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# Distress: Do outro lado da película
- URL: https://www.b9.com.br/distress-do-outro-lado-da-pelicula/
- Published: 2011-04-27T14:44:31.000Z
- Updated: 2011-04-27T14:44:31.000Z
- Author: Fábio M. Barreto
- Tags: Cultura, Cinema, filme, hollywood, making of, produção, #wp, #wp-post

##### Depois de 15 anos de carreira, encarei a filmagem do meu primeiro curta-metragem e garanto, você pode fazer o seu! Especialmente depois de ler esse texto!

Cada história sempre tem dois lados, duas verdades, duas realidades. Quando iniciei a carreira de jornalista há 15 anos, a paixão pelo cinema decidiu muitas coisas fundamentais, como, por exemplo, seguir o caminho do entretenimento na primeira oportunidade que tive no *Caderno2*, no **Estadão**.

Mudar para Los Angeles foi resultado de tudo isso, afinal, trabalhar como correspondente internacional é o sonho de todo repórter de cinema. Conviver com tantos diretores, atores e, literalmente, respirar cinema em Hollywood vem com o pacote e a vontade de passar para o outro lado é inevitável.

Depois de 3 anos em Los Angeles, finalmente aconteceu: concluí meu primeiro filme. O curta-metragem Distress, que acabou de ser oficialmente lançado (veja o filme abaixo), entretanto, há uma experiência a ser compartilhada. Fazer um filme é uma das coisas mais incríveis que aconteceu na minha vida! Depois que eu contar, você vai querer sair correndo e filmar por conta própria, garanto!

Mas não foi tudo tão fácil e simples. Quem acompanha o **[SOSHollywood.com.br](http://soshollywood.com.br/?ref=b9.com.br)** pode ler cada passo da jornada, que começou em janeiro quando me matriculei no curso de cinema da **LACC**, o melhor programa de cinema entre as universidades públicas dos Estados Unidos. Clint Eastwood se formou ali; dá para o gasto, não?

Bem, depois de muita teoria e provas, chegou a hora de colocar a criatividade em prática e começar a filmar. Dois curtas são obrigatórios no primeiro semestre, então nasceu **"Distress"**, um thriller de fantasia. O filme é curtinho mesmo, tem apenas 6 minutos, e levou 3 semanas para ser produzido, filmado e finalizado. E esse processo foi fantástico.

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2011/04/dist.jpg "dist")

Começou com aquele pânico básico: **preciso fazer um filme, e agora?**

# | Cenário e figurinos

O roteiro estava escrito e consegui ajuda de Ricardo Ninin, um leitor do SOS, com os storyboards. Mas aí a produção local entrou em pauta e felizmente, estar em Los Angeles facilita, e muito, as coisas. Por ser ambientado num cenário levemente medieval, precisava de fantasias - o primeiro terror dos produtores de baixo orçamento, afinal, figurino significa muito dinheiro investido. Rodei várias lojas de fantasias da cidade até descobrir o paraíso dos figurinistas: **Western Costume Co.**

Só um exemplo: quer alugar as roupas de Waterworld ou Robin Hood para fazer seu filme? Eles têm as originais! Aliás, sem querer, acabei alugando duas peças do filme de Ridley Scott. O preço realmente é salgado, mas ser estudante tem suas vantagens e consegui um bom desconto. Ok, figurinos selecionados.

# | Locações

Próximo passo, locações. Esse é complicado. Abrir um tripé em Hollywood significa ser interpelado por qualquer policial que passar. É necessário ter uma autorização de filmagem, que custa de US$650 a US$2000 por dia, dependendo do lugar escolhido. E, claro, se os responsáveis concordarem. Existe uma entidade que só cuida disso em Los Angeles, a **[FilmLA.com](http://filmla.com/?ref=b9.com.br)**. Sem passar por eles, nada feito.

Mais uma vez, o desconto para estudantes entrou em ação, mas de forma absurda. Por estudar cinema, cobraram apenas uma pequena taxa adminstrativa e filmar no Griffith Park - propriedade originalmente do cineasta D.W. Griffith e onde fica a placa de Hollywood - se tornou possível. Um sonho de locação. Linda floresta, fácil acesso e tudo que eu precisava para transformar "Distress" num filme agradável aos olhos. E teve um bônus, a cena final foi gravada na BatCaverna do Batman de Adam West! Oh, yeah! Fãs de Chuck vão reconhecê-la, pois ela também serve de cenário para a série de Zachary Levi.

# | Elenco

Roteiro e Storyboards ok. Figurinos ok. Locação e autorização ok. O que falta? Elenco. Por sorte, um grande amigo e jornalista italiano, Andrea Cangioli, me recomendou uma fantástica atriz da Irlanda do Norte, Claire Falconer. Ela ficou com papel principal, enquanto o músico e ator Ryan Nelli, um colega de classe, e o amigo Dado Coutinho encararam os dois papéis masculinos.

Dei muita sorte, pois encontrar gente motivada e habilidosa, mesmo no caso de Dado, que nunca havia atuado nem em peça de escola, é coisa rara. Com elenco internacional, precisei dirigir em inglês e isso deu um tempero especial à estréia por trás das câmeras.

# | Filmagens

Agora sim, tudo nos devidos lugares. Hora de filmar. E aí entrou o elemento surpresa. Chamar de sorte é fácil, mas, na verdade, foi a vitória da minha cabeça dura. Filmar em estúdio é seguro, pois tudo é protegido e, habitualmente, Los Angeles é perfeita para filmes em locação aberta por conta do tempo seco. O que aconteceu na semana das filmagens? Chuva! A data já estava marcada para 25 de março, uma sexta-feira; começou a chover no domingo anterior.

A combinação lama, água, falta de orçamento para alugar tendas e outras proteções tinha tudo para arruinar as filmagens e, além de tudo, já havia pago uma quantia considerável para a locação, mesmo com o desconto.

O lado produtor entrou em cena e fiz a única coisa que podia fazer: visitei a locação todos os dias da semana, nos horários previstos, para ver o comportamento do tempo. Minutos antes do limite para cancelar, e com o coordenador do Griffith Park tentando me convencer a mudar a data, decidi: vamos em frente! Vai fazer Sol!

Os deuses sorriram e não caiu uma gota d’água durante as 5 horas de gravação. A preparação foi fundamental, pois notei o padrão do tempo no horário e o Sol abria lá para as 10h e mantinha-se estável até o fim da tarde. *That’s a Bingo*, como diria o coronel Fritz Landa! Foi corrido, complicado, sem intervalos e absolutamente fantástico!

# | Câmera

Coordenar as cenas, orientar os atores, controlar o roteiro, filmar tudo com uma câmera fotográfica relativamente básica - **Nikon P100** (10.3 megapixels), modelo bem acessível, mas cheio de pontos negativos para a finalidade cinematográfica - e ter que fazer tudo com horário para acabar.

Entre os pontos fracos, e complicadores dessa câmera, foi o fato de ela não ter foco manual (que ficava mais interessado em folhas do que no rosto dos atores) e ser extremamente leve, ideal para handheld, mas péssima para trabalhar com tripé, ou seja, por ser leve, cada movimento levava o conjunto todo e estragou muita cena boa. Isso é algo a se pensar na hora de fazer o seu filme independente. Aliás, independente não significa mal feito ou filmado de qualquer jeito, como muita gente pensa.

Outra coisa dessa câmera: ela funcionou bem para essa finalidade, ou seja, um filme sem diálogos. Ela não tem entrada para microfone externo, logo, não é possível conectar um adaptador ou gravador de melhor qualidade e, para filmagem em locação externa, não é recomendável se você precisa de som. São detalhes fundamentais que podem estragar o seu dia, por mais que todo o resto esteja bem coberto.

Fazer filmes é uma das práticas em que a escolha do equipamento é a decisão mais complexa. Não adianta nada você usar uma **RED**, por exemplo, se não tiver espaço de HD ou computador capaz de rodar seus arquivos. Logo, tecnologia de mais ou de menos estraga. Escolha a camêra que atende às suas necessidades e seja feliz! :D

A Lu Costa, minha esposa, foi uma ótima controladora de orçamento e me colocou nos eixos! Tudo tinha que funcionar direitinho e não me perguntem como, só sei que quando chegou a hora de encerrar o dia, todas as cenas estavam cobertas e pude dizer *“It’s a Wrap”* (Acabou!), com orgulho, alívio e muita alegria.

Ver cada cena ganhar forma, sofrer alterações por causa das idéias do momento, ouvir opiniões da equipe, entender o processo dos atores e assimilar suas sugestões e escolhas foi mágico. Tudo que ouvi diretores me dizendo por tantos anos, finalmente ganhando sentido de ação para mim. Não tenho ilusões de grandeza, sério.

Fazer filmes é tarefa complicada e trabalhosa. Às vezes são gastos milhões por cenas das quais vemos apenas alguns segundos, mas são fundamentais para o entendimento da história, para a execução da visão do diretor. Isso sem contar as horas absurdas de trabalho no **Final Cut Express** e no **After Effects**, que precisei descobrir como funcionava por meio dos ótimos tutoriais da **Adobe TV**. Foram pelo menos duas semanas de trabalho pesado contando edição, animações e tratamento de imagem.

Felizmente, o After Effects libera um demo completo por 30 dias, então deu para usar, mas agora vou ter que comprar, não vai ter jeito. Mas vale a pena apostar no software original e nenhum dos programas me deixou na mão em nenhum momento, logo, não tive nenhum problema de perder arquivos ou ter que retrabalhar algo.

O Brasil não tem parte dessa estrutura, mas tem as idéias e pessoas capazes de fazer bons filmes. E, o melhor, sem gastar a fortuna exigida pelas entidades cinematográficas e locações de Los Angeles.

Então, está esperando o que para pensar na sua história, pegar uma câmera HD, juntar uns amigos e fazer parte dessa arte que tanto nos fascina? Silêncio no set, camera rodando, ação!