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# Ainda que abuse da mesma fórmula, “Procurando Dory” oferece emoções intensas
- URL: https://www.b9.com.br/ainda-que-abuse-da-mesma-formula-procurando-dory-oferece-emocoes-intensas/
- Published: 2016-07-01T19:15:36.000Z
- Updated: 2016-07-01T19:15:36.000Z
- Description: Novo filme da Pixar repete a estrutura de “Procurando Nemo”, mas acerta em cheio na transformação de Dory em protagonista
- Author: Virgílio Souza
- Tags: Cultura, Cinema, filme, hollywood, relatórios, review, #wp, #wp-post

Desde que lançou seu segundo longa-metragem, **“Vida de Inseto”**, a **Pixar** sempre apresenta um curta original no início de suas sessões de cinema. Ao longo de sua trajetória, a empresa parece ter se especializado em construir historietas capazes de divertir, emocionar e, ainda, servir de laboratório para uma série de possibilidades técnicas e narrativas.

Lançado em 2003, **“Procurando Nemo”** foi acompanhado de **[“Knick Knack”](https://www.youtube.com/watch?v=abtTm5MmXZQ&ref=b9.com.br)**, a simpática crônica sobre um boneco de neve que busca viver em um lugar ensolarado. Treze anos depois, **“Procurando Dory”** estreia ao lado de **“Piper”**, união perfeita de uma simplicidade que remete às primeiras obras da companhia (como **“Luxo Jr”**, das famosas luminárias, que completa seu trigésimo aniversário esse ano) e de uma sofisticação tecnológica que só parece possível nos dias de hoje.

\[ltauto\]

Ao menos como ponto de partida, é relevante tratar esse lançamento mais recente como uma sessão dupla. Os dois filmes possuem características comuns muito evidentes, mas guardam diferenças fundamentais de concepção. Embora compartilhem a temática principal e uma estrutura rígida e bastante atrelada à trama (basicamente, animais-superando-desafios), suas propostas visuais divergem radicalmente. Se “Dory” é eficiente, mas apenas segue os moldes de seu antecessor, “Piper” busca um grau de realismo inédito na Pixar. Os bichos em cena podem até transmitir sensações humanas, mas seus corpos, movimentos e instintos passam longe da antropomorfização típica de produtos anteriores.

![Reunião de produção na Pixar](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/07/dory2.jpg)

Reunião de produção na Pixar

![Dory Poster](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/07/doryposter.jpg)

Não se trata de cobrar do longa os méritos do curta, mas de apontar que seus aspectos mais especiais não são igualados pelo que vem a seguir — a safra de curtas dos últimos cinco anos, aliás, parece bem superior ao conjunto de longas do mesmo período, sendo **“Lava”** e **[“Divertida Mente”](https://www.b9.com.br/58763/entretenimento/divertida-mente-e-o-filme-mais-ambicioso-e-criativo-da-pixar-em-muito-tempo/)** as exceções negativa e positiva, respectivamente. Parte disso diz respeito à opção, no formato mais longo, por sequências irregulares e originais pouco inspirados.

Nesse sentido, “Procurando Dory” fica no meio do caminho. Trata-se de um filme com uma estrutura similar a de “Nemo”, com situações que se repetem mais até que os cenários e personagens. Suas novidades despertam interesse genuíno, mas acabam perdidas em meio à repetição da fórmula. O resultado, ao menos no que diz respeito à armação do roteiro, é um dos filmes mais quadrados e esquemáticos do estúdio, em que as cenas se encadeiam como fases de um arcade.

É preciso reconhecer, por outro lado, o trabalho de reconstrução da personagem principal. A coadjuvante Dory foi um fenômeno instantâneo graças a características e piadas muito específicas que dificilmente sustentariam um filme inteiro, o que exige mudanças significativas na sua transformação em protagonista.

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![Procurando Dory](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/07/dory3.jpg)

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Como Andrew Stanton (co-diretor, ao lado de Angus MacLane, e co-roteirista) afirmou [em entrevista](http://www.indiewire.com/2016/06/finding-dory-finding-nemo-sequel-andrew-stanton-1201689389/?ref=b9.com.br):

> Por causa da perda de memória recente, ela não conseguia fazer auto-reflexão”.

Assim, para que Dory ganhe consciência, são empregados recursos como a companhia constante de um novo companheiro, o surgimento de eventos e frases que servem como gatilhos para lembranças e a descoberta de personagens de seu passado.

\[quotedireita\]Em termos de emoção, “Procurando Dory” é tão intenso quanto os melhores exemplares da Pixar\[/quotedireita\]

A ideia de memória, antes fonte de humor, agora é central para a noção de identidade assumida pelo filme. A limitação de Dory passa a ser encarada como obstáculo a ser superado, o que faz com que cada flashback pareça merecido, fruto de uma procura consciente pela própria família e pela própria história. A reabilitação da protagonista é tão emblemática quanto a fuga do peixe-palhaço no primeiro filme. Não por acaso, vários personagens com deficiência habitam esse universo, tornando visível a mensagem de inclusão que se repete em discursos durante o longa.

Em termos de emoção, “Procurando Dory” é tão intenso quanto os melhores exemplares da Pixar. Desde o prólogo, quando vemos o peixe-bebê de olhos gigantes se esforçando para lembrar o caminho de casa, o filme parece interessado em reunir alguns dos elementos mais tradicionais da companhia: o vínculo indissociável entre pais e filhos, a necessidade de trabalhar em equipe e a força de amizades improváveis.

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![Procurando Dory](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/07/dory4.jpg)

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\[quoteesquerda\]Como em outros filmes do estúdio, a jornada de autodescoberta é tão importante quanto a parte prática da missão\[/quoteesquerda\]

Por mais que a repetição dessas questões seja um pouco excessiva, é interessante notar como Stanton e MacLane sabem explorar mesmo os momentos mais formulaicos para gerar emoção e fazer rir. A transposição de boa porção da história para um instituto marinho (em vez do fundo do mar) é uma saída vantajosa. Nesses espaços reduzidos, a comédia se concentra nos diálogos e no humor físico, o que ganha força pela presença de Hank, um polvo rabugento e especialista em camuflagem, que dá tiradas de toda sorte e ajuda nos deslocamentos fora d’água.

Como em outros filmes do estúdio, porém, a jornada de autodescoberta é tão importante quanto a parte prática da missão. Dory é frequentemente vista sozinha e à distância no oceano escuro, que parece muito mais amedrontador do que em “Procurando Nemo” justamente porque a protagonista é imprevisível e sua busca, ainda mais urgente. Passado e presente se confundem, mas o fato de serem conceitos que ela não compreende tão bem não a impede de agir.

No fim das contas, o sucesso de Dory (e de “Procurando Dory”) depende imensamente de seu carisma e sua disposição para ação. A equação é parecida em “Piper”, mas o curta-metragem leva vantagem por dar um passo além em termos estéticos. É verdade que a fórmula da Pixar ainda encanta, mas sua reputação foi construída também com base em inovação — algo que seus roteiristas e diretores, especialmente Stanton, conhecem bem, mas que têm oferecido em abundância apenas nas menores embalagens.

![Rating: 3.0](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/04/rating-nota-3.png)