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# Oscar 2016: entre o retrocesso e o regresso
- URL: https://www.b9.com.br/oscar-2016-entre-o-retrocesso-e-o-regresso/
- Published: 2016-02-27T00:56:25.000Z
- Updated: 2016-02-27T00:56:25.000Z
- Description: Quem deve levar o pequeno homem dourado no ano mais imprevisível (e polêmico) dos últimos tempos
- Author: Virgílio Souza
- Tags: Cultura, Cinema, festival, hollywood, #wp, #wp-post

### Retrocesso

Quatro minutos e trinta e cinco segundos: é essa a duração do [curto vídeo](http://www.youtube.com/watch?v=rRWH7mVO1Fs&ref=b9.com.br) que reúne *todos* os vencedores negros da história do **Oscar**, com direito a cenas dos filmes que renderam suas indicações e trechos de seus discursos de agradecimento. A um só tempo, a falta de representatividade na **Academia de Artes e Ciências Cinematográficas** é falha histórica, problema crônico e sintoma de uma indústria que ainda se recusa a reconhecer a diversidade.

\[ltauto\]

Pelo segundo ano consecutivo e pela primeira vez desde o biênio 1998-99, todos os [indicados](https://www.b9.com.br/62732/entretenimento/indicados-oscar-2016/) nas categorias de atuação são brancos. **[“Straight Outta Compton”](https://www.b9.com.br/61554/entretenimento/straight-outta-compton-e-um-retrato-potente-sobre-musica-e-racismo/)**, cinebiografia do grupo de rap N.W.A., foi lembrado apenas pelo trabalho de seus roteiristas — brancos. **[“Creed: Nascido Para Lutar”](https://www.b9.com.br/62761/entretenimento/creed-nascido-para-lutar-e-um-rocky-para-o-seculo-21/)**, carregado pela força de Michael B. Jordan e a direção segura de Ryan Coogler, ambos negros, acabou recebendo somente uma indicação, para seu ator coadjuvante — branco. Idris Elba, tratado como um dos [potenciais concorrentes](https://www.b9.com.br/61309/entretenimento/controverso-dentro-e-fora-da-tela-beasts-of-no-nation-ja-e-um-marco-na-industria/) no início da temporada, se tornou o primeiro da história a levar o prêmio do Sindicato dos Atores e sequer ser indicado ao Oscar, juntando-se às omissões mais claras de 2015, como David Oyelowo e Ava DuVernay (respectivamente, protagonista e diretora de **[“Selma”](https://www.b9.com.br/55038/entretenimento/selma-observa-luther-king-e-luta-pelos-direitos-dos-negros-com-talento-e-precisao/)**).

\[quotedireita\]A falta de representatividade na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é falha histórica\[/quotedireita\]

Muito em função da pressão exercida por figuras como Spike Lee e Jada Pinkett Smith, que conduziram a campanha **#OscarsSoWhite** a outro patamar, mudanças com o intuito de promover uma renovação no quadro de membros da Academia foram anunciadas nas últimas semanas, mas os gritos por boicote ainda ecoam, com promessas de [marchas em diversas cidades americanas](http://variety.com/2016/film/news/oscars-boycott-diversity-al-sharpton-1201714827/?ref=b9.com.br), incluindo Los Angeles, sede da festa, e enorme expectativa pela atuação de Chris Rock, apresentador desta edição.

\[expandido\]

\[/expandido\]

A raiz do problema, no entanto, segue carente de solução. Faltam, na indústria, papéis e oportunidades que correspondam à variedade de posições ocupadas por não-brancos em todos os segmentos da sociedade. É alarmante notar, por exemplo, que as três últimas atrizes negras premiadas (Lupita Nyong'o, Octavia Spencer e Mo’Nique) venceram por papéis que podem ser resumidos, nesta ordem, como escrava (**“12 Anos de Escravidão”**), empregada doméstica (**“Histórias Cruzadas”**) e mãe abusiva (**“Preciosa”**).

\[quotelaranja\]Igualmente estarrecedor é perceber de que o Oscar entrou na contramão da história nos últimos anos.\[/quotelaranja\]

O progresso da virada do século, evidente pelo salto no número de indicações para não-brancos (foram 17 nos anos 90 e 29 nos 2000), agora chega a um momento complicado. Passada mais de metade da atual década, apenas sete negros (de um total de 120 profissionais indicados) foram lembrados nas quatro categorias de atuação, e somente dois subiram ao palco para buscar uma estatueta.

O retrocesso se torna gritante na comparação com o passado recente. Em entrevista ao programa **Good Morning America**, Will Smith [comentou o problema](http://www.youtube.com/watch?v=MFJhNUwGysQ&ref=b9.com.br) com base em sua experiência: nas duas vezes em que foi indicado, em 2002 e 2007, o ator perdeu para colegas negros (Denzel Washington e Forest Whitaker). *“Para mim, aquilo foi gigante. Mas parece que estamos indo na direção errada”*, disse.

Hoje, um cenário como este parece utópico, e avaliações semelhantes ou ainda mais desoladoras podem ser feitas no que diz respeito a outras minorias, como latinos (Iñárritu é o único nas principais categorias) e pessoas LGBT (a artista Anohni, autora da canção de **“Racing Extinction”**, se tornou a segunda transexual indicada ao prêmio na história, mas não foi convidada pela Academia para se apresentar na cerimônia, como farão Lady Gaga, The Weeknd e Sam Smith, e escreveu [uma carta](http://pitchfork.com/news/63773-anohni-why-i-am-not-attending-the-academy-awards/?ref=b9.com.br) poderosa anunciando boicote).

A urgência da busca por maior representatividade é uma questão de humanidade. Do contrário, a realidade continuará sendo uma seleção de indicados *“mais branca que uma luta entre um Yeti e Tilda Swinton debaixo de uma nevasca”*, [nas palavras do apresentador e comediante John Oliver](http://www.youtube.com/watch?v=XebG4TO%5Fxss&ref=b9.com.br).

\[ladoalado\]

![Oscar](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/02/oscar2.jpg)

\[/ladoalado\]

### O Regresso (e outras coisas)

Tratando dos indicados nas principais categorias e sem o intuito de necessariamente prever o futuro, algumas curiosidades saltam aos olhos. Caso confirme o favoritismo e desbanque George Miller (**[“Mad Max: Estrada da Fúria”](https://www.b9.com.br/57746/entretenimento/mad-max-estrada-da-furia-reverencia-trilogia-original-atraves-de-uma-experiencia-imersiva/)**), Alejandro G. Iñárritu (**[“O Regresso”](https://www.b9.com.br/63077/entretenimento/mesmo-com-energia-de-dicaprio-o-regresso-perde-o-rumo-em-sua-pretensa-profundidade/)**) se tornará apenas o terceiro diretor premiado duas vezes consecutivas, unindo-se a John Ford (**“As Vinhas da Ira”** e **“Como Era Verde Meu Vale”**, 1940-41) e Joseph L. Mankiewicz (**“Quem é o Infiel?”** e **“A Malvada”**, 1949-50). Outro que deve se tornar recordista é Emmanuel Lubezki, favorito a conquistar o prêmio de melhor fotografia pela terceira vez seguida, após vitórias por **“Gravidade”** e **[“Birdman”](https://www.b9.com.br/54802/entretenimento/virtude-tecnica-e-critica-cinica-industria-entretenimento-se-sufocam-em-birdman/)**. Ele deverá somar mais uma estatueta na conta de “O Regresso”.

\[quoteesquerda\]A ansiedade que têm ocupado as discussões deste ano é compreensível, mas injustificada: aos 41 anos, DiCaprio ainda deve ter uma longa estrada repleta de troféus pela frente\[/quoteesquerda\]

Leonardo DiCaprio, o protagonista do filme, deverá mesmo conquistar seu primeiro Oscar após cinco indicações (três como ator principal, uma como coadjuvante e outra como produtor). A ansiedade que têm ocupado [as discussões](https://www.b9.com.br/63367/social-media/se-leonardo-dicaprio-ganhar-o-oscar-internet-planeja-ir-as-ruas-comemorar/) deste ano (e [a internet](https://www.b9.com.br/63208/games/leonardo-dicaprio-corre-atras-do-oscar-em-jogo-leos-red-carpet-rampage/)) é até compreensível, mas parece injustificada: aos 41 anos, ele ainda deve ter uma longa estrada repleta de troféus pela frente. Na comparação com nomes históricos do cinema, a pressa faz ainda menos sentido. John Wayne e Henry Fonda só ganharam o Oscar depois dos sessenta, Paul Newman ganhou um honorário antes de ganhar um *de verdade* e o próprio Jack Nicholson, que é um dos recordistas entre os homens, com doze nomeações e três vitórias, ganhou seu primeiro quando tinha quase 40 anos, bem próximo da idade que DiCaprio tem agora.

\[ladoalado\]

![Oscar](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/02/oscar34.jpg)

\[/ladoalado\]

“O Regresso” é líder no número de indicações, aparecendo em 12 categorias. O segundo filme mais celebrado é “Mad Max”, com dez. Curiosamente, nenhum deles aparece entre os roteiros, que têm **[“Spotlight”](https://www.b9.com.br/62658/entretenimento/com-discricao-visual-e-tecnica-spotlight-amplifica-impacto-dos-fatos-no-espectador/)** (original) e **[“A Grande Aposta”](https://www.b9.com.br/62790/entretenimento/5-motivos-pelos-quais-adam-mckay-e-grande-aposta-foram-feitos-um-para-o-outro/)** (adaptado) como francos favoritos. Das cinco adaptações, aliás, apenas Carol não emplacou como melhor filme; já entre aqueles escritos para a tela, há três longas nessa condição: “Straight Outta Compton”, **“Ex Machina”** (também indicado em [Efeitos Visuais](https://www.b9.com.br/63265/web-video/video-mostra-todos-os-filmes-ganhadores-do-oscar-de-melhores-efeitos-visuais/)) e **[“Divertida Mente”](https://www.b9.com.br/58763/entretenimento/divertida-mente-e-o-filme-mais-ambicioso-e-criativo-da-pixar-em-muito-tempo/)** (aposta segura entre as animações).

\[quotedireita\]Sylvester Stallone deverá receber as honras e repetir o momento de aclamação já visto no Globo de Ouro\[/quotedireita\]

Certeira também parece ser a vitória de Brie Larson (**[“O Quarto de Jack”](https://www.b9.com.br/63263/entretenimento/o-quarto-de-jack-um-drama-convencional-ou-simbolo-da-mudanca-da-industria/)**) como melhor atriz. Ela pode se tornar a primeira desde Sandra Bullock (**“Um Sonho Possível”**), em 2010, a conquistar o prêmio na categoria logo em sua primeira indicação pela Academia. Entre as coadjuvantes, é mais difícil ter tantas certezas. Alicia Vikander (**“A Garota Dinamarquesa”**), que também nunca havia sido indicada, surge como favorita após o prêmio do Sindicato dos Atores, mas pode sofrer por ter trocado de categoria durante a temporada — ela havia sido lembrada como atriz principal no Globo de Ouro e no BAFTA. Em ambos os casos, quem venceu como coadjuvante foi Kate Winslet (**[“Steve Jobs”](https://www.b9.com.br/62735/entretenimento/sem-mitificar-seu-protagonista-steve-jobs-explora-humanidade-do-fundador-da-apple/)**), que aparece logo atrás na corrida ao lado de Rooney Mara (**“Carol”**).

Entre os homens, Sylvester Stallone (“Creed”) deverá receber as honras e repetir o momento de aclamação já visto no Globo de Ouro. É apenas a terceira indicação ao Oscar de sua carreira, mas alguns fatos já são dignos de nota: em 1977, com **“Rocky: Um Lutador”**, ele se juntou à dupla formada por Charles Chaplin (**“O Grande Ditador”**) e Orson Welles (**“Cidadão Kane”**) por ter sido lembrado como ator e roteirista no mesmo ano. Agora, se junta a outro seleto grupo: o de atores indicados duas vezes pelo mesmo personagem. Bing Crosby, Peter O’Toole, Al Pacino, Paul Newman e Cate Blanchett haviam conseguido o feito antes do lutador.