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# “Operação Overlord” usa violência e (muito) sangue para buscar humanidade no combate ao mal
- URL: https://www.b9.com.br/operacao-overlord/
- Published: 2018-11-11T21:11:55.000Z
- Updated: 2018-11-11T21:11:55.000Z
- Description: Produção atípica do cenário atual, longa produzido pela Bad Robot de J.J. Abrams aposta acima de tudo na combinação das estruturas dos gêneros do horror e do filme de guerra
- Author: Pedro Strazza
- Tags: Cultura, Bad Robot, Cinema, J.J. Abrams, paramount, terror, #wp, #wp-post

Embora a proposta de **"Operação Overlord"** a princípio não ofereça nada de novo em termos de criatividade, mantendo-se do início como um filme de horror ambientado na Segunda Guerra Mundial, sua posição dentro do atual cenário hollywoodiano sugere o exato oposto do conformismo. Em uma época onde o sistema de estúdios da indústria se concentra cada vez mais no conceito de propriedades intelectuais para se manter hegemônica no circuito de salas, o longa produzido pela **Bad Robot** de J.J. Abrams surge como uma anomalia cujo perfil parece ser em si a mais pura contestação aos moldes do mercado, sejam estes os velhos (não há nenhuma grande estrela capitaneando o elenco) ou os mais novos - já que ele não se liga a nenhuma marca ou franquia, estando apadrinhada apenas pelo nome da produtora e seu fundador.

É claro que este ar de contestação está longe de ser verdadeiro ou mesmo percebido pela própria produção - tanto que o projeto originalmente tinha sido comprado pela Bad Robot junto de **["Paradox"](https://www.b9.com.br/the-cloverfield-paradox/)** para se transformar em mais um capítulo da série **"Cloverfield"** \- mas não deixa de ser curioso observar como ele se comporta à partir de uma condição tão excêntrica, ainda mais quando todos os seus pontos característicos parecem impregnados de um cheiro de naftalina um tanto evidente. O filme de Julius Avery, afinal, não deixa de ser pautado por mecânicas do passado mesmo em sua sua ideia principal de dar contorno mais violentos a um processo histórico amplamente conhecido, explícito nas tripas e sangue expelidos enquanto acompanha uma tropa de soldados que desembarcam na Alemanha no Dia D apenas para descobrirem uma conspiração digna da ficção-científica mais B possível depois da chegada nada suave ao território inimigo.

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2018/11/OVL-02797R1.jpg)

Julius Avery (à direita) orienta Jovan Adepo no set

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2018/11/overlordspatterposter2018-1.jpg)

Se a premissa soa em um primeiro instante como o típico produto de uma mente juvenil, é porque ela o é, e com força. Tanto a direção de Avery como o roteiro de Billy Ray e Mark L. Smith não economizam na maior liberdade criativa em termos de censura, desde os momentos iniciais empregando um arsenal de escatologia à disposição para materializar o horror combinado do conflito com o gênero. A abertura de "Overlord", inclusive, parece feita para provar ao espectador o comprometimento do longa com este cinema pipoca mais feroz, retratando o desembarque da tropa na Alemanha e introduzindo o grupo formado por Boyce (Jovan Adepo), Ford (Wyatt Russell), Tibbet (John Magaro), Chase (Iain De Caestecker), Dawson (Jacob Anderson) e Rosenfeld (Dominic Applewhite) com toda a violência e o gore que lhe é dado direito.

Mas enquanto esta aproximação com o grotesco no começo dá todos os sinais de um filme que vai ser pautado apenas pelo frenesi proveniente desta infantilidade em se aproximar pela primeira vez de tal elemento - a imagem inicial do soldado vomitando no avião antes de ser fuzilado pelo inimigo parece apontar para esta direção, pelo menos - aos poucos a direção de Avery se desloca na via contrária, tecendo muitas vezes estas relações de violência com menos furor que o esperado para um projeto de horror benzido em tais entranhas. O momento crucial que revela este procedimento mais atento acontece quando o general nazista de Pilou Asbæk é preso pelo grupo e há de ser torturado afim de fornecer informações: ao invés de registrar todo o horror do ato bárbaro cometido pelos soldados, a câmera prefere acompanhar o protagonista vivido por Adepo para fora do recinto e registrar uma conversa com a jovem francesa interpretada por Mathilde Ollivier.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2018/11/OVL-18656RC.jpg)

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\[quotedireita\]A direção de Julius Avery muitas vezes tece estas relações de violência com menos furor que o esperado\[/quotedireita\]

Não que isto signifique que "Operação Overlord" há de ser comedido na execução do gênero no qual se localiza, é claro: sobram cenas de horror que se divertem com o gore, incluindo cabeças humanas descoladas do corpo, tubos gigantes enfiados na barriga de militares e a imagem do rosto grotesco do qual a divulgação tornou elemento chave para a promoção do projeto. Ao mesmo tempo, porém, este elemento da violência serve a Avery como uma linha guia para explorar as relações entre os personagens da história, em especial Boyce e Ford que de certa forma personificam respectivamente a aversão e atração humana a esta conduta agressiva - e dentro desta equação quem se sai melhor é o ator Wyatt Russell, cuja performance carrega para dentro do papel de comandante agressivo uma atuação caricata com bons pontos de vazão e lembra muito a performance do pai Kurt Russell na juventude.

A postura destes dois personagens é construída desta forma pelo diretor não apenas para organizar a narrativa como também para refletir modelos de comportamento frente ao enfrentamento de um mal maior, aqui naturalmente abarcado pelo nazismo que aí sim é uma imagem retratada na produção com todo o tom de grotesco e nefasto possível. Dentro das estruturas de horror "gore polido" do filme, Avery usa muitas vezes dos confrontos entre as posições pacifista e agressiva de Boyce e Ford para revelar pequenas hipocrisias dos dois discursos perante o combate ao símbolo máximo do maléfico no cinema estadunidense, seja na aparente fragilidade do primeiro ao querer evitar o conflito ou na tendência do segundo em se igualar ao inimigo ao adotar as mesmas atitudes violentas. É a busca pelo resguardo da humanidade em momentos de crise que aos poucos se revela a bússola moral da obra, que não economiza em materializações de metáforas para respingar este processo no espectador - incluindo aí o discurso de "propósitos" e a fórmula para produzir monstros criada pelos nazistas na história, que fornecem a seu jeito o sangrento e explosivo clímax final.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2018/11/OVL-13840R.jpg)

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\[quoteesquerda\]Os confrontos entre Boyce e Ford revelam as hipocrisias dos 2 discursos no combate ao símbolo máximo do maléfico\[/quoteesquerda\]

E embora existam diversas limitações no manejo de Avery que restrinjam o filme de alcançar o máximo de seu potencial - mesmo distante do pastiche pop e do saudosismo que em tempos recentes viraram regra em Hollywood, falta ao diretor algum desprendimento na hora de embarcar nos "velhos moldes" do cinema de guerra e do próprio terror para escapar do genérico - esta toada humanitária é o principal responsável por fortalecer o produto de gênero buscado pelos realizadores, que não escondem o gosto em executar esta violência cartunesca e juvenil. O horror B ambientado na Segunda Guerra Mundial, afinal, não deixa de ser o grande mote de existência da produção, como bem lembra toda a centralidade do laboratório nazista na trama e o grande duelo de monstros que fundamenta o clímax final.

No mais, "Operação Overlord" é também um filme que se beneficia deste melhor direcionamento para fazer o gore dado o contexto de sua época de realização, onde a composição virulenta do nazismo é relativizada no campo político e esta ideologia periga retornar. Mesmo nos mecanismos da fantasia, existe certo prazer na experiência de se assistir alguém refazendo o lembrete do antagonismo essencial desta figura e (principalmente) o ato simbólico de bloquear o avanço desta imagem na base da porrada.

\[notadocritico\]

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