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# Com discrição visual e técnica, “Spotlight” amplifica impacto dos fatos no espectador
- URL: https://www.b9.com.br/com-discricao-visual-e-tecnica-spotlight-amplifica-impacto-dos-fatos-no-espectador/
- Published: 2016-01-12T20:49:01.000Z
- Updated: 2016-01-12T20:49:01.000Z
- Description: Em direção quase neutra, Tom McCarthy evita o elogio fácil e se reserva ao “jornalismo de verdade”
- Author: Virgílio Souza
- Tags: Cultura, Cinema, filme, hollywood, review, #wp, #wp-post

**⚠ AVISO:** Pode conter spoilers

Durante a cerimônia de premiação da Associação de Críticos de Los Angeles realizada nos últimos dias, Aaron Sorkin (vencedor do Oscar por **“A Rede Social”**) aproveitou a oportunidade para definir **“Spotlight – Segredos Revelados”** como *“magnífico”* e dono de um roteiro *“perfeito”*. Partindo de alguém de estilo tão facilmente reconhecível, os elogios revelam bastante sobre o trabalho do diretor Tom McCarthy e de seu co-roteirista, Josh Singer, e a forma como ele tem sido recebido.

\[leiatambem\]62645\[/leiatambem\]

O filme, centrado no desvendar de uma série de abusos acobertados pela Igreja Católica por uma equipe especializada do **Boston Globe**, possui pontos de contato interessantes com **“The Newsroom”**, série de televisão criada por Sorkin como uma espécie de ode ao bom jornalismo (seja lá o que isso signifique para além do discurso apaixonado de seu autor). No entanto, o que chama a atenção é algo que vai além da mera comparação entre as duas obras: na era do espetáculo, da celebração e auto-celebração de cineastas e escritores espalhafatosos, muitas vezes como o mesmo Sorkin, valorizar uma observação contida dos acontecimentos parece tão urgente quanto reconhecer o valor (ético, moral, político) de suas denúncias.

![O diretor Tom McCarthy, à direita](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/01/spotlight2.jpg)

O diretor Tom McCarthy, à direita

![Spotlight](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/01/spotposter.jpg)

A confiança de McCarthy no material possibilita que seu registro seja quase neutro: não com relação aos fatos, que seu filme trata com a sobriedade necessária, mas no que diz respeito à maneira de filmá-los. As dinâmicas entre personagens se sustentam em um esquema básico de plano e contraplano que faz transbordar novas pistas e reações para movimentar a trama.

Os cenários (escritórios, bares, corredores) carregam peso pela banalidade, por falta de cor e/ou espaço (a casa de um dos jornalistas é símbolo disso) — estão sempre entre a monotonia da sala de reuniões e a escuridão da vizinhança. Trata-se de uma direção procedimental, que não chama atenção para si, a serviço de uma história procedimental, que não precisa chamar atenção para si — ou, ainda, de uma busca por discrição que é tanto dos personagens quanto do próprio diretor.

O quebra-cabeças da construção da reportagem deixa pouca margem para que o espectador complete as peças. O expediente aqui, de carga mais dramática do que de suspense, é de trilhar o mesmo caminho que a equipe do jornal: seguir pistas, confirmar informações, debater, fazer tudo outra vez. Quando Garabedian (Stanley Tucci), advogado de muitas das vítimas, pergunta por que Robby (Michael Keaton), editor da Spotlight, repete tudo o que ele diz, a resposta é precisa:

> Eu gosto de deixar as coisas claras”

\[ladoalado\]

![Spotlight](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/01/spot3.jpg)

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\[quotedireita\]A confiança de McCarthy no material possibilita que seu registro seja quase neutro: não com relação aos fatos, mas na maneira de filmá-los\[/quotedireita\]

Vale notar, ainda, que a continuação do diálogo acima (*“Talvez você devesse ter deixado as coisas claras cinco anos atrás”* é o que retruca o advogado) insere um componente importante na discussão: a conivência geral, de mídia, população e estado, com relação aos crimes cometidos pela igreja. Esse é um aspecto tratado pelo filme de modo competente nas sequências em que o senso de comunidade parece mais evidente — quando Sacha (Rachel McAdams) observa jovens andando de bicicleta após entrevistar um suspeito, ou quando Matt (Brian d’Arcy James) deixa um aviso para os filhos na porta da geladeira.

\[quotelaranja\]É de se elogiar, por exemplo, que McCarthy não se renda a caracterizações brutas como padres com expressões vilanescas e criancinhas assustadas apenas para acrescentar choque visual em algo que já é escandaloso simplesmente por existir.\[/quotelaranja\]

Momentaneamente, o olhar se desvia das ruas de Southie quando o filme decide investir no grupo central de personagens. São os casos da visita de Ben (John Slattery) a Mike (Mark Ruffalo), da situação deste último com a esposa, e das interações entre os repórteres do Globe com profissionais de outros diários, como o Herald. O diretor pesa a mão, em especial por sua falta de habilidade para administrar tensões pessoais e conduzir certas relações que, apesar de algum valor para a reportagem, possuem pouco impacto dramático.

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![Spotlight](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/01/spot4.jpg)

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\[quoteesquerda\]Também discreta, a câmera passeia em movimento pelas salas, prédios e tribunais, registrando dois tipos distintos de inquietação: a da equipe e a dos criminosos\[/quoteesquerda\]

Embora excelente em termos gerais, o elenco sofre um pouco quando explorado separadamente, porque há trechos, como os mencionados, em que se exige deles uma individualidade que o restante do roteiro não estrutura. Nesse departamento, quem se destaca é Keaton: seu Robby é seguro nas relações com o chefe (Liev Schreiber) e o antigo colega (Jamey Sheridan) e capaz de aguentar o peso das denúncias contra funcionários do colégio em que estudou. Felizmente, a condução do fio principal da trama ajuda a evitar que tais complicações prejudiquem o encadeamento dos eventos, e a retomada do rumo no terceiro ato, apesar das distrações, é significativa.

O grande mérito de McCarthy é ser reservado, evitando o elogio fácil, igualmente inspirador e aborrecido, ao “jornalismo de verdade”. Essa opção pela retração transparece, inclusive, no trabalho do diretor de fotografia, Masanobu Takayanagi, que havia retratado as ruas de Boston recentemente em **[“Aliança do Crime”](https://www.b9.com.br/61798/entretenimento/alianc%cc%a7a-do-crime-e-apenas-mais-um-sub-scorsese-esquecivel/)**.

Também discreta, a câmera passeia em movimento pelas salas, prédios e tribunais, registrando dois tipos distintos de inquietação: a da equipe, por consequência das descobertas, e a dos criminosos, pelo ineditismo do confronto. A lógica se completa quando o foco retorna para a newsroom e tudo se aquieta — é a hora de organizar as ideias, como no processo de recolha que sucede a disseminação.

Retornando à frase de Sorkin, é possível imaginar que o elogio se dê pela proximidade de discursos e pelo distanciamento de estilos. “Spotlight” é mais forte por isso: McCarthy e equipe completam sua parte do procedimento com competência, sem alarde maior do que o necessário, e deixam que a audiência dê conta do impacto, ampliado pela dureza dos próprios fatos.

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