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# “Caça-Fantasmas” aposta na nostalgia, mas não esquece a representatividade
- URL: https://www.b9.com.br/caca-fantasmas-aposta-na-nostalgia-mas-nao-esquece-representatividade/
- Published: 2016-07-15T23:45:11.000Z
- Updated: 2016-07-15T23:45:11.000Z
- Description: Com provocações direcionadas aos misóginos da internet, Paul Feig mais uma vez transforma um universo dominado por homens em um espaço ocupado por mulheres
- Author: Virgílio Souza
- Tags: Cultura, Cinema, hollywood, review, #wp, #wp-post

**⚠ AVISO:** Pode conter spoilers

Em 1984, quando ainda era estudante de cinema, Paul Feig compareceu à estreia de **“Os Caça-Fantasmas”** e, como boa parte do público, se apaixonou pelo filme. Anos depois, já cineasta, recebeu uma oportunidade que parecia imperdível: comandar o terceiro episódio da franquia — o segundo havia sido lançado em 89 — com base em um roteiro aprovado por Ivan Reitman, produtor e diretor do original.

Nessa versão, o grupo liderado por Bill Murray passaria o bastão para uma nova equipe formada por três homens e uma mulher. A oferta acabou recusada, em parte porque Feig não queria que suas personagens simplesmente recebessem [as chaves do castelo](http://io9.gizmodo.com/the-rise-and-fall-of-ghostbusters-3-1783369285?ref=b9.com.br) das mãos dos cientistas conhecidos pela audiência.

\[ltauto\]

Após uma década e meia marcada por uma forte parceria com Melissa McCarthy (com quem trabalhou em seus últimos três filmes) e por investidas divertidíssimas em seriados (além de ter criado **“Freaks and Geeks”**, sua obra-prima, foi o responsável por episódios de **“Arrested Development”** e **“The Office”**), o diretor decidiu começar tudo do zero. Ao lado de Katie Dippold, roteirista de **“Parks and Recreation”**, reuniu um quarteto formado por algumas das melhores comediantes do planeta para um reboot. Reitman não tardou a dar sua benção.

![Paul Feig no set com o elenco](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/07/caca3.jpg)

Paul Feig no set com o elenco

![Ghostbusters](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/07/cacaposter.jpg)

Seguindo os moldes de trabalhos anteriores, como **“A Espiã Que Sabia de Menos”** e **“As Bem-Armadas”** (**“Spy”** e **“Heat”**, nos títulos originais), Feig mais uma vez transforma um universo dominado por homens em um espaço ocupado por mulheres. Novamente protagonista, McCarthy ganha a companhia de Kristen Wiig, que retorna ao centro de uma comédia cinco anos após **“Missão Madrinha de Casamento”** (ou **“Bridesmaids”**), e de duas das mais interessantes componentes do **“Saturday Night Live”** atualmente, Leslie Jones e Kate McKinnon.

De modo democrático, há espaço para que todas elas brilhem. McCarthy é menos vibrante do que em outros projetos, mas seu tempo cômico segue ótimo. Já Wiig demonstra sua habilidade sobretudo quando interage com o personagem de Chris Hemsworth, um secretário burro e extremamente ineficiente que, sem a atriz, se resumiria a uma piada de uma nota só.

Jones, por sua vez, é capaz de contornar até mesmo as [falhas de construção da personagem](http://www.indiewire.com/2016/07/leslie-jones-the-ghostbusters-reboot-black-character-1201705359/?ref=b9.com.br) com seu carisma inigualável e sua enorme versatilidade — além de subir o tom sempre que necessário, é ela quem melhor explora o próprio físico em prol do humor.

\[quotedireita\]De modo democrático, há espaço para que todas as protagonistas brilhem\[/quotedireita\]

Ainda assim, o grande destaque é McKinnon, cuja insanidade ganha o filme por completo a cada aparição. No papel de Holtzmann, a engenheira responsável pelos equipamentos das Caça-Fantasmas, ela mostra um amplo repertório que engloba desde sua postura (a maneira de sentar, andar e até mastigar) até sua fala (especialmente ao explicar conceitos científicos em ritmo frenético para as demais). Sua energia constante ao longo do filme é recompensada no desfecho, e é uma pena que, ao menos por enquanto, não a vejamos mais em modo super-heroína.

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![Ghostbusters](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/07/caca5.jpg)

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\[quoteesquerda\]“Caça-Fantamas” funciona melhor nos momentos em que reúne suas atrizes e permite que elas mergulhem no material de maneira mais livre, pela via do improviso\[/quoteesquerda\]

Não se trata, contudo, de um problema exclusivo da personagem. Pouco hábil na condução das sequências mais agitadas do terceiro ato, Feig desperdiça uma série de oportunidades de fazer humor a partir de detalhes da ação para se concentrar somente nas reações mais óbvias. A reprodução quase exata de frases, cenários e planos do filme original, em especial nas interações com os fantasmas, gera a dúvida: trata-se de uma preocupação exagerada com certo referencial ou de uma inventividade que até existe, mas esbarra nos limites do próprio material? A resposta passa um pouco pelas duas coisas.

Nesse sentido, o novo “Caça-Fantasmas” funciona melhor nos momentos em que reúne suas atrizes e permite que elas mergulhem no material de maneira mais livre, pela via do improviso ou buscando o tom e o timing certos para cada piada. Inseridos entre participações pontuais do elenco principal anterior (exceção feita a Harold Ramis, também roteirista daquele filme, falecido em 2014) e reaparições de locações conhecidas, são os trechos menos vinculados à mitologia da série aqueles que brilham verdadeiramente, se transformando em mais do que acenos obrigatórios a um público mimado.

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![Ghostbusters](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/07/caca6.jpg)

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\[quotedireita\]Pouco hábil na condução das sequências mais agitadas, Feig desperdiça uma série de oportunidades no terceiro ato\[/quotedireita\]

O principal desafio é estrutural. Em seu esqueleto, o reboot repete as batidas de “Os Caça-Fantasmas” sem maiores problemas. Por outro lado, a narrativa sofre pela dificuldade em enfileirar os esquetes, saltando de cena em cena sem que o desenvolvimento e o humor se estabeleçam por completo. Além disso, Feig e Dippold perdem tempo preparando o terreno para acontecimentos que nunca entregam o prometido, muito porque os roteiristas parecem não saber o que fazer com os elementos à disposição. São exemplos disso a criatura misteriosa a que o filme dedica longos minutos no início da projeção, a sequência de dança movida do terceiro ato para os créditos finais, e o próprio papel de Murray, desperdiçado.

Ainda que faltem ao longa momentos originais memoráveis, o que de certa maneira parece reflexo desse compromisso com o olhar sempre no retrovisor, outras questões dão motivos de sobra para comemoração. A atenção para a amizade entre as personagens, a ausência de um interesse amoroso dentro dos padrões de Hollywood e as alfinetadas direcionadas aos misóginos da internet são evidências tímidas de um movimento que é necessário e urgente.

> Look at these childhoods that have been ruined! [pic.twitter.com/DBUX0swyvS](https://t.co/DBUX0swyvS?ref=b9.com.br)
> 
> — Zach Heltzel (@zachheltzel) [July 11, 2016](https://twitter.com/zachheltzel/status/752330262625652736?ref=b9.com.br)

Não se trata de um ato revolucionário de equipe e elenco, mas de uma manifestação de consciência que é resultado de décadas de avanço em termos de representatividade — o próprio Feig provavelmente teria feito um filme bastante diferente se não tivesse rejeitado o convite de Reitman anos atrás. “Caça-Fantasmas” está longe de ser perfeito e é, antes de tudo, produto de uma indústria ainda conservadora sob muitos aspectos. Mas sua existência importa, e fotos como essa acima pesam mais na avaliação do que o número de avaliações negativas infantilmente feitas ao trailer do filme no YouTube, recorde histórico do site.

![Rating: 3.0](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/04/rating-nota3.png)

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