decisivo é de encher os olhos. Esse é o “Star Wars” que reúne a maior coleção de trechos visualmente impressionantes desde que Luke avistou o duplo por do sol em Tatooine, em “A Nova Esperança”. A capacidade do filme mais recente de combinar imagens inteiramente originais e planos facilmente reconhecíveis não tem precedentes na franquia.

No entanto, escolhas questionáveis enfraquecem alguns desses grandes momentos. São os casos de determinadas piadas inseridas para pontuar o fim das cenas (antecipando mudanças de tom inevitáveis num roteiro inchado como esse) e de certas decisões de montagem (como os cortes que interrompem voos rasantes de naves e golpes violentos de sabres de luz para retornar à ação paralela, sempre menos empolgante). O excesso de subtramas, que faz desse o mais longo de nove filmes, resulta num roteiro um pouco disforme, desequilibrado, com qualidades claras de um lado e fraquezas evidentes de outro.

A sensação é de que Rian Johnson não sabe exatamente como administrar alguns dos veteranos de “O Despertar da Força”

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Quem mais sofre é Finn (John Boyega), parte do núcleo que concentra a maior e mais direta porção de comentários sociais desse “Star Wars” — há menções a direitos dos animais, tráfico de armas e disputa de classes, por exemplo. As ideias espalhadas ao longo de sua missão num planeta-cassino não são o problema em si, mas a direção insiste em prolongar todas as sequências passadas ali (a apresentação daquela sociedade, a introdução de um personagem novato e a fuga dos mocinhos), mesmo quando os acontecimentos no espaço e na ilha explodem em urgência e atraem toda a atenção do espectador.

Em boa parte do tempo, a sensação é de que Johnson não sabe exatamente como administrar alguns dos veteranos de “O Despertar da Força”. Isso os deixa um tanto estagnados durante dois terços do filme, como se suas subtramas andassem em círculos, mas o longa tentasse nos convencer de que seguiam em frente. No limite, Finn e Poe (Oscar Isaac) cumprem seus arcos e aprendem lições pelo caminho, mas devem isso quase exclusivamente aos eventos do ato final. É uma pena, porque saídas valiosas para o ex-stormtrooper e o piloto acabam desperdiçadas e, junto delas, se vão ótimas oportunidades para integrar com mais força à trama suas novas companheiras de jornada, Rose (Kelly Marie Tran) e a Vice-Almirante Holdo (Laura Dern) — sem contar a Capitã Phasma (Gwendoline Christie), reduzida a uma participação especial.

“Os Últimos Jedi” rompe expectativas e se volta para tradição com mais carinho do que simples nostalgia

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A avaliação melhora quando pensamos no núcleo protagonista. Embora a relação entre Rey e Luke se desenrole de maneira pouco usual, como se o filme (assim como os personagens) levasse algum tempo até entender o tom apropriado para fazê-la funcionar, as recompensas mais adiante superam os contratempos. Talvez por isso o humor encontre dificuldade para prosperar nesse segmento, exceção feita a duas ou três situações cômicas que investem pesado no lado fantástico do universo. De todo modo, é fascinante ver como as jornadas da heroína e do herói se completam, estabelecendo rimas fortes com a trilogia original ao mesmo tempo em que olham para o futuro.

Já do lado negro da história, é frustrante que se aprenda tão pouco sobre Snoke (Andy Serkis), mas sua presença intimidadora e os espaços que ele habita são dois dos destaques da cena mais marcante do filme — a grande mostra de habilidade do diretor na ação. Além disso, o Supremo Líder é importante por finalmente levar Kylo Ren (Adam Driver) a outro estágio, com direito a demonstrações do uso da Força jamais vistas até então. Os conflitos internos do jovem vilão tomam forma em belos jogos de plano e contraplano com Rey, ao passo que sua história de origem ganha novos contornos por meio de flashbacks carregados de drama.

Assim, Kylo Ren se confirma como o melhor personagem da atual trilogia e certamente entrega uma das performances mais impressionantes de um filme repleto de atuações dignas de elogio.

Carrie Fisher, vale notar, é responsável por uma delas. A General Leia tem mais tempo de tela do que no Episódio VII e, apesar de geralmente não se envolver na ação, enche a tela sempre que aparece como fazia há quatro décadas. A atriz, falecida no fim do ano passado, recebe homenagens justas em mais de uma ocasião — e é a primeira delas, atravessando o espaço para continuar ao nosso lado, que mais chama atenção. Para um filme que busca fazer algo novo, romper expectativas se voltando para a tradição com mais carinho do que simples nostalgia, essa parece a imagem certa para se guardar.

nota do crítico

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