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Comentários de Ronaldo sobre Gabriel Jesus despertam questões éticas no jornalismo esportivo
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Comentários de Ronaldo sobre Gabriel Jesus despertam questões éticas no jornalismo esportivo

Comentarista da Globo foi incapaz de criticar o jogador durante a Copa do Mundo, mesmo com toda contestação que cercou o centroavante brasileiro

por Pedro Strazza

A participação de Ronaldo nesta Copa do Mundo vem sendo no mínimo polêmica. Um dos principais responsáveis pelo pentacampeonato em 2002, o ex-jogador é desde 2013 contratado da Globo para comentar algumas das transmissões esportivas da emissora, em especial àquelas relacionadas à seleção brasileira masculina no futebol, e entre vários tropeços e hesitações vinha desempenhando a função sem grandes surpresas junto de Galvão Bueno, Walter Casagrande e Arnaldo Cezar Coelho.

Na Copa da Rússia, porém, sua conduta no trabalho foi do embaraçoso para o problemático em questão de minutos por conta do elo que o ex-jogador tem com Gabriel Jesus, não só um dos convocados de Tite mas também centroavante e camisa 9 da seleção principal. Além de comentarista, Ronaldo também atua como empresário responsável pela sede brasileira da Octagon, firma de marketing esportivo que há alguns meses se tornou responsável pelo gerenciamento da carreira de Jesus.

Foi a Octagon de Ronaldo, inclusive, que conseguiu tornar o jogador em um dos principais garoto-propagandas das campanhas de publicidade brasileiras nesta Copa do Mundo, tornando a estrela dos comerciais preparados por marcas como a Vivo, a Guaraná Antarctica, a Gatorade e a Adidas para o evento. Em entrevista à GQ Brasil em junho, o CEO da empresa Gabriel Lima inclusive afirmou que este esforço publicitário no torneio era o primeiro passo para internacionalizar a carreira do atual camisa 9 da seleção: “O segundo ciclo do trabalho com o Gabriel Jesus começa logo após o término da Copa, que naturalmente já o tornará mais conhecido em outros mercados além do Brasil e Inglaterra” ele disse na época, se referindo à atual posição do esportista no elenco do clube inglês Manchester City.

Se a expectativa era de que Gabriel Jesus se tornasse um dos astros da Copa deste ano (algo que era esperado até pela EA Sports), a realidade foi bem outra, com o jogador se tornando uma das peças do esquema tático de Tite mais questionadas pela torcida e os especialistas, e foi aí que os conflitos de interesse de Ronaldo começaram. Mesmo que Jesus não tenha feito um gol na Copa ou mesmo conseguido um momento de destaque no evento, o comentarista não deixou de sair em defesa eterna de seu “protegido”, sendo incapaz de tecer uma crítica a ele e o blindando de quaisquer outros comentários negativos feitos pelos colegas de equipe. Ronaldo inclusive chegou a desmerecer o gol de Roberto Firmino – substituto na posição ocupada pelo camisa 9 – na partida contra o México, classificando a jogada feito pelo centroavante como “de sorte”.

O ápice de todo o absurdo protagonizado pelo ex-camisa 9, porém, aconteceu nesta terça-feira, quando ele fez uma defesa mais ampla de Gabriel Jesus enquanto participava de um programa no SporTV. Durante a transmissão, Ronaldo atribuiu a pouca eficiência do jogador no ataque a uma maior participação sua em outras funções do jogo, incluindo aí “recomposição” que virou clichê usado pelo técnico Tite para defender sua permanência no elenco principal.

“Centroavante tem que fazer uma série de coisas. Tem que ter tratamento diferenciado ao centroavante. Eu não corria nem metade do que o Gabriel correu nessa Copa. Taticamente, ele deu uma força e um equilíbrio muito grandes à equipe porque sempre marcava o cabeça de área adversário e por causa disso o Neymar e o Coutinho tinham mais liberdade”, disse durante a transmissão, acrescentando que Jesus “sempre cobria um jogador que passasse.”. A única “crítica” feita pelo comentarista aconteceu quando ele afirmou que “Taticamente, na dedicação e na entrega ele foi perfeito, mas logicamente centroavante precisa de gol, e ele não fez.”.

Especialmente na comparação esdrúxula com sua própria carreira, os comentários de Ronaldo durante esta Copa do Mundo são infelizes porque no fundo elas buscam forçar acima de tudo a manutenção da imagem de um jogador antes de trazer um olhar sincero e analítico sobre aquilo que o ex-camisa 9 presenciou ao narrar as partidas. Antiética por natureza, esta preferência insistente do empresário por uma fabricação de uma imagem que é vantajosa aos negócios pessoais e prejudicial ao jornalismo esportivo como um todo precisa com urgência ser discutido pela administração interna da Globo nas semanas posteriores ao término da Copa.

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