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# “Tem um momento que a guerra invade todas nós” diz diretora de “Baronesa”
- URL: https://www.b9.com.br/baronesa-entrevista-juliana-antunes/
- Published: 2018-06-16T00:50:12.000Z
- Updated: 2018-06-16T00:50:12.000Z
- Description: Entrevistamos a diretora Juliana Antunes sobre o filme que ganhou todas as atenções no Festival de Tiradentes e estreou esta semana nos cinemas brasileiros
- Author: Pedro Strazza
- Tags: Brasil, Cultura, brasil, Cinema, #wp, #wp-post

**"Baronesa"** chegou ao mundo estourando. Depois de sete anos de desenvolvimento, o filme estreou no **Festival de Tiradentes** do ano passado sob muitos aplausos e fortes elogios, sendo pouco depois consagrado pelo evento com o seu principal prêmio. O Troféu Barroco de Tiradentes, porém, seria só o começo da carreira da produção comandada por Juliana Antunes, que com um orçamento minúsculo foi capaz de coletar honrarias em mostras que vão da Argentina até o distante continente asiático.

Esta recepção, entretanto, não surpreendeu tanto a realizadora. "É claro que não esperava tanto do lado internacional" ela declarou em entrevista ao **B9**, "mas foi um filme que a gente deu muito sangue. É um projeto muito sincero, muito honesto, muito feito na raça e que a gente esperava ter um trabalho forte". Agora que encerrou sua carreira pelo circuito de festivais, "Baronesa" agora encara sua primeira semana no sistema comercial, abraçado pelo patrocínio do projeto **[Sessão Vitrine Petrobrás](https://www.b9.com.br/na-esteira-do-sucesso-de-seu-primeiro-ano-sessao-vitrine-petrobras-anuncia-os-lancamentos-de-2018/)** neste momento tão vital e importante que é enfrentar um público maior, mais vasto e ainda pouco familiarizado com o filme, que trata do duro cotidiano permeado pelas guerras do tráfico nos bairros da periferia de Belo Horizonte sob a ótica das mulheres que o habitam.

Aproveitando da passagem da diretora por São Paulo para divulgar o longa, nós conversamos com Antunes para conversar sobre o longa, desde sua gênese como um projeto e um TCC de faculdade até a grande recepção em Tirandentes, discutindo ainda momentos chave de sua narrativa e o difícil cenário de violência que a cineasta e sua equipe adentraram ao decidir realizá-lo.

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2018/06/BARONESA-STILL11.jpg)

Cena de "Baronesa"

**Antes da gente começar a falar sobre o filme, eu queria saber mais sobre o processo de desenvolvimento, porque acho fascinante que ele tenha começado como um TCC. Como surgiu a ideia deste projeto?**

O projeto começou na verdade como um exercício de faculdade que foi se tornar um TCC, e toda esta ideia surgiu de uma curiosidade que eu tinha quando era estudante de cursinho, de ver o tanto de ônibus no centro de Belo Horizonte com placa com nome de mulher que sempre ia para a periferia. Quando tive matéria de documentário na UNA eu comecei a entrar nestes ônibus com os amigos que não eram da faculdade e pesquisar estes bairros, e foi aí que eu percebi que não queria fazer um documentário completamente. Fui fazendo uma pesquisa de anos e anos, tanto de atrizes que estariam no filme quanto de método e tudo, até chegar ao final.

**Então o projeto surgiu destas viagens?**

As viagens eu comecei a fazer na faculdade, o cursinho foi a época em que eu cheguei a Belo Horizonte vinda de Itaúna e percebi este deslocamento. Mas havia este desejo em registrar a mulher da periferia, e aí o tempo e a imersão foram dando o tom do filme, que a princípio se tratava de mulheres que trabalhavam em um salão de beleza para no fim se tratar de uma guerra.

**Como você encontrou estas duas mulheres que protagonizam o “Baronesa”?**

Pesquisando. Pesquisando muito, loucamente. Eu ia nos salões, procurava estes serviços.

**O quanto do TCC foi pro filme no fim?**

O TCC foi realmente só a parte da pesquisa destes ônibus, a partir daí o filme foi sozinho.

**“Baronesa” fez sua estreia no Festival de Tiradentes do ano passado, onde ganhou o principal prêmio, e desde então vem acumulando reconhecimentos e elogios por onde passa, inclusive na esfera internacional. Você esperava toda esta comoção em torno do longa?**

Sim. É claro que não esperava tanto do lado internacional, mas foi um filme que a gente deu muito sangue. É um projeto muito sincero, muito honesto, muito feito na raça e que a gente esperava ter um trabalho forte, afinal, foram sete anos de desenvolvimento com metade do orçamento de um curta-metragem.

**Quanto tempo duraram as filmagens?**

Foram seis meses. Tem muito mais material de muitas outras mulheres que não entrou no corte final, mas o que está no resultado final foram seis meses.

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2018/06/baronesa_180604_29.jpg)

Juliana Antunes em evento de divulgação de "Baronesa"

**Entrando no filme agora, ele abre com aquela cena da mulher dançando funk. Como surgiu esta cena e por que começar o filme daquela forma?**

Eu quis fazer um prólogo que enfocasse esta questão do corpo. O que as pessoas do Baronesa estão colocando o tempo inteiro à prova? O corpo. Tem a ver também com o olhar de uma diretora lésbica, sobre como e até que ponto filmar, tinha uma relação de filmar o funk e tudo... eu não filmei esta cena já pensando que ela seria a abertura do filme, foi uma decisão de ritmo de montagem no fim.

**Existem vários momentos no filme que partem de situações difíceis, especificamente quando se tratando da violência cotidiana daquelas regiões – por exemplo aquela cena da protagonista dando uma bronca no filho e você enquadrando uma criança que ouve tudo do lado de fora. Mesmo que tenha muito de um relato ficcional nesta narrativa, como foi trabalhar estes momentos?**

Este momento que você citou realmente é documental, uma das poucas cenas que tem esta identidade real porque a gente ensaiava, reensaiava, gravava e regravava. Aquela cena não, o depoimento posterior da Andréia foi super ensaiado, mas o momento da bronca foi real e fui eu que filmei inclusive.

Aquela cena é o seguinte, a Andréia \[a protagonista\] está contando uma história e as crianças tão num momento de descoberta da sexualidade que é normal para a idade delas. Mas a Andréia reage de uma maneira muito violenta àquilo por conta da violência que foi feita com ela a vida inteira. Se a gente está aqui e você joga o meu óculos no chão, você vai falar “desculpa” e eu vou responder “tudo bem”, o que é muito diferente numa atmosfera muito violenta. Se a gente estivesse no limite e estivesse tão claro que ninguém pudesse enxergar nada eu ia te dar um soco na cara. Mas a gente não está numa situação limite de vida, o que é muito diferente de um filme ambientado naquela situação. Eu sempre me perguntava da onde vem e para onde vai a violência; é o que guiou o filme e a montagem, e eu precisava muito desta cena em que a Andréia tinha que devolver esta violência. É uma situação comum, que a maioria das pessoas passa e envolve a descoberta da sexualidade, mostrando uma situação que infelizmente é muito comum no mundo – no caso, a violência contra a mulher – só que recebida ao extremo.

**Nesta questão da violência, há obviamente a cena do tiroteio, que é um dos pontos mais fortes do filme. O que acho curioso desse momento é que você corta esta cena de uma forma até abrupta para uma cena em que a Andréia está em uma estrada de terra e encara de longe sua cidade. Como você chegou a esta decisão na montagem?**

O que você bota na montagem depois de um tiroteio? Essa é a primeira pergunta, o que vem depois disso. E a resposta é a mudança dela, vem isso, a utopia. E foi isso que definiu, porque você está ali, você cria esta atmosfera da guerra o tempo inteiro, e tem um momento que a guerra invade todas nós, tanto quem filma quanto quem é filmado.

\[expandido\]

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