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# "Jungle Cruise" é o tipo de aventura divertida que parece ter sido esquecida por Hollywood
- URL: https://www.b9.com.br/jungle-cruise-critica-review-disney/
- Published: 2021-07-28T18:34:05.000Z
- Updated: 2021-07-28T18:34:05.000Z
- Description: Jaume Collet-Serra presta bela homenagem a gênero sufocado pelos blockbusters de ação sombrios, realistas e (principalmente) tediosos
- Author: Matheus Fiore
- Tags: Cultura, Cinema, Disney+, Dwayne Johnson, etica, #wp, #wp-post

Uma estudiosa britânica viaja com seu irmão desajeitado para outro país à procura de uma antiga lenda local. Para sua decepção, o único capaz de guiá-la nessa expedição é um sujeito problema, de caráter duvidoso e assombrado por um passado que se recusa a deixá-lo em paz. Essa descrição poderia muito bem se encaixar no maravilhoso **"A Múmia"**, filme de 1999 dirigido por Stephen Sommers, mas é sobre o novo blockbuster da **Disney** dirigido por **Jaume Collet-Serra**, **"Jungle Cruise"**. Felizmente, as semelhanças não param por aí: como "A Múmia", "Jungle Cruise" é um exemplar de aventura despretensiosa e divertida que parece ter sido esquecida por Hollywood nos últimos anos.

O longa soa muitas vezes como se Collet-Serra pegasse o trio principal de "A Múmia" e os levasse em uma expedição pela Amazônia, similar à jornada de [**"Z: A Cidade Perdida"**](https://www.b9.com.br/74981/z-cidade-perdida-e-um-dos-grandes-filmes-do-ano/). Apesar da similaridade na ambientação com o filme de James Gray, porém, o cineasta de origem espanhola tem interesses cinematográficos bem diferentes. "Jungle Cruise" não está preocupado com legado familiar, com a conquista do próprio destino, ou qualquer tema grandioso do tipo; aqui, o cineasta faz o que faz melhor, um filme que honra as tradições de seu gênero de forma rígida, mas moderna.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/07/22091128199039.png)

Jaume Collet-Serra (à direita) conversa com Dwayne Johnson e Emily Blunt no set

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/07/original_1625069511_Jungle-Cruise_Poster.jpg)

Se em **"A Órfã"** e em seu último filme, **"O Passageiro"**, Collet-Serra fez exemplares muito respeitosos de filmes de terror e ação, o diretor agora escolhe fazer uma aventura como pouco se vê no cinema multimilionário contemporâneo. O gênero é predominante do primeiro ao último quadro projetado na obra inspirada na atração do **Walt Disney World**. Chegamos, inclusive, a perceber como o roteiro de **Michael Green**, **Glenn Ficarra** e **John Requa** se esforça vez ou outra navegar por outros gêneros, como o romance, o terror e a ação, mas Collet-Serra sempre parece pronto para fazer tais inserções sem abandonar o espírito proposto de pura aventura.

Quando algum outro gênero é apresentado, entretanto, ele não sequestra "Jungle Cruise" para si, mas apenas aparece inserido dentro do contexto aventureiro. O romance surge de forma tão espontânea e simples que até pode soar rasteiro para alguns espectadores, mas defendo: é simples justamente porque assim como o drama, o terror e a ação, ele está lá à serviço da narrativa como um todo, e não para fazer da obra um monstro de Frankenstein de gêneros que não põe a âncora de sua jangada em nenhum lugar – como é o caso de tantos blockbusters contemporâneos que, na indecisão entre comédia, drama e etc., acabam não tendo tom algum. Tom é o que não falta no cinema de Collet-Serra.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/07/jungle-cruise-recensione-film-jaume-collet-serra-dwayne-johnson-emily-blunt-2.jpg)

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\[quotedireita\]Collet-Serra sempre parece pronto para fazer inserções sem abandonar o espírito proposto de pura aventura\[/quotedireita\]

O jeito com que toda a selva amazônica de "Jungle Cruise" é filmada e fotografada já denuncia a vontade de Collet-Serra de fugir da seriedade e dar um ar despojado para o filme. Chega de filmes acinzentados que miram na seriedade e acertam no tedioso: "Jungle Cruise" tem um cenário dourado, vívido, sem nenhum medo de soar cafona e fantasioso. Animais inteligentes e caricatos, um herói sacana e de caráter duvidoso e vilões extremamente cartunescos é o que temos aqui. E o melhor, sem o peso de precisar alternar profundamente entre gêneros, até mesmo quando o filme flerta com o terror – um dos núcleos antagonistas traz seres amaldiçoados iguaizinhos aos tripulantes do Holandês Voador de **"Piratas do Caribe"**.

"Piratas do Caribe", aliás, que talvez seja o ponto central da mudança de rumo das aventuras hollywoodianas. Se o primeiro filme mescla terror e drama mas sem nunca fugir da aventura, as sequências são cada vez menos aventurescas e mais sombrias, como se rejeitassem justamente o elemento que tornou **"A Maldição do Pérola Negra"** o sucesso que é. Curiosamente, a partir dali – e também da trilogia **"O Cavaleiro das Trevas"** \- a aventura começou a ser cada vez mais rara nos grandes orçamentos da indústria. A retomada proposta por Collet-Serra é não só uma homenagem, mas também um lembrete de como o gênero pode ser prazeroso.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/07/jungle-cruise_YOGrKV.jpg)

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\[quoteesquerda\]"Jungle Cruise" tem um cenário dourado, vívido, sem nenhum medo de soar cafona e fantasioso\[/quoteesquerda\]

É curioso perceber como o carinho de Jaume Collet-Serra pela aventura reflete até mesmo nos personagens. Quando Lily (**Emily Blunt**) está montando a equipe para embarcar em sua expedição por uma árvore com poderes de cura milagrosos, ela está praticamente decidida a usar a embarcação do poderoso Nilo (**Paul Giamatti**), mas quando o "Zé Ninguém" e trapaceiro Frank (**Dwayne Johnson**) se mostra um aventureiro completo, é com ele que a cientista quer seguir viagem. Quando Lily está fugindo de um grupo que quer roubar um artefato de seu pescoço, ela nunca segue as orientações de Frank para escolher caminho X ou Y, e vai sempre pela rota mais complicada – e, claro, o que trará mais percalços e aventuras. Há um desejo, uma pulsão pela aventura.

E assim, valorizando não o *destino* ou a *mensagem*, mas a *trajetória*, "Jungle Cruise" consegue ser uma homenagem a um dos gêneros mais subestimados do cinema nos anos 2000\. É fazendo com que seus personagens não tenham medo de serem bobos, idealistas e nada realistas que o filme alcança a aventura despretensiosa que tanto gostaríamos de ver em um momento como o atual do mundo – presos em casa, loucos por uma aventura de verdade. Como faz falta um blockbuster que sabe ser ridículo sem perder o tom e, mais do que isso, sabe rir de suas próprias características.

Por menos filmes sombrios, sérios e chatos, e mais mentirinha. Cinema, afinal, nada mais é se não 24 mentiras por segundo.

*“Jungle Cruise” está disponível para locação via Premier Access no Disney+ a partir da próxima sexta, 30 de julho.*

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