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“É uma experiência diferente” diz José Padilha sobre “7 Dias em Entebbe”
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“É uma experiência diferente” diz José Padilha sobre “7 Dias em Entebbe”

Diretor revelou em coletiva de imprensa alguns dos bastidores de seu novo filme, que reencena os acontecimentos por trás do famoso sequestro de avião ocorrido em Entebbe nos anos 70

por Pedro Strazza

Em junho de 1976, um grupo formado por dois palestinos e dois alemães sequestrou um avião da Air France, conduzindo os 248 passageiros que iam originalmente da Grécia para Paris ao aeroporto abandonado de Entebbe, na Uganda. Feito em ordem de libertar cerca de 40 palestinos presos em Israel e outros 13 encarcerados ao redor do mundo, o ato terrorista terminaria sete dias depois com uma operação militar de resgate empreendida pelas forças armadas de Israel, uma que só se deu após um clima tenso nas instâncias superiores do governo do país em se decidir sobre a melhor manobra política: aceitar negociar com os sequestradores ou de contra-atacar na esperança de resgatar parte dos sequestrados.

A história deste resgate, que posteriormente ficou conhecida como Operação Entebbe ou Operação Thunderbolt, já foi tema de diversos filmes ao longo dos anos, desde produções televisivas até uma rápida passagem no oscarizado “O Último Rei da Escócia”, de 2006. Agora, ela volta às telonas em 2018 com “7 Dias em Entebbe”, filme dirigido pelo brasileiro José Padilha que reconta todo o desenrolar desta história segundo múltiplos pontos de vista, seja pelos olhos dos sequestrados, dos governantes de Israel ou mesmo dos terroristas envolvidos no ato. Com um elenco capitaneado pelos estrelados Daniel Brühl e Rosamund Pike e com debute no último festival de Berlim, a produção chega agora aos cinemas brasileiros um tanto quanto incerta sobre a recepção do público no território – afinal, o tema não é lá tão conhecido pelos espectadores do país quanto é pelos da região do Oriente Médio ou nos Estados Unidos.

Isto, pelo menos, foi o que afirmou o próprio Padilha durante uma coletiva de imprensa sobre o projeto, realizada em São Paulo algumas semanas antes do lançamento no Brasil e em meio ao calor da estreia de sua nova – e muito polêmica – série na Netflix, “O Mecanismo”. “O que aconteceu em Entebbe em 76 é um evento marcante para a História do Oriente Médio por vários motivos, mas eu não sei é algo muito conhecido pelo público brasileiro” declarou o cineasta na ocasião, emendando dizendo que “É uma experiência diferente. Os filmes que eu fiz aqui e lancei aqui [no Brasil] são sobre assuntos com os quais todo mundo convive no país, como corrupção, segurança pública e etc., e este não, é sobre um tema que é normalmente estranho ao público brasileiro. Eu não sei o que esperar!”.

Padilha diz isso porque o tema do sequestro do Air France era também estranho para ele, que recebeu o roteiro – por sua vez baseado no livro “Operation Thunderbolt: Flight 139 and the Raid on Entebbe Airport, the Most Audacious Hostage Rescue Mission in History”, do historiador Saul David – com quase toda a fase de pesquisa feita. Mas isso não impediu o diretor de fazer o seu próprio aprofundamento sobre o assunto. “Eu fui pra Israel e entrevistei os militares que participaram do resgate, entrevistei o Ehud Barak, que foi primeiro-ministro de Israel e organizou a parte do Quênia da operação, entrevistei alguns reféns e etc. Meu objetivo era ver se as informações do livro que contradiziam a narrativa oficial eram corretas ou não.” diz Padilha, que afirma que precisava de um “avaliação pessoal” para embarcar na produção.

Aceito o convite, o diretor foi quem escolheu a equipe a dedo, desde os membros da parte técnica até o elenco. A decisão pelos nomes dos brasileiros Lula Carvalho, Daniel Rezende e Rodrigo Amarante para fazer respectivamente a fotografia, a montagem e a trilha sonora de “7 Dias em Entebbe” inclusive se deu porque Padilha queria maior conforto para produzir o filme, ainda mais na parte das filmagens que segundo ele foram “apressadas”. Mas se com Carvalho e Rezende a camaradagem era antiga (ambos trabalharam com o cineasta nos dois “Tropa de Elite”), com Amarante a relação é relativamente nova: “O Rodrigo [Amarante] eu não conhecia, mas eu achava que ele tinha uma sensibilidade muito grande e eu decidi chamá-lo pela primeira vez para fazer a abertura de ‘Narcos’. Vendo o resultado que ele obteve na série, eu chamei o Rodrigo pra fazer o ‘Entebbe’ e ele fez uma trilha sonora bastante original e muito bonita.” diz Padilha.

Já em relação ao elenco principal, o processo foi um pouco diferente. Enquanto o nome de Daniel Brühl já surgiu na cabeça de Padilha para interpretar o terrorista alemão desde a primeira vez que ele leu o roteiro (“ele é um ator incrível, de origem alemã e espanhola e cuja carreira acompanho desde ‘Adeus, Lênin’“), a seleção de sua parceira de mesma nacionalidade no sequestro ocorreu depois do diretor ter se reunido com diferentes atrizes e não chegado a nenhum resultado, com o produtor Tim Bevan sugerindo o nome de Pike em cima da hora. “Quando eu encontrei com ela eu já sabia que ela era uma atriz incrível desde o ‘Garota Exemplar’, e eu perguntei se ela conseguia falar alemão. Ela me respondeu que sabia falar um pouco, mas que aprendia foneticamente e rápido, e eu fiquei um pouco cético quanto a isto porque faltavam menos de três meses para as filmagens.” relembra o cineasta, que depois teve que dar o braço a torcer quando exibiu o filme para alguns amigos alemães de Frankfurt; “eles me responderam dizendo que não sabiam que a Rosamund tinha nascido em Frankfurt. Isso mostra o quão talentosa a Rosamund é, ela é uma atriz incrível e uma das mais talentosas atualmente”.

Fechado a escalação da equipe e do elenco, chegou a hora de filmar. O longa, que também teve locações em Londres e em Israel, acabou escolhendo Malta para reconstruir o cenário do aeroporto porque o diretor não queria trabalhar “com um monte de efeito visual” nas cenas localizadas no terminal, incluindo aí o resgate pelas tropas israelenses. O país também se tornou a melhor opção porque o local original tinha deixado de existir: “A gente queria filmar em Entebbe, mas aí descobrimos que o terminal [onde se passava a história] já havia sido demolido.” confirmou Padilha na coletiva.

A necessidade de fidelidade ao espaço original era grande, até porque o diretor queria refilmar a ação de resgate das tropas israelenses no aeroporto – e que logicamente serve de grande clímax da produção – da maneira mais próxima o possível da realidade. Isso porque Padilha não queria mergulhar o filme no enorme debate sobre os pormenores de como a operação ocorreu, já que esta discussão é bastante impulsionada pela questão do mistério sobre o momento exato em que Yonatan Netanyahu, irmão do ex-primeiro-ministro do país Benjamin Netanyahu e líder da missão, foi morto pelas forças terroristas. “Eu queria fazer direito a operação.” afirma o cineasta, “Eu chamei os dois policiais que entraram primeiro no terminal, coloquei os dois do meu lado no set e pedi pra eles marcarem as posições dos atores no aeroporto, já que o nosso local de trabalho era idêntico ao espaço original. Eles apontaram onde as tropas saíram do carro, pra onde eles correram, viraram e miraram seus armamentos, etc. Eu deixei eles fazerem a coreografia do que aconteceu, e foi só depois que eles terminaram de me mostrar como a ação aconteceu que eu coloquei a minha câmera.”.

 

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