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# Grammy 2018: premiação flerta com diversidade, mas mantém prestígio invariável
- URL: https://www.b9.com.br/grammy-2018-premiacao-flerta-com-diversidade-mas-mantem-prestigio-invariavel/
- Published: 2018-01-29T12:56:15.000Z
- Updated: 2018-01-29T12:56:15.000Z
- Description: Apesar da maior presença de negros, latinos e mulheres, o reconhecimento final ainda exala conservadorismo
- Author: Soraia Alves
- Tags: Cultura, donald Trump, Ed Sheeran, Grammy Awards, jay-z, Kendrick Lamar, lady gaga, #wp, #wp-post

Ao contrário do que vimos no **Globo de Ouro**, marcado por discursos poderosos, o **Grammy 2018** demorou para nos trazer algo importante a ser ouvido. É verdade que **Kendrick Lamar**, responsável pelo show de abertura da cerimônia, já chegou com o pé na porta em uma apresentação potente e direta, com sátira, soldados, tiros e uma intervenção de **Dave Chappelle** dizendo: "*Eu só queria lembrar vocês que a única coisa que dá mais medo do que ver um negro sendo honesto nos Estados Unidos é ser um negro honesto nos Estados Unidos."*

Porém, coube à **Janelle Monáe** trazer um discurso mais encorpado ao palco, com o pedido de igualdade entre gêneros. A cantora citou o movimento [**Time's Up**](https://www.b9.com.br/times-up-iniciativa-reune-estrelas-de-hollywood-contra-o-assedio/) e falou pelas mulheres da indústria da música, que também sofrem com sexismo e assédio sexual tanto quanto **Hollywood**: "*Assim como temos o poder de moldar a cultura, também temos o poder de desfazer uma cultura que não nos serve bem*".

Com essa introdução, **Kesha** performou a canção "*Praying*" ao lado de **Cyndi Lauper, Camila Cabello, Julia Michaels, Andra Day** e o **Coral Resistance Revival** composto por mulheres que cantam em forma de protesto. O peso da apresentação é gigante: essa é a grande volta de **Kesha** depois de um longo processo, em 2014, contra seu atual produtor **Dr. Luke,** que foi acusado de agredi-la sexualmente por anos.

O momento poderia ter sido marcado com ainda mais emoção, cas**o Kesha** tivesse levado pouco antes o prêmio na categoria **"Performance Solo de Pop"**, que ficou com **Ed Sheeran** e "*Shape of You*". Realmente, seria difícil para **Kesha** sobrepor o impacto causado por "*Shape of You*" o ano todo. Ainda assim, vale lembrar que mais 3 mulheres estavam na disputa - **Lady Gaga, Pink** e **Kelly Clarkson**.

Na sequência, **Camila Cabello**, que é cubana, apresentou um belo discurso usando muitas vezes a palavra "dreamers" e destacando a importância dos imigrantes na construção dos Estados Unidos. Um destaque  
à comunidade latina que foi reforçado com a performance anterior de **Luis Fonsi** e o fenômeno *"Despacito"*.

Porém, mais uma vez percebemos que a abertura do Grammy para a diversidade ainda é tímida e reservada ao "espaço concedido" e não ao "reconhecimento musical". Nas duas categorias que disputou, **"Melhor Música"** e **"Melhor Gravação"**, *"Despacito"* perdeu para **Bruno Mars** com *"That's What I Like*" e "*24K Magic*", respectivamente.

Sabemos que popularidade e qualidade são pontos diferentes, mas se um sucesso global como é a canção de Fonsi também é considerada boa o bastante para entrar na competição, não seria um caso de realmente o material ser o melhor do ano?

Além do discurso de **Camila Cabello**, houve o bom momento de alfinetada à política dos Estados Unidos com a leitura de trechos do livro **"Fire and Fury: Inside the Trump White House"**, que critica o primeiro ano do governo do presidente **Donald Trump**, por artistas como **Cher, Snoop Dogg** e uma aparição surpresa de **Hillary Clinton**.

Ainda assim, o impacto geral é pequeno. Muito se falou sobre esse ser um Grammy histórico. E não foi. Nem mesmo a tão esperada "justiça" a **Kendrick Lamar** veio. Com ele, **Jay-Z, Bruno Mars, Childish Gambino** e **Lorde** na disputa pelo principal prêmio da noite, **"Álbum do Ano"**, o troféu ficou com Bruno Mars, que em seu discurso de agradecimento classificou o disco como feito para juntar pessoas em torno da celebração e da felicidade.

Apesar da maior presença de negros, latinos e mulheres nas performances e nas disputas, o prestígio e reconhecimento finais ainda exalam conservadorismo e o favorecimento de gêneros menos incômodos que o **Hip Hop**.

Mas, ainda assim, a maior diversidade vista no Grammy desse ano é melhor que nada. Mesmo que lentamente, é como **Bob Dylan** diz: "*os tempos, eles estão mudando*".