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# Davi Calil e as oportunidades do mercado independente de quadrinhos
- URL: https://www.b9.com.br/davi-calil-entrevista/
- Published: 2016-12-09T14:17:11.000Z
- Updated: 2016-12-09T14:17:11.000Z
- Description: Em entrevista ao B9, o pintor, quadrinista e ilustrador fala do futuro das HQs brasileiras além da “Turma da Mônica”
- Author: Raquel Moritz
- Tags: Brasil, Cultura, Negócios, quadrinhos, #wp, #wp-post

Um pensamento que já teve o prazo de validade expirado é o de que história em quadrinhos no Brasil se resume à **“Turma da Mônica”**. Mauricio de Sousa esteve - e ainda está - presente na vida de muitos brasileiros desde o momento da alfabetização e é certo que ainda vai fazer companhia para muitos novos leitores, mas não, a produção brasileira não se resume à garotinha do vestido vermelho.

A cada ano que passa novos artistas vão se moldando e arranjando maneiras de mostrarem seus trabalhos ao público - seja através de publicação com editoras, páginas em redes sociais, projetos de financiamento coletivo ou mesmo investindo dinheiro do próprio bolso para imprimir e distribuir a quem se interessar.

\[ltauto\]

O *Artists' Alley*, da **CCXP**, reuniu mais de 300 artistas independentes nessa edição de 2016, mas não é só lá que a galera se esbarra. Na **Bienal de Quadrinhos de Curitiba** \- que aconteceu entre os dias 8 e 11 de setembro no MuMA - encontrei grandes ideias e artistas, novos e em ascensão, ansiosos para alcançarem um novo público, e pude conhecer pessoalmente alguém que eu já admirava pelas obras publicadas: **Davi Calil**.

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![Colorização Turma da Mata - Entrevista com Davi Calil no B9](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/09/b9-davi-calil-entrevista-noite-lenfer-001.jpg "Colorização do álbum Turma da Mata - Muralha")

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Pintor, quadrinista e ilustrador paulista, Davi Calil começou a carreira publicando histórias ilustradas em algumas revistas até criar a editora independente **Dead Hamster Comics**, onde lançou algumas de suas obras, entre elas *“Quaisqualigundum”* (com roteiro de Roger Cruz) e *“Surubotron”*. Ele também participou da [colorização do álbum](https://www.youtube.com/watch?v=gUb-9EnK4KQ&ref=b9.com.br) *“Turma da Mata - Muralha”*, da Graphic MSP, mas em julho de 2016, depois de 3 anos de muito trabalho, [**“Uma Noite em L'Enfer”**](http://pipocamusical.com.br/2016/07/25/resenha-uma-noite-em-lenfer-davi-calil/?ref=b9.com.br) chegou às livrarias em um acabamento de primeira e pelas mãos da Editora MINO. *"Era um trabalho tão grande que eu achava que ele merecia o cuidado de uma editora"*, conta o artista.

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![Uma Noite em L'Enfer - Entrevista com Davi Calil no B9](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/09/b9-davi-calil-entrevista-noite-lenfer-07.jpg "O Diabo dá as boas vindas aos artistas em Uma Noite em L'Enfer")

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Calil desenha desde criança - aos nove anos ele começou a estudar num ateliê de Guararema (interior de São Paulo), onde teve contato com seus primeiros livros de pintura. Sua formação foi se moldando ano após ano, mas o traço amadureceu muito quando se dedicou aos quadrinhos e admitiu o próprio estilo. *"No começo os desenhos eram ruins de doer, mas aos poucos eles foram melhorando e quando me dei conta já estava trabalhando como ilustrador"*, comenta.

Ele contou com o apoio dos pais desde pequeno e, *"quando algum trabalho meu saía em revistas e jornais, a preocupação da minha mãe de que eu ia morrer de fome ia embora. Parece que ser publicado 'é de verdade'. Eu queria trilhar o caminho de publicar com uma editora e ver meu trabalho numa livraria - L'Enfer já ficou ao lado do Asimov e eu fiquei super feliz, esse é o tipo de experiência que você raramente tem quando publica de maneira independente."*

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![Entrevista com Davi Calil no B9](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/09/b9-davi-calil-entrevista-noite-lenfer-01.jpg "Orelha da graphic novel Uma Noite em L'Enfer")

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\[quotedireita\]Uma Noite em L'Enfer é uma graphic novel recheada de referências e homenagens à grandes artistas como Van Gogh, Klimt e Goya\[/quotedireita\]

Num evento como a Bienal de Quadrinhos em que os **artistas independentes** são maioria, é normal se perguntar as diferenças práticas e subjetivas de ter o apoio de uma editora ou fazer tudo sozinho. Quando o trabalho fica inteiramente por conta do autor, muitas vezes ele não consegue explorar o entorno da obra por estar preocupado em escrever, ilustrar, revisar, finalizar, imprimir e colocar na mão de novos leitores.

*"A maior parte das pessoas não é obcecada por pintura como eu sou, então L'Enfer tem vários easter eggs que podem passar batidos pelo público, mas quem está familiarizado com o universo da pintura vai reconhecer uma ou outra e se perguntar se tem mais"*, explica o ilustrador. Muitos dos quadros da graphic novel fazem referências à grandes obras de **Gauguin**, **Toulouse-Lautrec**, **Klimt**, **Van Gogh**, entre outros, e a editora Mino criou painéis especiais para sinalizar algumas dessas pequenas homenagens. *"Eu falei sobre isso na editora e eles se empolgaram em produzir esse material para divulgação de L'Enfer"* \- que, aliás, você [pode ver aqui](http://pipocamusical.com.br/2016/09/13/referencias-uma-noite-em-lenfer-davi-calil/?ref=b9.com.br).

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![Saturn Devouring His Son - GOYA](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/09/uma-noite-em-lenfer-painel-goya.png "Referência ao quadro Saturn Devouring His Son, de Goya")

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Gustavo Borges, autor de *“Pétalas”* (um dos projetos mais bem-sucedidos do **Catarse**), comentou em uma das mesas promovidas pelo evento que acredita que o mercado de quadrinhos no Brasil ainda se limita a um ovo que vai quebrar a casca em breve para sair do nicho, e que talvez essa geração de artistas ainda precise lidar com muitas questões para conseguir espaço, mas a próxima já vai se posicionar num mercado mais maduro e com mais oportunidades.

> O velho ainda não morreu, o novo ainda não nasceu. É o que a gente vive na mídia impressa. O papel não morreu, e dificilmente vai, mas o digital ainda não se estabeleceu"

Ele acredita que, com o tempo, a impressão em papel vai se limitar a coisas mais relevantes e caprichosas, daquelas que o leitor quer colecionar. *"Eu estou trabalhando numa web comic agora e meu plano é lançar essa história de maneira gratuita e deixá-la ao alcance de muito mais gente do que uma tiragem impressa iria. E se eu vier a imprimir essa história depois, a pessoa vai ler online, gostar e aí sim buscar a edição física como algo para colecionar, e não porque o único jeito de ter acesso a ela é comprando na livraria"*, opina.

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![Uma Noite em L'Enfer - Entrevista com Davi Calil no B9](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/09/b9-davi-calil-entrevista-noite-lenfer-08.jpg "Os quadrinhos de Davi Calil")

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\[quoteesquerda\]"...os artistas em *L'Enfer* estão em um bar, contando histórias desgraçadas, bebendo muito e ninguém sabe o que é verdade ou não." - Davi Calil\[/quoteesquerda\]

Como forma de complemento a essa visão das obras digitais, no posfácio de Luis Bueno para *Uma Noite em L'Enfer* a gente encontra um trecho em particular que fala sobre o otimismo vivido no final do século XIX com a expectativa de que a Revolução Industrial e a riqueza gerada a partir dela mudaria tudo, e que a tecnologia alcançaria patamares antes apenas imaginados. Isso se concretizou, de fato, mas a mesma tecnologia usada para construir pode ser usada para destruir e tivemos que enfrentar crises, duas guerras mundiais e ainda tocar a vida sob um clima de ameaça constante.

*"O que a gente vive hoje, na virada do século XX, é muito parecido com aquela época, no sentido de apostar em algo que vai mudar tudo. Todo mundo achou que a internet resolveria os problemas do mundo: todos iriam se comunicar, se unir, se aproximar. Lógico que vieram muitas coisas boas disso, mas você também aumentou o discurso de ódio, a intolerância em todas as áreas, a exposição e etc"*, complementa o artista.

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![Van Gogh em Uma Noite em L'Enfer - Entrevista com Davi Calil no B9](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/09/b9-davi-calil-entrevista-noite-lenfer-04.jpg "Van Gogh em Uma Noite em L'Enfer")

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Considerando que, na internet, nenhum erro passa batido, pergunto se *“Uma Noite em L'Enfer”* chegou a sofrer alguma crítica por conta da liberdade poética utilizada na obra - afinal de contas a história começa quando Van Gogh se recupera do tiro que, na realidade, lhe tirou a vida, e vai parar em um cabaré parisiense com outros artistas que não se cruzaram na época para contar histórias de morte, sexo e mistério.

*"Eu ainda não tenho tantos trabalhos autorais que me tenham feito sair da zona de conforto. Antes de ser quadrinista, sou pintor, então esse é um assunto que eu consigo explorar com tranquilidade, mas os artistas em L'Enfer estão em um bar, contando histórias desgraçadas, bebendo muito e ninguém sabe o que é verdade ou não. Como tem esse humor por cima, a pessoa não se sente apta a cobrar veracidade de uma história que já se mostra caricata. Se eu tivesse a pretensão do James Cameron ao fazer o filme do Titanic com 'os acontecimentos mais próximos da realidade', eu teria que lidar com Neil deGrasse Tyson dizendo que a posição das estrelas no céu no dia que o Titanic naufragou não era aquela"*, brinca ele ao se referir ao comentário de Tyson que fez Cameron editar o próprio filme anos depois.

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![Uma Noite em L'Enfer - Entrevista com Davi Calil no B9](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/09/b9-davi-calil-entrevista-noite-lenfer-06.jpg "Capítulo de Uma Noite em L'Enfer dedicado ao mestre Lautrec")

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*“Uma Noite em L'Enfer”* está conquistando novos leitores - e elogios - a cada semana. Em paralelo, Davi Calil também participa de exposições e dá aulas em uma academia de artes em São Paulo.

> Eu tenho um curso com uma técnica de Pintura Relâmpago, então além de ensinar algo eu tenho que produzir e mostrar um processo eficiente"

Fazer as duas coisas ao mesmo tempo é uma habilidade que foi adquirida com a prática. E praticar é o segredo para ver resultados (Mr. Miyagi que o diga). A maior dificuldade dos alunos é a falta de paciência e perseverança - muitos já querem produzir coisas incríveis na primeira aula e se frustram quando isso não acontece. Um dos primeiros animadores da **Disney**, Walt Stanchfield, disse certa vez que todos temos 10 mil desenhos ruins dentro de nós e quanto antes nos livrarmos deles, melhor. "Eu gosto desta ideia, acho que com a pintura é a mesma coisa, os desenhos bons só vão sair quando você gastar os que não prestam", complementa Calil.

\[quotedireita\]"Todos temos 10 mil desenhos ruins dentro de nós. Quanto antes nos livrarmos deles, melhor." - Walt Stanchfield\[/quotedireita\]

A web comic de Davi Calil se chama **“Kung Fu Ganja”** e foi lançada no final de novembro. O artista já tem muita coisa adiantada para poder manter o ritmo de produção no próximo ano, mas parte do primeiro capítulo já está [disponível para leitura gratuita no Tapastic](https://tapastic.com/episode/519652?ref=b9.com.br). *"Tenho escutado muitos audiobooks para manter a leitura em dia e, pra falar a verdade, agora estou pesquisando bastante para o Kung Fu Ganja, então passei a buscar materiais sobre a história da China para aprimorar os roteiros"*. Você pode acompanhar as novidades do projeto na [página criada especialmente para o Kung Fu Ganja](https://www.facebook.com/Kung-Fu-Ganja-1107170332671413/) no Facebook. "Quero dar esse passo e espero que a obra chegue em muito mais pessoas", finaliza.

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![Kung Fu Ganja, por Davi Calil](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/09/14188622_1107657492622697_1349202002723519496_o.jpg "Kung Fu Ganja, por Davi Calil")

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Enquanto as grandes livrarias ainda separam um espaço modesto aos quadrinhos nacionais, já existem algumas lojas inteiramente dedicadas à venda de trabalhos independentes, autorais, diferentes - além, é claro, do apoio que os autores podem buscar na internet com leitores, blogueiros, youtubers e toda essa galera que consome, sim, Turma da Mônica, mas também outras obras tão legais quanto. Opções não faltam, nem para o leitor, nem para o autor.

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**Raquel Moritz** é publicitária, publica vídeos e textos sobre literatura e quadrinhos no [Pipoca Musical](http://pipocamusical.com.br/?ref=b9.com.br) e, por mais que tente, não consegue nem desenhar boneco palito.