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# Filme de verão, "Luca" rompe modo de operação da Pixar ao reduzir escala
- URL: https://www.b9.com.br/luca-critica-review-pixar/
- Published: 2021-06-17T21:41:35.000Z
- Updated: 2021-06-17T21:41:35.000Z
- Description: Animação traduz jornada de descoberta do mundo em narrativa casual de pequenas ações
- Author: Pedro Strazza
- Tags: Cultura, Cinema, Disney+, etica, relatórios, #wp, #wp-post

Depois de tantos anos de exaltação da **Pixar** como grande bastião da animação, soa como uma ironia fina a recorrência de comparações que correm e provavelmente vão correr entre o público e a crítica para tratar de **“Luca”**. Da piada da produção ser um cruzamento entre **“Me Chame Pelo Seu Nome”** e **“A Forma da Água”** à verdadeira lista de referências - de Miyazaki a Fellini - citadas pelo diretor **Enrico Casarosa** na divulgação, o filme parece despertar o instinto da localização imediata pelo perfil anômalo que ocupa na história do estúdio: entre tantas propostas ousadas e continuações pensadas para solidificar a presença da marca, de repente tem-se em mãos um projeto de ambientação específica e escala menor.

Tudo na produção atende a essa demanda, pelo menos. Da cidade litorânea de Portorosso aos dilemas e desafios enfrentados pelo protagonista Luca (**Jacob Tremblay**) e seu amigo Alberto (**Jack Dylan Grazer**), o longa existe sobretudo por uma perspectiva reduzida e numa lógica de ações localizadas. Há quem argumente que as histórias da Pixar são naturalmente diminutas e que tendem aos grandes temas por meio de seus personagens, mas mesmo sob essa ótica o filme de Casarosa escapa - a “grande lição”, afinal nunca transborda de tal maneira.

Se o esforço maior de categorização por parte da audiência diz muito mais respeito à indústria e ao momento específico da Pixar - ainda mais por ser efetivamente a primeira produção pensada após a saída de John Lasseter - à animação em si essa constatação elucida o exercício de seus realizadores. “Luca” é um filme menor por propósito e não consequência, recusando a propensão do estúdio por “pequenas grandes histórias” menos por inadimplência que por acreditar na força do conto de descoberta do mundo que se propõe a realizar. Se é para ser cafona, é mais sobre “sentir” que “navegar” pela trama e seus personagens.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/06/LUCA-ONLINE-USE-v228_81_cs.pub16.280.jpg)

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É um tipo de formato que lembra muito os filmes de verão europeus, cuja leveza é caracterizada por narrativas bem mais desencontradas e casuais em seus eventos - e neste ponto não é muito difícil imaginar o esnobe mais inadvertido comparando a produção com os trabalhos de Éric Rohmer. Em especial no começo, o roteiro de **Jesse Andrews** e **Mike Jones** é esperto em situar o público dentro desta premissa: dos marinheiros assustados com os mitos aos primeiros instantes de Luca em terra firme, o longa corre em passo acelerado e sublimando como é possível o drama ao que lhe é essencial, da busca do protagonista por liberdade e do interesse pelo desconhecido.

Essa simplificação beira quase como sacrilégio à dinâmica tradicional do estúdio, que sempre prezou por esse tipo de situação para inflar acontecimentos aos olhos dos personagens e do espectador, e talvez por isso a animação parece estar tanto em conflito com a própria forma. [Como em **“Dois Irmãos”**](https://www.b9.com.br/122252/dois-irmaos-critica-review/), não é lá muito difícil identificar a dita “fórmula” da Pixar em cada movimento, até porque ela não está sendo seguida à risca e ainda assim é repassada quase como uma obrigação. A diferença é que dessa vez não há grande contestação, com Casarosa tocando a trama como mera formalidade desinteressante dentro do fluxo geral da narrativa, e deve ser o primeiro filme da Pixar em que as viradas de trama são esperadas como o passar dos ponteiros de um relógio - seja nas traições, reviravoltas e mesmo conflitos.

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\[quotedireita\]O formato lembra muito os filmes de verão europeus, cuja leveza é caracterizada por narrativas bem mais desencontradas e casuais\[/quotedireita\]

Verbalizado desta forma é fácil pensar que tudo no filme é um desarranjo de partes, mas aí vale reforçar como essa casualidade é proposital na animação. A grande motivação dos personagens marinhos é a conquista de uma moto Vespa, enquanto a amiga humana Giulia (**Emma Berman**) só quer derrotar “o império do mal” representado na figura do bully Ercole (**Saverio Raimondo**) e seu reinado… de vitórias no triatlo local. Se o arco de Luca envolve a descoberta da escola e sua luta para “sair do ninho”, o longa nunca exatamente converte essa premissa numa luta por afirmação de identidade e prefere o caminho bem mais humilde da aceitação - e daí é interessante perceber como “Luca” com naturalidade se envereda pela identificação de temas com a comunidade LGBT+.

A beleza do filme transcorre destas decisões, até porque elas esvaziam um pouco a dependência no texto e levam o público a identificar essa narrativa visualmente, um ponto que a Pixar há anos mostra ser forte mesmo quando no formato mais padronizado de suas animações. A jornada de Luca de encontro ao mundo é sensorial em essência e Casarosa busca elucidar este ponto quando possível, desde os primeiros momentos fora do mar aos voos físicos e imaginários que retomam o paralelo com Miyazaki. Posto assim, faz todo sentido que o clímax da história se dê por uma chuva: como em qualquer comédia de verão, é ali que tensões são enfim dissipadas, libertas das prisões interiores para sua revelação devida.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/06/LUCA-ONLINE-USE-v298_10_pub.pub16.608.jpg)

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\[quoteesquerda\]A jornada de Luca de encontro ao mundo é sensorial em essência\[/quoteesquerda\]

Há um frescor muito envolvente da produção ao modo de operação do estúdio em tudo isso, claro, mas a parte boa mesmo deste desarme acontecer de maneira tão pouco ambiciosa é a possibilidade de assistir a releitura pelo que é, o de uma nova perspectiva. Até porque a direção de Casarosa não deixa de conciliar sua lógica com certos elementos que fazem a reputação da Pixar, em particular o tom de comédia puro e ao mesmo tempo inteligente nas soluções visuais - e quem diria que a piada boba de um gato com bigode típico de um policial cartunesco poderia render tanto?

É nestes pequenos momentos que o encantamento de “Luca” se encontra, afinal, e nada como uma despedida e um trem para sublinhar este traço.

*"Luca" estreia no Disney+ no dia 18 de junho.*

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