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# "Informe publicitário" negacionista nos jornais O Globo e Folha atesta divisão entre editorial e comercial
- URL: https://www.b9.com.br/informe-publicitario-negacionista-nos-jornais-o-globo-e-folha-atesta-divisao-entre-editorial-e-comercial/
- Published: 2021-02-23T15:12:21.000Z
- Updated: 2021-02-23T15:12:21.000Z
- Description: Departamento comercial dos veículos aceita que anúncio publicitário de meia página em defesa do tratamento precoce seja divulgado nas versões impressas
- Author: Pedro Strazza
- Tags: Brasil, Negócios, folha de são paulo, jornalismo, O Globo, pandemia, #wp, #wp-post, Globo, Entretenimento

A manhã desta terça-feira (23/02) ficou marcada para muitos brasileiros pela veiculação de um "informe publicitário" defendendo o tratamento precoce do coronavírus em alguns dos principais jornais do país. Presente nas edições impressas da **Folha de São Paulo** e do **O Globo**, o anúncio foi pago pela **Associação Médicos pela Vida** e busca divulgar o uso antecipado de medicamentos como a cloroquina para curar pacientes infectados pela Covid-19 - um problema, dado que nenhuma organização internacional de saúde reconhece ou recomenda tais remédios no combate à pandemia.

> [](https://twitter.com/jnascim/status/1364187766452596736?ref=b9.com.br)

A peça, no caso, se porta como um *"manifesto pela vida"* assinado por um *"grupo de médicos que têm se dedicado a levar aos pacientes o melhor da prática profissional"* durante a pandemia, embora nenhum nome seja vinculado ao texto publicado. Além de divulgar ao final uma *"jornada médica online"* sobre o tema, o anúncio também cita um trecho da **Declaração de Helsinque** (sem o contexto apropriado de que o documento se refere a princípios de ética sobre testes clínicos com humanos, vale apontar) e do **Conselho Federal de Medicina** para justificar a defesa do uso de medicamentos sem eficácia comprovada.

A questão é que diversas organizações nacionais e internacionais já se posicionaram contra a utilização do tratamento precoce na pandemia. A própria **Organização Mundial da Saúde** (OMS) e a **Sociedade Brasileira de Infectologia** (SBI) rejeitaram a utilização da hidroxicloroquina, da ivermectina, azitromicina e doxiciclina no cuidado de pessoas que tenham sido contaminadas pelo coronavírus, uma decisão que é corroborada por instituições como o **Centro de Controle e Prevenção de Doenças** dos Estados Unidos e da Europa e mesmo a **Agência Nacional de Vigilância Sanitária**.

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Eu6MV-YXaohLKG.jpg)

Enquanto espera-se que os efeitos do "informe" sejam combatidos por organizações de saúde nas próximas horas, o caso mais uma vez reaviva a discussão em torno da atual divisória que separa o editorial dos jornais de seus departamentos comerciais. Os gastos da dita associação não foram poucos, afinal, dado que atualmente não é nada barato veicular um anúncio de meia página na Folha de São Paulo e n'O Globo - de acordo com a jornalista **Mariana Varella**, editora-chefe do **Portal Drauzio Varella**, o preço para tal na primeira é na altura dos R$ 200 mil.

> [](https://twitter.com/marivarella/status/1364182051151347713?ref=b9.com.br)

A situação preocupa sobretudo porque os principais veículos de comunicação do país (incluindo a Folha e O Globo) atuam conjuntamente desde o ano passado para combater a desinformação sobre a pandemia. Além de[ a partir de junho](https://www.b9.com.br/127238/principais-veiculos-de-comunicacao-do-pais-unem-forcas-para-manter-atualizados-dados-da-pandemia-no-brasil/) manterem atualizados os dados de disseminação do coronavírus em uma parceria independente do governo federal, o consórcio[ desde o início de 2021](https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/01/29/consorcio-de-imprensa-faz-campanha-para-conscientizar-sobre-vacinacao.htm?ref=b9.com.br) veicula uma campanha de conscientização da vacinação.

> [](https://twitter.com/lubodenmuller/status/1364215726740041733?ref=b9.com.br)

Os departamentos comerciais dos dois jornais, enquanto isso, não parecem carregar os mesmos valores dos editoriais ao veicular o dito informe publicitário. Apesar de reforçar a classificação do anúncio no topo da peça, o jornal aprovou a publicidade mesmo pertencendo a uma associação [que desde maio de 2020](https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2020/05/medicos-cloroquiners-se-comparam-a-dom-quixote-contra-dragao-covidiano-ckaok7tfw008s01pa418kxf41.html?ref=b9.com.br) atua de forma feroz para tornar protocolo o uso da hidroxicloroquina e dos outros remédios previstos no tratamento precoce.

> [](https://twitter.com/jnascim/status/1364192401686994947?ref=b9.com.br)

O tópico naturalmente se desenrola nas redes sociais no momento de publicação desta nota, com muitos jornalistas e pesquisadores mostrando indignação pela publicação do anúncio em alguns dos principais veículos de notícia do país. A revolta é justificada: em nome do dinheiro, os jornais parecem perder de vista os ideais que norteiam suas redações.