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# "A Ascensão Skywalker" encerra a saga "Star Wars" reafirmando os velhos mitos
- URL: https://www.b9.com.br/a-ascensao-skywalker-encerra-a-saga-star-wars-reafirmando-os-velhos-mitos/
- Published: 2019-12-18T08:00:58.000Z
- Updated: 2019-12-18T08:00:58.000Z
- Description: Filme amplia escala do épico para criar desfecho da história da família Skywalker nos cinemas, mas sofre para conciliar narrativas da franquia em torno de seu próprio valor histórico
- Author: Pedro Strazza
- Tags: Cultura, Cinema, etica, J.J. Abrams, lucasfilm, star wars, #wp, #wp-post

⚠ **AVISO**: Este texto contém **SPOILERS** do filme. Não diga depois que não foi avisado!

Tomada a devida distância da euforia e entusiasmo da época do lançamento, convencionou-se entre os fãs de **“Star Wars”** reclamar nos dias de hoje sobre a firme dependência de [**“O Despertar da Força”**](https://www.b9.com.br/62405/o-despertar-da-forca-e-uma-recompensa-aos-anos-de-devocao-por-star-wars/) nos caminhos narrativos de **“Uma Nova Esperança”**. É um apontamento que é feito não sem alguma justificativa: embora iniciado sob a melhor das intenções (de agradar os fãs e trazer de volta o “espírito perdido” da trilogia clássica da franquia), este alinhamento cai no campo da paródia dentro do longa, a ponto de se incluir uma “nova” Estrela da Morte como ameaça maior do filme apenas porque ela é a única forma de resolver as urgências da trama.  

Ainda que a discussão pertença apenas ao sétimo episódio da saga, esta imagem de causa e efeito espelhados na relação com o passado no fundo elucida com precisão o tratamento desta nova trilogia da franquia pelas mãos da **Disney** e a **Lucasfilm**, até porque na linha central os novos capítulos acima de tudo orbitam em uma dualidade difícil entre o resgate e o preciosismo da nostalgia coletiva. Não à toa, o pomo da discórdia desta era é sem dúvida [**“Os Últimos Jedi”**](https://www.b9.com.br/83654/em-os-ultimos-jedi-rian-johnson-explora-novos-cantos-da-galaxia/?highlight=star%20wars) justamente pelos riscos tomados nos temas do legado, de um tratamento que “ousa” realizar uma “deturpação” de arcos ao testar novos rumos para o ciclo da série.  

Em **“A Ascensão Skywalker”**, porém, retoma-se a ideia de “O Despertar da Força” de trafegar campos conhecidos pelo público, uma ação que se em teoria vem para agradar gregos e troianos após dois anos de debates intensos, na prática surge como única medida possível dado a “escala final” dos eventos. Ao contrário do sétimo filme da franquia, estamos falando aqui de um episódio que vem para encerrar não apenas mais uma trilogia como a própria saga “Star Wars”, e em se tratando de uma marca tão forte em sua longevidade o único caminho só pode ser o da apoteose, do amarramento de todas as histórias contadas nestes últimos 40 anos.  

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J.J. Abrams (à esquerda) no set de "A Ascensão Skywalker"

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Com tanta história em jogo, o procedimento adotado por **J.J. Abrams** se filia menos a questões materiais do universo que na reafirmação dos mitos consolidados dentro da narrativa maior da franquia. A noção de saudosismo pode até soar similar, mas a execução difere muito da primeira incursão do diretor pela franquia: enquanto o episódio 7 era orientado por uma narrativa mais física, de recriar em desertos e florestas as cidades e planetas da história para aproximar o espectador do novo ciclo de histórias, o nono filme se liga a valores e elementos da mitologia, adotando a tão celebrada jornada do herói como matriz da ligação emocional da audiência com a série - ainda que exista o cuidado estético, os ambientes deixam de ser de interesse primordial da produção, cujo gosto está mesmo no escuro e na vastidão do espaço limpo para encenar a fatalidade de seus combates principais.  

Isso porque “A Ascensão Skywalker” pode até ser protagonizado pela “nova geração”, mas é todo guiado por personagens, cenários e situações do passado. Além do próprio imperador Palpatine (Ian McDiarmid) servir de grande antagonista à trama, o longa escrito por Abrams e Chris Terrio é todo pautado neste ato recorrente de emulação da franquia, incluindo na recriação espiritual de momentos consagrados como o enfrentamento no galpão imperial de “Uma Nova Esperança”, as visões de pesadelo de **“O Império Contra-Ataca”** ou o clímax sob o vulto tenebroso do fracasso de **“O Retorno de Jedi”**. O filme começa e termina sob a aura desta passagem de bastão de vias espirituais, como se a Rey (Daisy Ridley), Kylo Ren (Adam Driver), Finn (John Boyega) e Poe Dameron (Oscar Isaac) coubesse esta missão de ressuscitar e incorporar os velhos ritos - e por "ritos" é óbvio que a referência é a primeira trilogia, com direito a X-Wing ressuscitado, personagem usando o capacete outrora utilizado por Luke Skywalker (Mark Hammil) e o retorno tardio (ainda que bem vindo) de Billy Dee Williams no papel de Lando Calrissian.  

A escala dos acontecimentos aumenta, neste meio tempo. A brincadeira de que “A Ascensão Skywalker” é o filme “mais Star Wars de todos os tempos” (como vem se fazendo nesta primeira leva de opiniões) não acontece por acaso; a todo instante os personagens se veem na batalha final contra as forças do mal, seja esta a Primeira Ordem ou a “Ordem Final”, e a moral de resistência que se perpetua desde 1977 agiganta-se ao ponto da epopeia máxima da franquia. O longa faz questão de ressaltar o viés drástico destes atos apocalípticos: sobram afirmações fatalistas como a do exército de Palpatine ser dez mil vezes maior que a frota imperial, numa forma até infantil de lembrar a todo instante ao espectador que a produção é o desfecho de uma grande história contada através de gerações.  

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\[quotedireita\]O filme começa e termina sob a passagem de bastão espiritual, como se a Rey, Kylo Ren, Finn e Poe Dameron coubesse a missão de incorporar velhos ritos\[/quotedireita\]

Mas enquanto tudo que é mostrado e contado no episódio IX aponta para um conflito de proporções nunca antes vistas na franquia, a sensação que permeia toda a narrativa é de encolhimento, como se a “última” história da saga se reduzisse imageticamente a um punhado de personagens fechados em uma sala. É verdade que “Star Wars” desde sempre carrega um tom operístico na forma como concilia os dramas de seus protagonistas com as guerras do universo e que a nova trilogia - desde “O Despertar da Força” - tenha optado por divorciar o curso da história dos personagens da trama da Resistência contra a Primeira Ordem, mas é em “A Ascensão Skywalker” que a saga da família Skywalker se aliena de vez dos acontecimentos gerais ao seu redor. Tudo está em risco e a todo momento o público é bombardeado com a noção do quão necessário é derrotar as forças fantasmas do Império para reestabelecer a paz na galáxia, mas os arcos dos personagens nunca parecem repercutir esta noção, presos a uma dramaturgia relacionada a seus destinos e os da Força.  

Neste ponto é possível imaginar que o debate sobre esta questão se polarize nas primeiras semanas entre quem acredite que os rompimentos estruturais propostos por Rian Johnson em “Os Últimos Jedi” inviabilizem tal procedimento e quem acuse a nova trilogia de ser uma imensa fanfic construída em cima do imaginário da história de Luke, Leia (Carrie Fisher) e Han (Harrison Ford), com o nono episódio sendo apenas a grande vítima lógica de todo o processo. É a articulação de Abrams em direção aos mitos estabelecidos na série dentro da narrativa, porém, que de fato bota tudo a perder neste capítulo final, pois ela presume uma unidimensionalidade de tratamento que esvazia todo o discurso a um nível quase de auto-ajuda.

Em “A Ascensão...”, o conflito dos Jedi e dos Sith existe única e exclusivamente para os Skywalker e aqueles imediatamente ao seu redor. A guerra soa como mera consequência, como se todos os povos em risco servissem de meras casualidades à guerra pelo poder e o domínio da Força, uma impressão que só é reforçada no momento em que Finn assiste de longe, impotente e desesperado, um dos duelos entre Rey e Kylo Ren, ignorado enquanto procura a segurança da amiga Jedi.  

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\[quoteesquerda\]É em “A Ascensão Skywalker” que a saga da família Skywalker se aliena de vez dos acontecimentos gerais\[/quoteesquerda\]

Posto desta forma, talvez fique mais compreensível o porquê do nono episódio soar tanto como a fanfic a qual tantos acusam a trilogia da Disney de ser. Não apenas por conta da longa e corrida trajetória e pelo acúmulo de eventos contados nesta, mas no próprio rumo tomado com os personagens, cujos destinos parecem vítimas de decisões feitas para “reparar” os “danos” gerados por “Os Últimos Jedi” e manter rodando o ciclo eterno (e cada vez mais diminuto) da franquia. Revelações, mortes e reviravoltas ocupam posição central na narrativa, servindo como beats de roteiro prontos para surpreender o espectador no conforto de suas resoluções enquanto o drama se reorganiza na estrutura de câmara citada acima, com Rey e Kylo Ren ocupando a instância “real” - a Força, o "legado" dos Skywalker - e Poe e Finn tocando o núcleo da resistência.   

A parte mais esquizofrênica desta equação sem dúvida são os coadjuvantes, que ou são destituídos de qualquer relevância (como a Rose de Kelly Marie Tran, reduzida a mais um soldado da Resistência tal qual Billie Lourd) ou se convertem em puro mecanismo de roteiro preguiçoso (o Hux de Domhnall Gleeson), algo que por si só ilustra o nível de segurança buscado pelo longa em suas escolhas. Funcionalidade define toda e qualquer relação no curso do filme, e quem está esperando um prosseguimento das tramas mais “emocionais” do capítulo anterior deve se frustrar com o choque de uma narrativa ao mesmo tempo tão guiada por personagens e tão recatada nos envolvimentos - as respectivas interações de Finn e Poe com a rebelde Jannah (Naomi Ackie) e a mercenária Zorii (Keri Russell), por exemplo, chegam a ser cômicas na maneira como se equilibram entre o “flerte” e a amizade mais neutra.  

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O mais divertido nesta narrativa asséptica e fadada à comparação eterna com ficções escritas por fãs, porém, é que ela acaba por concluir da única forma possível o ciclo desta nova encarnação da franquia nestes anos 10, cuja base sempre foi o relacionamento direto do fã com o universo da saga. Se Rey, Kylo Ren, Finn e Poe foram criados do início como espécie de avatares do público em seu novo contato com a mitologia “envelhecida” da franquia, faz sentido que “A Ascensão Skywalker” encerre suas trajetórias sob o vulto dos mitos e a consumação do desejo em integrar o passado. O filme não à toa prefere o epílogo que reforça esta relação ao invés de seguir o caminho da celebração coletiva, como se confessasse ao espectador: de que adianta o triunfo sem os louros do pertencimento na experiência promovida?  

Sob este viés, o que falta neste procedimento adotado por Abrams é não apenas uma consciência da banalidade intrínseca nesta repetição de ciclos de heroísmos, sacrifícios e equilíbrios (e neste ponto não ajuda que Johnson tenha feito exatamente isso no antecessor), mas também a ligação entre essa experiência com os rumos eternos da saga na luta entre o bem e o mal. É neste momento que a constatação dos limites do nono filme ficam mais evidentes: depois de tantas idas e vindas dos personagens sobre o passado da história e suas próprias posições neste âmbito, a saída mais segura pelo escapismo em forma de pertencimento soe fácil demais, rasa dentro de um legado tão imenso e discutido ao longo dos últimos cinco anos.  

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