“Desejo de Matar” tem seus deslizes, mas funciona como sátira da cultura belicista americana

Remake dirigido por Eli Roth e protagonizado por Bruce Willis faz piada com relacionamento da América com as armas

por Matheus Fiore

Baseado no mesmo livro que inspirou o filme de 1974 protagonizado por Charles Bronson, o “Desejo de Matar” de Eli Roth chega no momento mais oportuno possível, já que os Estados Unidos vivem um momento de tensão pelos múltiplos casos de tiroteios em massa. A cultura bélica originada no século XIX, então, se vê em cheque. Muitos pedem por maior rigidez do Estado, enquanto outros clamam pelo total desarmamento da população civil. O “Desejo de Matar” de 2018, então, aproveita esse clima de tensão para satirizar a cultura belicista e recontar, com algumas adaptações, a história original.

Algumas mudanças foram feitas para melhor encaixar a narrativa em uma análise do contexto social atual. O protagonista, por exemplo, que no filme de 1974 era um arquiteto, na obra de 2018 é um médico. Bruce Willis encarna Paul Kersey, cirurgião que, após ver sua filha em coma e sua esposa assassinada em virtude de uma tentativa de assalto à sua casa, passa a agir como justiceiro pelas ruas de Chicago. Ou seja, o arco de Paul é o de um agente da vida que passa a se alimentar da morte.

É interessante como, desde o princípio do filme, Roth estabelece seu protagonista como um ser humano de profissionalismo inquestionável. Na cena de abertura, por exemplo, mesmo após fracassar na tentativa de salvar um policial ferido, Kersey não esboça qualquer lamento por ter que operar o ladrão que feriu o agente. Essa cena gera um contraste imenso com o que acontece na vida de Kersey após a tragédia. Tanto pelas repetidas vezes nas quais vê crimes sendo cometidos nas ruas, quanto pela noção de que há uma infinidade de casos não resolvidos no muro da delegacia, Kersey desenvolve uma revolta que vai além de sua tristeza pela situação familiar. O médico se vê não como uma vítima de um caso isolado, mas como alguém que, junto da população, está à mercê de um sistema falido.

Eli Roth (em pé) no set

“Desejo de Matar” traz uma variação de tons muito interessante. Nas cenas nas quais os personagens estão prestes a se tornarem vítimas da violência, como a da tragédia da família Kersey, os elementos puxam a narrativa para o terror. Desde uma movimentação mais lenta dos personagens até uma câmera que aproveita os espaços vazios e sombras para imprimir tensão tudo contribui para que o longa tenha esse flerte com o gênero. A ação também se faz presente no filme, e também é extremamente importante para a transformação do protagonista. Notamos, por exemplo, que seu primeiro embate com o crime ocorre de maneira desleixada, o que se reflete em uma cena construída com uma grande alternância de planos e câmera na mão, fazendo com que o despreparo de Paul seja parte da construção da mise-en-scene. Já quando o personagem está mais confortável para cometer seus delitos, há momentos em que cenas se resolvem em um único plano sem cortes, mostrando como o “Anjo da Morte” rapidamente se sente confortável em seu novo “hobby”.

O astro do filme, porém, é seu humor. “Desejo de Matar” estica seu tom até o caricato diversas vezes, trazendo várias sátiras do modelo de cidadão americano de direita e pró-armamentismo. Eli Roth e seu roteirista, Joe Carnahan, parecem ter muito interesse em por na tela um deboche da América atual. Isso se reflete em cenas que funcionam, e outras que não tanto. Quando a obra escancara a facilidade com que um cidadão comum obtém uma arma, por exemplo, a obra é muito feliz, já que, além de debochar de uma situação real, ela contribui para a construção do personagem, que se empolga com a possibilidade de ter suas armas e assassinar criminosos. Quando tenta encaixar uma referência ao economista Milton Friedman, porém, soa extremamente gratuita, servindo apenas como uma referência.

Essas sátiras estão presentes desde o começo do filme. Quando Kersey informa a um policial sobre a morte de um colega para, em seguida, se ausentar para cuidar justamente do criminoso que ceifou a vida do agente, o policial se exalta e pergunta: “você irá salvar aquele pedaço de merda que matou meu amigo?”. Tecnicamente, elas também acabam sendo empurradas para um gênero – obviamente, a comédia: planos mais fechados nos rostos dos personagens, que são retratados por meio de atuações caricatas, forçadas, que dão um deliberado tom de deboche.

Quando trabalha a sátira, “Desejo de Matar” traça um paralelo interessante. Se as reações de muitos personagens (como o próprio policial da abertura) sempre surpreendem pela rápida escala – um homem sereno ouve uma ou duas palavras e se torna agressivo e extremista -, a mesma transformação radical ocorre com o personagem principal. Paul começa a trama como um médico, um agente que salva vidas, e se torna um justiceiro conhecido como “Anjo da Morte”. Nessa trajetória de opostos do protagonista, a montagem é importante justamente por dividir a tela e trazer, lado a lado, Kersey montando uma arma e preparando suas ferramentas médicas, mostrando como o personagem, assim como sua sociedade, está preso aos extremos.

Diferente da versão de Michael Winner, o “Desejo de Matar” de Eli Roth dispara críticas para todos os lados, inclusive para a mídia. O objetivo parece ser atacar todo o cenário social, não apenas a visão armamentista, mesmo que essa seja o foco de boa parte das piadas. Os diferentes programas que debatem a atuação justiceira do “Anjo da Morte”, por exemplo, mudam de opinião conforme Paul realiza novos feitos, o que mostra como a visão dos jornalistas e comentaristas é extremamente volúvel e muda de acordo com quem os crimes vitimizam. Militantes do movimento negro, por exemplo, acusam Paul de racismo por esse assassinar um criminoso negro, mas, quando o mesmo Paul mata um branco, eles o defendem.

O pecado de “Desejo de Matar” não é ter um lado na discussão, e sim não construir arcos em torno dele. Por toda a metragem do filme, sátiras e referências não faltam, mas o roteiro nunca amarra tais sátiras em um arco bem definido para seu protagonista e para alguns dos coadjuvantes. Paul Kersey é um homem que vai de um extremo ao outro, mas sem nuances ou personalidade, e o principal: dilemas que o façam questionar suas atitudes e seu mundo de forma mais analítica. “Desejo de Matar”, portanto, é um retrato irônico do atual contexto social americano, mas ensaia a todo momento uma crítica mais forte que, quando deveria ser finalizada, não é. É, portanto, uma obra de ação e comédia bem divertida, mas que, quando entra na política, traz aspirações maiores do que suas realizações.

nota do crítico

Compartilhe:
icone de linkCopiar link