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# “A Bruxa”: quando a embalagem é melhor que o presente
- URL: https://www.b9.com.br/a-bruxa-the-witch-review/
- Published: 2016-03-06T16:58:58.000Z
- Updated: 2016-03-06T16:58:58.000Z
- Description: O diretor e roteirista Robert Eggers mostra seu repertório, mas reduz sua obra às aparências ao não confiar no poder de sugestão
- Author: Virgílio Souza
- Tags: Cultura, Cinema, filme, #wp, #wp-post

**⚠ AVISO:** Pode conter spoilers

Um dos principais fenômenos do universo dos festivais de cinema são os hits inesperados: filmes de realizadores iniciantes que, entre a primeira exibição mundial e a sonhada estreia no circuito comercial ou nos serviços de streaming, ganham o selo da antecipação, uma ansiedade coletiva que parte de promessas de qualidade e originalidade feitas por alguns poucos felizardos.

O terror é um dos gêneros mais permissivos a esse tipo de experiência de descoberta, e o **Festival de Sundance** se apresenta, ao lado do **SxSW**, como o palco ideal para [manifestações dessa sorte](http://www.newsweek.com/2014/02/21/sundances-real-hits-are-horror-movies-245536.html?ref=b9.com.br), tendo revelado desde **“Palhaço Assassino”**, em 1989, passando por **“A Bruxa de Blair”**, dez anos depois, até o exemplar mais mais recente, **“The Babadook”**, de 2014\. Recebido com entusiasmo pela crítica americana e distribuído como *“o filme que aterrorizou Stephen King”*, **“A Bruxa”** surge nesse contexto e carrega credenciais que ajudam a explicar tanto seu sucesso quanto suas fragilidades.

\[ltauto\]

No que diz respeito aos aspectos básicos, o diretor-roteirista Robert Eggers faz escolhas bastante convencionais. A trama é simples (uma família isolada de sua comunidade é atormentada pelo sobrenatural), e a condução da narrativa não é diferente. Por mais original que seja a ambientação na New England dos 1630, no início da instalação dos ingleses na América, não se nota muito critério na escolha dos recursos empregados para produzir suspense e horror. A presença de mutilações, possessões animal e infantil, sacrifícios, rituais macabros, figuras distorcidas e sustos abafados pela tela preta são indícios de um filme mais interessado em mostrar o tamanho de seu repertório do que em empregá-lo com coerência, o que reduz a composição da atmosfera a apenas uma questão de aparências.

![Diretor Robert Eggers no set](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/03/thewitch.jpg)

Diretor Robert Eggers no set

![The Witch](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/03/thewitchposter.jpg)

Nesse sentido, “A Bruxa” é uma espécie de foguete molhado, que ameaça explodir, mas acaba em nossas mãos sem que saibamos o que fazer com ele. A condução da narrativa é batida, repete truques sonoros como os sussurros num idioma desconhecido ou a trilha absolutamente impositiva de Mark Korven, e preserva um pretenso formalismo que remete a Michael Haneke e outros cineastas compulsivos por controle. A família é vista como em um laboratório que segue um estilo de manual: só há lugar para cores secas, que dão palidez aos longos planos que administram expectativas em banho-maria.

É evidente a tentativa de elaborar apenas pequenos picos de tensão em direção ao ato final — esse, sim, um merecido banho de sangue. O ritmo arrastado, porém, se contenta a ser disfarce a partir do momento em que, ainda na primeira hora de duração, a monotonia toma conta. Temáticas importantes, como a sexualidade e a religiosidade, são limitadas por um roteiro que permanece sempre no campo da sugestão. O pai (Ralph Ineson) carrega uma arma que nunca atira, pega um machado, mas se limita a cortar lenha; a filha mais velha (Anya Taylor-Joy) insinua uma relação com o irmão, mas não leva os avanços dele adiante; a mãe (Kate Dickie), com formas que espelham a das bruxas, amamenta um corvo; o garoto (Harvey Scrimshaw) cospe uma maçã envenenada antes de morrer; e os gêmeos (Ellie Grainger e Lucas Dawson), uma das referências a King e Stanley Kubrick, transitam pela trama sem muita função que não a de acessórios.

\[quotedireita\]“A Bruxa” é uma espécie de foguete molhado, que ameaça explodir, mas acaba em nossas mãos sem que saibamos o que fazer com ele\[/quotedireita\]

Eggers veste sua obra com uma sobriedade envergonhada, que não sabe se postula um lugar na experimentação com o tempo e a forma ou se assume como filme de gênero, e acaba deixando de fazer ambas as coisas. Como exceção temos os quinze minutos finais, quando a máscara cai e o realizador aceita o gore em vez de apenas esbarrar nele — embora pareça redentora, essa é uma virada que pode afastar parte da audiência.

A intenção, aqui, não é negar os méritos visíveis ou afirmar que eles só existem na embalagem. O elenco infantil entrega o olhar de curiosidade diante do desconhecido, ao passo que os adultos seguram os diálogos, em parte saídos diretamente dos relatos e escritos da época, atribuindo força dramática ao texto. Há algo de fascinante no pai e na filha, e algo de enigmático em todos os demais personagens.

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![Thomasin, interpretada por  Anya Taylor-Joy](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/03/the-witch-image-6.jpg)

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Igualmente competente é a forma como o amadurecimento e a entrega ao sobrenatural caminham juntos. Por vezes abandonada pelo roteiro, a relação entre as duas coisas produz bons frutos, mas revela certo desequilíbrio: o despertar da protagonista (de menina para mulher), por exemplo, é mais eficiente do que sua ascensão pela feitiçaria, mesmo que um dependa do outro.

\[quoteesquerda\]Eggers veste sua obra com uma sobriedade envergonhada, que não sabe se postula um lugar na experimentação ou se assume como filme de gênero\[/quoteesquerda\]

Também chama a atenção a maneira como o filme acena com os mitos de fundação americanos, trazendo à discussão a intensa paranoia de viver em um gueto dentro do gueto. A ilusão de liberdade é corrompida por regras muito próximas de uma ideia restritiva de moral: ir ao bosque é proibido, assim como estabelecer qualquer interação com a divindade que fuja às normas da igreja. Ao estabelecer personagens que creem no pecado como indissociável da existência, o longa abre uma série de possibilidades para fazê-los pecar novamente e aguardar, sem pressa, a inevitável punição.

O descompasso entre decisões boas e más, contudo, segue por toda parte. A família, por exemplo, é tão interessante como unidade que chega a ser incômodo que seu processo de destruição seja somente parte de um rito de transição mais abrangente, que diz respeito a entidades maiores do que aquele círculo específico. O mesmo pode ser dito sobre o tão comentado Black Phillip, uma criatura imensamente mais interessante quando é símbolo da ação do sobrenatural nos humanos do que nos momentos em que assume uma forma mais concreta e abandona o poder da sugestão — e, vendo em retrospectiva, talvez seja esse o principal problema de todo o filme.

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