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# “Os Oito Odiados”: A história americana segundo Tarantino
- URL: https://www.b9.com.br/os-oito-odiados-historia-americana-segundo-tarantino/
- Published: 2016-01-08T16:44:02.000Z
- Updated: 2016-01-08T16:44:02.000Z
- Description: Pela primeira vez, diretor se mostra interessado em discutir ampla e abertamente certos tabus, mais do que simplesmente desafiar o convencional com violência
- Author: Virgílio Souza
- Tags: Cultura, Cinema, filme, review, tarantino, #wp, #wp-post

**⚠ AVISO:** Pode conter spoilers

Quando **“Django Livre”** foi lançado em 2012, uma reação chamava a atenção: as acusações de racismo contra a obra e seu autor, Quentin Tarantino. **“Os Oito Odiados”** coloca essa questão novamente em pauta por ser o trabalho mais diretamente político da carreira de seu diretor-roteirista, historicamente cercado por controvérsias. Há muito o que se discutir para além disso, mas parece prudente tirar o elefante da sala antes de seguir em frente.

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\[quotedireita\]A bússola moral que guia “Os Oito Odiados”, a mesma que falta a seus personagens, é evidente e composta por uma teia de elementos bastante complexa\[/quotedireita\]

Superficialmente, é fácil identificar os fatores que motivam tantos brados raivosos contra QT: no nível mais básico, seu filme é uma reunião de figuras de caráter questionável que jamais evitam qualquer tipo de comportamento ofensivo. Causa incômodo, ao menos em um primeiro momento, a forma como os ataques são direcionados principalmente ao personagem negro e à personagem feminina do elenco central — a n-word, traduzida como *“crioulo”* na legendagem em português, aparece aos montes, acompanhada por agressões físicas e verbais de forte cunho misógino. Tratar o filme ou o cineasta como preconceituosos em função desse desconforto natural frente ao absurdo das situações em tela, porém, soa bastante despropositado.

![Tarantino no set de "Os 8 Odiados"](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/01/hate2.jpg)

Tarantino no set de "Os 8 Odiados"

![Oito Odiados](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2015/11/oito2.jpg)

Não é preciso promover uma defesa histórica para Tarantino, resgatando posições e exemplos capazes de livrá-lo de tais acusações (nem mesmo ele pretende algo parecido), mesmo porque boa parte delas possui um mínimo de fundamento. O que importa é que, pela primeira vez, o diretor se mostra interessado em discutir ampla e abertamente certos tabus, mais do que simplesmente desafiar o convencional entre um banho de sangue e outro. A bússola moral que guia “Os Oito Odiados”, a mesma que falta a seus personagens, é evidente e composta por uma teia de elementos bastante complexa, que parte desde a forma de encarar o gênero western (bem distante do falso e datado papel civilizador do homem branco) até as condições climáticas que reúnem o elenco no armazém de beira de estrada (não por acaso, a nevasca é chamada de “inferno branco”).

Ainda mais importante é a maneira como as coisas se ligam à história americana. Situada no imediato pós-Guerra Civil, as reflexões ganham contornos atuais graças à habilidade de Tarantino em moldar diálogos que conduzem a trama. Em determinado momento, o futuro xerife Chris Mannix (Walton Goggins) afirma que *“Os brancos só estão seguros quando os negros estão assustados”*. A resposta surge depois, na voz do Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) — *“Os negros só estão seguros quando os brancos estão desarmados”* —, fazendo referência ainda a um documento assinado pelo presidente capaz de garantir essa segurança. Trata-se de um texto em sintonia com posições muito vivas no cenário político dos Estados Unidos da América, sobretudo com relação ao urgente controle de armas de fogo e à brutalidade policial orientada pela cor de pele de suas vítimas, com frequência tratadas simplesmente como alvos.

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![Hateful Eight](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/01/hate3.jpg)

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\[quotedireita\]Os excessos existentes trazem novamente à tona a necessidade de um editor rigoroso ao lado do cineasta, capaz de eliminar gorduras como as duas sequências de ida ao banheiro\[/quotedireita\]

Tarantino, que participou de protestos recentes contra o racismo institucionalizado no aparato do estado americano, parece disposto a promover essa discussão. Para tanto, sua estratégia é de aquietar a ação durante a primeira metade do filme: mais de uma vez, um personagem diz a outro para irem *“mais devagar, bem mais devagar”* no caminhar da história. Um conjunto de elementos permite que tudo transcorra de maneira mais ou menos segura, como um típico slow burner, uma chama que queima lentamente até a explosão final. As dinâmicas entre personagens geram combinações interessantes, sendo a de maior destaque aquela entre o major negro da União e o general confederado Sandy Smithers (Bruce Dern).

Somam-se a isso outros traços marcantes da filmografia de QT: o uso de música feita em cena (do piano, do violão), que aqui aparece fazendo fundo para longos relatos orais, a tradicional verborragia, que se adequa bem à atmosfera claustrofóbica de mistério, e a divisão em capítulos, que facilita os curtos saltos temporais e assegura o caráter episódico de cada uma das interações mencionadas. Por outro lado, os excessos existentes trazem novamente à tona a necessidade de um editor rigoroso ao lado do cineasta, capaz de eliminar gorduras como as duas sequências de ida ao banheiro, até justificadas, mas exageradamente longas — em alguns momentos o montador Fred Raskin parece perder o ritmo, ainda que o resultado seja mais regular do que em “Django Livre”.

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![Hateful Eight](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/01/hate4.jpg)

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De todo modo, impressiona como o diretor se mostra consciente da própria obra. As referências ainda existem aos montes (ênfase para **“The Thing”**/**“O Enigma de Outro Mundo”** e **“Carrie, a Estranha”**), mas tudo parede mais contido nas menções feitas por-e-para cinéfilos, evitando que toda frase seja uma piscadela para uma suposta audiência mais dedicada. Nesse sentido, a lógica de “Os Oito Odiados” é bem diferente daquela de **“Bastardos Inglórios”**, que inaugura essa série histórica. O processo de expansão do western de acordo com sua visão (de cineasta e de cinéfilo) continua ativo, mas a auto-referência e o retorno às origens de sua própria filmografia ganham uma dimensão inédita aqui.

\[quoteesquerda\]Tarantino realça o poder das grandes paisagens e close-ups do western e guia o olhar do espectador para o que interessa\[/quoteesquerda\]

Seguindo a estrutura de seu primeiro filme e as provocações históricas do último, Tarantino fecha seus personagens entre quatro paredes e constrói a tensão por essa proximidade inevitável em que o diálogo acentua rivalidades, revela intenções e constrói mitos. O papel decisivo, contudo, cabe ao movimento dos atores em volta das coisas e da câmera em volta de ambos, beneficiado pelo domínio absoluto do cenário pelo diretor. Cada um dos malditos ocupa um canto do salão e o conflito parte da invasão desses espaços: da cotovelada de John Ruth (Kurt Russell) em Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) até as dezenas de tiros disparados na segunda metade da projeção. No limite, a distância entre os corpos é aquela que uma bala pode percorrer, o que aumenta os riscos — como na cena da taverna em “Bastardos Inglórios”, ou no assalto à lanchonete em **“Pulp Fiction”**.

Confinado à hospedaria, o formato (suas cores, granulação, largura) acentua detalhes que não cumprem apenas papel decorativo: são os casos do feixe de luz, poeira e neve que invade a cabine quando a carta é revelada, indicando sua importância, ou da fumaça do café subindo pelo chapéu de Warren, o que altera completamente sua feição. Ao lado do diretor de fotografia Robert Richardson, responsável por encontrar e reviver a tecnologia, Tarantino realça o poder das grandes paisagens e close-ups do western e guia o olhar do espectador para o que interessa: a identidade americana sendo definida por figuras imorais. De modo lento, mas continuado. No passado, mas também agora.

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