Para revelar assassinato de Gianni Versace, “American Crime Story” retorna com pegada mais intimista

Para revelar assassinato de Gianni Versace, “American Crime Story” retorna com pegada mais intimista

Primeiros episódios da nova temporada da série produzida por Ryan Murphy apostam na psicopatia do assassino por trás do crime

por Pedro Strazza

Quando fez seu debute na televisão americana em junho de 2016, “American Crime Story” pegou o público de surpresa. A série de antologia, criada pelos roteiristas Scott Alexander e Larry Karaszewski, conseguiu rapidamente se destacar de outros seriados produzidos no mesmo formato por Ryan Murphy (como “American Horror Story”) e se tornou em poucas semanas um verdadeiro fenômeno de audiência para o canal FX da Fox, arrebatando meses depois quase todos os prêmios voltados à sua categoria em cerimônias como a do Emmy ou do Globo de Ouro.

O que impulsionou todo esse sucesso, a bem da verdade, não foi exatamente a escolha pelo modo de operação da antologia e sim o tema que a produção escolheu para o seu primeiro ano: o julgamento de O.J. Simpson, um dos grandes casos criminais da história estadunidense nos anos 90, era uma história repleta de viradas, polêmicas e momentos no mínimo pitorescos, desde a longa tentativa de fuga no carro do ex-jogador de futebol americano até toda a virada ocorrida no processo jurídico por conta do contexto de explosão da opressão racial vivido no país na época. Esta tendência ao bombástico caiu como uma luva à série, cuja formato quase novelesco de retratação dos acontecimentos se via potencializado a cada novo acontecimento, revelando os procedimentos perversos por trás do sensacionalismo midiático e a incompetência jurídica que guiaram a narrativa responsável por inocentar O.J. em um caso que era dado como ganho pela procuradoria do Estado.

São estas deturpações dos encargos da lei e da mídia que devem servir de tema maior a “American Crime Story” para guiar o seu público pelas próximas temporadas, uma noção que sem surpresa já se manifesta nos dois primeiros episódios do novo ano da série, “The Assassination of Gianni Versace”. Ainda que desta vez os gestos sejam menos efusivos em relação aos vistos em “The People v. O.J. Simpson”, a sequência do seriado segue antenada – pelos menos nestes capítulos inaugurais – aos pormenores burocráticos e a exploração midiática em torno de casos seríssimos, desta vez a morte do famoso estilista fundador da Versace (vivido por Edgar Ramírez) e a caçada humana empreendida pela polícia e o FBI pelo seu assassino, o jovem Andrew Cunanan (Darren Criss).

O cenário, porém, mudou consideravelmente para a série, seja no parâmetro interno ou externo à produção. Do lado de fora, há a questão de que “The Assassination of Gianni Versace” chega quase dois anos depois da temporada centrada no caso O.J., servindo tanto de sequência tardia a um ano extremamente bem sucedido quanto de substituta de última hora à “Katrina”, história que deveria assumir o leme do seriado nesta segunda incursão mostrando todos os erros administrativos responsáveis por tornar a passagem do furacão Katrina nos Estados Unidos um desastre humano de grandes proporções. “Katrina” acabou adiada após passar por problemas envolvendo os direitos autorais do livro a ser adaptado, e “Versace”, então posta como terceiro temporada do seriado, teve seus trabalhos adiantados para cumprir com a data reservada pela FX.

A temporada esbanja um alto valor de produção, dando luz ao néon da vida noturna e das luxosas praias da Miami dos anos 90

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Esta inversão não chega a prejudicar esta nova temporada de “American Crime Story” em termos de valor de produção – a temporada na verdade esbanja neste departamento, dando luz ao néon da vida noturna e às luxosas praias da Miami dos anos 90 -, mas reflete na mudança de escala considerável que a antologia sofre de um ano para o outro. Embora o tom novelesco predomine em ambas as histórias, em “O.J. Simpson” estava implícito desde o primeiro episódio o atrito social gerado pelas revoltas de 92 que serviria de elemento central para a defesa do protagonista; já em “Versace”, as questões de contexto parecem estar reduzidas, restritas às reações do público perante o assassinato do estilista logo perante a entrada de sua casa – uma atitude capaz de render alguns momentos chocantes e divertidos (pelo macabro) nos primeiros episódios, como da mulher que esfrega a página da revista de moda com o sangue de Gianni ou do homem que vende a foto “exclusiva” do cadáver da vítima aos noticiários.

Assim, sai o espetáculo midiático de grandes proporções do debute do programa para dar lugar nesta segunda incursão a um caso de assassinato pautado por relações mais íntimas, uma mudança estrutural que proporciona um respiro bem-vindo (algo que “Katrina” muito provavelmente não faria) e pode fortalecer o lado emocional da produção enquanto seriado. Quem mais se beneficia desta decisão é sem dúvida o elenco, ainda que os resultados obtidos a princípio sejam variados: se Edgar Ramírez e Ricky Martin tem todo o espaço para fazer do casal protagonista um romance fadado à tragédia, Penélope Cruz mostra-se um pouco perdida neste início de temporada para viver uma celebridade tão distinta como Donatella Versace, oscilando entre a atuação caricatural e outra mais dramática.

Nesta temporada, sai o espetáculo midiático de grandes proporções dos tribunais e entra um caso de assassinato pautado por relações mais íntimas, uma mudança que proporciona um respiro bem-vindo à série

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Por outro lado, esta opção pelo intimismo também acarreta em um abandono parcial da narrativa operística da primeira temporada, agora encarregada de dar conta da fragmentação da linha do tempo e criar maiores mistérios em torno desta história. Entre os grandes desafios deste novo ano de “American Crime Story”, um deles é sem dúvida o de substituir o pulso firme de “O.J. Simpson” para orbitar entre a reencenação dos fatos e o sensacionalismo inerente da novela ao qual se adequa por um elemento à altura deste modo de operação. É uma resolução orquestrada por enquanto em cima da sobreposição de épocas distintas, passeando entre a perseguição a Cunanan e os flashbacks de sua relação com Gianni para aproveitar o que quer que circunde ambas as situações.

Para Darren Criss, a notícia não poderia ser melhor. Tornado centro nervoso da trama, seu retrato do assassino do estilista permite a ele imprimir todo tipo de maliciosidade à trama como bem entende, aproveitando o potencial psicótico do personagem para torná-lo numa figura que é ironicamente digna de pena, como bem indica a recorrência de sua constatação de alguém que nunca “fez nada” na vida. Resta saber agora o quão disposto “Versace” está em brincar com a perversidade desta noção.

“American Crime Story: The Assassination of Gianni Versace” estreia nesta quinta-feira (18) às 23h no canal FX

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