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# O Lobo Mau de Wall Street
- URL: https://www.b9.com.br/o-lobo-mal-de-wall-street/
- Published: 2014-01-30T13:58:18.000Z
- Updated: 2014-01-30T13:58:18.000Z
- Description: Scorsese + DiCaprio + Wall Street: alucinação na tela, exageros na vida real e o esforço épico de um grande diretor para salvar uma história desinteressante em “O Lobo de Wall Street”
- Author: Fábio M. Barreto
- Tags: Cultura, Cinema, filme, hollywood, martin scorsese, #wp, #wp-post

Há uma linha clara guiando a maioria dos indicados a *Melhor Filme* no **Oscar**: os roteiros têm caráter transformador e provocador. A única exceção é **“O Lobo de Wall Street”** (The Wolf of Wall Street, 2013), escrito por Terence Winter, de **“The Sopranos”** e **“Boardwalk Empire”**, que optou por um retrato de um sujeito desprezível, sem grandes arcos dramáticos ou envolvimento emocional do espectador com a história. Entretanto isso não impede que Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio deem mais um show de cinema, mantendo um ritmo quase frenético por 3 horas de exibição.

A sensação contraditória é inevitável, pois a história é absolutamente previsível desde o primeiro momento e a persona de Jordan Belfort, o empresário picareta que constrói um império vendendo ações em Wall Street, se transforma rapidamente num catalizador para piadas físicas, humor à la Jack Ass e um ego do tamanho do mundo.

Ele é o vilão, logo, não faz nada digno de identificação ou piedade; só é herói para ele mesmo. Um sujeito que ultrapassa os limites da ganância em prol do sentimento de invulnerabilidade criado pela fortuna. Pronto. É isso. Mas, ao mesmo tempo, é impossível tirar os olhos de DiCaprio – e das beldades que o cercam ao longo do filme – e aguardar pelo próximo movimento de câmera maluco de Scorsese, que brincou bastante com pontos de vista (talvez um reflexo de Hugo? Leia mais aqui) e se portou quase como um analista do personagem.

![Scorsese com DiCaprio e Margot Robbie no set](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/01/wolf2.jpg)

Scorsese com DiCaprio e Margot Robbie no set

![Oscar 2014](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/01/wolf.jpg)

\[colunadireita\]Belfort incorpora o asco aos operadores de Wall Street, ainda mal vistos desde a última crise, e tinha potencial para permitir uma análise desse mercado, das más práticas e da reação do público a eles.

Terence Winter preferiu ignorar tudo isso e manter o roteiro focado apenas nas realizações, exageros e surtos comportamentais regados por quilos de cocaína e inúmeros comprimidos de quaalude (banidos depois da década de 80).

Ele também mostra o lado negro do *“self-made man”*, já que conseguiu sua fortuna por esforço próprio, mas apoiado no desespero alheio. Incapaz de manter o zíper fechado, mesmo casado com uma deusa, ele vive ao bel prazer do abuso, da falta de limites e da imbecilidade concentrada. Para descobrir tudo isso, não é preciso mais que meia hora de filme, pois ele é escancarado.

Não há camadas, não há sub-tons na vida de Belfort. Não há nada a ser descoberto. O que resta? Leonardo DiCaprio alucinando em cena. Transformando discursos motivacionais dentro da empresa em momentos de atuação suprema, envolvendo, quebrando tudo. As palavras pouco importavam perante um ator disposto a tudo para fazer o espectador acreditar na babaquice inigualável de seu personagem.\[/colunadireita\]

\[quoteesquerda\]Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio dão mais um show de cinema, mantendo um ritmo quase frenético por 3 horas de exibição.\[/quoteesquerda\]

\[colunadireita\]A lavagem cerebral dos funcionários acontecia com razão, afinal, todo mundo queria dirigir a Ferrari de **“Miami Vice”**; era o sonho americano às avessas. Scorsese foi sábio ao escolher no exagero (tanto da atuação quanto do uso da baixaria) sua melhor arma, pois ele é o único elemento capaz de dar alguma razão para uma jornada tão desestimulante.

O festival de nudez, sexo, sacanagem e comportamento imbecilóide permeia o filme, com direito a um ator de suporte abaixar as calças no meio de uma festa e resolver se masturbar ao ver uma mulher estonteante. Rir ou sentir nojo fica a critério do espectador, mas esse é o tom definido pelos exageros relatados no livro auto-biográfico de Belfort e mantidos no filme. Esse ponto criou muitas comparações com **“Scarface”**, mas elas caem por terra ao se assistir ao filme, afinal, Tony Montana é um titã da maldade perto do carente Belfort.\[/colunadireita\]

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![Wolf of Wall Street](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/01/wolf4.jpg)

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\[quotedireita\]O festival de nudez, sexo, sacanagem e comportamento imbecilóide permeia o filme\[/quotedireita\]

Seria fácil imaginá-lo como um retrato do homem capitalista, mas, mesmo dentre eles, o personagem é exceção à regra. Destrói o casamento sem perceber – talvez num dos poucos erros de Scorsese, ao ignorar a construção de um arco dramático para mostrar essa derrocada – e se cerca por adoradores que pensam da mesma maneira. Esse é, de fato, o roteiro mais fraco entre os concorrente à estatueta.

Num dos excessos, durante os primeiros estágios da overdose de uma dose cavalar de pílulas, DiCaprio desaba e precisa se arrastar – literalmente – até o carro para evitar que o FBI escute ligações telefônicas comprometedoras.

![Wolf of Wall Street](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/01/wolf61.jpg)

O resultado poderia ser triste e até desesperador, mas é apenas hilariante, pois rir é a única opção. A cena coroa o trabalho de DiCaprio, que enfrenta páreo duro no Oscar. E também define o filme: veja como o homem a quem você confia seu dinheiro é problemático.

Scorsese trabalha bastante as cores e os filtros para estilizar bons momentos do filme, transforma o ambiente a seu favor, dá um show de técnica e mostra sua competência usual. Mas sem surpreender, como fez nos recentes **“Hugo”** ou **“Ilha do Medo”**. Muitas escolhas remetem a **“Os Bons Companheiros”**, por exemplo, sem garantir nenhuma cena genuinamente antológica.

Para complicar um pouco a situação, erros crassos na edição e no som comprometem os poucos bons diálogos do filme. É um bom filme? Claro. E deve ser visto. Entretanto está distante do Scorsese criativo e desbravador que sempre nos contou histórias irresistíveis. Dessa vez, o verdadeiro teste está no seu senso de humor.

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**Fábio M. Barreto** é correspondente em Los Angeles, está torcendo por DiCaprio no Oscar e escreveu o romance **[“Filhos do Fim do Mundo”](http://www.submarino.com.br/produto/112578886/livro-filhos-do-fim-do-mundo?ref=b9.com.br)**.