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# “O Lar das Crianças Peculiares” é mais convencional do que o título sugere
- URL: https://www.b9.com.br/o-lar-das-crianc-cc-a7as-peculiares-e-mais-convencional-do-que-o-titulo-sugere/
- Published: 2016-10-02T04:09:49.000Z
- Updated: 2016-10-02T04:09:49.000Z
- Description: Melhor filme de Tim Burton em quase dez anos, adaptação do best-seller de Ransom Riggs ainda está longe dos grandes trabalhos do cineasta
- Author: Virgílio Souza
- Tags: Cultura, Cinema, filme, review, #wp, #wp-post

Em outros tempos, seria imperdível ver Tim Burton adaptar para os cinemas um romance como o de Ransom Riggs. Como se autor e cineasta fossem a combinação perfeita, todos os ingredientes são compatíveis: Jake (Asa Butterfield), o protagonista solitário que tem fotografias de pessoas desconhecidas como ponto de partida para suas aventuras parece mesmo saído da mente do responsável por **“Edward Mãos de Tesoura”**. Diante de uma crise de criatividade constante e de títulos questionáveis, porém, a combinação se revela apenas redundante.

Prestes a completar dez anos sem realizar um filme verdadeiramente empolgante, Tim Burton provavelmente deveria explorar terrenos menos convencionais; podermos tranquilamente chamar de “convencional” um universo tão particular já é sinal desse esgotamento. Ainda assim, o fato de ser conhecido não torna o terreno necessariamente menos fértil. É seguro dizer que, em meio à repetição de suas marcas registradas, ocasionalmente o diretor encontra momentos preciosos.

\[ltauto\]

Nesse sentido, é também correto afirmar que **“O Lar das Crianças Peculiares”** traz mais desses exemplos positivos do seus antecessores imediatos. Construído a partir de fotografias de colecionadores, o livro de Riggs traça uma narrativa de fantasia que dedica atenção especial às figuras que apresenta. Quando se presta a fazer o mesmo, observando as características de suas criaturas, Burton tem enorme sucesso — o que interessa a ele desde sempre é o peculiar, como sua trajetória denuncia.

![Tim Burton dirige Asa Butterfield no set](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/10/miss3.jpg)

Tim Burton dirige Asa Butterfield no set

![Miss](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/10/miss2.jpg)

Miss Peregrine, a personagem de Eva Green que ocupa espaço de destaque o título original da obra, é o principal símbolo dessa tendência. Responsável por administrar o orfanato (como uma versão mais comportada do lar dos **“X-Men”**) e guiar o elenco infantil pela trama, ela se equilibra entre a autoridade e a amabilidade exigidas por sua posição. Não por acaso, os segmentos em que o roteiro de Jane Goldman concentra a ação no casarão, com todas as possibilidades que ele esconde, são os mais interessantes do filme.

Com base nos demais títulos de sua filmografia como roteirista, tais como **“Primeira Classe”** e **“Dias de um Futuro Esquecido”**, a escolha de Goldman para a função faz todo sentido. O problema é que suas pretensões aqui parecem fora de controle, e é tarefa impossível dar conta de tanto com a obrigação de imprimir a assinatura de Burton em cada plano.

Não se trata de um exagero: “O Lar das Crianças Peculiares” realmente tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo. Elementos tão complexos e distintos como viagem no tempo e super-poderes são centrais para a narrativa, que ainda tenta fundar sua mitologia própria, além de explorar uma conflituosa reconciliação entre pai e filho, uma amizade transcendental entre avô e neto, um elaborado plano de vilões que buscam a imortalidade, um romance infanto-juvenil e, acreditem ou não, uma metáfora do holocausto.

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![Miss](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/10/miss5.jpg)

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\[quotedireita\]Mesmo em meio à repetição de suas marcas registradas, ocasionalmente o diretor encontra momentos preciosos\[/quotedireita\]

Quem mais sofre pelas idas-e-vindas do roteiro é Jake, perdido entre tantas viagens no tempo e no espaço, entre a casa na Flórida, a ilha no País de Gales e aquele mundo a descobrir e entender. Na prática, o protagonista é somente um intermediário entre o universo fantástico e o do espectador e, por isso, o filme toma boa parte de seu tempo apenas preparando o ambiente, trabalhando cada conceito e apresentando cada personagem, com atenção para suas características mais especiais.

Chegada a hora de colocar as peças em ação, porém, Burton opta pelas decisões menos inspiradas. Como no romance que serviu de base para a história, a lógica por trás da execução é mais interessante do que o produto final. As fotografias incluídas no livro de Riggs, no entanto, valorizam mais o texto do que os trejeitos de Burton engrandecem o filme. Não há imersão em uma nova atmosfera ou invencionice na construção visual, por exemplo, que salve o vilão Barron (Samuel L. Jackson) da decepção — no breve trecho em que o filme segue seu lado mais esquisito, com comedores de olhos saídos de um pesadelo, ele é excelente; no resto do tempo, apenas mais um vilão que [sequer desperta perigo](https://www.youtube.com/watch?v=NmvJCWdizUY&ref=b9.com.br).

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![Miss](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/10/miss6.jpg)

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\[quoteesquerda\]Na ânsia por espalhar piscadelas para os fãs, Tim Burton atropela a ação e compromete o ritmo da própria trama\[/quoteesquerda\]

“O Lar” também subaproveita o potencial do núcleo infantil, dando instantes de atenção individual às crianças, mas impedindo que elas ultrapassem as fronteiras de suas habilidades e gerem identificação genuína. A garota que flutua no ar (Ella Purnell) talvez seja a única exceção: amarrada pela cintura, ela surge como uma imagem emblemática e se torna mais do que isso, conquista sua relevância na trama. No restante dos casos, as aparições são pontuais, servindo apenas a propósitos específicos.

Se a condução dos personagens deixa a desejar, a forma como o diretor trabalha seu arsenal de referências é ainda mais complicada. A sensação é de que, na ânsia por espalhar piscadelas para os fãs e espectadores mais atentos, Burton atropela a ação e compromete o ritmo da própria trama. Soluções como a formação de um exército de esqueletos (um aceno para **“Jason e os Argonautas”**) surgem e são abandonadas rapidamente, tendo seu potencial desperdiçado em segundos. Por sua vez, as menções à própria obra, como o segmento em animação stop-motion, jamais justificam sua existência.

Novamente, apontar as deficiências não significa anular os méritos. Além dos aspectos já citados, o uso mais harmonioso da computação gráfica representa um aprimoramento para o cineasta — o salto com relação a **“Alice no País das Maravilhas”** é enorme em termos de profundidade e respeito à geografia das cenas. No entanto, por mais que a evolução geral, comparada a **“Grandes Olhos”** e **“Sombras da Noite”**, seja também evidente, é difícil negar a falta de energia comum a todos esses trabalhos e desconfiar do que vem a seguir, em especial caso a continuação de **“Beetlejuice”/“Os Fantasmas se Divertem”** se confirme como o próximo capítulo dessa história.

![Nota Rating 3](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/10/nota3.png)

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